Arquivo de novembro, 2012

Publicado: 24/11/2012 em Poesia

T U C A

Lembro com carinho daquela moça gordinha, rostinho arredondado, que cantava tão bem e, principalmente dedilhava seu violão com ricas harmonizações e melodias sofisticadas. Estava sempre presente em festivais, shows e programas de TV quase sempre ladeada por aquela molecada que já se firmara como a nata da MPB. Estou falando de Chico Buarque, Edu Lobo, Nara Leão, Elis Regina e principalmente Geraldo Vandré, com quem escreveu em parceria ocasionalmente. Se muita gente não lembra dela pelo seu apelido, que virou “nome artístico”, TUCA, que dirá de seu verdadeiro nome, VALENZA ZAGNI DA SILVA ?

Nascida em São Paulo em 1944, aos 13 anos já havia concluído o curso de Música Erudita pelo Conservatório Paulista. À partir de então começou à compor embora também tenha sido chamada à interpretar canções de outros colegas em festivais, como foi o caso de PORTA ESTANDARTE de Geraldo Vandré e Fernando Lona, vencendo o 1º Festival de MPB da TV Excelsior. Antes, conhecera essa turma, ao participar de circuitos universitários em Sampa. Com a música CAVALEIRO, que compôs com Vandré, ficou com o 2º lugar no Festival Internacional da Canção realizado no Rio de Janeiro.

Seu primeiro LP, chamado “MEU EU, TUCA!” revelava uma artista inquieta,pouco convencional que, embora inspirada pela Bossa Nova, introduziu elementos da música “caipira” nas suas criações, como a “viola”. Uma ousadia que chamou a atenção da crítica e dos colegas mas teve discreta vendagem. No disco seguinte, flertando com o Tropicalismo, misturou elementos da música medieval à letras de “protesto”. Afinal, estávamos em 1968.
Nessa época, resolveu fixar residência em Paris, onde de início, lançou um “compacto” com Negro Negrito/Que C’est Bom L’amour. Registrado em italiano e francês, o “single” foi bem sucedido e a levou à excursões pela Europa, ganhando uma grande admiradora e amiga, a cantora FRANÇOISE HARDY. A bela francesa terminou por gravar um disco tendo Tuca como arranjadora e violonista, chamado LA QUESTION. A curiosidade ? todas as músicas eram (são) de autoria de TUCA, exceto a última faixa que foi escrita por… TAIGUARA. A batida bossanovística, as harmonias incomuns, belas letras e melodias tornaram o álbum, até os dias atuais, o melhor trabalho da carreira de Françoise, segundo a crítica da Europa. Cá prá nós, um disco de MPB cantado em francês. Sublime. Outra curiosidade é que a canção-título, “La Question”, estourou até no Japão, e no Brasil fez sucesso ao ser incluída na trilha sonora “internacional” da novela arrasa quarteirão, SELVA DE PEDRA. Nesse mesmo período, NARA LEÃO foi à França gravar seu disco “DEZ ANOS DEPOIS”, no qual TUCA participou efetivamente como compositora e violonista. Contudo, apesar de ter suas criações gravadas por vários artistas brasileiros, nada pode se comparar ao sucesso de La Question.

Em 1975, muito bem sucedida na Europa, TUCA resolveu voltar ao Brasil. Lançou um disco vanguardista, belo mas melancólico chamado “DRÁCULA, I LOVE YOU!” totalmente fora dos padrões da MPB de então. Misturava rock, samba e muito experimentalismo. Muito comentado mas esnobado pelas rádios e TVs apesar de sair pela SOM LIVRE da Globo.

Uma parada cardíaca, em 1978, decorrente do excesso de remédios para emagrecer, levou TUCA para o andar de cima. E ela tinha apenas 34 anos. E enfim, fim !

S I M P L Y     R E D

Convenhamos, o “ruivo” canta muito ! E cada vez mais e melhor. MICK  HUCKNALL é além de tudo uma figuraça. Tranquilo, sorridente, canta com convicção e prazer facilmente detectáveis, mas ao mesmo tempo, longe, longe de afetações. Eu até demorei um pouco para percebê-lo. Conhecia algumas “doses” de seu talento, mas assistir ao SIMPLY RED no ROCK IN RIO em 93 foi revelador. Acreditem, não consegui desgrudar da TV, atônito com a beleza das canções e a interpretação de MICK acompanhado por músicos impecáveis, de matar de inveja muito afro-americano da gema. Poderia uma banda inglesa, oriunda de Manchester fazer uma “soul music” tão correta, elegante e sincera ? E… tão melhor ? Claro que sim! Típico do mundo da música.

Tanto que os criadores do estilo veneram o Mick Hucknall e foi lá, na América que o SIMPLY RED “estourou” primeiro suas músicas e seus discos. Pois sim!

Durante o movimento punk nos 70, MICK fez parte de uma banda chamada “Frantic Elevators”, de tiro curto mas, que o ajudou a perceber que seu estilo era outro, tinha um que daquelas baladas e balanços característicos da música “soul” americana. Tanto que aos 17 anos acabara de escrever sua primeira canção, Holding Back The Years, inpirado na mãe que o abandonara ainda garoto. Ao formar com sua turma da cidade o SIMPLY RED, contratados pela gravadora ELEKTRA, foi esta canção a primeira a estourar na América, apesar do sucesso discreto de Money’s Too Tight to Mention. Ambas do primeiro álbum, PICTURE BOOK. Nesse período o conjunto exibiu-se nos palcos mais descolados da Europa, inclusive no Festival de Montreux, na Suiça.

