Arquivo de maio, 2011

QUANDO AS PALAVRAS SALVAM

 
Enquanto as crianças a esperam, tenta atinar para o que não sabe ainda. Faz dias que não se atreve a olhar para dentro de si com medo de ver o já revisado e não atualizado. Não espera mais aquele telefonema, não arruma mais as gavetas, tampouco se olha no espelho. Anda com medo de sonhar acordada. Já não espera mais nada.
Não ser mãe é assim: as crianças a esperam, não o contrário. Ampara a cabeça entre as mãos na tentativa de acolhê-la mais do que aos outros, quando então escuta uma voz pertinho: “tia”. Não há mais tempo, precisa levantar-se.
Atende ao chamado por obrigação. Escolhe as peças pedagógicas, fantoches, máscaras e tudo mais. Ensaia uma coreografia engraçada e os pequenos se colocam próximos dela como se de fato fossem. Só que de fato são.Segue a sina da contação. Demora a perceber a acolhida do sorriso. Ainda está distraída nas próprias colocações, afinal, o príncipe acaba de chegar e a bruxa ameaça acabar com a alegria.

_ Mas, tia, essa história não é assim.
_ Não? E como é?
_ Os anões expulsam a bruxa que cai no barranco.
_ E depois?
_ Depois colocam a princesa numa caixa de vidro
_ Por quê?
_ Ora, tia, porque ela ainda estava viva para morrer!
_ “Ela ainda estava viva para morrer” – sussurra a última frase para si mesma – Ah…
Desta vez, não só a Branca de Neve foi salva.

Magna Santos

 

A FUGA

 
O menino queria fugir. Preparou a bolsa com seus pertences favoritos, ou diria, seu tesouro: um pião, 10 bolas de gude, 5 chicletes, o último gibi. A mãe assistia a tudo em meio a cálculos de contas a vencer em poucos dias. No entanto, observando a movimentação do pequeno, deixou de lado calculadora, papéis e preocupações financeiras; eles podiam esperar.
_ Queres ir aonde, Serginho?
_ Para longe.
_ Onde? insistiu
_ Naquele lugar que é depois daquela curva.
_ Pois bem, meu filho, mas você está esquecendo duas coisas.
_ O que, mãe?
_ Primeiro nossa foto. Não se pode ir embora sem fotos. Depois, precisa lanchar para seguir viagem.
O menino concordou sem demora. Escalou a primeira prateleira da estante e retirou a foto: ele, o pai, a mãe e dindin, seu cachorro. Depois olhou-a demoradamente, guardou na mochila e sentou-se à mesa, esperando algo para comer.
A mãe fez um ritual inusitado na cozinha: ligou o som em uma música bem divertida, buscou apetrechos e começou a rebolar manipulando os ingredientes. O menino também assistia a tudo, tentando apenas observar, mas aos poucos começou a batucar com os dedos. Dindin parecia entender tudo, com seu rabo ministrando euforia. A mãe, ao som da batucada, ía cada vez mais misturando: sabor e ritmo, enquanto o filho mesclava som, sorriso, fome e alegria em porções generosas.
Fartaram-se ao pôr do sol até que Serginho pareceu lembrar-se de algo. Guardou as bolas de gude e o pião. Nada mais de chicletes, ele e a mãe mascaram todos. De mãos dadas com ela, seguiu para o quarto a fim de escutar o gibi antes de dormir.
A fuga? Ah, ela poderia esperar para depois…e de novo.
 
 
 
Magna Santos

 

 

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Claricetube Lispector. Arretado !

Publicado: 30/05/2011 em Poesia

 

 

DEDICADO A TODOS QUE PUDE CONVIVER ,MESMO QUE VIRTUALMENTE , NESTA BREVE EXISTÊNCIA.

Estou relendo alguns livros.

Conselho eterno do eterno Nelson Rodrigues.

Que atesta que alguns poucos e bons livros devem ser lidos e relidos à exaustão.

E nada mais.

Como não sou radical, embora petista.

Sou democrata e aceito críticas e procuro reler uma vez ou outra um livro e isso vem do acaso para o acaso. O acaso deste blog. Que começou…

E  bateu de pegar alguns livros de Mitch Albom.

E estou desde cedo e já acabando o livro “Por mais um Dia”.

Simples. Correto. Frugal. Mas, encharcado do amor de uma MÃE. De um FILHO. DE PERDÃO.

Caramba!

Não lembro como fiquei da primeira vez que li este livro.

Mas agora, neste domingão de bobeira e de família junta. Com direito a muita saudade , eu passo a acreditar um pouco mais na vida após a morte. Só um pouquinho.

Um cadinho de nada.

Eu passo a acreditar que o amor de todas as MÃES transcende corpos, carnes, terras e horizontes.

O amor das MÃES tira até o personagem do livro de um fim terrível.

O consola, traz o perdão. Resgata sua família. O livra do álcool. Até que ele possa partir. Alguns anos depois. Em paz. Uma imensa paz e um grande perdão drummonianos.

É muito para um dia só.

Um único livro.

Perdido durante alguns anos e reencontrado dessa forma. Como um tesouro.

Admirável.

E eu que tinha certeza da chatice dos dias com o meu nome, de hoje em diante vou sempre garimpar livros assim.

Que sei com absoluta certeza estarão ao meu lado.

