Arquivo de julho, 2012

NA MEMÓRIA QUE SE FOI DISSECADA, PELA MEMÓRIA DE CELINA

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Celina não teve um dia de descanso nesta vida.

Rodeada de trabalho, dedicação, orações, novenas, terços, rosários, bolos, festas…

Celina e Lídio desde 1946 até 1976 dentro de uma padaria,

dentro de uma casa,

dentro dos aniversários e das nossas almas,

dentro das outras casas fazendo o bem,

agindo e atuando,

andando pelas calçadas do recife antigo e sempre velho,

Celina andou quase uma volta ao mundo.

Celina que no final da vida me olhava com um olhar cabralino e não me reconhecia.

Celina que agradeceu quem lhe cuidou nos últimos meses.

Celina de quem não pude me despedir, meus filhos meio orfãos, minha mulher a sonhar com os seus carinhos e almoços,

Celina que foi minha parteira nesta vida e parteira de tanta gente para as outras vidas.

No final, no dia do seu aniversário levitou.

Recobrou por alguns minutos, de forma extraordinária a sua memória.

Como se Deus fizesse um back-up para a despedida, um grande final.

E Celina se foi, na certeza de que a esperavam sua mãe, seu marido e todos os queridos que haviam partido com a sua ajuda.

Celina que não reclamava em nome da renúncia, que havia lhe tirado a capacidade de gerar filhos e lhe deu outros 54 sobrinhos.

Celina que sabia das dores do mundo, das dores da gente e não poupava atitudes para consolo, regalo , bençãos, solicitudes.

Não esqueço dela nesses sete anos de separação.

O alemão aparentemente ganhou, mas ela não era a menina que roubava livros, ela doava vida.

Celina não escrevia poemas, ela foi um poema vivo. Um livro soberano e sua presença lateja todo dia no meu peito.

Eu espero o outro parto, mesmo sem sua ajuda, com a certeza de que a encontrarei.

Feliz, Celina, Feliz.

Cantando Hosanas e quem sabe organizando algum aniversário onde sempre cabe a memória de quem viveu para se lembrar e ser lembrada.

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Emiliano José: Solidão em tela
publicado em 30 de julho de 2012 às 11:53
por Emiliano José, no jornal A Tarde

Tenho pensando na volatilidade do mundo. No tipo de sociedade que o avanço tecnológico possibilita. E me previno, ao pensar, em desenvolver uma reflexão saudosista, como se fosse possível voltar ao passado, e não é. Alguém há de desconhecer as maravilhas e possibilidades da internet? Creio que não. Tenho defendido como muita ênfase ser a internet o território da liberdade, uma assembléia onde todos podem se comunicar, um terreno que garante a transparência dos acontecimentos e que supera até mesmo as mídias tradicionais, normalmente ultrapassadas por simples cidadãos que, num canto do mundo, podem noticiar em tempo real coisas que as grandes redes midiáticas não teriam condições de fazê-lo.

Não são poucos os debates de que tenho participado sobre a internet, inclusive sobre o marco civil, projeto do governo, bom projeto, que tramita na Câmara Federal, e observo o pensamento conservador, querendo pensar antes na repressão aos internautas que nos seus direitos – estes, a principal preocupação do marco civil. Assim, deixo claro o quanto essa ágora contemporânea pode servir à humanidade. Em rede, os povos do mundo podem se conectar a todo instante, trocar experiências, desenvolver lutas, incentivar ideais de libertação, de superação dos atuais limites do homem, impostos por um modo de produção centrado no individualismo. Mas, não é apenas isso. Há outros aspectos.

O mundo virtual, que alguns teóricos já defendem não ser mais virtual, mas real, provoca impactos até pouco tempo impensáveis. Impactos profundos, observáveis no nosso cotidiano, e que merecem alguma reflexão, nem que seja como simples constatação. Às vezes, ao entrar num restaurante, me impressiona o volume de tablets. Calma, não pelos tablets, mas pelo uso deles. E não pelo uso, mas pelo fato de que são acionados sem cerimônia por casais. Às vezes, um deles observa o mundo no tablet, enquanto o outro contempla o vazio, entre melancólico ou entediado. Às vezes, os dois estão no mundo virtual, e só param quando a comida chega, e isso quando não continuam o exercício, o aparato ao lado do prato.

Outro dia, minha neta, Luiza,seis anos, ih, lá vem o avô, sentou à mesa comigo e meu filho, Teo, e começou a manipular o celular, nem bola dava pro pai ou pro avô. Tudo isso também num restaurante. Aliás, foi meu filho que me alertou para providências que ele e a galera dele tomaram para evitar a falta de comunicação quando saem. Todos são convidados, ou intimados, a colocar os celulares no centro da mesa, sem o direito de atender qualquer ligação. Aquele que ousar fazê-lo, paga a conta toda. Tem dado certo. Defesa da comunicação direta. Penso, ainda, e aí creio que há uma boa dose de nostalgia, nas cartas. As que celebram amizade. As que cantam o amor – aquelas que já foram chamadas de ridículas. Sumiram. Pra quê cartas se há o email, tão rápido e eficiente?

Esqueçam aqueles livros, são tantos, que tratam da correspondência entre pessoas, normalmente pessoas célebres, e que revelam tantos lados da personalidade dos missivistas. Não há mais a possibilidade do arquivo material dessa correspondência. Antes, dizia-se, foi Marx, que tudo que é sólido desmancha no ar. Estava certo – o email surge e desaparece num átimo. Ou não, claro, pode ficar na rede, sem muita utilidade. Uma carta de amor por email, um torpedo – estranho esse nome, não? – duram um segundo, um pouco mais a depender de quem os recebe, e depois desaparecem no ar. Amor líquido, diria o Bauman, não? Os sentimentos também sentem o impacto das novas tecnologias?