Estávamos ali, por volta de 1985 e desde então ficou claro que Mick Hucknall ditava as cartas na banda. Não de forma ditatorial, como poderia parecer, mas ao juntar o grupo, ele o fez deixando claro qual seria o estilo e a linha à seguir. E assim, desde os primeiros passos, alguns músicos foram se afastando e outros ocupando seus lugares mas isso não se fazia notar porque o “espírito” do grupo mantinha-se inalterado e seus membros cada vez mais cosmopolitas. Tinha americano, japonês, africano e até o guitarrista brasileiro HEITOR T.P. que no Rock In Rio serviu também como intérprete no palco, anunciando as canções. Outro detalhe que ratifica essa tese é que em todas as capas dos álbuns, apenas aparece a figura de MICK com seus cabelos vermelhos.

Sem tirar os pés do chão, o grupo flerta com estilos diversos como o reggae e a salsa e mesmo registrando predominantemente as músicas escritas por Mick, este costuma sempre mergulhar no passado, resgatando pérolas esquecidas por muitos e certamente, até desconhecidas pelas novas gerações. Músicas que costumam ganhar arranjos contemporâneos, interpretações sinceras e que por isso mesmo voltam a tornar-se clássicas. Posso citar de memória maravilhas como: Every Time We Say Goodbye, If You Don’t Know Me By Now, A Song For You e You Make Me Feel Brand New. Merece citação à parte a toada Positively 4th Street de Bob Dylan. Canção bela mas originalmente de melodia monótona, que se repete, ganhou um arranjo soberbo, robusto; ou seja, o primeiro verso é acompanhado por um saliente violão aço e a partir dos versos seguintes outros instrumentos vão se encaixando nas harmonias, um após o outro, entremeados por um “riff” de sopros empolgante. Certeiro.

Voltando aos álbuns do SIMPLY RED, Men And Women foi o segundo. E após uma excursão, o conjunto entrou em férias. Mick refugiou-se em Milão, fugindo dos tablóides ingleses que tratavam-no como milionário excêntrico e mulherengo. O artista adora a Itália cuja língua fala fluentemente e foi ali que começou a compor e elaborar o disco seguinte, A New Flame, que além da “soul music” traz toques do jazz e do pop. Em 1990 o Simply Red lança seu melhor e mais bem sucedido trabalho. Caprichadamente produzido, STARS nos delicia com a faixa-título, For Your Babies, Something Got Me Started e a cadenciada Your Mirror. 5 hits imediatos. Já em meados dos anos 2000, chegou às lojas o CD HOME e a banda caprichou em um de seus melhores momentos, registrando em DVD seu show de lançamento numa locação paradisíaca na Sicília, esbanjando elegância, competência e talento. É um dos meus poucos DVDs de cabeceira. Sensacional.

Em 2010, Mick Hucknall anunciou que a banda chegara ao fim. E junto com os CDs contendo seus maiores êxitos , ganharam o mundo naquela que seria sua última excursão. A reação foi de comoção, lágrimas e deleite por onde passou, inclusive no Brasil (incluindo o Recife). Até agora cumpriram o que prometeram e pararam. Deixando no ar a pergunta: o que fará o Mick Hucknall ? Sinceramente, para mim bastaria que ele fizesse mais do mesmo! Sem pestanejar!

It’s only SCORSESE … BUT I LIKE IT !

joao carlos de mendonca
Por João Carlos de Mendonça.

O fato é que dia desses, conversando com o primo Sílvio Cavalcanti sobre o tema, ele me deu uns toques interessantíssimos sobre os documentários musicais produzidos e/ou dirigidos por MARTIN SCORCESE, inclusive detalhes que creio, a grande maioria dos fãs de rock e blues desconhece. Fiquei matutando sobre e… entrei em campo. Achei um bom material e constatei que conhecia 99% do conteúdo mas não lembrava das mãos de Scorsese neles. São filmes fundamentais , e acreditem, todos estão entre os melhores já produzidos.O cineasta evidentemente, revela-se um profundo conhecedor do rock. Alguém que certamente acompanha (e acompanhou de perto) toda a cena e que, como todos nós, tem suas preferências. Então tão !

WOODSTOCK (1969)
O festival mais icônico do rock, embora meio bagunçado, revelou ao mundo boa parte dos talentosos artistas que, à partir dali, ganhariam corações e mentes daquela e várias gerações. Destacando-se JOAN BAEZ, RITCHIE HAVENS, JOE COCKER, THE WHO, SANTANA e JIMI HENDRIX. Mais que os 3 discos lançados, foi o excelente filme o maior responsável pelo seu sucesso extraordinário. MARTIN SCORCESE não só trabalhou na montagem como atuou como assistente.