Nâo são mais de cinquenta. Para quem achou que se comprasse livro por metro e enchesse parede e sala e meia , seria culto.

Hoje uma estante mínima. Uma parede grisalha, uma vida que chega aos cinquenta (daqui a pouco, hoje ainda não).

São cinquenta livros. Nem um a mais nem um a menos. Inclusive os emprestados e os que nunca voltarão. Esses eu não poderei lê-los novamente. Fica alguma coisa na alma. No coração.

Hoje é o amor das MÃES. E isso enche o dia inteiro e serve de alento a mais uma semana nesta cidade de RECIFE, a mais cruel e a mais amada das capitais brasileiras.

Disso tenho certeza.

Tanta certeza quanto as MÃES continuam a executar os seus serviços sem descanso quando levitam. Poemas eternos. Bençãos do Criador.

Hoje a minha fé aumentou um grama. Do tamanho talvez de uma semente de mostarda. Talvez exista outra semente menor para me enquadrar.

E eu me salvei de mim.

E a Jaqueira está logo ali me convidando para assistir tanta gente, tanta poesia em movimento, tantas crianças, tanta natureza de t0das as formas que eu deveria pagar para ter esse direito. Mas, graças a ELE e as MÃES , a gente pode ser feliz em qualquer dia da semana.

Alguns amigos se foram, outros virão. Mas ninguém passa em vão ao nosso lado.

AMÉM.

 

PS – Os livros de Tereza Costa Rego e de Carlos Pena Filho esperam pelo dono . Como farei para entregá-los? Fala aí Arsênio.

O Caso do Caseiro do Piauí e a Camareira da Guiné

 

 

 

Nascido no Piauí, Francenildo Costa era caseiro em Brasília. Em 2006, depois de confirmar que Antonio Palocci frequentava regularmente a mansão que fingia nem conhecer, teve o sigilo bancário estuprado a mando do ministro da Fazenda.

 

Nascida na Guiné, Nafissatou Diallo mudou-se para Nova York em 1998 e é camareira do Sofitel há três anos. Domingo passado, enquanto arrumava o apartamento em que se hospedava Dominique Strauss-Kahn, foi estuprada pelo diretor do FMI e candidato à presidência da França.

 

Consumado o crime em Brasília, a direção da Caixa Econômica Federal absolveu liminarmente o culpado e acusou a vítima de ter-se beneficiado de um estranho depósito no valor de R$ 30 mil. Francenildo explicou que o dinheiro fora enviado pelo pai. Por duvidar da palavra do caseiro, a Polícia Federal resolveu interrogá-lo até admitir, horas mais tarde, que o que disse desde sempre era verdade.

 

Consumado o crime em Nova York, a direção do hotel chamou a polícia, que ouviu o relato de Nafissatou. Confiantes na palavra da camareira, os agentes da lei descobriram o paradeiro do hóspede suspeito e conseguiram prendê-lo dois minutos antes da decolagem do avião que o levaria para Paris.

 

Até depor na CPI dos Bingos, Francenildo, hoje com 28 anos, não sabia quem era o homem que vira várias vezes chegando de carro à “República de Ribeirão Preto”. Informado de que se tratava do ministro da Fazenda, esperou sem medo a hora de confirmar na Justiça o que dissera no Congresso. Nunca foi chamado para detalhar o que testemunhou. Na sessão do Supremo Tribunal Federal que julgou o caso ele se ofereceu para falar. Os juízes se dispensaram de ouvi-lo. Decidiram que Palocci não mentiu e engavetaram a história.

 

Depois da captura de Strauss, a camareira foi levada à polícia para fazer o reconhecimento formal do agressor. Só então descobriu que o estuprador é uma celebridade internacional. A irmã que a acompanhava assustou-se. Nafissatou, muçulmana de 32 anos, disse que acreditava na Justiça americana. Embora jurasse que tudo não passara de sexo consensual, o acusado foi recolhido a uma cela.

 

Nesta quinta-feira, Francenildo completou cinco anos sem emprego fixo. Palocci completou cinco dias de silêncio: perdeu a voz no domingo, quando o país soube do milagre da multiplicação do patrimônio, 20 milhões em um ano. Pela terceira vez em oito anos, está de volta ao noticiário político-policial.

 

Enquanto se recupera do trauma, a camareira foi confortada por um comunicado da direção do hotel: “Estamos completamente satisfeitos com seu trabalho e seu comportamento”, diz um trecho. Nesta sexta-feira, depois de cinco noites num catre, Strauss pagou a fiança de 1 milhão de dólares para responder ao processo em prisão domiciliar. Até o julgamento, terá de usar uma tornozeleira eletrônica.

 

Livre de complicações judiciais, Palocci elegeu-se deputado, caiu nas graças de Dilma Rousseff e há quatro meses, na chefia da Casa Civil, faz e desfaz como primeiro-ministro. Atropelado pela descoberta de que andou ganhando pilhas de dinheiro como traficante de influência, tenta manter o emprego. Talvez consiga: desde 2003, não existe pecado do lado de baixo do equador. O Brasil dos delinquentes cinco estrelas é um convite à reincidência.

 

Enlaçado pelo braço da Justiça, Strauss renunciou à direção do FMI, sepultou o projeto presidencial e é forte candidato a uma longa temporada na gaiola. Descobriu tardiamente que, nos Estados Unidos, todos são iguais perante a lei. Não há diferenças entre o hóspede do apartamento de 3 mil dólares por dia e a imigrante africana incumbida de arrumá-lo.

