Arquivo de setembro, 2012

MÁRIO QUINTANA. POEMAS PARA HOJE!

Publicado: 30/09/2012 em Poesia

de Sapato Florido

Mario Quintana

PROVÉBIO
O seguro morreu de guarda-chuva.

MEU TRECHO PREDILETO
O que mais me comove, em música,
são essas notas soltas — pobres notas únicas —
que do teclado arrancam o afinador de pianos…

CARRETO
Amar é mudar a alma de casa.

ENVELHECER
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

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A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010)

Drama biográfico, 120 min.

 

 

Em A Rede Social, Mark Zuckerberg, é mostrado como um sujeito frio, quase não expressando emoção, com pouca (ou nenhuma) aptidão para amizades, mas extremamente decidido sobre o que quer. O que constitui um paradoxo, pois criou o que hoje é o maior e mais valorizado site de relacionamentos, o Facebook. Usando como sustentação o livro “Bilionários por acaso”, de Ben Mezrich, a história do longa-metragem trata exatamente da vida do programador Mark Zuckerberg, hoje com 28 anos e um dos homens mais ricos do mundo. E de como ele chegou a esta situação.

 

O filme tem início com uma discussão entre Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e a namorada Erica Albright (Rooney Mara), que põe fim à relação. Revoltado, Mark a difama em seu blog e cria um site em que meninas estudantes de Harvard estão expostas a avaliações. Após isso, percebe-se que ele está respondendo a dois processos: um do até então único amigo, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), e o outro dos gêmeos esportistas Cameron e Tyler Winklevoss (vividos por um só ator, Armie Hammer). Ambos reivindicam a fundação do Facebook. A partir daí, vemos flashbacks da época em que era estudante de Harvard e quando é explicado o porquê das ações judiciais.

 

O longa tem a direção precisa de David Fincher e está entre os seus melhores trabalhos. O roteiro foi adaptado por Aaron Sorkin, um homem típico da TV estadunidense (ele é o mentor da conhecida série “The West Wing – Nos Bastidores do Poder”, que no Brasil foi exibida pelo SBT e Warner Channel). Uma das participações interessantes na trama fica por conta do cantor pop Justin Timberlake como Sean Parker (um dos inventores do programa Napster), um vigarista e sem escrúpulos. Sua figura é um bom contraponto a de Saverin e importante para o desenvolvimento da história. Vê-se que Mark fica vislumbrado com as propostas de Sean, a ponto de trair o melhor amigo.

 

Jesse Eisenberg está muito bem no papel central (algumas falas dele são tão ágeis que os personagens aparentam ter dificuldade de acompanhá-las). No final do filme, há uma cena em que Mark Zuckerberg procura a ex-namorada no Facebook e a “adiciona”. Por curiosidade, fui pesquisar, e não é que a moça está lá? Em 2011, A Rede Social chegou a ser indicado para oito Oscars e acabou arrebatando três (roteiro, trilha sonora e montagem). É um filme bem-feito.

RECIFE ANTIGO PELO ZEPPELIN.

Publicado: 29/09/2012 em Poesia

 

 

 

B O B     M A R L E Y

 