THE BAND: THE LAST WALTZ (1978)
Dirigido por nosso personagem, A ÚLTIMA VALSA documenta o show de despedida do grupo THE BAND de forma irretocável. Tanto que, para muitos, é o melhor filme no estilo. O brilhante conjunto que gravou e excursionou com BOB DYLAN, faz um balanço musical de seu melhor material com participações estelares: O próprio DYLAN, ERIC CLAPTON, VAN MORRISON, MUDDY WATERS e RINGO STARR, entre outros. Imperdível. Foi por esse filme que virei fã de carteirinha do THE BAND.

ERIC CLAPTON: NOTHING BUT THE BLUES (1995)
Diz-se, fala-se, comenta-se… mas ninguém viu! Ao menos oficialmente. Acontece que Scorsese montou uma biografia do mais celebrado guitarrista/cantor/compositor de sempre, recheado de depoimentos e performances ao vivo, especialmente do disco From The Cradle. Infelizmente esse não chegou às telas e ninguém sabe a razão. Também é impossível descobrir a origem das cópias piratas que rolam mundo afora. Deve ser, no mínimo, ótimo !

NO DIRECTION HOME: BOB DYLAN (2005)
Este documentário cobre o periodo inicial da carreira de DYLAN (1961/1966). Registra a chegada do bardo à Nova York (para conhecer seu guru, WOODY GUTHRIE). Seus primeiros sucessos, suas apresentações acústicas e a fase em que juntou-se ao THE BAND para eletrificar sua música, quando foi tachado como “traidor” pelos fãs folk-radicais. A verve afiada de Dylan, devidamente captada pelo diretor, é uma delícia! Bastante revelador e portanto, fundamental.

SHINE A LIGHT: THE ROLLING STONES (2008)
Muito mais que a filmagem de um show (na verdade foram dois), SCORSESE também dá um “show”, revelando pormenores, depoimentos do grupo lá “das antigas” e traços da personalidade dos 4 membros remanescentes da melhor banda de rock em atividade. Absolutamente caprichado, o filme exibe o conjunto como nunca antes. Seja na sonoridade, nas imagens. O repertório não poderia ser melhor, e as rugas não são disfarçadas… muito pelo contrário, revelam que quem tem história sabe o que sabe. As presenças decorativas de CHRISTINA AGUILERA e JACK WHITE (do White Stripes) não estragam nada mas BUDDY GUY faz diferença… e como ! A nota engraçada/curiosa é a presença do próprio Scorsese discutindo com a banda no início das filmagens e, na saída do palco, orientando (bem excitado) os câmeras ! Sorte dos Stones de terem um fã tão fã como o cineasta.

GEORGE HARRISON : LIVING IN THE MATERIAL WORLD (2011)
Sensacional e absolutamente completo. A personalidade do genial “beatle” GEORGE HARRISON é exposta com indisfarçáveis carinho , admiração e respeito. Começando pela infância em Liverpool, a paixão pelas guitarras, os ídolos,a amizade colegial com McCartney, a entrada nos Quarrymen de Lennon, a descoberta do sexo e da barra pesada de Hamburgo, a soberba carreira com os BEATLES, a carreira solo, os projetos paralelos, os amores, o filho único e a definitiva “levitação” do beatle mais amado. Tudo isso recheado por depoimentos mais que significativos e claro, música da melhor qualidade! O filme revela com competência o envolvimento de Harrison com a cultura indiana e como ele absorveu tudo aquilo. Genial !

Outro item essencial do envolvimento de Scorsese com a música é a coleção THE BLUES de 2003. Além de produzir todos os 7 episódios, para os quais ele convocou 6 colegas, ele mesmo dirigiu um deles. Biscoito finíssimo.

Agora entendo porque ele é reconhecido como “o maior cineasta americano vivo”. Já não bastasse sua obra genial na, digamos, filmografia “convencional”, o currículo musical de Martin Scorcese nos revela um brilhante, inventivo e com conhecimento de causa, roqueiro empedernido. Se você já assistiu alguns dos musicais acima, há de concordar comigo ! Yeah !

Os 70 anos de Martin Scorsese

Por Houldini Nascimento.

 

houldine nascimento

Um dos maiores nomes do cinema americano, Martin Marcantonio Luciano Scorsese completará, no dia 17 de novembro, 70 anos. Para celebrar esse grande momento, preparamos um especial com a vida e a obra do diretor nova-iorquino.

Nascido no distrito de Queens e criado em Little Italy, lugar que serviu de inspiração para vários de seus filmes, Scorsese é uma figura querida no meio cinematográfico. Scorsese tem raízes fincadas na Itália (seus avós emigraram para os EUA). Não por acaso, traz muito do país europeu para os seus filmes. De baixa estatura, “Marty” – como é chamado carinhosamente – conta com obras de enorme valor em sua carreira.

Sua trajetória se confunde com a própria formação da Nova Hollywood, período em que os diretores foram peça-chave na indústria. Dos grandes nomes daquela geração, é o que continua a fazer bons filmes.

O destaque inicial se deu com “Caminhos Perigosos” (1973), primeiro trabalho com Robert De Niro e contando com a presença de Harvey Keitel, seu amigo de escola. O filme é colocado informalmente como o início da “Trilogia da Máfia”, abrindo caminho para “Os bons companheiros” e “Cassino”. Antes de ser aceito pela Warner, Mean Streets (título original) foi rejeitado pela Paramount, contrariando as expectativas.