Altos Companheiros do PT, esse viveiro de gigolôs da miséria, recitam de meia em meia hora que o Grande Satã ianque é o retrato do triunfo dos poderosos sobre os oprimidos. Lugar de pobre que sonha com o paraíso é o Brasil que Lula inventou.

 

Colocados lado a lado, o caseiro do Piauí e a camareira da Guiné gritam o contrário.

 

Se tentasse fazer lá o que faz aqui, Palocci teria estacionado no primeiro item do prontuário.

 

Se escolhesse o País do Carnaval para fazer o que fez nos Estados Unidos, Strauss só se arriscaria a ser convidado para comandar o Banco Central.

 

O azar de Francenildo foi não ter tentado a vida em Nova York.

 

A sorte de Nassifatou foi ter escapado de um Brasil que absolve o criminoso reincidente e castiga quem comete o pecado da honestidade.

 

 

Augusto Nunes

 

O Brasileiro é assim:

1. – Saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas.

2. – Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas.

3. – Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração.

4. – Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura.

5. – Fala no celular enquanto dirige.

6. -Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento.

7. – Para em filas duplas, triplas em frente às escolas.

8. – Viola a lei do silêncio.

9. – Dirige após consumir bebida alcoólica.

10. – Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas.

11. – Espalha mesas, churrasqueira nas calçadas.

12. – Pega atestados médicos sem estar doente, só para faltar ao trabalho.

13. – Faz ” gato ” de luz, de água e de tv a cabo.

14. – Registra imóveis no cartório num valor abaixo do comprado, muitas vezes irrisórios, só para pagar menos impostos.

15. – Compra recibo para abater na declaração do imposto de renda para pagar menos imposto.

16. – Muda a cor da pele para ingressar na universidade através do sistema de cotas.

17. – Quando viaja a serviço pela empresa, se o almoço custou 10 pede nota fiscal de 20.

18. – Comercializa objetos doados nessas campanhas de catástrofes.

19. – Estaciona em vagas exclusivas para deficientes.

20. – Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado.

21. – Compra produtos pirata com a plena consciência de que são pirata.

22. – Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca.

23. – Diminui a idade do filho para que este passe por baixo da roleta do ônibus, sem pagar passagem.

24. – Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA.

25. – Freqüenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho.

26. – Leva das empresas onde trabalha, pequenos objetos como clipes, envelopes, canetas, lápis…. como se isso não fosse roubo.

27. – Comercializa os vales-transporte e vales-refeição que recebe das empresas onde trabalha.

28. – Falsifica tudo, tudo mesmo… só não falsifica aquilo que ainda não foi inventado.

29. – Quando volta do exterior, nunca diz a verdade quando o fiscal aduaneiro pergunta o que traz na bagagem.

30. – Quando encontra algum objeto perdido, na maioria das vezes não devolve.

E quer que os políticos sejam honestos…

Escandaliza-se com a farra das passagens aéreas…

Esses políticos que aí estão saíram do meio desse mesmo povo ou não? Brasileiro reclama de quê, afinal?

E é a mais pura verdade, isso que é o pior! Então sugiro adotarmos uma mudança de comportamento, começando por nós mesmos, onde for necessário!

Vamos dar o bom exemplo!

Espalhe essa idéia!

“Fala-se tanto da necessidade deixar um planeta melhor para os
nossos filhos e esquece-se da urgência de deixarmos filhos melhores
(educados, honestos, dignos, éticos, responsáveis) para o nosso
planeta, através dos nossos exemplos…”

Toda a poesia – e a canção é uma poesia ajudada – reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.

Fernando Pessoa

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Fernando Pessoa

Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.

Fernando Pessoa

UMA JOIA DE FUSCA

 

Zenir Disott é tão apaixonado por Fusca que já teve dois, e de vez em quando pede emprestado o modelo verde 1971, do vizinho. Fotos de Adriana Franciosi