E quem disse que as respostas são fáceis? Quem disse sejam elas possíveis no turbilhão de mudanças a que estamos assistindo? As possibilidades abertas para a comunicação humana são extraordinárias, mas isso não quer dizer que não se corra o risco da solidão em meio à abundância, do homem encapsulado, tomado, seduzido pela tela, e subestimando as relações diretas. Pode ser um novo modo de viver, ao qual não chegamos, ainda, em toda a plenitude, mas do qual podemos estar muito próximos. Assim caminha a humanidade: tudo ficou mais simples e mais complexo. O sólido explode no ar.

Emiliano José jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA

O RAP. GOD IS GOOD.

Publicado: 30/07/2012 em Poesia

A Idéia

Augusto dos Anjos
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

Tão bom aqui

Adélia Prado

 

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui para rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
Tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestionamos elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
O de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
Em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
Alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
Refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
Eu nada sei de mim.
Texto extraído do livro “A duração do dia”, Ed. Record, 2010 – Rio de Janeiro (RJ), pág. 09.

 

Somos todos estrangeiros

Ivan Lessa

 

Estrangeiro é o bairro em que moramos, estrangeira é a mulher que encoxamos no elevador, estrangeiros são nossos pais, nossos filhos. Nunca me senti em casa no Brasil, ninguém está em casa no Brasil: todo mundo foi até a esquina, todo mundo foi tomar um cafezinho. Achava que, de uma maneira ou de outra, eu estava embromando ou sendo embromado por alguém. Que viver não era nada daquilo, que eu não tinha nada com o peixe, que os verdadeiros brasileiros estavam misteriosamente ocupados com seus sofrimentos, ou então atarefados criando um Brasil melhor: gente andando rapidamente nas ruas da cidade, ou cavando uma terra dura e ingrata. Os brasileiros eram abstratos, distantes, mais calados do que comumente se supõe. Conheço algumas vozes brasileiras: gostaria de saber escrever na tonalidade do Jorge Veiga, ou do Moreira da Silva, misturada a uma retórica aborrecida e às avessas semelhante à de Ruy Barbosa — como o Hino à Bandeira acompanhado de caixinha de fósforos. Os sambinhas, claro, eram brasileiros, o pessoal que sentava ao meu lado no Maracanã era brasileiro, as piadas de papagaio eram brasileiras. Mas tudo era de mentirinha, beirando sempre o pitoresco ou se precipitando na tragédia policial ou no editorial dos jornais. A vida a sério, os seis quarteirões em que me locomovia, as seis pessoas com quem convivia não eram, digamos assim, bem brasileiros — assim como eu, tinham máquina fotográfica a tiracolo e camisas com palmeiras.

Em tudo que eu engolia ficava uma ponta de tradução atravessada em minha garganta: os filmes com legendas em português, as histórias em quadrinhos, os livros, as notícias; os foxes. Éramos uma versão pobre do que a vida deveria ser — e a vida vinha sempre em inglês, em francês, em alemão. Mesmo quando dizia “eu te amo”, ou “não me chateia”, eu me sentia vagamente ridículo, apropriador — feito um homem de série da televisão mal dublado: minha boca fechada e as palavras ainda saindo, um ventríloquo com descontrole psicomotor.

Reconheci, pelo paladar, pelos olhos, certos molhos, certas bossas tipicamente brasileiras (o problema é que eram típicos): feijoada, dendê, folha seca de Didi, Noel Rosa, escola de samba. Mas a essência, a parte que tratava de mim (nos meus seis quarteirões, na cidade no sul do país) e de minha relação com os severinos todos, essa parte era sempre tratada em outra língua; eu pertencia aos estrangeiros, foram eles que me disseram como vim a fazer parte ou como nunca fiz parte. Eu era, como todo brasileiro, um improvisador, um adaptador, um tradutor, conseqüentemente um traidor — porque eu olhava para a cara de meu semelhante e não sabia como poderíamos nos entender, o que ele tinha a me dizer, o que eu poderia lhe dizer, como juntos conseguiríamos nos salvar. No entanto, o tempo todo, eu era, eu sou, apenas mais um João, só que em russo.

Não consegui, como tanta gente de minha geração ou mais moça do que eu, me interessar pelo folclore caboclo. A própria palavra folclore já leva embutido um desaforo urbano. No entanto, achava que o setor, devidamente estudado por profissionais competentes, me seria útil, me forneceria, por exemplo, dados para escrever com justeza para um público moço que vive de cinema, disco e que sabe, curiosamente, que há uma tremenda safadeza, uma violência no ar. Não lia, portanto, O Negrinho do Pastoreio — o que já preparava o terreno até para eu deixar de ler Machado de Assis ou Dalton Trevisan. Comprava pocketbooks, que eram mais baratos, mais engraçados, e, de certa forma, sobre mim, a meu respeito. Preocupado comigo mesmo, com esse “meu respeito”, descobri-me sozinho no meio da avenida repetindo eu… eu… eu… como um pronome enguiçado que não consegue engatar a segunda e a terceira do singular. Perdi os joões, os josés, os severinos, vim para o original, o estrangeiro, dando início a uma certa paz, tranqüilidade, a noção de ordem: as legendas acabaram, sou finalmente, completamente, um estrangeiro. Posso agora conjugar-me no plural, dizer nós. Somos todos estrangeiros, sois todos estrangeiros, são todos estrangeiros. Não há nada a fazer a não ser descobrir esse estrangeiro que há na gente. Daí então a gente começa a falar brasileiro, coça o saco, conta como é que é. Daí então o papo, aquele papo, pode começar. Só que agora pra valer.