Um ano depois, por indicação da protagonista Ellen Burstyn, dirigiu “Alice não mora mais aqui”. A atriz recebeu o Oscar por sua interpretação. A sua primeira obra-prima veio em 1976: Taxi Driver realizava uma abordagem dura das ruas de Nova Iorque, sob a visão do ex-combatente do Vietnã, Travis Bickle (De Niro). O longa foi agraciado com a Palma de Ouro, além de 4 nomeações ao Oscar. Há inclusive um monólogo impactante de um personagem feito pelo próprio diretor. A imponente trilha jazzística ficou por conta do lendário Bernard Herrmann.

Após os três sucessos, Scorsese partiu para um musical. O processo de feitura de New York, New York foi bastante conturbado, pois não havia um roteiro definido. Além disso, Martin sofria com o seu consumo desenfreado de drogas e as várias relações amorosas, incluindo o caso mantido com Liza Minnelli, estrela deste longa-metragem. Não em vão, o filme não obteve o êxito dos trabalhos anteriores.

Ele ficou magoado com a crítica. Somado a isso, tinha graves problemas de saúde. De Niro foi muito importante para sua recuperação. Por pouco nunca ouviríamos falar em “Touro Indomável” (1980). Mas o filme saiu, felizmente. A história trazia a vida do pugilista Jake La Motta, em uma primorosa fotografia em P&B. Robert De Niro venceu o Oscar de melhor ator e surgiu a primeira indicação para Scorsese na categoria direção. Martin acabou sendo derrotado por Robert Redford (“Gente como a gente”).

Ao longo da década de 80, mais trabalhos de bom nível: “O Rei da Comédia”, “Depois de Horas”, “A Cor do Dinheiro” e “A Última Tentação de Cristo” – católico fervoroso que é.

Em 1990, realiza o que é considerado um dos grandes filmes de máfia: “Os bons companheiros”. Novamente com a participação de seu ator favorito, De Niro, e Joe Pesci (“Touro Indomável”) é uma obra vigorosa, em que emprega toda energia em cada plano. The Goodfellas é colocado no mesmo patamar de “O Poderoso Chefão” e “Era uma vez na América”. Robert ainda apareceu em “Cabo do Medo”, remake do filme de 1962, transformando num thriller contínuo; e “Cassino”, trazendo a máfia de Las Vegas, durante a década de 70.

Mais perspectivas de sua cidade natal surgem com “A Época da Inocência”, ambientado no século 19, e “Gangues de Nova Iorque”, que trata da complicada formação da cidade, com a conflituosa imigração irlandesa. “Gangues…” marca o início de uma parceria entre Martin e o ator Leonardo DiCaprio, que se estendeu em “O Aviador”, biografia sobre o excêntrico magnata Howard Hughes; “Os Infiltrados”, refilmagem que garantiu uma tardia estatueta do Oscar para Scorsese, apenas na sexta nomeação; e “A Ilha do Medo”.

Recentemente, teve sua primeira experiência com o 3D ao realizar “A Invenção de Hugo Cabret”. Diferentemente de quase todos os filmes no formato, se vale de praticamente todos os recursos dessa tecnologia, além de executar uma belíssima homenagem ao início do cinema, em particular a Georges Méliès, um dos responsáveis pelo estabelecimento do cinema enquanto arte.

É interessante observar que foi preciso que cineastas consagrados fizessem uso da tecnologia para tirar bom proveito dela (Wim Wenders e Werner Herzog também foram bem-sucedidos em seus trabalhos com o 3D).

Scorsese também realizou bons documentários, muitos deles sobre músicos (como João bem abordou em seu texto). Ele tem alguns projetos encaminhados e o que chama mais atenção é uma biografia sobre Frank Sinatra, que deve ser lançada em 2014. Já no próximo ano, tem ao menos um filme para estrear: “O Lobo de Wall Street”, com DiCaprio no papel central.

Martin é cinéfilo de alto nível, além de “mecenas” da sétima arte (ele é o presidente da World Cinema Foundation, que tem como objetivo preservar filmes de regiões menos privilegiadas). O que impressiona é que, quanto mais o tempo passa, mais competente fica.

Festival
No 5º Janela Internacional de Cinema do Recife, que acontece desde o dia 9 e vai até o dia 18 deste mês, um clássico do diretor será exibido no São Luiz, próximo sábado (17), às 22h. É a grande oportunidade de ver “Taxi Driver” na tela