(  ) Fusca não é um veículo, mas um familiar.
(  ) Troca-se de carro, não de Fusca, ele permanece como herdeiro para os filhos.
(  ) Fusca é o único automóvel que recebe apelido.
(  ) Fusca nunca será passado em Joia.
(X) Todas as alternativas acima estão corretas.
O município de 8 mil habitantes, a 424 quilômetros de Porto Alegre, demonstra ter a maior frota do carro no RS, proporcionalmente à população. Dez minutos no centro e cinco Fuscas passam, rugindo de vaidade a cada seta e curva.
– O Fuca, como o gaúcho diz, sem o s, é a nossa adoração – afirma a advogada Lígia Bernardes.
Agricultores usam o Fusca para o vaivém da lavoura, jovens empregam o Fusca para conquistar gurias. Em Joia, ele sequer saiu de moda. A cidade é uma Cuba brasileira dos carros antigos, um museu a céu aberto, um túnel no tempo.
– Sempre tem um deles por semana para consertar. Ele forma minha aposentadoria – comenta o mecânico Sani Jorge Goulart, 50 anos.
O carro zero mais vendido no mundo em 1972 e atualmente o usado mais revendido no país é a paixão de Zenir Disott. O gaudério já teve dois deles, e não cansa de sua praticidade. Para andar um pouquinho no modelo verde de 1971 do vizinho, até se oferece para uma boa ação, como levar a filha do compadre, Aline Facin, 25 anos, à rodoviária.
– Não há necessidade de pedir licença, é o carro mais próximo do cavalo em termos de confiança.
Sua vida foi influenciada pelo Fuca.
– Aprendi a dirigir nele, tive a primeira namorada nele, às vezes tinha que abrir o vidro para dar espaço ao amor.
– Fusca vale para quem trabalha e para quem coleciona. É disputado como relíquia. Investe-se mais aparelhando o Fusca do que se gasta comprando um veículo novo – conceitua o comerciante Marion Alves, 48 anos.
Existe toda uma história de cobiça secreta para garantir a sonhada máquina na garagem. Marion surpreendeu o filho Glauber, 26 anos, no Natal de 2010. Ofereceu um Fuscão preto de presente. O rapaz viajou a trabalho para Panambi, onde é funcionário público concursado. Seu irmão Glauco, 23 anos, ficou o responsável por cuidar do Negrinho. Feito o golpe de estado.
– Vá que um dia Glauber veja meu capricho (lavo a carroceria semanalmente), e me libere o auto para sempre – chantageia.
– Se acontecer, juro que canto na praça a canção de Almir Rogério: Fuscão preto você é feito de aço/ Fez o meu peito em pedaços.
Apesar dos 1m86cm, Glauco entra facilmente no carro:
– Fuca tem um fundo falso.
Sua teoria é de que o Fusca sensibiliza o dono pela humildade e pela aparência terna de besouro, de capô redondo e faróis graúdos parecidos com olhos de órfão.
– É simples e confortável, a manutenção é fácil, não precisa entender de mecânica, ele entrega seu coração sem mistério.
Acostumado a viajar para Ijuí, a 40 quilômetros de Joia, o Fuscão preto não o deixa na mão. Um arame e uma caixinha de fósforos são seu pronto-socorro.
(X) É o carro que mais ressuscita quando morre.

 REFAZENDO TUDO !

Ainda garoto, quando começava a aprender os primeiros acordes ouvia dos “mais velhos” um clichê que me aborrecia muito: “música é momento”. Mesmo sendo educado num ambiente bastante musical,com irmãos pianista,violonista, percussionista e até um que estudava “canto coral” , tudo sob o comando (e gosto) de meu pai que fazia-nos ouvir todo tipo de boa música,fosse o que fosse,  só um pouco mais tarde reaprendi a amar aquela diversidade de timbres e estilos. Reaprendi porque quando criança, livre de conceitos e preconceitos eu adorava aqueles sons, mas na “aborrecência”,depois de já me encontrar num bom estágio como baterista e descobrindo o violão, eu,como era típico da idade,radicalizei.Meu negócio era rock e Jovem Guarda.Por isso esse negócio de “música é momento” era uma grande balela.Uma justificativa para o mau gosto (bom,só o meu).

A produção de Gilberto Gil durante quase toda a década de 70 é aquela que ficou conhecida como a “fase RE”. Gil lançou uma série de discos,cada um “mais ou menos” focado num determinado estilo ou linha musical embora nas letras abordasse os mais variados temas com sua fluente poética.REFAZENDA, o primeiro da série,passeava pelo regionalismo  mas sempre com um pé na modernidade (resultado de suas andanças por Caruaru e interior da Bahia logo após seu retorno de Londres). REFAVELA era a África.Gil tinha perambulado por lá,participando do Festival de Lagos. A negritude quase saltava dos sulcos do album. REFESTANÇA,gravado ao vivo e dividido com Rita Lee,seria quase uma resposta, à moda tropicalista, a ainda rigorosa fase política brasileira quando,pouco antes,ambos haviam sido detidos por posse de maconha.Finalmente,REALCE de 1979, marcava o reencontro de Gil com o pop universal,notadamente a black music de Stevie Wonder e a dance music. Se esses discos variavam e visitavam vários estilos, a poesia de Gil mantinha a qualidade de sempre, com suas metáforas geniais e comoventes.

REFAZENDA eu tinha ouvido no susto.Na correria.Mas ganhei de presente o REFAVELA, que praticamente dissequei. E meu pai alegrava os domingos com o REFESTANÇA. O REALCE ainda não tinha chegado.

Em fevereiro de 78,numa quinta-feira pré, convencido pelos amigos e colegas , fui passar o carnaval na cidade de Salgueiro.Lembro do “estádio” mas eles não tinham time de futebol nem na terceira divisão de PE. Esses amigos inesquecíveis eram todos netos do falecido chefe político da cidade,Veremundo Soares.Fui recebido com aquela cortesia e carinho característicos da gente elegante e decente do Sertão.