Londres, 7 de setembro, 1970
Ivan Lessa fez parte do grupo que colaborou e que, durante muito tempo, fez sucesso no jornal “O Pasquim”. Carioca, filho de Orígines Lessa e Elsie Lessa, escreve valendo-se de um humor cheio de ironias. Auto-asilado na Inglaterra, segundo ele por ter-se desencantado com o Brasil, trabalha na BBC de Londres.

Ivan Lessa faleceu aos 77 anos, em Londres, onde vivia, em 09/06/2012.
Texto extraído do livro “O melhor do Pasquim”, com Sergio Augusto, Jaguar (org.) Desiderata – 2006 – pág. 168.

Sinais de Vida – Werner Herzog e o Cinema

 

Um dos principais nomes do cinema alemão, Werner Herzog não teve durante bom tempo grande parte de sua filmografia circulando em Portugal. Isso só se tornou possível em 2009, quando foi organizada pelo IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema Independente uma retrospectiva com a maioria dos seus trabalhos. Até agora, uma carreira de 50 anos e mais de 60 projetos rodados. Visto pelo filósofo francês Gilles Deleuze como “o mais metafísico dos autores de cinema”, o diretor possui obras que marcaram presença na história desta arte por vários motivos, casos de Fitzcarraldo, Aguirre – a cólera dos deuses e O enigma de Kaspar Hauser.

Aproveitando a ocasião, aconteceu o lançamento da edição portuguesa de Sinais de Vida – Werner Herzog e o Cinema. Originalmente publicado na Itália, em 2008, o livro traz uma longa entrevista realizada pela jornalista e crítica de cinema Grazia Paganelli com o diretor. Com a premissa de discorrer sobre a trajetória de Herzog na sétima arte, a autora também deu espaço para que ele abordasse outros assuntos por vezes polêmicos.

A disposição dos capítulos se dá sempre com um capítulo introdutório elaborado por Grazia, funcionando como uma espécie de preparativo para o trecho da entrevista que o sucede. No decorrer do texto, conhecemos os pensamentos de Herzog acerca de seus filmes. Um momento interessante é quando a jornalista lhe indaga o Manifesto de Oberhausen (1962), que surgiu no mesmo ano de Hércules (“Herakles”), seu primeiro filme. Apesar de ter recebido o convite dos realizadores envolvidos para assinar o documento que dá início ao Novo Cinema Alemão (corrente preocupada com questões político-sociais), o diretor explica por que não aceitou participar do movimento:

O Manifesto não me influenciou nada. Fui convidado para assinar, mas recusei porque não gostei da atitude deles, era muito derivativa da Nouvelle Vague francesa. Além disso, não gostava dos realizadores que estavam a organizá-lo. Sentia que não se tornariam realizadores interessantes e que a história em breve os esqueceria. Olhando para eles, fiquei logo com a impressão de que eram pessoas de talento limitado, pessoas medíocres que tentavam imitar a Nouvelle Vague. De maneira que o Manifesto não teve qualquer influência em Herakles. Tive de inventar o cinema como se fosse o inventor da câmera de filmar. (p.26)

Werner Herzog e elenco de “O enigma de Kaspar Hauser”

Outro momento discutível é o seu ponto de vista sobre atores oriundos do teatro. Grazia Paganelli chegou a perguntar por que não costuma utilizá-los. “Às vezes acontece, mas é difícil retirá-los ao mundo da representação teatral, que é completamente diferente. Quando a câmera está apenas a alguns centímetros das caras deles, a mais leve mudança é já demais e sussurrar a um nível mesmo que minimamente mais alto é completamente ridículo e incorreto. Quando vejo filmes, percebo imediatamente, mesmo à légua, se um ator vem do teatro e não acredito numa só palavra do que diz. E isto demonstra como o teatro se tornou morto, sem vida e desprovido de inspiração. Para mim, é impossível ver teatro”. (p.59)

O livro serve também para quebrar um estereótipo em torno da figura de Werner Herzog, o de “cineasta aventureiro”. Essa aura de realizador de extremos surgiu por toda a dificuldade do processo de feitura de suas obras, como em Fitzcarraldo (1982), quando um barco enorme sobe uma colina. De acordo com ele próprio, nada mais é que um “contador de histórias”.Ainda sobre ‘Fitzcarraldo’, um fato curioso relatado é que o argumento do filme foi desenvolvido durante a estadia de Herzog na casa do cineasta americano Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”, “A Conversação”, “Apocalypse Now”).

Enquanto que para o colega de profissão e amigo Wim Wenders o enquadramento se revela a parte mais importante do filme, para Herzog, o som é o elemento fundamental. “Acredito mesmo que é o elemento mais significativo na realização profissional. Não se trata apenas da música – mesmo que a música tenha muito significado nesse filme (referindo-se a ‘Hércules’) – mas como usar o som em combinação com a música”. (p.27)

 

Rainer Fassbinder, Herzog e Wim Wenders em cena do documentário para TV “Quarto 666”

Embora tivesse certa repulsa à música quando criança, chegando a não querer cantar por diversas vezes na escola, o diretor acabou criando uma paixão por esta arte, tanto que passou a encenar óperas. Ele crê numa grande proximidade entre o cinema e a música: “Sei, simplesmente, que há uma relação muito estreita entre cinema e música, algo que não existe, por outro lado, entre o cinema e a literatura ou o cinema e o teatro. Acho que me ajudou ter estado “separado” da música durante a adolescência; Porque o professor tentava forçar-me a cantar na frente dos outros alunos, me portava como uma criança ‘autista’ e recusava.” (p.175)

Não fica ausente da publicação a conturbada relação desenvolvida entre o cineasta e o seu ator preferido, Klaus Kinski, com quem dividiu um apartamento na infância. “Eu sabia naquele momento que me tornaria um diretor de cinema e iria dirigir Kinski”. (WIKIPEDIA) Werner o dirigiu em cinco longas (Aguirre, Nosferatu, Woyzeck, Fitzcarraldo e Cobra Verde). Herzog chegou, inclusive, a realizar um documentário sobre os dois, Meu melhor inimigo (1999).

