Arquivo de abril, 2012

Sobre a morte e o morrer.

Publicado: 30/04/2012 em ESPIRITUALIDADE

 

Gil, na sua poesia imensa afirma: – morrer deve ser tão frio, como na hora do parto…

Rubem Alves, em sua filosofia extraordinária, lembra o bruxo Dom Juan quando afirma: – como você pode achar algo sério, se a morte está do seu lado esquerdo ao alcance da sua mão. Pergunte a ela – a morte como Conselheira.

Clarice Lispector termina A Hora da Estrela com um estupor e uma pergunta: – meu Deus só agora eu me lembrei que as pessoas morrem, mas EU TAMBÉM ?

Drummond morreu em vida logo depois de sua filha…

Castro Alves atiçou o Senhor ao afirmar que… o estilete de Deus quebrou a minha taça…

De noite, sempre nas conversas antes de dormir (ela sim eu quase sempre não durmo) me vem a pergunta eterna:

– O que nos acontece depois que sairmos deste mundo?

– Acho que voltamos para o lugar de onde viemos.

– Suor frio, taquicardia, insônia clara que virá depois da resposta. Não sei e toda vez que entro no caixão figuradamente, não consigo o tão sonhado desapego. Tenho tantas raízes por aqui…

– Mas será que teremos memória?

– Kundera responde por mim, lembrando que todo esforço do homem é para esquecer.

Será que viemos para esquecer de tudo?

Não há como viver no esquecimento se a morte respira junto a nós e seu hálito fresco se renova todo dia, como agora, em que presenciei mais um nascer do sol da minha varanda e sei que ELA está tão perto de mim que posso alcançá-la com meu braço…

Ela dorme o sono dos justos. Eu vou pagar meu Karma perambulando pela casa, sofá , rede, televisão, livro, internet, até que surja pelo cansaço a entrega ao sono brevis. Mais ou menos como nos debatemos diante da morte.

A vida inteira nos preparamos para não morrer.

A vida inteira nos iludimos com o esquecimento.

A vida inteira , na verdade, termina sendo apenas uma preparação.

Para a morte.

Que vem a ser algo desesperador. Estremecedor. Violentamente inútil.

As palavras irão desaparecer.

O conhecimento e a memória irão sucumbir.

A sua foice é tão poderosa que a comparam ao poder do AMOR.

A MORTE COMO CONSELHEIRA.

– A vejo tão bela entregue ainda ao sono dos justos. Já invejei o seu sono reparador, a sua tranquilidade, a sua coragem.

Hoje a admiro.

Quem consegue dormir de prima não deve temer a morte.

Pois consegue se desligar do mundo com rapidez e partir para o mundo dos sonhos.

Que creio, vem a ser o mundo dos mortos.

Onde podemos encontrar as pessoas que partiram.

Que nos deixaram aleijados.

De saudade…

De falta de ar…

Da total desorientação de não podermos simplesmente nos olharmos através dos olhos deles e delas.

Não há mais aquele abrir de portas e a expressão: – oh meu filho, você já jantou?

Não há mais aquelas mãos deslizando no piano e a voz de barítono me chamando: – meu filho venha escutar essa valsa…

Beijei aquelas mãos frias,

Beijei o rosto materno em cor de cera,

Me despedi de tanta gente neste meio século de desventuras,

Que acho natural , cruelmente natural, que daqui há pouco meus filhos estejam beijando o meu corpo em completa dissolução.

Buda sentou-se embaixo da árvore sagrada e começou o seu processo de dissolução no Universo.

Como creem os budistas.

E partiu na mais completa consciência, desperto, pronto para se dissolver.

Eu , sinceramente, agradeço por este dia de branco.

Dia de trabalhar.

Dia de fuga.

Dia de esquecimento.

A mente ocupada não deixa penetrar pensamentos sobre a morte.

E o morrer.

A vida quer pressa, quer urgência.

A vida quer da gente coragem.

E mesmo tremendo de medo, quase congelado, seguindo passo a passo.

Eu vou…

 

 

PS – Meu deus, só agora me lembrei que a gente morre. mas – mas eu também?! não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. sim.

Clarice Lispector

 

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes

 

A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.