Tudo bem explicadinho, volto ao tema principal. Sabe aquele casarão típico ? Antigo mas bem conservado,pé-direito enorme,portas e janelas também. Parecia uma casa de fazenda,embora fosse numa esquina do centro da cidade.Entrei numa sala arejada,agradabilíssima e notei uma radiola moderna, som de primeira. Prá variar,fui dando uma passada nos discos e,entre novelas,Toquinho & Vinícius e Chico Buarque eis que enxergo aquela capa familiar. Era ele. REFAZENDA.Uau! Assim,logo alguém abriu o janelão e meus olhos se depararam com uma vista maravilhosa.Naquela parte superior da casa,com o verde me encarando, quase roguei para ouvir o disco.E melhor ainda,fiquei sozinho com REFAZENDA e aquele cenário. As músicas foram se revelando. Especialmente PAI E MÃE,REFAZENDA,RETIROS ESPIRITUAIS, O ROUXINOL,MEDITAÇÃO e LAMENTO SERTANEJO (parceria com Dominguinhos) .Que experiência! Aquilo foi transcendental.Pode até parecer exagero mas,creio que aqueles momentos naquelas circunstâncias foram especialmente e exepcionalmente preparados para essa minha audição daquela obra.Eu naquela casa em pleno sertão com aquele visual, me deixando levar por aquela música  refazendo conceitos na minha cabeça.E ai eu perguntei àquele aborrecente aprendiz de violão de Yellow House: “Então moleque ! Música é momento ?”

 

 

 
 

E por falar em saudade…

Publicado: 27/05/2011 em Poesia

 

A sexta-feira já não chega tão depressa.

Não me encontra em desassossego.

Faz anos.

Indicando o verbo ao mesmo tempo saudade, memórias e muita, mas muita estória boa.

Já se começava na quinta ou na quarta. Que a sede era tanta…

Beber. Meu Deus! Oh quanta ignomínia. Santos chopps em vão. Teriam  sido milhares?

Noites findando. Dias raiando. A chegada em casa com a mãe e o pai em completa incerteza.

Nunca se acostumaram.

Ir e vir.

Morar só.

Voltar quatro anos depois.

Essas são as nossas vidas.

Cada um de um jeito, mas no fundo, nas retinas, a gente termina é com uma saudade da casa original…

A casa original…

À nossa maneira, as paredes frias no inverno, o banho de bica no quintal.

O quintal…

Algumas frutas. O telhado mágico.

As primeiras viagens.

O suburbano jeito de ser psicodélico na caretice de quem não morou nem em Londres , nem em N.York.

Mas ouvia os Beatles e os Rolling Stones.

Chutava lata.

Pulava os muros dos principais clubes.

Andava a pé tranquilo nas madrugadas (em turma, nunca sozinho-regra de ouro).

Descia pela traseira das lotações.

Subia o morro.

Verbos de toda a natureza. De toda a transitividade.

E por falar em saudade…

 

PS – Vou tomar minha água mineral que hoje é sexta-feira.

 

PS DE OURO:

Abrindo um antigo caderno

foi que eu descobri:

Antigamente eu era eterno.

 

Paulo Leminski

 

http://www.youtube.com/watch?v=x787IgD-fQA&feature=related

“Sempre permaneça aventureiro.
Por nenhum momento se esqueça de que
a vida pertence aos que investigam.
Ela não pertence ao estático;
Ela pertence ao que flui.
Nunca se torne um reservatório,
sempre permaneça um rio.”

Osho

CAMINHO

Quando a ilusão nos perde de vista
Ganhamos o horizonte das possibidades.

Magna Santos.

 

Torpedaço de Arsênio.

Publicado: 23/05/2011 em Poesia

EM TEMPOS DIFÍCEIS

 

Pediram àquele homem seu tempo
para que o juntasse ao tempo da história;
pediram-lhe suas mãos,
pois para uma época difícil
não há nada melhor que um par de boas mãos.

Pediram-lhe os olhos
que outrora tiveram lágrimas
para que contemplasse o lado claro,
(especialmente o lado claro da vida),
pois para o horror basta um olho de assombro.
Pediram-lhe seus lábios
ressecados e rachados para afirmar,
para edificar, com cada afirmação, um sonho
(o-alto-sonho);

pediram-lhe as pernas
duras e nodosas
(suas velhas pernas andarilhas),
pois, em tempos difíceis,
há algo melhor que um par de pernas
para a construção ou para a trincheira?

Pediram-lhe o bosque que o nutriu quando criança,
com sua árvore obediente.
Pediram-lhe o peito, o coração, os ombros.

Disseram-lhe
que isso era estritamente necessário.

Explicaram-lhe depois
que tudo o que doara seria inútil
sem que entregasse a língua,
pois em tempos difíceis
nada é tão útil para interceptar o ódio ou a mentira.

E finalmente lhe rogaram
que, por favor, começasse a andar,

pois em tempos difíceis
esta é, sem dúvida, a prova decisiva.”

HEBERTO PADILLA

1932

” O ÁLCOOL É A GRANDE DROGA A SER COMBATIDA.”

EXEMPLOS. EXISTEM AOS MILHÕES. AQUI MESMO NO BRASIL. EM RECIFE.

As Cláusulas Pétreas do Fusca são como pedra de gelo. Derretem pelo sol dos fusconautas, fuscopoetas , fuscoloucos.

Qualquer texto, link, vídeo, mensagem, crônica, poema, enfim qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo que chegue para o email: domingossavio@folha.com.br , enviado pelos Brodas e Sister será publicado em qualquer dia da semana, na hora que chegar (se der) ou quando eu chegar em casa.

A idéia do Fuscadoyle kkkkkkkk  é na verdade para unirmos o foco, como o laser faz a luz cortante furar as pedras (do meu coração) e pouparmos algum tempo de nossas vidas.

Mas tudo é uma votação.