Herzog e Klaus Kinski em mais um “momento de amor e ódio” em “Meu Melhor Inimigo”

 

Quem teve o privilégio de assistir a pelo menos duas ou três de suas fitas sabe que a paisagem tem um significado importantíssimo nas obras do diretor, é praticamente uma personagem. Herzog revela que ideias para alguns dos seus filmes nasceram de paisagens, como os moinhos de vento presentes em Sinais de Vida.

O livro ainda traz imagens do diretor em seus filmes, um artigo escrito por Werner para um congresso sobre artes e a filmografia completa até 2008, com ficha técnica e resumo de suas produções. A leitura de “Sinais de Vida…” se revela bastante fluída e prazerosa, servindo para conhecer de forma aprofundada este que é um dos grandes autores do cinema alemão e os bastidores dos seus trabalhos, contados por ele. Uma obra recomendada para qualquer cinéfilo!

 

Trailers

Sinais de Vida” (Lebenszeichen, 1968)

O Enigma de Kaspar Hauser” (Jeder für sich und Gott gegen alle, 1974)

Fitzcarraldo” (idem, 1982)

Meu melhor inimigo” (Mein liebster Feind – Klaus Kinski, 1999)

R  A  R  E       E  A  R  T  H

 

 

Ali por volta de 1972, não se falava noutra coisa que não fosse a apresentação do grupo THE FEVERS na AABB do Recife. Foi uma loucura. Gente se espremendo fora e dentro do clube e a apresentação foi tudo que eu imaginei. Claro que eu não fui. Aquela banda já não era “das minhas” na Jovem Guarda, imagine-se naquela época  dos melhores ecos da Tropicália ? Fiquei bem mais interessado no evento seguinte, que prometia “a melhor banda de baile” do Rio, que não lembro o nome exatamente (Casa das Máquinas ? Colosso de Rhodes ?…) e fui sozinho. O clube estava mais para vazio, tanto que ocupei confortavelmente uma mesa, acho que tomei umas 5 cervejas e ouvi um som de arrepiar. Fiquei a noite inteira só ouvindo/vendo aqueles cabeludos ripongas destilarem um repertório prá lá de atualizado e de puro bom gosto. Abriram com NO ONE TO DEPEND ON do Santana, emendando com HEY BIG BROTHER de uma tal  RARE EARTH que eu só conhecia de um LP que apareceu lá em casa, tipo “o som do momento”, com vários artistas. Corri atrás e posso afirmar que aquele grupo de branquelos  de Detroit foi a melhor banda de funk  que eu já conheci/ouvi, até os dias atuais. Botando o EARTH,WIND & FIRE; o SLY & AND FAMILY STONE;  o FUNKADELIC e o TOWER OF POWER no chinelo.

Tenho quase certeza que poucos a conhecem e mesmo estes, talvez não concordem com minha tão contundente assertiva sobre o Rare Earth . Mesmo nos Estados Unidos, onde o grupo goza de muito prestígio e virou “cult”, ninguém aceitaria que eles formaram a melhor banda funk de sua época. Creio que não seria o caso dos brasileiros, mas por lá, dentro do politicamente correto, seria uma infâmia eleger um grupo formado por brancos em detrimento de várias nomes famosos no estilo e, principalmente formados por afro-americanos, criadores da “escola”. Então ta!

O embrião do conjunto formou-se em 1961, liderados por GIL BRIDGES e PETE RIVERA, e tinha outro nome. Duraram pouco e sem sucesso. Por volta de 1967 resolveram voltar e reformular o grupo já como Rare Earth, e o trabalho que apresentaram deixou a turma de cabelo em pé. Os músicos eram “escolados”, criativos e tinham formação musical. O funk que apresentaram ia muito além do tradicional, cheio de convenções jazzísticas que exigiam refinadas habilidades,  com uma pegada de puro rock, mas mantendo sempre o espírito do “funkaço”. Claro que Berry Gordy Jr (leia-se Motown), “enxergou pelos ouvidos”  tão logo os conheceu. A piada é que como a Motown era de “negros”, Gordy sugeriu que criassem um selo (que ganhou o nome do grupo) por onde lançariam seus discos e, assim, a gravadora/marca RARE EARTH tornou-se parte da Motown. E já no primeiro LP, a canção que dava título ao disco, Get Ready, tornaria-se um clássico no ramo. Até nossos dias, aparece em filmes e em gravações e regravações por vários artistas.Sucesso arrebatador. Uma característica marcante do grupo é que assim como GET READY, várias de suas criações e versões eram faixas longas, chegando até 11 minutos, mas uma vez que a música tivesse potencial  radiofônico, eles a lançavam em “single” editado para no máximo 4 minutos e virava “hit” instantâneo, entretanto, mantinham a versão original nos álbuns. Isto tornou a acontecer no trabalho seguinte, ECOLOGY, com um cover do grupo Temptations, (I Know) I’m Losing You que todos tem certeza ser criação da banda. Mas o RARE EARTH esbanjou “feeling” com sua ousada e irretocável versão de What’d I Say, a magistral e sacolejante canção de Ray Charles. Novamente,  a versão do LP tem 7m. e a do single 3:45m. Assim como tornaria-se comum no Brasil, várias canções do conjunto viraram sucesso por aqui, via boates e até trilhas de novelas mas poucos, ou quase ninguém, guardou ou associou os “hits” ao nome da banda. Foram os casos de I Just Want To Celebrate e mais adiante We’re Gonna Have A Good Time e, algum tempo antes,  da já referida,  Hey Big Brother.