Que eu lembre, mesmo sendo o reggae um estilo que já rolava desde os anos 60, só no comecinho da década de 70 ele começou a aparecer nas rádios com força. “I Can See Clearly Now” e “You Can Get It If You Really Want” já rolavam em festinhas e boates como hits do momento. Não dava ainda para distinguir “quem era quem” e nem a origem daquela música que, entre suas variantes,tem um tipo de compasso que muito se assemelha ao “xote” nordestino. Ali por volta de 1975 a coisa começou a clarear quando Bob Marley alcançou as paradas do mundo inteiro com “No Woman No Cry” e por conseguinte, mais dois ícones do estilo viriam á tona: Peter Tosh e Jimmy Cliff , apesar de outros grandes nomes ganharem notoriedade em seguida. Outro fato inegável, foi a gravação de ERIC CLAPTON de “I Shot The Sheriff” de Bob Marley, naquele que seria considerado seu melhor álbum na ocasião. Desde então, na medida em que descobria-se sua arte, MARLEY foi ganhando credibilidade e sua fama alcançou o mundo até tornar-se um dos “grandes” do rock, o que ficou mais acentuado depois de sua precoce morte. Para se ter idéia, citar seus clássicos provavelmente ocuparia todo este “post”, mas vale lembrar Redemption Song, Get Up Stand Up, Three Little Birds, Buffalo Soldier, Jammin’, Kaya, Waiting In Vain, Is This Love e mais um número incontável de sucessos, a maioria gravada e regravada pelos mais variados artistas e dos mais diversos estilos do planeta. Virou até ídolo dos “surfistas” e do pessoal “cabeça”.
Poucos sabem , ROBERT NESTA MARLEY nasceu na Jamaica, filho de uma adolescente nativa com um oficial inglês branco. No dia seguinte ao casamento, seu pai se foi, embora continuasse à enviar dinheiro para a mãe até falecer em 1955. Mãe e filho tiveram de mudar-se para um bairro-favela chamado Trenchtown. Ali, curiosamente, Marley sofreu com a discriminação por ser “mulato” e por ter baixa estatura. Mas aquela “barra pesada” ajudou a forjar sua personalidade e deu-lhe consciência crítica do mundo. Por suas entrevistas e principalmente suas letras, enxergava mais longe que a simples dicotomia branco/preto.
Sua música nasceu junto com a banda THE WAILERS, que formou com Peter Tosh e Bunny Wailer (que também virariam estrelas do rock), começando pelo “ska” até chegarem ao reggae. O sucesso local espalhou-se pelo Caribe, até que Tosh e Bunny resolveram seguir carreira solo. De toda maneira, Marley manteve o núcleo da grupo e suas vocalistas,batizados como Bob Marley & The Wailers, indo se estabelecer na Inglaterra, de onde poderia expandir sua arte pelo mundo. Antes de pegar o avião, envolveu-se com um show organizado pelo 1º Ministro Michael Mandley, o que quase lhe custou a vida. Ele,sua esposa Rita e um amigo foram baleados dentro de casa por opositores, mas todos se salvaram.
Influenciado pela parceira, aderiu à religião rastafári recebendo os ensinamentos do guru Mortimer Planno e entrou de cabeça. Virou uma espécie de missionário da seita (e muitos dos seus colegas “regueiros” o seguiram) e sua relação com a maconha nunca foi realmente compreendida no ocidente. A “cannabis” nunca foi uma mera curtição , mas por seus efeitos relaxantes,ele a usava para meditar e orar, só ou em grupo. De fato não era um adepto de outras drogas , segundo consta, não usava bebidas alcoólicas e era praticante de esportes (corrida e futebol). Tanto quanto sua música, ele difundia essas idéias abertamente, com convicção. Justamente, numa prosaica “pelada” de futebol, Marley machucou o dedão do pé. A ferida agravou-se, inclusive, porque recusava-se à tratamentos médicos,mas ao ter de cancelar shows devido às dores, internou-se e poderia estar vivo agora, caso não rejeitasse a amputação do dedo. Triste que o câncer no dedo espalhou-se e em 18 de maio de 1981, ele nos deixou, quando se encontrava internado num hospital na Flórida.
Seria até leviano esquecer a importância de JIMMY CLIFF e PETER TOSH para a difusão e credibilidade do reggae no mundo mas, Bob Marley foi o grande timoneiro. Mais que festivas, suas músicas além de belas tinham conteúdo. Algumas apresentavam fortes elementos políticos mas ele falava de amor,compreensão,paz, natureza e religião de forma comovente. Se hoje o reggae está presente na arte de compositores do mundo inteiro (até Chico Buarque passeou pelo estilo), podemos sem titubear atribuir o feito à Marley. Artistas internacionais como THE POLICE, THE CLASH, McCARTNEY, DIRE STRAITS,STEVIE WONDER, THE ROLLING STONES e tantos outros, além dos nossos PARALAMAS, GIL,CAETANO, CIDADE NEGRA, as “radiolas” do Pará, e põe gente nisso, o reverenciam com justiça. Tal qual LENNON e ELVIS, no mesmo mítico patamar, está o nome de Bob Marley. MERECIDAMENTE !
PS: I LOVE YOU:
– Ao chegar ao Brasil, a gravadora ARIOLA contratou tudo e todos, entre estes Chico e Milton, e para promover o selo trouxe Marley para uma visita, festejada com uma pelada no time de Chico Buarque.
– Segundo seu filho ZIGGY, em 1977, Bob teria aderido ao cristianismo, tendo sido inclusive, batizado.

MinC escolhe representante brasileiro na disputa do Oscar 2013
Na última quinta-feira (20), uma comissão do Ministério da Cultura, formada por sete pessoas, decidiu indicar “O Palhaço” como o representante do país na briga por uma vaga no próximo Oscar. De uma lista formada por 16 filmes, que incluía obras interessantes, como “Luz nas Trevas” e “Heleno”, e outras de qualidade questionável, foi o longa de Selton Mello que levou a melhor.
E não poderia haver escolha mais acertada, apesar dos nomes presentes, que são melhores do que se esperava. No entanto, “O Palhaço” é o único que obteve sucesso de público e crítica. Ao selecionar este filme como representante brasileiro a uma indicação na categoria de língua não-inglesa, o Brasil tenta diversificar e mostrar que é possível fazer obras com apuro artístico que se dissociem do “subgênero favela movie”, a exemplo de “Tropa de Elite 2”, que foi enviado no começo do ano para a Academia e acabou rejeitado.
Ou seja, trata-se de um avanço. Talvez seja consenso que “O Palhaço” é o melhor longa de ficção produzido e lançado em 2011, no Brasil. É também um filme com uma linguagem mais acessível ao público estrangeiro, pois traz um palhaço em crise existencial. Há mais de 10 anos não temos uma indicação em filme-estrangeiro. O último filme brasileiro indicado à categoria foi “Central do Brasil”, em 1999. Em toda a história da premiação, só emplacamos quatro nomeações (além de “Central…”, “O Pagador de Promessas”, em 1962; “O Quatrilho”, em 1996; e “O que é isso, companheiro, 1998).
Alguns países já anunciaram seus representantes. A Coreia do Sul elegeu o vencedor do último Festival de Veneza, “Pietà”, de Kim Ki-Duk. A Áustria optou pelo ganhador da Palma de Ouro de 2012, “Amour”, de Michael Haneke. Já a França escolheu “Os Intocáveis”, que atraiu mais de 20 milhões de espectadores por lá e mais de 23 mi no exterior.
Há alguns dias, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de L.A. mudou as datas do 85º Oscar. O anúncio dos indicados foi antecipado para o dia 10 de janeiro de 2013, três dias antes do Globo de Ouro. A lista curta, com os nove filmes não anglófonos semifinalistas, deverá sair duas semanas antes. Agora é torcer para que o Brasil retorne à premiação estadunidense!
Tropicália
Na semana passada (14), estreou nos cinemas do Brasil um dos documentários mais aguardados do ano. Com direção de Marcelo Machado, Tropicália segue os anos de 1967, 68 e 69, trazendo imagens de arquivo com os grandes nomes deste importante movimento artístico formado no Brasil. Além dos líderes Caetano Veloso e Gilberto Gil, que aparecem constantemente, o longa-metragem colhe depoimentos de músicos que se notabilizaram por seu pioneirismo. Os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista e Rita Lee (membros da banda Os Mutantes), Rogério Duarte, Capinam, Guilherme Santos e a divertida participação de Tom Zé. A Tropicália também reverberou no cinema, através das lentes de Glauber Rocha (“Terra em Transe”), nas artes plásticas com Hélio Oiticica e no teatro de Zé Celso, entre outros. O filme continua em cartaz nos cinemas dos Shoppings Recife e Plaza Casa Forte. Uma boa pedida.