007 – Operação Skyfall (Skyfall, 2012)
Ação, 143 min.
Vigésimo-terceiro filme da franquia iniciada com ‘007 contra o satânico Dr. No’, em 1962, Operação Skyfall traz pela terceira vez Daniel Craig na pele de James Bond (“Cassino Royale” e “Quantum of Solace”). Nesta importante ocasião, que comemora os 50 anos da série no cinema, os produtores acertaram em cheio ao chamar o inglês Sam Mendes (“Beleza Americana”, “Foi Apenas um Sonho”) para a realização do projeto.
Na nova história, o agente 007 passa um bom período “nas sombras”, graças a uma missão mal sucedida em Istambul, onde foi roubada uma lista com os nomes dos agentes secretos da OTAN. A mando de “M” (Judi Dench, com presença mais efetiva), chefe do MI-6 – Serviço Secreto Britânico, ele tentava reaver o documento.
Numa sucessão de reveses, Bond desaparece. Para completar, a sede do MI6, em Londres, sofre atentado. Um acontecimento está ligado ao outro e James – ferido, mas não vencido – ressurge das cinzas para caçar os responsáveis.
Como é corriqueiro na série, há passagens por diversos lugares. Procurando pistas sobre quem está por trás dessa onda de crimes, Bond vai a Xangai e depois a Macau. Lá, estão os encantos de uma certa Sévérine (Bérénice Marlohe), mais uma a figurar no seleto grupo de Bondgirls.
Todo o ambiente de mistério é mantido até a entrada do antagonista. Silva (Javier Bardem) está em busca de vingança. Não tarda para perceber quem é o alvo e por quê. Diante desse entrave, se vê um jogo de gato e rato, enquanto há muita pressão em torno da líder do serviço secreto, tendo sugerida a renúncia.
Existe, ainda, uma preocupação em desenvolver o lado pessoal de Bond, ao resgatar suas raízes no interior da Escócia, lugar significativo para o desfecho da trama.
A obra se cercou dos melhores profissionais, incluindo o elenco, que contou também com Ralph Fiennes como o presidente do Comitê de Inteligência e Segurança. Houve uma feliz escolha do vilão, magistralmente composto por Bardem. Tudo isso proporcionou a “Skyfall” um enredo bem amarrado desde o começo. Em contrapartida, a participação do veterano Albert Finney não parece necessária.
No entanto, o grande diferencial – sobretudo quando se compara a ‘Quantum…’ – é que aqui não há situações injustificáveis, criadas simplesmente para dar intensidade à trama. Outro ponto positivo é a trilha de Thomas Newman, que garante um clima de suspense às cenas.
É interessante ver que as referências aos filmes anteriores são mantidas, como a Divisão Q, finalmente justificando sua presença. Ou então a volta do Aston Martin D85, cuja primeira aparição ocorreu em ‘007 contra Goldfinger’.
Não há como preterir a estonteante abertura na bela voz de Adele. Isso faz de “Operação Skyfall” uma bela homenagem e um dos melhores longas da franquia.

N O S S A    C A N Ç Ã O

Tive a sorte de conviver com gente de muito bom gosto musical. Fosse em Yellow House, Boa Viagem, Olinda, Rio… músicos, compositores, fãs e parentes. Sábados ensolarados, com muita cerveja, gargalhadas e boa conversa. Ora, em ambientes com tais convivas, de certa forma a “música” preponderava e eu sempre deixei claro o meu ponto de vista. Para mim uma canção popular tem de ter “letra e melodia” bem combinadas, completando-se. Seja em que estilo for, não adianta ter-se uma linda letra com uma melodia capenga (ou vice-versa); teremos uma canção fraca ou pior que isso. Mesmo em músicas “rápidas”, como um frevo,um samba balançado,um rock etc” , a letra tem de ser inteligentemente funcional. Não precisa ser necessariamente um poema magistral, contundente, erudito. Na maioria dos casos, as grandes músicas populares de sempre são justamente aquelas escritas sem a menor intenção de serem “as grandes músicas populares de sempre”. Bom, há inúmeros exemplos.
Foi nessas rodas de botecos que descobri que longe de ser o único, todos nós nos deparamos com duas situações bem curiosas e todos temos nossos exemplos. A primeira é a “ADORO ESSE LIXO”. Nesse caso, às vezes a gente não sabe explicar e nem sabe o porque de “gostarmos autenticamente” de uma canção ruim. A letra é terrível, a melodia é chata, a interpretação e o arranjo são óbvios mas, sabe-se lá… a danada da musiquinha nos pegou. Ao ouvi-la sentimos algo agradável, mesmo reconhecendo tratar-se de uma canção bem ruinzinha. Imagino que esta, esteja associada a algum momento afetivamente significativo e feliz de nossas vidas. Ou mesmo um momento carregado de emoções fortes. Recém casado, minha primogênita com 6 meses e enquanto eu descia a escadaria rumo ao Rio, de algum lugar surge a voz de Roberto Carlos cantando TUDO PÁRA. Na verdade, mais uma daquelas baladas tiradas do seu livro de receitas (como tantas outras). Quase 6 meses de saudades depois, de volta à Candeias, espraiado na rede, contemplando minha tribo e meus amores, não é que do mesmo “sei-lá-de-onde”, Roberto Carlos reaparece com “tudo pára quando a gente faz amor” (oh refrãozinho besta!) , e eu ali, surpreso e comovido. Pois é… adoro esse lixo!”
Dia desses por aqui, o DOMINGÃO confessou sua paixão pela versão que o grupo Nenhum De Nós cometeu com STARMAN de David Bowie, transformando-a em ASTRONAUTA DE MÁRMORE. Nosso poeta declarou, salvo engano, que a música o remetia aos primeiros “flertes” com sua amada ANA. Dizem por ai, à boca miúda, que a nossa MAGNA ainda hoje em dia é capaz de repetir com o mesmo tom de voz e coreografia perfeita, VOU DE TÁXI , clássico da ANGÉLICA. Sei não, mas provavelmente ela vai negar. Até nosso irmão ARSÊNIO, que mesmo nos títulos do Sport e até com o nascimento do José Vicente, controlou-se, celebrando com apenas 3 doses de White Horse, admite que “derruba” um litrão de 51 com queijo coalho ao ouvir COISA CRISTALINA com WANDO. E tome lágrimas! Todo mundo sabe que o ANDRÉ GUSTAVO é apaixonado por EU QUERIA SER JOHN LENNON do ODAIR JOSÉ, mas chame-o para um “surrasco” cervejado e regado a NÃO SE VÁ com a dupla JANE & HERONDY… e ele repete direitinho as duas vozes e faz questão de ficar recolocando a “agulha” da radiola na mesma faixa. 1000 vezes. SÓSTENES, fã incondicional de Lia de Itamaracá, me segredou que ROSE FALANGOLA adora EU DARIA MINHA VIDA na voz de Martinha. Mas surpresa mesmo foi saber por Toinho que DENISE guarda à sete chaves o CD Duplo “The Best of PERLA”. Até o nosso irmão caçula EDGAR MATTOS, que nunca negou sua grande admiração pelo tango e que aproveita sua insônia para produzir aquelas crônicas que nos deliciam, segundo contou-me fonte absolutamente insegura, andou se afastando dos blogs, nos deixando órfãos de sua inteligência, não apenas pelo motivo por ele alegado. Na verdade, desde o lançamento no final de 2010 do visceral álbum HEBE MULHER, não consegue ter “ouvidos” (e tempo) para mais nada! Nem para a Paula Fernandes. Bom, chega de “entregação!”