O som do RARE EARTH tem uma qualidade peculiar, especialmente para um grupo de “funk music”. Apesar dos ingredientes prá lá de  dançantes,  a inventividade  presente nos arranjos é um deleite para se apenas ouvir. E isso, admito, poucos artistas conseguem ou conseguiram. Sem nenhuma pose, confesso que quando comecei a “curtir” o grupo, não fazia a mínima idéia sobre os músicos e até estranhava que, no meio de tanto lugar comum e cópias, eles não serem tão cortejados e reverenciados como mereciam, até que descobri  tratar-se de um bando de funkeiros “brancos”. Ah… bom! Entendi! Mas tiveram convicção e amor ao que faziam para definitivamente se estabelecerem no mercado americano e europeu. E hoje são imprescindíveis em qualquer lista dos melhores no estilo embora, parece, só o doido aqui tenha uma certeza:  a melhor banda de funk que eu conheço chama-se RARE EARTH.

 

PS: I LOVE YOU: Para os não iniciados, além das canções citadas, recomendo ouvir  BOOGIE WITH ME CHILDREN; MA; CHAINED; THE SEED; THE ROAD; GOOD TIME SALLY, BORN TO WANDER, entre outras tantas.

in memorian de rodrigo raposo e lucio surubim.

 

ver o náutico jogar e perder isso é eternamente compreensível e facilmente dedutível.

a nossa soberância invertida, a nossa cota dos 30% que perderam krausianamente a eleição para os bandidos que não sabem latim

só sabem embolsar dindim, isso é por demais cartesiano. tão simples como o fim que se anuncia. Pernambuco e apenas dois times grandes.

mas Oscar Wilde, esse sim poeta e muito mais homem que esses aí, inominados e colonizados, eternizou a mediocridade:

 

A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.

Oscar Wilde

PAULO LEMINSKI.

Publicado: 26/07/2012 em Poesia

Um homem com uma dor

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

Paulo Leminski

ALICE RUIZ.

Publicado: 26/07/2012 em Poesia

Saudação da saudade

Minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

Aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

Ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

Aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

Alice Ruiz

Para uma grande amiga, levitada nos anos 80, que me disse em seu leito final: ” Deus não dá nem uma gota a mais de sofrimento… mas também não dá nem uma gota a menos”

 

foto: Catacumbas – Paris

 

 

O QUE NÃO LEVAMOS DESSA VIDA

As incompreensões

As punhaladas

As invejas

As grosserias

As brigas

Sejam pequenas, grandes, mistas…

As decepções

Masculinos e femininos, fatos e atos não importam.

Se estão aí por cima

Não levamos

Nem prá casa

Nem prá última casa, aquela…

O que de fato levamos dessa vida?

Cada um com sua bagagem vai dizer de fato o que significou sua passagem.

E coração é o lugar onde cabe tudo o que lhe diz respeito

e…

Lealdade

Respeito

Amizade

Carinho

Honestidade

Compreensão

Doação

Compromisso

Ética

Respeito

Sinceridade

Princípios

E…

Principalmente, após uma vida inteira de lutas, do bom combate, você possa estar em total estado de desapego e olhar prá trás por um relance apenas, nem um átimo a mais nem a menos e poder dizer, o pouco que eu semeei deixei o mundo um pouquinho melhor. Um pouquinho mesmo. Quase nada

Que vira infinito.

 

PS – EM MEMÓRIA DOS NOSSOS ANCESTRAIS, QUE NOS LEGARAM O NOSSO PRESENTE. NOSSO MAIOR PRESENTE.

Para Roma, Com Amor (To Rome with Love, 2012)
Cotação: ****

Durante um bom tempo se pensou que a criatividade de Woody Allen havia chegado ao fim. Mas o experiente diretor conseguiu “dar a volta por cima”. De Match Point (2005) para cá, tem feito trabalhos interessantes. Quem acompanha a carreira deste cineasta sabe muito bem que as cidades têm grande importância na trama de seus filmes. Não é segredo a paixão de Woody por Nova Iorque, lugar em que nasceu. Obras de enorme sucesso como “Annie Hall”, “Manhattan”, “Hannah e suas irmãs” e “Poderosa Afrodite” estão aí para quem quiser comprovar.

Woody também é conhecido por sua produtividade. A cada ano, entrega pelo menos um longa-metragem (até o momento, realizou 44 e vem mais por aí!). Isso tem acontecido desde 1982. Nos últimos anos, ele tem feito um passeio pela Europa (além de “Match Point”, “Scoop – O Grande Furo”, “O Sonho de Cassandra”, “Vicky Cristina Barcelona” e “Meia noite em Paris”). Em 2012, o diretor resolveu lançar um filme que tivesse como pano de fundo a “cidade eterna”.

De Para Roma, com amor, Woody Allen quase fez uma comédia pastelão. Na trama, decidiu apresentar quatro contos intercalados: o de uma jovem turista americana, Hayley (Alison Pill) que se envolve seriamente com um rapaz da cidade (Flavio Parenti), a ponto de trazer os pais (Woody e Judy Davis) a Roma; Dos recém-casados Milly (Alessandra Mastronardi) e Antonio (Alessandro Tiberi), que chegam do interior na esperança de ficarem ricos; De um homem (o sumido Roberto Benigni) que se torna famoso da noite para o dia; E de um estudante de arquitetura (Jesse Eisenberg) que acaba por se apaixonar pela amiga (Ellen Page) de sua namorada, Sally (Greta Gerwig).