Os 60 anos do São Luiz
Desde o dia 6 de setembro (data de sua fundação, em 1952), o Cinema São Luiz preparou uma programação especial em comemoração aos seus 60 anos. Um dos mais tradicionais cinemas de rua do país, a sala foi comprada em 2011 pelo Governo do Estado e, em 17 de agosto, fechou para reforma. Até o momento, foram exibidos alguns clássicos, como Casablanca (1942), O Canto do Mar (1953), Em Busca do Ouro (1925), O Tesouro de Sierra Madre (1948) e Coração Selvagem (1990). Ainda dá tempo de acompanhar ao menos mais dois grandes filmes: O Discreto Charme da Burguesia (1972), obra-prima de Luis Buñuel; e O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci. Outras informações podem ser obtidas através do site http://www.pe.gov.br/blog/2012/09/05/cinema-sao-luiz-completa-60-anos-com-programacao-especial/.

E M Í L I O     S A N T I A G O

 

Confesso que, como muitos de minha geração sempre fui pouco chegado à cantores. Parecia algo antigo, ultrapassado, já que os anos 60 foram marcados pelos compositores. E de fato, se formos reparar, cantores e bandas que fizeram aqueles anos musicalmente dourados eram, em sua grande maioria, “criadores” de seus repertórios. Aqui e acolá passeavam por alguma canção já gravada e/ou escrita por outro autor, mas isso representava menos de 5% do conteúdo de seus trabalhos, estávamos na era da “criação”. De fato, isso era tão considerado que, fosse do brega ao mais sofisticado jazz instrumental, seus ícones eram, principalmente compositores. Portanto, felizmente ou infelizmente, carrego este “preconceito” até hoje. Claro que havia as exceções de praxe como Elis Regina, Gal, Janis Joplin e mesmo o Nélson Gonçalves entre outros mas, mesmo esses, davam preferência às canções inéditas ou recriavam esquecidas músicas “dos antigamentes”. Foi exatamente no auge desse cenário que conheci a voz de Emílio Santiago, no comecinho dos anos 70.
Enquanto cursava Direito em sua cidade natal, o Rio de Janeiro, Emílio participava de “festivais universitários” e de eventos culturais acadêmicos até que inscreveu-se no programa de Flávio Cavalcanti, a maior audiência então, chamado A GRANDE CHANCE, que na verdade era bastante rigoroso. Os concorrentes eram de alto nível e o júri formado por gente do ramo, com muito conhecimento. Semanalmente eram escolhidos 1 entre 2 e a coisa ia se arrastando por meses, com eliminatórias até chegar à final com apenas dois concorrentes. Emílio perdeu para um cantor fantástico que seguiu carreira na música erudita e sumiu de cena. Aliás, na finalíssima, o rapaz executou um “mix” de trechos de óperas bastante arrojado, surpreendendo a todos. Afinal, até ali, o normal era se apresentar cantando música popular. Mas como a repercussão daquele programa era enorme, vislumbrava-se para ambos uma carreira brilhante. Mas não foi bem assim, especialmente para Santiago, que pretendia tornar-se um intérprete de música popular.
E como ele tentou. De início conseguiu apenas a titularidade como “crooner” do conjunto de ED LINCOLN, apresentando-se em casas noturnas e shows do gênero. Contratado pela CID, lançou o compacto Transa de Amor/Saravá Nega em 73, que não pegou,mas abriu-lhe os caminhos das rádios e TVs. Já em 75, saiu seu primeiro LP recheado de compositores de peso como João Donato, Benjor, Ivan Lins e outros , contudo ainda não caira nas graças do público. No ano seguinte, assinou com a Philips, gravadora que tinha em seu “cast” a nata da MPB. Permaneceu ali, ainda com discreta aceitação, mesmo tendo levado o troféu de MELHOR INTÉRPRETE, cantando a canção Elis Elis no Festival dos Festivais da Globo em 1985.
Só em 1988 a sorte chegou para o cantor. Assinou com a SOM LIVRE e embarcou num projeto chamado AQUARELA BRASILEIRA, que consistia na gravação de um disco com um repertório eclético contemplando várias fases da MPB. Músicas da época com mix de canções antigas,clássicos e até sambas de enredo. Tudo isso produzido com arranjos modernos voltados para o timbre do cantor e com a participação dos melhores músicos de estúdio da ocasião, sem contar a força promocional que tinha a gravadora da Globo. Não deu outra. Sucesso de cabo à rabo, o projeto ganhou mais 6 LPs, todos com a mesma força comercial. Certamente, foi ficando óbvio e previsível, para ouvidos mais exigentes, mas com sucesso garantido junto ao grande público. E o nome Emílio Santiago desde então ganhou notoriedade, respeito e referência na música brasileira. Goste-se ou não de seu estilo e de seu repertório, não dá prá negar que estamos falando do melhor cantor do Brasil. Timbre grave, aveludado, sem afetações, Emílio nunca coloca sua voz acima da música. Longe de parecer estar usando a canção em favor de seu vozeirão , ele passa a idéia de que aprecia o que está cantando, de querer nos revelar o conteúdo da música. Além de tudo, é bastante criterioso na escolha de seu repertório. Já gravou discos com músicas apenas de João Donato, clássicos da Bossa Nova e um tributo à Dick Farney.
Fico imaginando um dia em que um produtor da categoria de Liminha, por exemplo, juntar inéditas de Chico,Caetano,Djavan,Gil,Herbert Vianna,João Bosco, Rita Lee,Dominguinhos,Lulu Santos,Erasmo (já temos 10 certo ?) e mais umas duas pérolas menos percebida de Cazuza e Renato Russo, chamar vários arranjadores como Wagner Tiso, César Mariano, Venturine e outros, juntar à estes, músicos do primeiro time e direcionar tudo isto à voz de EMÍLIO SANTIAGO. Dá prá imaginar ? Seria melhor que ótimo!