Epicuro

 

SONETO LXV
Se a morte predomina na bravura
Do bronze, pedra, terra e imenso mar,
Pode sobreviver a formosura,
Tendo da flor a força a devastar?
Como pode o aroma do verão
Deter o forte assédio destes dias,
Se portas de aço e duras rochas não
Podem vencer do Tempo a tirania?
Onde ocultar – meditação atroz –
O ouro que o Tempo quer em sua arca?
Que mão pode deter seu pé veloz,
Ou que beleza o Tempo não demarca?
Nenhuma! A menos que este meu amor
Em negra tinta guarde o seu fulgor.

William Shakespeare

 

A morte parece menos terrível quando se está cansado.

Simone de Beauvoir

Anúncios

 

Bate em mais de 800.000 corações alvirrubros.

Pernambuco e Brasil afora.

Está longe do estelionato eleitoral, dos aproveitadores de plantão, dos políticos corneteiros, da tchurma do caixa 2, da tchurma no por fora que não consegue um patrocinador master, do marqueteiro ladrão.

Esse coração é de cada um que um dia já amou, ama e amará este clube com 111 anos de vida.

Poesia pura.

Amor incondicional.

Eles passarão rumo ao inferno.

Nós passarinhos, os inocentes do Rosarinho, Caxangá, Candeias, Boa Viagem, Recife, Pernambuco, Brasil, Terra.

 

AMÉM!!!

Pacific (2009), de Marcelo Pedroso

Documentário, 73 min.

 

O título “Pacific” foi extraído do navio de mesmo nome, onde as ações ocorrem, em que um grupo de pesquisadoras do filme esteve a bordo, participando de um cruzeiro. O processo de feitura do longa-metragem é esclarecido já nos primeiros minutos. A produção detectou que algumas pessoas executavam filmagens durante a viagem deste navio. Não houve uma abordagem inicial aos que realizavam estas imagens, por parte da equipe. Somente ao término delas, a produção se aproximou dessas pessoas. Possivelmente, isso conferiu uma espontaneidade maior aos que se apresentavam diante das câmeras.

Em dezembro de 2008, um cruzeiro de “sete dias e seis noites” (conforme esclarece uma passageira) partiu de Recife com destino ao paradisíaco arquipélago de Fernando de Noronha. Diante do que é exposto, o espectador tem acesso à intimidade/vida privada de vários passageiros de Pacific. Naturalmente, estes fazem parte de uma camada privilegiada da sociedade. Pessoas que aparentam viver o sonho de suas respectivas vidas.

Torna-se inevitável compará-lo a “Um Lugar ao Sol” (2009), de Gabriel Mascaro. Diferentemente do que é executado neste filme, Pacific mostra aqui um lado mais humanista das classes dominantes com o qual o outro bolo da sociedade talvez não esteja familiarizado. Eles são apresentados como se vêem, sem um preparo, sem uma mise-en-scène demasiada para aparecer nas imagens.

Este é o segundo documentário em longa-metragem de Marcelo Pedroso (que realizou, no ano anterior e em conjunto com Mascaro, “KFZ-1348”). Da nova safra de cineastas de Pernambuco, o diretor preferiu não se envolver com as pessoas retratadas nas imagens, tanto que ele nem esteve neste navio. Quando entrevistado para o blog “Cine Esquema Novo”, Marcelo revelou que essa escolha lhe possibilitou maior liberdade na montagem.

Pacific é o que se poderia chamar de “filme-dispositivo”, no qual o diretor não sabe bem o que encontrará nas imagens. Há ainda o risco de não haver material plausível para a preparação de um filme, o que, felizmente, não foi o caso. No entanto, o filme faz jus ao seu nome: é “pacífico”, praticamente não há conflito, um clímax ou “momento-chave”, ou seja, aquilo que se espera de um documentário. De qualquer maneira, é uma obra diferenciada e que possui certas qualidades.

 

G E T Ú L I O    C O R T E S

O que faria um garoto negro, nascido em Madureira ali pelo início dos anos 40, além de frequentar o coleginho do bairro ? Certamente participar de rodas de samba,aprender com os bambas,desfilar num bloco carnavalesco ou mesmo numa G.R.E.S. da região, claro. Mas apesar de te-lo feito na juventude,Getúlio Cortes  não se sentia “em casa”. Sua praia era outra. Embora ainda hoje em dia, seu visual seja do tipo bom malandro, um boêmio sambista da gema, nosso herói está longe disso.