Introduzidas por um monólogo de um guarda de trânsito, é evidente que todas essas histórias terão complicações e trapalhadas. Não dá para revelar tanto o enredo para não estragar as surpresas. É importante destacar o retorno de Woody enquanto ator a um de seus filmes, o que não ocorre desde Scoop. Ele sempre é garantia de risadas com a composição neurótica habitual. Há a presença de outros atores importantes como Penélope Cruz, que faz uma prostituta, e Alec Baldwin, que interpreta um arquiteto bem-sucedido, fazendo a vez de conselheiro amoroso.

Não dá para entender por que a crítica americana recebeu com certa frieza este novo projeto. Para Roma, com Amor pode não ter o mesmo requinte e audácia de Meia noite em Paris, no entanto, se configura num dos filmes mais divertidos do cineasta. Woody Allen fez desse filme uma “comédia à italiana”, em todos os sentidos.

N O R I E L   V I L E L A

Quando menino eu era fã do Noriel. Lembro exatamente daquela figura negra, de voz gravíssima, bela e inconfundível, que o tempo e o descaso me fizeram quase esquecer. Procurei nos mais conceituados “sites”, livros e publicações e … nada! Os mais sérios deles até pedem que quem tiver informações consistentes os ajudem a elaborar sua biografia. Mas insisti e encontrei alguns dados que,imediatamente atiçaram as lembranças.
Aonoriel Vilela de Arantes, embora não se saiba precisar seu nascimento, cresceu e viveu sempre no bairro de LINS E VASCONCELOS , Rio de Janeiro. Teve uma infância pobre e na adolescência trabalhou como torneiro mecânico. Nem ele próprio tinha noção da raridade e beleza de sua voz de timbre baixo profundo, que exercitava na boemia carioca, até que Nilo Amaro, resolveu formar nos anos 50, o grupo vocal CANTORES DE ÉBANO e descobriu Noriel. O grupo,que tinha cantores masculinos e femininos, de início era rigorosamente formado por negros, mais adiante, entraram alguns vocalistas brancos. Eram sopranos,mezzo sopranos,tenores e barítonos, mas era o grave,o baixo profundo, de alcance surpreendente de Noriel Vilela que chamava a atenção, fosse em gravações ou em shows. O conjunto chegou à lançar um álbum onde se destacaram as toadas UIRAPURU e LEVA EU,SODADE, canções que os levou à shows e apresentações na TV até o início dos anos 60. E aquela voz sempre surpreendia. Lembro de vê-los várias vezes na televisão em programas diversos (musicais, humorísticos, entrevistas e que tais). Até cantavam em inglês. Por ciúmes ou democracia, nas entrevistas, ninguém era “realçado” entre os demais, exceto o NILO AMARO que, centralizava as atenções (era o líder e proprietário do grupo). Mas com apenas um disco e sem muitos horizontes os CANTORES DE ÉBANO chegaram ao fim. Já naquele tempo, sumir da mídia significava sumir das mentes.
Quase dez anos após o fim do conjunto, recordo de uma amiga (que como eu, adorava esquisitices,coisas fora do comum e até exóticas, em se tratando de música), correndo para me mostrar algo sensacional que havia gravado do rádio em seu k-7 mono. Era um samba afro, chamado SÓ O ÔMI , e claro, fiquei deslumbrado com aquele grave espetacular do NORIEL mas não o liguei aos CANTORES DE ÉBANO. Na verdade, até bem recentemente, acreditava tratar-se de dois cantores diferentes com o mesmo registro vocal abençoado. O fato é que nesse período, aproveitando o sucesso da canção, a gravadora lançou um álbum solo do rapaz, talvez equivocadamente recheado de temas ligados ao candomblé o que ,restringiu o trabalho à um público determinado. Vale lembrar que estávamos ainda numa fase em que as religiões de origens africanas eram absolutamente tratadas com o mais indiscreto preconceito. O que salvou o disco foi a maravilhosa versão do “blues” Sixteen Tons (Ernie Ford e Merly Travis) lançada originalmente em 1940, que Noriel lançou como um afro-samba com o título de DEZESSEIS TONELADAS , com uma letra bem humorada, cheia de ginga e tremendamente bem executada. Sucesso estrondoso, recentemente regravado pela banda FUNK COMO LE GUSTA. A música,retirada do disco EIS O ÔMI , foi cantada e executada exaustivamente.
Mas o destino foi cruel com o nosso cantor. Uma anestesia durante um tratamento dentário, o levou a um choque anafilático e nos tirou a arte de Noriel Vilela em 1974. O ÔMI!

                                                S   E   A   L

 

Seu primeiro álbum é de 1991, mas ainda em 90 seu single com Crazy, já estava nas paradas e apesar de agora estarmos tão longe daquela data, SEAL é um artista ainda em desenvolvimento. Seria mais apropriado dizer, um músico se descobrimento e se redescobrindo à cada nova empreitada.  Na verdade, CRAZY não me arrebatou de primeira. Era só uma canção interessante de mais uma nova “sensação”  que vai mudar o mundo e sumir na semana que vem. Já vi muitos.

Assim, o tempo passou até eu conhecer um amigo/irmão, desses que não há distância, nem falta de contato que apague do coração o carinho,admiração e a gratidão. Um verdadeiro “broda”.  E junto com ele veio o SEAL, de quem ele é fã incondicional. Obviamente ele me apresentou canções que eu sequer associava ao artista. Trabalhos que flertavam com a música eletrônica na dose certa e versões acústicas arrepiantes e comoventes que me pegaram de surpresa. Apesar de excelente compositor, Seal  não economiza também em reinterpretar artistas de sua admiração com versões definitivas (ouçam-no na empolgante Stone Free de Hendrix).