O Fim e o Princípio (2005)
Desta vez, Coutinho não preparou um roteiro prévio. Nenhuma temática nem locação escolhidas antes da feitura do documentário. O diretor, juntamente com sua fiel equipe, se direciona ao interior da Paraíba, com o objetivo de realizar um filme durante quatro semanas. Apenas o hotel – localizado na cidade sertaneja de São João do Rio do Peixe – foi selecionado.
Esse é o mote. O risco é grande, pois há real possibilidade de as entrevistas não renderem e, com isso, não existir documentário. Quase ao acaso é entregue o destino deste filme. Coutinho solicita a ajuda de Rosilene Batista (também conhecida como “Rosa”), uma agente da Pastoral da Criança. Como Rosa está acostumada a transitar pelos vilarejos da região, isso facilitaria o contato da equipe com os moradores. O interesse de Eduardo Coutinho é simples e direto: ele quer ouvir histórias.
Rosa funciona como uma espécie de intermediária entre os moradores de uma comunidade rural chamada ‘Araçás’ e a equipe do cineasta. Esse lugar é, em grande parte, povoado pelos parentes de Rosilene, que faz um mapa do vilarejo para Coutinho, que vai de casa em casa para que essas pessoas contem suas respectivas histórias de vida.
A trajetória dessas pessoas é galgada pela religião. É notado o grande apego ao catolicismo. Também há um evidente respeito pela tradição, a questão da honra é forte, estando presente entre a população de Araçás, boa parte dela composta por idosos.
O dispositivo (termo utilizado no cinema não ficcional para designar aquilo que provoca acontecimento) em Coutinho se sustenta nas relações. O diretor trata de ganhar a confiança dos personagens. Uma tarefa sempre difícil se torna menos complicada com o cineasta. É um “dom” que move o realizador a fazer as perguntas adequadas, a estar no lugar certo e no momento correto.
Alguns acusam Coutinho de usar as mesmas fórmulas para a feitura de seus documentários. Penso o contrário e vejo nitidamente que ele está sempre a buscar um jeito diferente de conduzir suas obras. O Fim e o princípio é prova disso. Já no filme seguinte, “Jogo de Cena”, mexe com as barreiras da ficção e do documentário.
A quem possa interessar, a VideoFilmes (produtora dos irmãos Salles) é a encarregada da distribuição de “O Fim e O Princípio” em DVD. Neste filme, Eduardo Coutinho passa por uma experiência bem interessante e, ao que tudo indica, única dentro de sua filmografia.