A segunda situação, é exatamente o contrário, ou seja: “TODO MUNDO ADORA… MENOS EU! Sabe aquela música que é unanimidade em todas as épocas, por várias gerações e sempre por gente de todas as idades ? Aquela canção que é admirada no mundo inteiro por pessoas comuns, iniciados, músicos e compositores ? Aquela que tem letra, melodia e harmonias perfeitas ? Mas… apesar de você mesmo reconhecer essas qualidades na canção , contudo e com tudo… não bate! Por mais que você tenha tentado, por mais boa vontade… você não consegue gostar da “bichinha”. E francamente, às vezes a gente até esconde isso. É mais ou menos o mesmo caso. Todo mundo tem ao menos, “uma”. Mesmo que negue! Eu mesmo tenho muitas. Algumas, realmente eu não sei a razão mas tem algumas que não me nego à dá a cara às tapas. Vejamos CONSTRUÇÃO de Chico Buarque. A letra é inegavelmente épica. E num dado momento,quando ele inverte os versos é prá matar de inveja. No entanto, a melodia (em tom menor) é monótona, repetitiva e previsível. Muito curta para uma letra enorme. Nunca me agradou, nem me pegou! Mesmo assim, recentemente, ouvi-o canta-la ao vivo. Ele acelerou o andamento,adiantou os versos, ela ficou bem mais curta e… funcionou! Mas a versão original… Outra que nunca me agradou , ROSA de Pixinguinha. Melodia soberba. Irretocável em sua beleza clássica. Mas alguém, dizem que foi um mecânico de automóvel (o que não é desculpa), escreveu uma letra : “tu és/divina e graciosa/estátua majestosa/do amooooor… e daí prá pior! Essa nem GERALDO MAIA e YAMANDU salvaram. E estou falando de GERALDO, que fez Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme, parecer música de verdade. Mas não me apedrejem. Sou apenas um rapaz latindo ali no canto. Imagina se eu tivesse dito de que CHÃO DE ESTRELAS é uma das piores coisas que já ouvi ? E em todos os quesitos ? Digo nada!

James Bond

O novo filme da franquia 007, “Operação Skyfall”, está nos cinemas. Aproveitando o momento, vamos relembrar alguns filmes protagonizados pelo personagem criado por Ian Fleming nos anos 50 e que sempre foram sucesso de público.

– 007 contra o Satânico Dr. No (Dr. No, 1962)
Aventura, 110 min. Direção: Terence Young. Com: Sean Connery (Bond), Ursula Andress (Honey Ryder), Joseph Wiseman (No), Bernard Lee (M).

Primeiro longa da série traz James Bond investigando o desaparecimento de dois agentes do MI-6 na Jamaica. Por trás disso, um cientista que realiza experimentos com foguetes em sua ilha, tentando interferir no sistema espacial norte-americano. Ursula Andress é a primeira “Bond Girl” e tinha um corpo escultural (ela só entra com mais de uma hora de filme). Algumas atitudes do personagem central não se justificam (como o fio de cabelo que coloca no guarda-roupa) e as cenas de ação são mal encenadas e não empolgam. Há um momento em que se faz o bom uso do som e da imagem quando Bond se depara com uma aranha venenosa enquanto dorme e depois a mata a sapatadas. A grande importância de “Dr. No” é o fato de ter iniciado a série no cinema.

– Moscou contra 007 (From russia with love, 1963)
Aventura, 115 min. Direção: Terence Young. Com: Sean Connery (Bond), Robert Shaw (Red Grant), Lotte Lenya (Rosa Klebb), Daniela Bianchi (Tatiana Romanova), Pedro Armendáriz (Kerim Bey), Bernard Lee (M), Lois Maxwell (Moneypenny).