Desde que aprendeu os rudimentos do violão, o garoto descobriu Sinatra,Sammy Davis Jr e Dean Martin  entre outros astros americanos de então. Passou a se exibir nas noites cariocas caprichando no inglês e reproduzindo seus ídolos. Naquela ocasião,as rádios ainda reinavam absolutas e tudo era “ao vivo”, o que o levou ao emprego de “violonista” acompanhante nas rádios Mayrinck Veiga,Tupi e Mundial. Outra curiosidade da história de GETÚLIO CORTES era a sua preferência pelos bastidores. No entanto apesar de não ser muito de “palcos”,adorava trabalhar naquele ambiente artístico, musical. Mais ou menos nesse tempo,descobriu o ROCK de ELVIS PRESLEY LITTLE RICHARD , simplesmente foi às nuvens. Começou a compor suas primeiras canções influenciado por aquela novidade musical.

Foi quando trabalhava em rádio como assistente de produção, que conheceu a dupla ROBERTO/ERASMO e toda a turma que formaria o embrião da JOVEM GUARDA (Wanderley,Wanderléa,Renato e Jerry Adriani), isto por volta de 1962, e a amizade e a convivência duraram uma década. Isto porque o fim do “movimento” não só o afastou daqueles artistas como o deixou semi-aposentado, vivendo de Direitos Autorais e de trabalhos avulsos no cinema e na TV (sempre como assistente de alguma coisa).

Poucos lembram que a primeira música gravada de GETÚLIO foi registrada por RENATO E SEUS BLUE CAPS e não teve o sucesso esperado.Chamava-seNEGRO GATO. Anos depois,no auge, ROBERTO CARLOS a regravou e a canção virou um clássico do rock nacional,tendo sido ainda gravada posteriormente por ERASMO,MARISA MONTE e LUÍS MELODIA. O curioso é que isto virou regra.

A relação de Getúlio com Roberto Carlos foi mais uma do tipo “dá liga“. Esse fenômeno também acontece na música (e como). Quando o Programa Jovem Guarda entrou no ar, ele (prá variar) era o assistente de produção do Carlos Manga e mais ainda estreitou sua amizade com a turminha. Suas músicas foram gravadas por Renato,Wanderléa,Erasmo,Jerry Adriani,Wanderley Cardoso et caterva mas… nada. O rapaz não dava sorte com ninguém. Pode-se atribuir à percepção aguçada de Roberto (como Elis) mas quando este gravava alguma do Getúlio Cortes, a canção caía imediatamente no gosto popular e ajudava mais ainda o nosso Rei do IÊ-IÊ-IÊ à monopolizar as paradas. A regravação de NEGRO GATO apenas confirmou isso, porque antes e depois, as canções O FEIOO GÊNIOPEGA LADRÃO e O SÓSIA (esta foi encomendada por Roberto para alfinetar seus imitadores) faziam a cabeça de meio mundo.Inevitáveis nos shows.
Mesmo quando o RC derivou para a SOUL MUSIC com o advento do TROPICALISMO, lá estavam 2 pérolas de Getúlio no album O INIMITÁVEL. As belas e clássicas baladas QUASE FUI LHE PROCURAR (regravada recentemente por Luís Melodia) e O TEMPO VAI APAGAR (cujo arranjo evoca a melancolia deWhiter Shade Of Pale  do PROCOL HARUM). EU SÓ TENHO UM CAMINHO foi lançada como single e também no album seguinte do Roberto.

Nos anos 70,o irmão de Getúlio, GERSON KING COMBO juntou-se à BANDA BLACK RIO para forjarem o novo movimento “soul music” no Rio. Gravaram algumas canções do Getúlio Cortes mas,apesar da indiscutível qualidade da BLACK RIO, a coisa não vingou,todavia,pode-se confirmar o talento do grupo por sua participação como grupo de apoio do disco BICHO de CAETANO VELOSO.

Atualmente,nosso roqueiro “setentão” mantem-se na ativa,fazendo seus showzinhos e “livrando” uns trocos na periferia do Rio de Janeiro. Foi homenageado com o lançamento do disco e DVD O PULO DO NEGRO GATO com a presença de seus antigos amigos e de nomes mais atuais da MPB. Sua última criação registrada por Roberto Carlos foi a romântica ATITUDES.

 

“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.”

Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.


Coisas do B.B.

Publicado: 27/04/2012 em Poesia

Coisas do B.B


Há muito tempo, quando o Banco do Brasil era considerado o maior banco rural do mundo, mantinha em sua Carteira Agrícola um quadro de avaliadores (também conhecidos por “fiscais”) que eram pessoas com conhecimentos na área, contratadas para verificar “in loco” se os pedidos de financiamento estavam em ordem, etc, etc.