 

D I S C O     M U S I C

 

Mesmo com a morte de vários ídolos e a desintegração de bandas históricas, os anos 70 prometiam ventos melhores com o auge do rock progressivo e carreiras solos fecundas de ex-integrantes de grupos famosos. Em geral, dançava-se nas boates os sucessos que explodiam nas rádios, mas com peças que duravam entre 8 e 15 minutos, o rock progressivo era muito pouco executado nas emissoras. Este espaço começou à ser ocupado pelo reggae e por um “novo” tipo de música dançante, oriunda da Filadélfia, que ganhou o nome de “disco music”. De início, dois nomes marcariam a época: BILLY PAUL e BARRY WHITE. Billy transformava tudo em balanço, até a melancólica balada de ELTON JOHN, Your Song, transmudou-se no Hino Nacional da Discoteque. Pois é, as boates deixaram de se chamar boates e viraram “discoteques” (ou discotecas) assim como mais adiante, nos anos 80, se transformariam em “danceterias”. Barry White criou uma batida de “chimbal” (aqueles 2 pratos paralelos da bateria que se movimentam com um pé enquanto se bate neles com uma baqueta) que dava uma sonoridade constante ,tipo tis-is-is-is…) que virou marca registrada da “dance music”,além da mania de introduzir repetitivos discursos sensuais , sussurrados, antes do início propriamente da canção. Na verdade os dois dividiram as atenções e suas músicas e álbuns viraram mania.
A DISCO MUSIC passou à monopolizar o repertório das rádios e boates no mundo inteiro, porém, como tudo que cresce além do necessário, a coisa foi ficando cada vez mais brega, mais óbvia e sem imaginação. Parecia que um copiava o outro e quase instantaneamente surgiam e desapareciam nomes no mesmo ritmo. Alguns poucos permaneceram, mas a maioria era de “ONE HIT WONDER”. Afinal, a “disco music” virou propriedade dos produtores mais que dos artistas. Gloria Gaynor e o grupo Abba conseguiram ir um pouco adiante, assim como bandas já pré-existentes que aderiram ao movimento como o Kool & The Gang; KC And The Sunshine Band e a melhor de todas, o Earth, Wind & Fire. Embora seus discos da época, produzidos pelo mago Giorgio Moroder, fossem de uma chatice tremenda, DONNA SUMMER era de fato uma grande cantora (como viria à provar mais tarde), além de uma bela mulheraça.
O ápice da “disco music” se deu quando o Robert Stigwood, figura carimbada do rock and roll, resolveu produzir o filme Saturday Night Fever (Os Embalos de Sábado À Noite), um besteirol inconsistente que tratava da vida de um suburbano “dançarino de concursos” e seus problemas ético-existenciais. Mas tanto o filme quanto sua trilha sonora foram um sucesso enciclopédico. Recorde de vendagens, o álbum (desnecessariamente duplo) parecia item obrigatório até em banheiro de cabaré. No todo, o disco era fraco, cheio de obviedades e uma infeliz versão “dance” da Quinta de Beethoven . Mas a grande boa surpresa dessa trilha foi o resgate do BEE GEES do limbo e em sua melhor forma. A banda “very sixties”, sumida do mapa e de estilo mil quilômetros distantes da “dance music”, carregou o disco nas costas, com uma aula de talento, criatividade e produção que deixou os concorrentes “especializados” no chinelo. Se a “discoteque” se resumisse ao balanço irresistível de Stayin’ Alive, You Should Be Dancing, Night Fever, More Than A Woman,Jive Talkin’ e a balada mela-cueca How Deep Is Your Love a “DISCO MUSIC” se justificaria. Infelizmente, não foi bem assim. E daí em diante a mania foi perdendo fôlego. No varejo, até que deixou bons frutos (como os já citados), mas no atacado não deixou saudades. Tanto que ficou conhecida como a “época perdida” e sua influência nos legou o Hip Hop, o RAP e outras porcarias!

 

Se… (If… , 1968)
Drama, 111 min.