Na nova missão, James Bond se envolve com uma agente russa e terá de recuperar um decodificador que dá acesso aos segredos da União Soviética das mãos da SPECTRE, enfrentando os vilões Grant e Klebb, ex-agente da KGB. Dos primeiros filmes de 007, este é o meu favorito, seja pela direção segura, a boa execução das lutas, etc. É o primeiro no qual o “Q” (Desmond Llewelyn) – aqui apenas como Major Boothroyd – aparece. O livro era o favorito do presidente John Kennedy. Connery por pouco não faleceu durante as filmagens das cenas em que escapa de um helicóptero.

– 007 contra Goldfinger (Goldfinger, 1964)
Aventura, 110 min. Direção: Guy Hamilton. Com: Sean Connery (Bond), Gert Fröbe (Auric Goldfinger), Honor Blackman (Pussy Galore), Shirley Eaton (Jill Masterson), Tania Mallet (Tilly Masterson), Harold Sakata (Oddjob), Bernard Lee (M.).

Contando com novo diretor, o terceiro filme da série mostra Bond no encalço de Auric Goldfinger, homem especializado no comércio de barras de ouro. O agente 007 tenta impedir o vilão de lançar material radioativo no Fort Bank (onde está a reserva de ouro dos EUA). Goldfinger pretende com este ato valorizar o produto e lucrar muito mais. ‘Goldfinger’ costumar ser posicionado entre os mais queridos filmes da franquia. Aqui é feito o uso bem adequado da trilha sonora e a realização é bem madura. De forma inédita, uma canção interpretada – por Shirley Bassey – faz parte dos créditos iniciais, fazendo escola para o restante da série. Connery ainda protagonizou mais quatro trabalhos.
– Com 007 viva e deixe morrer (Live and let die, 1973)
Aventura/ação, 121 min. Direção: Guy Hamilton. Com: Roger Moore (Bond), Yaphet Kotto (Kananga/ Mr.Big), Jane Seymour (Soliteire), Bernard Lee (M), Lois Maxwell (Moneypenny), Clifton James (Xerife Pepper).

Três agentes do MI-6 são assassinados em diferentes pontos do planeta. Bond é designado para investigar esses acontecimentos e vê que um poderoso magnata da heroína, Kananga, está por trás disso. A partir dessa situação, passa a investigá-lo e se envolve com Solitaire, mulher do mafioso. É o primeiro de sete filmes protagonizados por Roger Moore, sempre marcando o personagem de forma irreverente. A canção composta e interpretada por Paul McCartney, “Live and let die”, foi indicada ao Oscar. Yaphet faz com competência o antagonista. A história envolve misticismo.

– 007 contra GoldenEye (GoldenEye, 1995)
Ação, 130 min. Direção: Martin Campbell. Com: Pierce Brosnan (Bond), Sean Bean (Alec Trevelyan), Izabella Scorupco (Natalya Simonova), Famke Janssen (Xelia Onatopp), Judi Dench (M), Alan Cumming (Boris Grishenko).

James Bond tenta impedir a ativação de uma arma nuclear espacial russa chamada “GoldenEye”. Um ex-agente do MI-6 com quem invadiu uma fábrica de armas químicas soviéticas há alguns anos está envolvido nisso. Depois de duas bilheterias aquém do que os produtores esperavam, quando Timothy Dalton estava no papel central (1987 e 89), além de disputas judiciais, a franquia é reiniciada (Pierce ainda faria mais três trabalhos: O amanhã nunca morre, 97; O mundo não é o bastante, 1999; Um novo dia para morrer, 2002). Judi Dench estréia como chefe do MI-6. A trama tem como pano de fundo o encerramento da Guerra Fria. Os sotaques russos feitos por atores do ocidente são o ponto negativo deste filme.

– 007-Cassino Royale (Casino Royale, 2006)
Ação/aventura, 145 min. Direção: Martin Campbell. Com: Daniel Craig (Bond), Judi Dench (M), Eva Green (Vesper Lynd), Mads Mikkelsen (Le Chiffre), Giancarlo Giannini (Rene Mathis), Jeffrey Wright (Felix Leiter).

21º longa oficial e primeiro trabalho de Daniel Craig como James Bond (é o sexto ator a viver o papel). O filme mostra Bond em sua primeira missão, tentando capturar Le Chiffre, banqueiro de organizações terroristas. Para isso, ele vai até um cassino, em Montenegro, e participa de uma disputa de pôquer com o criminoso. É o melhor filme da série. Chris Cornell (ex-Audioslave) compôs e interpretou o tema principal, “You know my name”. Ao contrário do que muita gente diz, Craig – mais sisudo, sem dúvida – conferiu uma abordagem muito interessante ao personagem.

R O C K    ‘n’    R O L L  –  L E N N O N

Este é um álbum atípico de John Lennon, especialmente pela época em que foi lançado. Do ponto de vista pessoal, ele estava separado de Yoko, residindo em L.A. junto com Harry Nilsson, Keith Moon, Ringo, May Pang e quem chegasse por lá, enquanto brigava com a imigração para permanecer nos EUA. Musicalmente, ele tinha perdido um pouco o prumo, envolvido em projetos vanguardistas com a “japa” e certamente, o fim-de-semana de 18 meses o fez livre para voar artisticamente sem pressões estéticas, o que rendeu 2 discos “irresistíveis”: WALLS AND BRIDGES e ROCK ‘n’ ROLL. Embora lançado depois, este último trabalho foi gravado parte antes e parte após o Walls And Bridges.