Ocorre que nem sempre eram pessoas com bom nível de escolaridade. O que valia era o conhecimento prático. Daí nos relatórios constarem algumas “batatadas” que alguns gaiatos, como não poderia deixar de ser, anotaram para gáudio de todos nós:

– “O sol castigou o mandiocal. Se não fosse esse gigante astro, as safras seriam de acordo com as chuvas que não vieram”.

– “Mutuário triste e solitário pelo abandono da mulher não pode produzir”.

– “Acho bom o Banco suspender o negócio do cliente para não ter aborrecimentos futuros”.

– “Vistoria perigosa. As chuvas pluviais da região inundaram o percurso, que foi todo feito a muito custo”.

– “Mutuário faleceu. Viúva continua com o negócio aberto”.

– “O contrato permanece na mesma, isto é, faltando fazer as cercas que ainda não ficaram prontas”.

– “Foi a vistoria feita a lombo de burro com quase 8 km”.

– “A máquina elétrica financiada era toda manual e velha”.

– “Financiado executou trabalho braçalmente e animalmente”.

– “O curral todo feito a capricho, bem parecendo um salão de baile a fantasia”.

– “Visitamos o açude nos fundos da fazenda e depois de longos e demorados estudos constatamos  que o mesmo estava vazio”.

– “Os anexos seguem em separado”.

– “A lavoura nada produziu. Mutuário fugiu montado na garantia subsidiária”.

– “Era uma ribanceira tão ribanceada que se estivesse chovendo e eu andasse a cavalo e o cavalo   escorregasse, adeus fiscal!”.

– “Tendo em vista que o mutuário adquiriu aparelhagem para inseminação artificial e que um dos touros holandeses morreu, sugerimos que se fizesse o treinamento de uma pessoa para tal função”.

– “Assunto: Cobra. Comunico que faltei ao expediente do dia 14 em virtude de ter sido mordido pela epigrafada”.


(Fonte: anotações diversas de vários funcionários).

 

PARA JOSÉ VICENTE, ARSÊNIO MEIRA JÚNIOR E BELLY,

=============================================

 

 

Caminhando orientado pela luz do Memorial, ainda não pude ver o infante tão amado, tão desejado, fruto da união e do amor do jovem casal Arsênio e Belly.

Não trago especiarias da India, não trago Ouro, nem Incenso, nem Mirra.

JOSÉ VICENTE merece muito mais.

Pois ele nos traz o tesouro que nem Ocidente nem Oriente podem comprar.

Ele vem da LUZ e da MISERICÓRDIA.

Ele traz ESPERANÇA e HARMONIA.

Ele nos faz acreditar de novo que a humanidade torna-se maiúscula com o bater do seu coração generoso, sua vida generosa.

Sua chegada, tão esperada, é motivo de alegria para a sua família e para todos os que amam os seus familiares.

Para nós que tropeçamos nas palavras, arremetemos poemitos e pequenas crônicas não sabemos como lidar com esta dádiva.

Fiquemos pois, em contemplação e repletos da felicidade que irradia JOSÉ VICENTE, ARSÊNIO E BELLY.

Isto nos basta.

Isto nos faz felizes.

E a vida segue muito mais leve e tranquila.

Com o amor que se renova diante de nós.

 

PS – Para compreender os pais é preciso ter filhos.

Sofocleto

O good de Johnny o broda.

Publicado: 26/04/2012 em Poesia

Johnny entendeu o aviso da Kabbalah.

Até no aportuguesamento que virou Cabala ou Kabala ou diga lá Broda.

Tá valendo.

No entendimento lusitano misturado ao refinamento nordestino, poeticamente, João, o Carlos, o nosso músico e bem humorado poeta, tirador das mais bem tiradas palavras saidas do seu céu e que nos brindam num encaixe perfeito dentro de frases e ocasiões, tem sido quase que um ghost writer do blog.

Nem menos espero um passar de um expediente e quando retorno ao Fusca o vejo ensolarado.

Lembra até a Mansão/Hotel/Pousada/Manicômio/Paraíso que muitos músicos, poetas, artistas, atores, viveram no Rio nos dourados anos 60/70.

Como era mesmo o nome?

Não me vem a memória. Uma pena.

O bom mesmo é saber que se tem um Broda.