Vencedor da Palma de Ouro em 1969, Se… foi responsável pela estreia de Malcolm McDowell no cinema. O filme também é celebrado por ser o primeiro longa-metragem a fazer uma crítica direta ao sistema educacional inglês. Não à toa, a obra causou grande polêmica no seu lançamento (um embaixador chegou a considerá-lo um insulto à nação).
Distribuída em oito partes, a obra narra uma rebelião estudantil capitaneada pelo jovem Mick Travis (Malcolm). Nos primeiros capítulos, o espectador conhece os hábitos da escola onde a história se passa, com todas as tradições severas daquele internato. Os alunos estão retornando das férias. Três deles, além de Mick, Wallace (Richard Warwick) e Johnny (David Wood), já veteranos, não se conformam com a maneira que são conduzidas as regras do local.
O jeito que se comportam faz com que os chamados “Whips”, garotos mais velhos que têm autoridade perante os demais, passem a persegui-los. No meio de tudo isso, aulas entediantes pontuam o curso do lugar. Às escondidas, o trio bebe, vê fotos de mulheres nuas, entre outros atos proibidos. Posteriormente, a situação vai afunilando. Travis e Johnny chegam a sair da escola e ir à cidade (o que não é permitido, evidente), inclusive roubando uma moto. Mick ainda tem um caso com uma garçonete. Por sinal, este plano lembra o cinema de Glauber, quando os dois embolam nus no chão, ao som de uma Missa Luba, “Sanctus”. Enquanto isso, é sugerida uma relação homossexual entre Wallace e um novato.
Claro que essas atitudes não passariam impunes pelos “Whips”. O trio serve de exemplo para a escola, chicoteados no ginásio. Como é de se esperar, a punição maior fica para Travis. Mas o castigo, ao invés de regenerar, cria maior rancor e essa ira com um sistema que se revela corrupto ocasiona o desejo de vingança na mente e no coração do personagem central. Para o anti-herói (ou seria herói?), “A violência e a revolução são os únicos atos puros”, talvez a frase mais memorável. O desfecho é a resposta para todo o conservadorismo, a caretice e o falso moralismo da sociedade britânica.
Se… marca o início da trilogia Mick Travis. Os outros dois (“Um Homem de Sorte” e “Hospital dos Malucos”) foram igualmente protagonizados por Malcolm McDowell. No entanto, além dos nomes idênticos e funções parecidas, são obras que não guardam ligações quanto a temática. Responsável pela distribuição, a Paramount odiou o resultado e evitou ao máximo colocá-lo em circulação. Mas com o grande fracasso de “Barbarella” nos Estados Unidos, se viu obrigada a pôr “If…” em seu lugar. Para surpresa da distribuidora, acabou obtendo enorme bilheteria.
A direção é de Lindsay Anderson (1923-94), um dos líderes da New Wave (corrente do cinema britânico semelhante à Nouvelle Vague). Em sua extensa carreira, que começou em 1948 e se encerrou no começo dos anos 90, realizou apenas seis longas de ficção. Além dos três citados, “O Pranto de um ídolo” (1963), “In Celebration” (1975) e “As Baleias de Agosto” (1987) – este também é o penúltimo trabalho de Bette Davis. Contudo, não parece haver dúvida quando se afirma que “If…” é a sua obra maior.
Ele varia o filme em sequências em preto e branco e cor. Ao contrário do que se possa pensar, essa alternância não tem significado dramático, ou seja, não demarca tempo, nem situações envolvendo o onírico ou algo do tipo. Como o próprio cineasta contou, essa opção se deu especialmente pela fotografia, pois havia grande dificuldade em iluminar certos ambientes, como é o caso da capela da escola. Por isso, alguns planos foram filmados em P&B.
Ainda é importante observar que Lindsay rodou o filme poucos meses antes das conhecidas manifestações de maio de 68, na França, que até hoje são símbolos da contracultura. Para a elaboração de Se…, o diretor reconheceu que se inspirou em “Zero em Conduta”, de Jean Vigo. Curiosamente, um dos locais utilizados para as filmagens foi a Cheltenham College, onde o cineasta estudou.
Já vemos um pouco do talento de Malcolm McDowell, certamente um dos atores mais fascinantes de todos os tempos. De acordo com o IMDb, trabalhou em mais de 200 projetos, divididos entre televisão (séries e filmes) e cinema. É bem óbvio que Stanley Kubrick o convidou para protagonizar “Laranja Mecânica” ao ver o seu desempenho aqui. E ele leva um tanto de Travis para Alex DeLarge, de modo que este parece ser uma extensão daquele.
O título teria sido retirado do famoso poema de Rudyard Kipling. Toda essa revolta é construída de forma alegórica, com alguns momentos surreais pontuando a trama. O filme é notório por sua abordagem ousada para a época. É também o primeiro a ter um nu frontal feminino aprovado pela censura inglesa. Nunca é demais dizer que chocou a sociedade britânica, conhecida por seu apego às tradições. Entretanto, mostrou o mais importante: o privilégio e o abuso de poucos nas escolas inglesas daquele período (não deve ter mudado tanto). Pela ambientação, se nota que ficou um pouco datado, mas é um trabalho vigoroso, libertário e que merece toda apreciação.