Ainda em construção, a biografia de SEAL já nos reserva lances dramáticos. Nascido na Inglaterra, filho de nigerianos, foi arrancado de um casal que o adotara, pela mãe que, junto com seu novo marido e antes de voltarem para a Nigéria, largaram-no com o pai brutamontes, que trabalhava como bombeiro. Na adolescência, desenvolveu uma doença rara chamada lúpus eritematoso discóide, razão de suas cicatrizes na face e mais tarde, a perda dos cabelos. Mas o rapaz foi em frente, graduando-se em Arquitetura e exercendo a carreira por um tempo. Entretanto um violonista, compositor e cantor (de voz grave e roufenha) tinha mesmo de reorientar sua vida para a música. E assim, buscando e rebuscando, sua arte cresce e já conquistou uma legião de fãs mundo afora.

Já em 1994 arrebatou vários Grammys por sua Kiss From A Rose, tema do filme BATMAN FOREVER. Daí em diante, seus discos foram crescendo em todos os sentidos (qualidade, vendas e afagos de público e crítica) mas longe de deitar-se sobre os louros, SEAL nos brindou com um disco acústico que esbanja elegância, técnica e “feeling” (lançado junto com um “Best of”) . Fundamental.De suas imperdíveis apresentações em Paris, resultaram um DVD e mais um “ao vivo” memoráveis.

Atualmente, SEAL coleciona hits de qualidade inquestionáveis.  Seu album  System (2007) é uma ousada experiência entre a música eletrônica e instrumentos acústicos, recheando canções instigantes que só um artista de muito talento consegue fazer (longe do “baticum” óbvio dos DJs).Numa guinada em 2008, saiu-se com SOUL, onde resolveu reler antigos hinos pop do estilo.Tão perfeito que em 2011 repetiu a dose com SOUL 2.

A arte de SEAL é para dançar e meditar. Serve com champanhe ou cerveja gelada. Malemolente como seu avô… Isso mesmo!  Seal é neto de brasileiro!

Post dedicado à Emanuel Andrade Filho (o broda NENÉM

L U I Z  V I E I R A


De uma coisa eu lembro bem. Na época em que LUIZ VIEIRA freqüentava a mídia, principalmente as TVs, eu, garoto, o tinha como o mais significativo representante do Nordeste lá no Sul Maravilha.

Longe da imagem do coitadinho, a simpatia, o talento e a inteligência dele me orgulhavam. Dialogava, trocava figurinhas fosse com quem fosse no mesmo patamar, mas jamais perdia a elegância e o sorriso sincero. Sua competência extrapolava nordestinidades, embora fosse um divulgador incansável da nossa cultura . Tanto que era chamado de o advogado do Nordeste.
Nascido em Caruaru-PE, perdeu a mãe cedo e terminou sendo criado pelos avós. Influenciado pelo pai, cursou e formou-se em Direito no Rio de Janeiro, para onde foi pequeno, morar em São Gonçalo. Nunca exerceu a advocacia, preferia investir toda sua determinação para tornar-se artista. Viajava diariamente por 3 horas de trem para tentar se apresentar no programa de rádio do ZÉ DO NORTE. Não lhe davam brecha até que um cantor faltou à apresentação e ele na raça, se exibiu tão bem que foi imediatamente contratado. A história se repetiu no Cabaré Novo México, onde diariamente ficava no cerco, esperando uma oportunidade, que veio mais uma vez com a falta do cantor da casa. Ele assumiu de vez a função.
Naquele período, começou a apresentar suas criações que, mesmo ele, não sabia explicar a razão pela qual tanto agradavam ao público. A primeira dessas foi a toada “Menino de Braçanã”. Longe de seguir modelos, Luiz Vieira preferia enveredar por outras tendências, e assim se deu com a “Guarânia da Lua Nova” e o xote “Estrada do Calumbandê”. A grande reviravolta em sua carreira viria enfim ao apresentar seu “Prelúdio Para Ninar Gente Grande”, talvez sua mais significativa criação. Cantada pelo Brasil inteiro, foi regravada e entrou no repertório de vários cantores célebres do período. Logo seguida veio outro sucesso estrondoso, “Paz Do Meu Amor”, uma das mais lindas canções já escritas da MPB. Destas que te pega de primeira, comovente.
Quando virou figura carimbada na mídia, se apresentando costumeiramente em rádios e TVs, Luiz Vieira aproveitou a celebridade para “gritar” com veemência contra a seca no Nordeste. Como não poderia deixar de ser, teve a casa invadida e revirada e foi se “defender” pelos grotões do país. De qualquer forma, viu suas criações serem registradas por cantores como Caetano Veloso, que gravou lindamente sua Na Asa do Vento (parceria com João do Vale) no disco Jóia. Além de intérpretes menos votados, suas canções foram gravadas também por Bethânia, Rita Lee, Fagner, Elba Ramalho e Zizi Possi. Gente de peso!
Não sei por onde anda e o que faz atualmente o meu ídolo de infância. Sei que tem 3 filhos, sendo 2 gêmeos do segundo casamento. Seja como for, LUIZ VIEIRA continua vivo e sagaz nas minhas melhores lembranças e no coração de muita gente! Hare Krishna!

Luz nas Trevas – a volta do Bandido da Luz Vermelha
(Brasil, 2010). Policial, 83 min.