Entre tantas possibilidades reais de um encontro há mais de trinta anos atrás, o encontrei há menos de 3 anos na frente.

Sempre na frente do seu tempo.

Dormindo cedo.

Acordando mais cedo ainda.

Curtindo seu som e suas caminhadas e corridas.

Vivendo ecologicamente dentro do impossível e real mundo de Candeias. Edu Lobo não faria melhor.

Reiventando a zona sul além da zona sul.

E nos recordando da zona norte. Sempre ela.

O nosso berço épico e saudoso, que dia após dia vai sumindo por detrás dos edifícios e dos automóveis.

Triste sina que não esmorece o cantar good de João.

Porque ainda se tem uma Jaqueira, uma Tamarineira, o Sítio da Trindade.

Pode-se chegar logo ali no Alto José do Pinho e olhar a cidade.

Mais alto , lá do Morro da Conceição, com a Padroeira… Recife não tem fim.

Ainda há muito verde por cá. De se cuidar com carinho.

Passeando pelo Dom Bosco, pela feira, pelo Mercado, na Rosa e Silva e na Estrada do Arraial.

Sem pressa de pegar a Rui Barbosa que nos leva prá longe.

Querendo ficar no Poço… da Panela. Casa Forte de tantas lutas.

A missa em tantas igrejas diferentes.

É, a zona norte não esquece de Johnny.

O cara que eu passei triscando naquelas décadas e fico de imaginar a pessoa que eu não pude testemunhar.

E que de testemunhos se adianta hoje em busca de uma vida plena. João que caminha e segue no compasso de um belo hai-kai.

Parei.

Esse texto é o primeiro da minha vida que não sai de uma invernada.

No ver de João, há que se parar e se refazer.

Vem o se…

O condicional que talvez me tivesse evitados contratempos, brigas, mágoas.

O impulso.

Quase uma autobiografia autorizada e desaprumada.

A bile cantada e decantada.

A bile que enfrenta o RECEBER, ou a KABBALAH ou o destino, ou quantos livros caibam no bolso que de saber às vezes prefereriria não saber ler, para não encontrar tantos homens em busca de Deus pelo caminho em que também me perdi.

Parei.

Um espaço entre duas eternidades.

Um tour pela amizade e pela cidade.

A certeza do que é a inspiração. Ou a incerteza.

Mais uma reflexão.

O broda merece o esforço de pensamento.

A ação seguida e consentida para que no amanhã todos estejam salvos.

E mais não digo.

 

PS –

Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 

O TESTAMENTO.

Publicado: 25/04/2012 em ESPIRITUALIDADE

Um homem muito rico estava morrendo. Além de rico, o homem também era um sábio. Riqueza e sabedoria não são comumente encontradas juntas. Ele tinha um filho ainda menino de uns dez ou onze anos. O homem fez então um testamento e ordenou que fosse entregue aos anciões daquela cidade.

No testamento o homem declarou: “Tirem de minha propriedade tudo o que mais gostarem e depois dêem a meu filho”.

Logo o homem morreu. Como o testamento era claro e não apresentava nenhuma dúvida para os cinco anciões, eles dividiram a propriedade do homem entre eles. Como nenhum dos cinco anciões quiz uma inútil e pequena parte, esta foi dada ao menino.

Entretanto, antes de morrer, o homem rico e sábio deu ao menino outra carta com a instrução de que deveria ser aberta apenas quando ele chegasse à maioridade. Quando o menino atingiu esta idade, abriu a carta que seu pai tinha deixado e leu o seguinte texto: ” Os anciões podem ter interpretado de seu próprio modo, é claro! Entretanto o que eu disse em meu testamento tem uma outra interpretação, a minha interpretação. Quando você chegar à maioridade, dê-lhes esta interpretação, Este é o significado do que escrevi: “Tirem tudo o que vocês mais gostarem e então dêem tudo isso de que mais gostaram a meu filho”.

O filho apresentou a carta aos anciões. Eles nunca haviam concebido tal significado. Por isso, haviam dividido tudo entre eles mesmos. Então, diante desta nova realidade, tiveram de devolver tudo porque o significado estava claro. Além disso o menino estava pronto.

O pai também escreveu na carta: “É bom que os anciões interpretem do seu próprio jeito, até chegar o momento em que você possa tomar conta de tudo. Se eu lhe desse tudo diretamente, antes de sua maioridade, a propriedade seria destruída pelos próprios anciões que tomariam conta dela conforme a tradição. Assim, deixei-os protejê-la como se fosse deles até que você estivesse pronto para assumir a direção”.