                                             C Á S S I A    E L L E R


Essa mulher exalava música. Tudo nela era autenticamente “rock and roll”.  Tinha Cazuza e Renato Russo nas veias, mas tinha Caetano e Chico Buarque ou o pop de Nando Reis. Através de sua voz poderosa e única, de seu pique, todos eram Cássia. Todos eram rock. Tal qual sua irmã de geração (e abordagem diferente) Marisa Monte, Cássia Eller era um estilo. Sua fórmula única de ecoar sambas,blues,boleros,rocks e tudo mais, denunciava sua  formação. Afinal aos 14 anos ganhou seu primeiro violão para desencantar de vez e encantar com seu repertório beatle. Muito ao contrário do que se alardeia, não era uma “junkie”. Sim, passou pela cocaína mas tirou o pé do acelerador logo. Apenas 12 anos de carreira, mas trabalhava com uma dedicação, seriedade e prazer únicos. Não fazia tipos: nem deprê, nem alardeava sua homossexualidade mas também preservava a si e aos outros. Talvez, tenha morrido sem perceber que já era uma estrela brilhante e inimitável, porque agia como fã, intimidando-se na presença de seus ídolos (Rita Lee,Djavan,Chico, Gil e etc, etc).
Filha de militar, zanzou pelo Brasil. Nasceu no Rio mas morou em Brasília, Belô e Santarém no Pará. Trabalhou em construção (como assistente de pedreiro) e, de volta à Brasília, percebeu que não tinha aptidão  para a educação formal, largando a escola sem concluir o ensino médio. Fez o que devia, dedicando-se à música. Foi cantora de forró, tocou surdo numa banda de pagode,passando depois para o axé, gastando seu vozeirão em trios elétricos. Trabalhou como “backing vocal” para Osvaldo Montenegro, Wagner Tiso e outros menos votados. Até que em São Paulo, estimulada por um tio, gravou uma “demo” que incluía Por Enquanto de Renato Russo. Esse mesmo parente, levou a fita para a POLYGRAM que imediatamente a contratou. E mais que isso, acreditou, porque investiu em sua divulgação e de repente lá estava nas FMs aquela voz linda e muito, muito diferente. E vieram sucessos radiofônicos seguidos, mas vieram naturalmente porque ela, não se rendendo ao óbvio nem ao estritamente “comercial”, continuava registrando canções que amava, fosse de quem fosse e de estilos variados, inéditas ou do “arco da velha” mas, com uma sinceridade e uma paixão mais que autênticas. E isso passava para seus admiradores.Ganhou uma enormidade de fãs e muita popularidade.  E se Cássia não era uma Cinderela, não era feia como parecia querer ser (cortes de cabelo moicano ou careca, roupas desleixadas etc).  Em seus shows não se ouvia gritinhos femininos clichês do tipo: “poderosa!” ou “tesão!”, ela não fazia marketing de sua vida pessoal,torno à repetir. Era mesmo diferente aquela meninona.
Longe da heroína entediada, Cássia adorava sua vida de shows, gravações e colaborações com os colegas, tanto que deixou inéditos vários registros, lançados à conta-gotas depois que “se foi”. Durante o ano de 2001, trabalhou bastante, iniciando pelo Rock In Rio III (mandou ver até baião e sambas) e, entre estúdios , TVs e teatros, realizou  95 shows. Registrou seu DVD/CD de maior sucesso, Acústico MTV , que vendeu cerca de um milhão e duzentas mil cópias. Álbum que visitava vários estilos e que abria com um clássico de Edith Piaf,  Non, Je Ne Regret Rien onde esbanjava elegância e interpretação impecáveis. Só ela tinha voz para ousar tanto.
Cássia Eller estava à mil e sabia se cuidar bem. Vivia tranqüila e discretamente com sua parceira Maria Eugênia e o filho Francisco (Chicão), fruto de seu “affair” com o baixista Tavinho Fialho (que faleceu num acidente automobilístico antes do nascimento do Chicão).  E enquanto descansava, preparando-se para um show na virada do ano, que faria na Barra da Tijuca, passou mal, sendo levada ao hospital onde viria à falecer.
Claro que choveram especulações sobre overdose,álcool e outras coisas do ramo. Salvo entre seus colegas , amigos e parentes, sua morte não foi lamentada como sua arte e seu talento mereciam. Preferiram “sensacionalizar” com especulações rasas. Após a autópsia e exames minuciosos, constatou-se que  não havia drogas em seu corpo. Cássia Eller se foi vitimada por um infarto do miocárdio.
Por tão poucos 12 anos tivemos  a voz daquela menina que começava à virar referência musical. Depois da bem sucedida parceria em Milagreiro com ela, Djavan lamentou e declarou que pretendia gravar um disco inteiro ao seu lado. Certamente seria maravilhoso. Enfim, assim como veio, partiu Cássia… na velocidade da luz ou melhor, em direção à esta!

Amizade Colorida
Comédia, 109 min. Cotação: Regular.
Virou moda a feitura de comédias com essa temática de amizade movida a sexo descompromissado. Meses depois de “No Strings Attached”, estrelado por Ashton Kutcher e a oscarizada Natalie Portman, chegou ao Brasil este Amizade Colorida (Friends with Benefits), dirigido por Will Gluck (“A Mentira”) e seguindo a mesma linha, agora disponível em DVD.

Na época do lançamento, esse filme teve tantas pré-estreias que se perdeu a conta… Basicamente é a história de um sujeito de São Francisco, Dylan Harper (Justin Timberlake), que se muda para trabalhar em Nova Iorque graças ao convite de uma recrutadora, Jamie (Mila Kunis).

A cena inicial é bem inventiva, dando a falsa impressão de que ela o espera para ir ao cinema, mas não. Jamie aguarda o atual namorado e Dylan vai ao encontro da sua (Emma Stone), e ambos acabam tomando o “fora”. Ao passo que um dos personagens satiriza comédias românticas.

Visto que os dois acabam de sair de relacionamentos, o que menos querem é compromisso, embora não queiram deixar o sexo de lado. Resultado: começam a transar à exaustão. Bingo! Em certo momento se afastam, quebram a cara, e depois voltam a ficar juntos. Além deste que vos escreve, alguém tem a sensação de que já viu isso em algum lugar?

Pois é, pessoal. O filme segue uma fórmula pronta e o espectador com razoável poder de apuração já sabe o que vai acontecer no final. Em compensação, o casal central é simpático e possui afinidade. Justin é um bom ator e isso se nota desde a participação no premiado “A Rede Social”, de David Fincher. E o que dizer de Mila (“Cisne Negro”)? Sua presença agradava desde os idos da bem sucedida série norte-americana “That’s 70s show”.

Chamaram alguns veteranos para dar suporte. Woody Harrelson faz uma aparição como o editor de esportes gay, Richard Jenkins é o pai de Dylan e Patrícia Clarkson aparece numa ponta como a mãe liberal de Jamie. Tem até um esportista que “se faz”, não deixando a menor marca, o skatista e snowboarder bicampeão olímpico Shaun White.