 

Principal representante do “Cinema Marginal”, Rogério Sganzerla desejava realizar uma continuação de “O Bandido da Luz Vermelha”. Lançado em 1968, a obra maior do diretor catarinense trouxe uma linguagem bastante inovadora para o cinema nacional, desconstruindo tudo aquilo já visto por aqui. No entanto, Sganzerla não pôde colocar em prática o seu sonho já que faleceu em 2004, em decorrência de um tumor no cérebro.
Sendo assim, a viúva do cineasta e estrela de muitos de seus filmes, Helena Ignez, prosseguiu com o projeto. Em Luz nas Trevas – a Volta do Bandido da Luz Vermelha, ela dividiu a direção com Ícaro Martins. Na história, Jorge Prado (Ney Matogrosso) é condenado por todos os seus crimes e tantos outros que não cometeu. Personagem central de outrora, ele deixa de ser o principal foco e passa-se a acompanhar a trajetória de seu filho, Tudo ou Nada, em duas fases: na infância e adolescência, quando questiona à mãe (Sandra Corveloni) quem é o pai; e enquanto adulto (quando é interpretado por André Guerreiro Lopes).
Tudo ou Nada segue os passos do pai, se tornando um criminoso nos moldes do progenitor, invadindo casas para assaltar e ter relações com as mulheres presentes. No vagar, conhece Jane (a bela Djin Sganzerla, casada com Lopes e filha de Helena e Rogério) e desenvolve uma relação com ela. Não por acaso, o papel de Djin é bastante parecido com o da mãe no clássico de 68. O bandido é igualmente perseguido por uma polícia corrupta, ávida por colocar as mãos nessa figura que causa o terror na cidade de São Paulo.
Rico em referências, que vão desde “Acossado” a Jimi Hendrix, o filme é bastante feliz e honra tanto a memória de Sganzerla quanto a de seu longa-metragem. É extremamente bem executado sob o ponto de vista técnico com a câmera por vezes inclinada e montagem acelerada, coincidindo com o ritmo frenético do anti-herói. É prazeroso ver Sergio Mamberti (que havia feito uma ponta muito divertida em “Bandido…”) retornar na figura de um político em época de candidatura e a presença iluminada de atrizes como Simone Spoladore, Bruna Lombardi e Sandra Corveloni, além da figura emblemática de José Mojica.
Os diretores também recorrem à utilização de filtros de cor, e o mais utilizado naturalmente é o vermelho. E à presença de imagens de arquivo de “O Bandido da Luz Vermelha”, com citações marcantes. “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”, o que deixa claro o tom anarquista da fita.
Outra situação nítida é a apreciação de Sganzerla pelas histórias em quadrinho. A linguagem dos dois filmes remete à caricatura presente no estilo das HQs. Os créditos iniciais são apresentados da mesma forma que no filme de Sganzerla, quando apareciam em um letreiro eletrônico na rua. As ações também são narradas no estilo de um noticiário policial radiofônico.
Neste momento, “Luz nas Trevas…” se encontra em cartaz na sessão de arte do UCI Recife. Nos finais de semana, é exibido às 12h10 e de segunda a quinta às 19h20. O resultado é intenso, provocativo, contudo, mais acessível que a obra de Rogério Sganzerla. Fica o registro desta que é uma importante continuação de um grande longa-metragem.
Relembrando O Bandido da Luz Vermelha ****
Brasil, 1968. P&B. Ação, 92 min. Idioma: Português. Direção e roteiro: Rogério Sganzerla. Fotografia: Peter Overbeck. Música: Sganzerla. Com: Paulo Villaça, Helena Ignez, Luiz Linhares, Pagano Sobrinho.

O filme é livremente inspirado na vida de João Acácio Pereira da Costa, meliante conhecido como “Bandido da Luz Vermelha” por usar uma lanterna dessa cor nas ações. Aqui, Jorge (Paulo Villaça) é um criminoso que costuma estuprar, assaltar e matar suas vítimas de classe média alta ao invadir suas residências. Por sua maneira peculiar de agir, usando vários disfarces, a captura é bastante difícil e a polícia leva muito tempo para saber de quem se trata.
Ele se envolve com Janete Jane (Helena Ignez, mulher do diretor e ex de Glauber Rocha), ligada à organização “Mão Negra”, de que faz parte o político popular e corrupto das classes baixas J.B. (Pagano Sobrinho). É denunciado por ela e, como vingança acaba matando-a para pouco tempo depois se matar (essa morte é parecida com a que acontece em “Pierrot Le Fou”, de Godard, embora Jorginho morra eletrocutado, junto com o policial Cabeção – Luiz Linhares, uma morte um tanto trash).
O filme já inicia de uma forma não convencional quando os créditos aparecem em um letreiro eletrônico na rua. Sempre mencionando a região da Boca do Lixo, periferia paulistana. É descrito como “um faroeste sobre o terceiro mundo”. As ações são narradas por duas pessoas no estilo de um programa policial de rádio, a exemplo de um “Bandeira 2” da vida, de uma forma bem irônica.
A trilha é bem bacana, fazendo uso de música clássica, rock americano, folk e música latina, entre outros gêneros. Há ainda uma referência ao filme “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias, ao aparecer um cartaz. Procurando sempre ressaltar a condição de terceiro mundo e possui frases que coincidem com isso como “o terceiro mundo vai explodir”. É o longa-metragem de estreia do diretor catarinense e tido como sua obra-prima.
Sônia Braga chega a fazer uma pequena participação como uma das vítimas, fazendo sua estreia no cinema. Sérgio Mamberti faz uma notável e divertida ponta como um gay passageiro do táxi dirigido pelo bandido. Sem dúvida, é uma das obras fundamentais de nosso cinema.