Que será vencida pela maioria.

Assim seja. Amém.

Abraço a todos.

Domingos

Da esquerda para direita, em pé: Péricles Madureira de Pinho, Severo da Costa, Maximiano de Carvalho e Silva, Homero Homem, Peregrino Júnior, Esmeralda Doyle, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Joaquim Inojosa,Bernardo Élis, Jesus Belo Galvão, Américo Jacobina Lacombe, Paulo Berger, Mário da Silva Brito, Olímpio Monat;sentados: Fernando Monteiro, Raul Lima, Álvaro Cotrim, Sonia Doyle, Gilberto Mendonça Teles, Plínio Doyle, MuriloAraújo, Rita Moutinho Botelho, Alphonsus de Guimarães Filho, Horácio de Almeida e Raul Bopp.

“Por Márcio José Lauria que recebe artigo de Sônia Doyle, publicado na revista Argumento.”

O Sabadoyle

Chega-me às mãos, enviado por anônimo remetente, um recorte de longo artigo, sem data,  de Sônia Doyle, publicado na revista carioca Argumento, que me interessou sobremaneira pelas razões explicitadas no decorrer desta crônica.

Foi Raul Bopp, poeta gaúcho criador do surpreendente  “Cobra Norato”, quem engendrou o termo sabadoyle, designativo da reunião dos sábados à tarde na casa de Plínio Doyle, alto funcionário da Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro.

Se a reunião era sabadoyle, natural que seu participantes merecessem a denominação de sabadoylianos, deles havendo os habituais e os bissextos. Esses sabadoyles iniciaram-se em 1964 e, com poucas e curtas interrupções,  realizaram-se até dar-se o agravamento do estado de saúde de Plínio Doyle, aos 92 anos, em 1998.

O artigo reproduz fotografia dos participantes de uma reunião das mais concorridas, provavelmente às vésperas de um Natal, data em que a freqüência aumentava e em que alguém era designado para compor na hora um texto natalino que exaltasse aquela original amizade entre pessoas de saber e de cultura. Estão na foto, entre muitos outros, os lingüistas Maximiano Carvalho da Silva e Jesus Belo Galvão; os romancistas Homero Homem, Peregrino Júnior, Bernardo Élis; os poetas Carlos Drummond de Andrade, Raul Bopp, Alphonsus de Guimaraens Filho  e Mário Silva Brito; o diretor da Casa de Rui Barbosa – Américo Jacobina Lacombe.

Sônia Doyle, filha de Plínio, narra com emoção contida o surgimento e a vida daquelas singulares reuniões de bons amigos, nas quais eram vedados apenas dois assuntos –  religião e política, desagregadores por excelência.

Veio-me à lembrança  que eu já havia participado de um sabadoyle e que a respeito escrevera uma crônica, “Em sábado nada carioca”,  publicado primeiro na “Gazeta do Rio Pardo” e depois inserido no livro Tempo & Memória, de 1986.

Tínhamos ido em caravana ao Rio de Janeiro para participar da outorga do título de Cidadão Fluminense ao Dr. Oswaldo Galotti, como reconhecimento a seu trabalho em favor da memória de Euclides da Cunha e a seu devotamento à obra euclidiana. O responsável pela concretização de tão justa homenagem tinha sido Joel Bicalho Tostes, casado com Eliethe, neta de Euclides. Joel, bom amigo de São José do Rio Pardo, não só o possibilitador da homenagem a Galotti, mas também, três anos antes, o maior patrocinador do traslado para esta cidade dos restos mortais dos dois Euclides, o pai e o filho. Teve de enfrentar sérias resistências, como a da Academia Brasileira de Letras e a da cidade fluminense de Cantagalo, terra natal do grande escritor.

O resto está no texto que transcrevo:

EM SÁBADO NADA CARIOCA

Foi com as palavras do título que se iniciaram as impressões por  nós deixadas no livro próprio, lidas ao final da reunião.

Na verdade, é muito difícil relatar o que se passou na tarde de sábado, 13 de abril de 1985, no Rio de Janeiro, porque ficamos muito próximos do imponderável, do indefinível.


Hersílio Angelo, o primeiro à esquerda numa roda de sabadoylianos

Hersílio Ângelo recebera o convite de seu amigo Plínio Doyle e a transmitira a Carmen Trovatto Maschietto, Rosaura e Augusta Escobar, Rodolpho Del Guerra, Oswaldo Galotti, Joel Bicalho Tostes, Dálvaro da Silva e a mim, para irmos ao sabadoyle.

Márcio José Lauria, Joel Bicalho Tostes, Rodolpho José Del Guerra, Carmen Trovatto Maschietto
 e Olímpio de Matos (bibliotecário). Sentado, lendo: Oswaldo Galotti

Sabadoyle, mistura de sábado com Doyle, Plínio Doyle, seu criador. Reunião freqüentada por  muita gente célebre, em especial Carlos Drummond de Andrade. E Pedro Nava, enquanto não se cansou de viver. Gente célebre ou culta.