Eles a tinham protegido, como o velho sabia que eles fariam, porque era deles.

História Sufi

O tesouro do mendigo.

Publicado: 25/04/2012 em ESPIRITUALIDADE

Era uma vez um andarilho muito sábio que vagava de vila em vila pedindo esmolas e compartilhando os seus conhecimentos nas praças e nos mercados.

Ele estava em uma praça em Akbar quando um homem chegou perto dele e disse:

– “Ontem, uma mago muito poderoso me disse que aqui nesta praça eu encontraria um mendigo, que apesar de sua miserável aparência me daria um tesouro de valor inestimável e que isto mudaria completamente a minha vida. Quando vi você percebi de imediato que era o homem que eu procurava. Por favor, me dê o seu tesouro”.

O mendingo olhou para ele sem falar nada, enfiou a mão em um alforge de couro bem desgastado e em seguida estendeu a mão para o homem, dizendo:

– “Deve ser isto então!” Entregando-lhe um diamante enorme.

O outro levou um grande susto e exclamou: – “Mas! Esta pedra deve ter um valor enorme!”

– “É mesmo? Pode ser. Eu a encontrei no bosque.” Disse o mendigo.

– “Muito bem, quanto devo dar por ela?

– “Nada! Para mim ela não serve. Não preciso dela. Se ela lhe serve, leve-a. Não foi isto que o mago lhe disse?”. Perguntou o mendigo.

– “Sim, foi isto que ele me disse. Obrigado”. Muito confuso, o homem guardou a pedra e foi embora.

Meia hora mais tarde ele voltou. Procura o mendigo na praça e encontrando-o diz:

– “Tome sua pedra e me dê o tesouro”.

– “Não tenho nada para lhe dar”. Disse o mendigo.

– “Tem sim! Quero que me ensine como pôde abrir mão dela sem que isso o incomodasse”.

O homem então passou anos ao lado do mendigo até que aprendeu o que era o desapego.

M.D., psiquiatra infantil e de adolescents, autora do livro sobre crianças bipolares: : “Bipolar Kids: Helping Your Child Find Calm in the Mood Storm”. 
Atualmente trabalha no lançamento de seu próximo livro sobre a vida de sua mãe, uma sobrevivente do holocausto: “Secrets in the Suitcase: Stories My Mother Never Told Me”

Minha mãe, Molly Greenberg, nasceu em 22 de dezembro de 1924 numa pequena aldeia do Leste Europeu chamada Skala Podolskaya, localizada então na Polônia. Sua vida, segundo qualquer escrutínio razoável, conteve muitas razões para que ela fosse um ser humano amargo, desanimado, misantropo. Afinal, ficou órfã ainda muito cedo, tendo perdido ambos os pais devido a doenças – o pai, quando ela contava apenas três meses, e a mãe aos dois anos de idade. Seus cinco irmãos mais velhos, três irmãos e duas irmãs, a criaram.

Sua infância foi pontuada por uma infinidade de privações; noites em que ia dormir faminta, um escasso suprimento de roupas, intensa solidão, e o desejo de ter o carinho de mãe que obviamente era impossível receber de uma irmã apenas doze anos mais velha. Porém, ela foi abençoada com o amor ao estudo e uma sabedoria e compreensão sobre as pessoas e a vida, muito além da sua idade. Sua forte crença em D’us e Sua Torá foi crucial para sua capacidade de sentir felicidade num mundo incerto.

O pouco de estabilidade que havia no mundo de minha mãe foi abalado em 17 de setembro de 1939, quando o exército soviético invadiu e tomou o controle de Skala. Aquele dia assinalou o fim de uma próspera comunidade judaica. Ao final de julho de 1942, foram os militares alemães que controlaram a área. Nenhum judeu em Skala estava a salvo. Não até minha mãe ficar mais velha e entrar na casa dos sessenta, ela pôde reconhecer (através da palavra escrita, mas ainda não verbalmente) sua sofrida juventude de viver durante o Holocausto.

Estou no processo de escrever um livro sobre sua vida, centralizado em suas histórias do passado. Não há dúvida de que os crimes do passado jamais devem ser esquecidos. Para mim, seu triunfo sobre a adversidade, sua capacidade de amar e fazer mais que apenas sobreviver, e o forte papel que D’us desempenhou em sua vida são exemplos com os quais podemos aprender e receber forças.