Apesar das limitações, esse tipo de filme sempre encontra um bom público e pode-se dizer até que funciona.

 

 

J I M  G O R D O N

Vária vezes eu citei, em diversas circunstâncias, o caso desse fantástico baterista que, apesar dos pesados (e bota peso nisso) ainda é citado pelas revistas especializadas entre os 100 melhores mágicos dos tambores. Tenho para mim que a tragédia em que se envolveu até supera a de outros heróis da música como Hendrix, Janis Joplin, Mama Cass e tantos outros que se fascinaram pelas drogas pesadas. Por isso mesmo resolvi “assuntar” sua vida e não foi mole mas valeu. Acreditem, a vida de JIM GORDON é digna de pena. De lamentos.
Já aos 17 anos, após tocar com os Everly Brothers resolveu encarar a ensolarada California em 1963, desembarcando como baterista de Ike & Tina Turner e foi ganhando notoriedade, visto como um garoto prodígio. Era tão inventivo que, apesar de gravar com quase todos os “grandes” da época, começou à ser requisitado pelos “gigantes”. Não por acaso participou com os BEACH BOYS do histórico álbum Pet Sounds e logo estava com Eric Clapton e sua DEREK AND THE DOMINOES, de quem virou parceiro ao criar o trecho de piano para a icônica canção, LAYLA. Quando Joe Cocker arregimentou um time de primeira para sua “tour” americana (Mad Dogs and English Man), Gordon foi imediatamente convocado. Portanto, logo logo estaria com Lennon, Harrison, Delaney & Bonnie, Leon Russel e Jackson Browne.
Jim Gordon era reconhecidamente um cara do bem, do tipo “certinho”, mas o caçula das feras, certamente deslumbrado com a carreira meteórica, embarcou de vez no mundo de “sex, drugs and rock ‘n’ roll” da época. E os exageros que levaram muitos de seus pares às clínicas para dependentes, desencadeou um surto latente de esquizofrenia no pobre JIM que foi encontrado ao lado da mãe. a quem acabara de esfaquear brutalmente, murmurando baixinho algo como “eles mandaram, eles mandaram”. O rapaz que vinha se queixando de “ouvir vozes” foi posteriormente diagnosticado como portador de esquizofrenia aguda. Essa tragédia se deu por volta de 1983 e apesar da defesa contundente, pegou “perpétua” e ainda permanece preso. Depois de todos esses anos, JIM GORDON recebe religiosamente seus direitos por LAYLA e por seus tantos trabalhos com vários artistas. Aliás, Clapton tentou leva-lo para receberem o GRAMMY mas não obteve autorização.
OLHA O QUE EU DESCOBRI !
Por volta de 1972, o produtor Michael Viner foi contratado como executivo da MGM para cuidar das trilhas sonoras e entre vários filmes B, compôs para um deles duas peças instrumentais, “Bongo Rock” e Bongolia. Para grava-las, precisando de gente talentosa contratou o “rei do bongô”, KING ERRISON e… JIM GORDON. A empreitada deu certo e imediaramente VINER resolveu produzir um LP, com músicas baseadas na vigorosa percussão de King e Gordon. Assim nascia a quase fictícia banda THE INCREDIBLE BONGO BAND. Foram selecionadas músicas autorais e alguns “covers” , além de músicos de estúdio. Acontece que no meio daquilo, havia uma faixa, APACHE, antigo sucesso do The Shadows , cuja combinação da vigorosa percussão da dupla somada aos ataques de metais, chamava atenção. Contudo, o disco da INCRÍVEL BANDA DE BONGÔ não vingou, quando lançado em 1973.
Bem mais recentemente, um tal DJ KOOL HERC achou num sebo em Nova Iorque, uma cópia do LP e caiu de quatro ao ouvir APACHE, passando à usar os “loops” das percussões em suas apresentações. Não tardou e logo outros nomes do “hip hop” passaram à utilizar as passagens de KING e JIM em longos trechos das suas músicas. O fato é que a espetacular percussão de Apache é hoje considerada o trecho de música mais sampleado da “Black Music” americana. Entre os que utilizaram desse trecho da canção estão o DJ SHADOW, MISS ELLIOT, FAT BOY SLIM e ela… MADONNA (ouçam com atenção “Like A Prayer”) . Para o NEW YORK TIMES, o produtor Gflash declarou que Apache era o Hino Nacional do Hip Hop: “a “levada” dos caras deu feição ao que fizemos depois. A música é seminal !” Tanta “roubada” de sua obra, até agora não rendeu nada aos criadores. Relançado em CD, o disco recebeu 4 estrelas da Rolling Stone (refiro-me à matriz da revista) e foi declarado como um “artefato de um momento brilhante”.
Distante de tudo isso, JIM GORDON se diz outro. Curado e a mais de 30 anos sem usar drogas. Tentou várias vezes reduzir sua pena ou muda-la para prisão domiciliar. Depois de longo tempo no manicômio judiciário, JIM cumpre pena em um presídio comum e sempre que o som de LAYLA aparece na TV ou nas rádios, seus colegas exultam. Mas o que ele gostaria mesmo era de voltar a tocar com Clapton. Quem sabe ? Quem sabe ? Mas a verdade é que aquele garoto é mesmo digno de nossa misericórdia!