Nos dias de hoje, se mesmo em cidades pequenas como a nossa, vai-se perdendo a oportunidade do culto da boa prosa, era de imaginar-se que no Rio tudo fosse mais difícil ainda. E deve ser, tanto que o sabadoyle é exceção, gloriosa exceção. Em resumo, o sabadoyle é um grupo de pessoas que, como disse Drummond em ata famosa,  não pretendem fazer qualquer negócio nem alterar o que quer que seja na ordem política do mundo. São pessoas que, durante três ou quatro horas, podem dar-se ao luxo de dedicar-se a uma atividade gratuita. (Lembro-me da frase de Henri Regnier que tenho perto de minha mesa: “O prazer delicioso  e sempre novo de uma ocupação inutilitária”.)

Plínio Doyle reserva hoje um apartamento inteiro (Rua Jaguaribe, 74, 2.º andar, Ipanema) para receber aos sábados os amigos de sempre e os adventícios de sempre, estes mutáveis a cada semana. Tudo começou há vinte anos, com três ou quatro pessoas.

Já em cima da porta de entrada, estão aboletados os primeiros livros, que dominam todas as salas, todos os quartos, do piso ao teto, formando a maior biblioteca de literatura brasileira de que se tem notícia.

Entra-se, cumprimenta-se o gentil dono da casa e a todos os presentes (uns trinta) e cai-se na prosa ou no silêncio, sem nenhum formalismo ou roteiro. Trocam-se livros, impressões e endereços. Consulta-se qualquer volume, remexe-se em pastas de recortes preciosos. (Só de Euclides há três delas, com muitos trabalhos saídos do nosso Ciclo de  Estudos.)

– E o Drummond veio hoje? – arrisca um do nosso grupo.

– Veio, está lá pra dentro.

E lá fomos a um dos quartos-bibliotecas a cumprimentar o poeta maior. Polido, afeito às boas palavras que todos lhe dedicamos, deixa-se fotografar conosco, responde ao que lhe perguntamos.

Personagens de expressão nacional  compartilham democraticamente lugares no sofá. Escritor e gramático discreteiam em paz; jornalistas e gente do teatro se entendem.

Amável e interessado, Plínio Doyle, preso a uma cadeira, a tudo assiste, assim como Olímpio José Garcia de Matos, bibliotecário-mestre-de-cerimônias do sabadoyle, olhos sempre atentos, cioso do acervo incomparável.

Alguém se refere à coleção de corujas que se encontram em todos os cômodos. Símbolo da sabedoria?

– Nada disso, explica Doyle. Apenas corujas: gosto delas. Só isso.

O cafezinho é servido por uma senhora que já trabalhava com a família Doyle quando o grupinho de três ou quatro amigos iniciou a confraria.

Drummond já saíra à francesa, usando passagem direta dos quartos para o elevador. Sempre faz assim, garantem.

Aí começa o momento quase formal da reunião: a leitura da ata do dia. Existem atas famosas; recebemos separatas impressas de três, referentes às reuniões do últimos Natais. O redator lê-a conforme as regras da casa: silêncio geral, o livro próprio apoiado numa espécie de estante em plano inclinado, o leitoril. Quase todo o texto é dedicado à nossa visita, a Euclides da Cunha.

Então nos cabe responder. Falo pouca coisa e depois leio a impressão lançada em letra manuscrita no livro a isso destinado. Era uma página que, olhando pela janela a chuva fina cair, havíamos elaborado Rodolpho, Dálvaro e eu. Começava assim: “Em sábado nada carioca, de sol oculto…”   Parece que gostaram; ao menos, aplaudiram e comentaram.

Oficialmente, estava encerrado o sabadoyle.

Penso em como terá sido difícil concretizar algo assim. Para muita gente é impensável a obrigatoriedade de reuniões a qualquer hora, quanto mais em fins de semana.

Aí está o segredo sabadoyle.  Vão a ele pessoas que encontram naquele suave convívio uma atividade muito civilizada, a melhor maneira de gozarem as horas dos sábados à tarde.

PS – Então. Essa é a proposta. Uma planilha contém 65336 células. Esse representa o Sabadoyle por exemplo. O Fusca uma célula. A A1 por exemplo. A proposta: Aos sábados, capitaneados por João Carlos de Mendonça e o seu extraordinário Sábado Som, iremos sempre nos encontrar por aqui. Fica sendo sempre aos Sábados. Que não será o Sabadoyle, mas será o Sábado Som do Fusca. No Toitiço Amém. Em votação. Um grande abraço a todos.

O anúncio, a poeta e a orquídea.

Publicado: 21/05/2011 em Poesia

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector

PS – Teu Segredo

Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.

Clarice Lispector

A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial

 da Paz em Floripa, nos presenteou com um caso

 de uma tribo na África chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o

 aeroporto de volta pra casa. Como tinha muito

 tempo ainda até o embarque, ele

então,

 propôs uma brincadeira para as crianças, que

 achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço

 de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí, ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o

cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória

 que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já!”,

 instantaneamente, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com

o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e os comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam:

“Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz

 se todas as outras estivessem tristes?”

Ele ficou pasmo. Meses e meses trabalhando

nisso, estudando a tribo e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo… Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Muitas vezes trabalhamos em cima de uma idéia ou de uma convicção tão obsessivamente, para “ajudar””

aqueles  que consideramos “carentes”  ou para

mudar os “ïnferiores”e não percebemos

que eles  têm o mesmo valor que nós. E até nos surpreendem, muitas vezes, com seu sentido ético

e sua maneira de se relacionarem.