Minha mãe conseguiu sobreviver à guerra fingindo que era Mary (não Molly), uma não-judia. Mesmo em seu disfarce, ela vivia num temor constante de ser descoberta e exterminada.

Quando pensamos em Chanucá, lembramo-nos dos macabeus e do milagre do azeite que ocorreu tanto tempo atrás. Para mim, lembra o poder de D’us e Sua benevolência demonstrados pelo milagre que Ele realizou no primeiro dia de Chanucá em 1942.

Vale registrar que em 2008, 22 de dezembro marcou o primeiro dia de Chanucá. Naquele dia, se estivesse viva, Molly Greenberg estaria celebrando seu 84º aniversário.

Segue-se a história verdadeira que minha mãe, Molly Greenberg, escreveu explicando, em parte, como sobreviveu à Segunda Guerra Mundial:

Chanucá, a Festa das Luzes, é uma época de alegria, gratificação e celebrações festivas. É tempo de latkes e bolinhos de geléia. Para mim, Chanucá tem um significado especial. Foi durante a Segunda Guerra, quando a Polônia estava ocupada pelos nazistas. Era o ano de 1942, quando a Gestapo iniciou o processo de tornar as cidades e aldeias “Judenfrei”, que significa “livre de judeus”. Eles reuniam um grande grupo de pessoas e as matavam, ou então as trancavam em vagões para gado e as enviavam para campos de concentração.

Após um desses “pogroms”, no qual perdi parte da minha família, eu senti que deveria fazer alguma coisa. Não poderia apenas esperar até ser morta. Era uma moça de dezessete anos, loira com olhos azuis e bastante esbelta. Parecia uma típica garota polonesa não-judia. Portanto decidi ir para uma cidade distante onde ninguém me conhecesse, e ninguém soubesse que eu era judia.

Porém era mais fácil falar do que fazer. Como tinha passado a vida numa pequena aldeia, jamais tinha saído dali antes, e pegar um trem pela primeira vez era difícil para mim, além do grande perigo que a viagem representava. Para assegurar que ninguém era judeu, os alemães estavam conferindo cada passaporte ou algum outro documento. Com uma grande quantia em dinheiro era possível conseguir um passaporte ariano, mas eu era muito pobre e não consegui obter um. Portanto decidi ir mesmo assim. Sabia que não tinha nada a perder; iria morrer de qualquer maneira.

Era 12 de dezembro, o primeiro dia de Chanucá. Minha irmã empacotou algumas roupas e alimentos para eu levar na viagem. Tirei minha estrela de David amarela, que todo judeu era forçado a usar no braço direito, e fui para a estação ferroviária. Comprei uma passagem, entrei no último vagão e sentei-me num canto, assustada como se estivesse para morrer.

De repente, ouvi alguma confusão perto da porta. Olhei e vi um guarda da Gestapo entrando no vagão. Ele estava checando a bagagem e os documentos de cada passageiro. De repente percebi que a comida que minha irmã tinha embrulhado era uma arma mortal que certamente me mataria. Ela tinha colocado latkes de Chanucá e bolinhos de geléia – comidas tradicionais, simbólicas do Judaísmo. Eu sabia que mesmo que por algum milagre conseguisse me safar por não ter um documento não-judaico, mentindo – dizendo que tinha perdido ou esquecido em casa – jamais poderia explicar os latkes e bolinhos na minha sacola.

O que aconteceu nos minutos seguintes posso apenas descrever como algum tipo de milagre. Enquanto estava ali sentada, paralisada pelo medo, não conseguindo sequer me mover ou pensar claramente, vi um oficial da Gestapo vindo na minha direção. Naquele momento, uma garotinha que estava sentada perto de mim com a mãe, comendo uma maçã, levantou-se de repente e saiu correndo pelo vagão, cuspindo pedaços de maçã por toda parte. O guarda da Gestapo deu mais um passo na minha direção, escorregou num pedaço de maçã e caiu. Não sei o que aconteceu com ele. Eu estava perplexa demais, abalada demais para fazer perguntas. Vi algumas pessoas carregá-lo para fora do vagão e então o trem saiu da estação, levando-me ao meu destino.

Percebi então que Alguém lá em cima queria que eu sobrevivesse.

 

Amigo fusconauta, leitor do blog e comentarista bissexto, me envia um email.

Pede um momento de parada e de reflexão. Uma parada nas críticas e na acidez para que o tempero da vida fique mais leve.