Gravar canções dos primórdios do rock não era nenhuma novidade, mas produzir um álbum inteiro só com aqueles “covers”  só poderia sair da então arejada cabeça de Lennon. Era um risco porque a grande maioria dos fãs dele, formada por universitários e ripongas-cabeças , desconhecia aquele repertório  com músicas eletrizantes mas com letras ingênuas, em sua maioria. Porém ele estava obstinado. Convidou Phill Spector para produzir e uma penca de músicos de primeira grandeza (entre estes,Jesse Ed Davis, Leon Russell e Jim Gordon). Mas este projeto com “standards” do rock, que ele adorava desde a adolescência, seria bastante conturbado. A primeira fase das gravações se deu em outubro de 1973 e foi bruscamente interrompido pelo seu desentendimento com Spector. Este, costumava chegar “chapado” no estúdio e não raro, armado com revolveres ameaçando os presentes, até que por fim, desapareceu com as fitas do disco, não sem antes largar John, amarrado à uma cadeira do Record Plant Studios. Por sua vez, o editor da música You Can’t Catch Me (Chuck Berry), sabendo do projeto,  ameaçou-o de um processo por plágio (trecho da letra e melodia de Come Together dos Beatles, tinha sido retirada da música de Berry) caso ele não gravasse alguma canção da editora. Uma vez acordado, John deu ao dito editor uma cópia inacabada do LP cujas vendas por correspondência ficariam ao seu encargo , mas só quando estivesse pronto. Acontece que a tal editora, imediatamente anunciou na TV e iniciou as vendas do disco com uma capa tosca que exibia uma foto de Lennon do Álbum Branco e com o título de Roots (raízes). Além de processá-lo, aborrecido, a idéia foi engavetada e John trabalhou e lançou o disco WALLS AND BRIDGES, que aliás trata-se de um discaço,com músicos da melhor safra de então e um Lennon inspiradíssimo. E fez um baita sucesso (merece um “post” dia desses).

De um projeto descartado, Rock “n” Roll  voltou à idéia de John que, retomou as gravações em dezembro de 1974. Durante 5 dias o disco foi finalizado e Lennon assumiu a produção. Um equívoco porque, apesar do sucesso estrondoso do álbum (chegou ao topo no mundo inteiro), este tinha um som fraco, sem graves e soava embolado. A gente ouvia o disco atentamente e percebia arranjos maravilhosos, interpretações certeiras mas tremendamente mal distribuídos e…aquele som de rádio-de-pilhas. Foram gravadas quase o dobro das canções lançadas para que se chegasse à uma coleção de músicas coerentes, na dose certa. Os arranjos são empolgantes. Longe de repetir os originais, Lennon registrou os clássicos com levadas de reggae, funk, belas guitarras (o “slide” de Ed Davis soando perfeito) e muito rock, claro. E isso talvez tenha sido o que alavancou o LP na época. Inclusive o single com “STAND BY ME”.

Para os fãs mais exigentes, este disco virou uma espécie de frustração. Sabia-se tratar-se de um grande trabalho mas por que o som era tão fraco ao ponto de evitarmos ouvi-lo ? Eu mesmo, sempre ficava acabrunhado a cada audição. Como algo tão bem executado poderia ecoar de forma tão ruim ?  A resposta veio recentemente.

Em 2010, faça-se justiça, graças a Yoko Ono, toda coleção de álbuns e “singles” de John Lennon foi REMASTERIZADA e, salvo grande engano, em Abbey Road. A velha competência estava de volta. Confesso que me comovi re-ouvindo o ROCK ‘n’ ROLL refeito. Um trabalho notável, digno de prêmios. Está tudo ali, mas da forma como o disco sempre mereceu. Tudo elegantemente bem distribuído. Graves , médios e agudos perfeitamente no ponto. Adeus guitarras emboladas e sopros mais ainda. Adeus rádio-de-pilha. Um somzão!  Um dos melhores Lennon que já ouvi. A idéia estava preservada mas com a dignidade recuperada. Alerto aos “puristas” que nada foi adulterado. Não se acrescentou nem  foi retirado nenhum som ali registrado. Para um LP que já tinha uma péssima sonoridade em 75, o que se fez foi atualizar e corrigir a sonoridade,  preservando-se o conteúdo.

Em Stand By Me as guitarras não se atrapalham. Do You Wanna Dance com sua levada funk/reggae está perfeita. Ain’t That A Shame assim como Sweet Little Sixteen são hipnóticas. Slippin And Slidin é prá sair pulando.Além da vigorosa balada Bring It On Home To Me. Mas curiosamente, a música mais empolgante, com o melhor balanço possível, é exatamente ela, You Can’t Catch Me (pois sim, senhor editor!). Mas amigos, não confundam nem comprem “gato por lebre”. Exija o disco REMASTERIZADO 2010. Para mim, o melhor álbum de “covers” do rock/pop já produzido. Um trabalho feito com paixão e convicção. No gogó Gugu!