Falta ainda um pouco mais de tempo para compreendermos que não existe

  tal coisa  como uma hierarquia cultural, ou seja, expressões

culturais boas e más, certas ou erradas.

Na ação de cada gesto ou na consideração

que fazemos  do “outro,”

  só conseguimos olhar para o próprio umbigo e

frequentemente nos vermos como modelo e referencial..

Olhamos as outras manifestações culturais, outros valores, outras práticas sociais pelo nosso prisma,

com os  valores da nossa cultura.

A isso a Sociologia  e a Psicologia chamam de “etnocentrismo”.

Ubuntu significa: Sou quem sou, por quem somos todos nós.

( autor não identificado). 

Atente para o detalhe: por quem SOMOS, não pelo que temos…


 

Policiais paulistas combatendo os ativistas pró Cannabis Sativa Lineu.

Sei lá o que é isso. Será que já é o fim do mundo?

“Não ser ninguém – além – de – você – mesmo num mundo que está fazendo de tudo, noite e dia, para transformar você em outra pessoa – significa travar a batalha mais difícil que qualquer ser humano pode travar;e nunca parar de lutar.”

E.E Cummings

“O mais desperdiçado de todos os dias é um dia sem risos.”

E E Cummings

“Eu acredito que “sim” é a unica coisa viva.”

E.E. Cummings

BILLY PRESTON
 
 
Além de ser um típico cara do “bem”, de temperamento agregador, era um tecladista muito acima da média.Nascido no Texas,fez aquele característico circuito  dos artistas negros americanps dos 60’s ou seja,associou sua formação musical à religiosa via o Gospell dos templos protestantes (mesmo em sua fase bicho-grilo manteve-se sempre cristão de carteirinha) o que,naturalmente o levou ao blues,jazz,country e ao rock. Billy dominava com categoria estes estilos.
 
Reza a lenda que conheceu os Beatles durante o comecinho da banda quando acompanhava Little Richard numa excursão pela Inglaterra e os Beatles eram atração secundária,tentando divulgar Love Me Do. E nunca mais perderam contato. A verdade é que Billy lançou 4 discos nos EUA entre 65 e 68 com alguma repercussão por lá e ainda em 1968 já se encontrava novamente por Londres seduzido pelo canto de sereia do emergente selo da Apple Records .Participou discretamente do Album Branco e de Abbey Road e “efetivamente” do Let It Be. Segundo George Martin,sem sua presença nada teria funcionado. De repente Yoko se recolheu,as brigas pararam e a música preponderou. Para melhor definir sua importância basta lembrar que o single GET BACK/DON’T LET ME DOWN foi atribuido a “The Beatles with Billy Preston”. É mole ?
 
Desde  então a carreira de Billy deslanchou. Tanto como artista solo quanto como tecladista de estúdio. É dessa época um fato que pouca gente sabe. Billy Preston foi o primeiro artista à gravar e lançar a música MY SWEET LORD antes mesmo de Harrison. Sua versão não estourou mas à partir de então chegou as paradas com suas próprias criações como THAT’S THE WAY GOD PLANNED IT,WILL IT GO ROUND IN CIRCLES,OUTTA SPACE,NOTHING FOR NOTHING e uma balada que marcou os anos 70,virou trilha de filme e estourou também na voz de Joe Cocker, a inesquecível YOU ARE SO BEAUTIFUL.
 
Billy Preston virou figura carimbada nos discos dos Rolling Stones até recentemente.No álbum “Black And Blue” compôs com Mick Jagger,com quem dividiu os vocais, a bela MELODY. Trabalhou também com Bob Dylan,Aretha Franklin,Sly and The Family Stone,Eric Clapton,Phil Collins,Joe Cocker,Jefferson Airplane e o Red Hot Chili Peppers.Trabalhou com Lennon no album Plastic Ono Band,com Harrison no All Things Must Pass e nos discos seguintes e também com o Ringo.

Billy por seu temperamento cordato,era do tipo “topa tudo”. Só de albuns de “gospell” gravou 9. E entre 1965 e 1995 lançou 20 discos solos, num total de 29. Trabalhou no fracassado filme/album de Robert Stigwood interpretando o Sgt. Pepper ao lado de Peter Frampton e dos Bee Gees.Foi um dos primeiros a aderir ao projeto do show/disco/filme do CONCERTO PARA BANGLA DESH e ao CONCERT FOR GEORGE coordenado por Eric Clapton.
 
Creio que seu último trabalho foi no irrepreensível album “Reptile” de Eric Clapton, depois do que,foi internado,vindo à falecer em 6 de junho de 2006 com complicações renais no Arizona. Embora seu toque inconfundível e cheio de “alma” no órgão Hammond tenha virado marca registrada,era também uma fera no piano,especialmente o elétrico (vide Get Back,Don’t Let Me Down,One After 909 e I’ve Got A Feeling (Beatles) e Melody,Hey Negrita e Fool to Cry (Stones). Bem que o céu poderia esperar mas os anjos queriam aqueles sons divinos no Hubble.

Salve Billy! Salve simpatia!
 
PS: Observem sua presença em Get Back. E na sua balada You Are So Beautiful.

“O meu pai movia-se entre nós
Cantando cada nova folha saída
De cada árvore
(e cada criança tinha a certeza
De que a Primavera
Dançava quando ouvia o meu pai
Cantar)”

E.E.Cummings.