Me ensina e eu tento aprender, que devemos parar de criticar quem quer que seja.

Ou perdoamos, ou na melhor das hipóteses ignoremos os mal feitos.

É difícil, retruco eu por email.

Mas o insistente amigo me envia este artigo, do excelente livro de Lilian Prist – A Hora da Kabala:

Na memória viva e atuante dos Kabalistas Isaac Luria e Baal Shem Tov:

” Em visita a um Tzadikim, ocorre o seguinte diálogo” :

– … Em qualquer situação , por pior que seja, devemos encontrar sempre algo de bom.

– … Mesmo na pior das situações?

– … Sim, porque os kabalistas dizem que, ao olharmos para qualquer coisa, sempre poderemos ver tanto o lado bom como o mau. Tudo o que existe no mundo é uma combinação de elementos positivos e negativos. Nada é absolutamente  positivo ou absolutamente negativo. Cabe a nós fazer a escolha de colocar nosso foco no aspecto melhor, e não pior, das coisas, situações, circunstâncias e pessoas.

– … Mas tem tanta gente que não presta no mundo! Como encontrar algo de bom nelas?

– … Os kabalistas, em especial, o Apta Rebbe, dizem que sempre existe uma centelha da Luz do Criador, mesmo na pior das pessoas. Basta procurar que encontraremos.

– … Éstá me parecendo que praticar este tipo de coisa não é nada fácil.

 

////////////////////////////////////////////////////////////

 

” Você é um Deus? “, perguntaram ao Buda. ” Não “, respondeu ele. ” Então você é um anjo?” ” Não “. ” Então, o que  você é?”

– Disse o Buda: ” ALGUÉM DESPERTO”.

 

///////////////////////////////////////////////////////////

 

Perguntei a uma criança, que caminhava com uma vela: ” De onde vem esta luz?” No mesmo instante ela a apagou.

” Diga-me para onde foi, que lhe direi de onde veio” .  Imam Hsan Al-Basri.

 

PS – Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.

(William Blake. O casamento entre o Paraíso e o Inferno).

O clube que virou centro espírita.

Publicado: 24/04/2012 em Poesia

 

 

Não me perguntem como .

Não me perguntem nada.

Que eu nunca fui muito bom em ciências esotéricas.

E respeito muito Allan Kardec. O francês.

Não o ex-jogador do Bahia.

Mas em termos de inocência iremos todos (eles os donos irão) para o céu.

O céu de Eládio.

O céu de dindinho.

Meu Deus do Céu!

Quando as cartinhas para o além se multiplicam não é nada não é nada. É pura incompetência mesmo.

Para esconder os últimos 08 anos de vergonhas adquiridas.

A falta de caráter , força e coragem para combater um inimigo peçonhento.

Dá nisso.

Espernear depois da derrota e invocar o justo sono dos mortos.

Futebol só se faz com muita bandidagem, já nos legava Nelson Rodrigues.

Lição em que os doutores e pós-doutores encontram-se além mangue.

Na companhia dos caranguejos dão um show de bola na bela arte de Maquiavel.

E os de cá, os aristocratas herdeiros da cana-de-açúcar, moribundos e fétidos dirigentes, nunca aprendem.

Preferem o grito dos inocentes.

Existe algum inocente em Rosa e Silva?

São bestas para colocar um time, contratar um time, um treinador, pagar em dia, honrar compromissos.

Bestas que chegaM a doer na gente.

Mas são sabidos demais para não publicarem balanços, patrocinadores master são afugentados em função do velho por fora, O PASSIVO…

E as dívidas trabalhistas que eu jurei nunca mais falar nisso e não vou falar porque é prá o sr. carlinhos cachoeira tomar conta e fazer melhor.

Chamem a Delta para tomar conta dos Aflitos.

Ela vai fazer melhor.

Vai vender por uns cinco bilhões e dá prá todo mundo mamar no peitinho esquálido e famélico do timbuzinho.

Mas eu ia esquecendo de Chico Xavier.

Ele nos legou que a mensagem só tem uma via: de lá prá cá.

São inutéis essas cartinhas para @ceu. Elas nunca chegam. Elas nunca saem.

A única via que falta é a vergonha na cara.

E é via de mão única.

E mais não digo.

Que é hora do batente e nós ficaremos. Estes passarão, para o Inferno de Dante, no barco de Caronte.

O Clube é morto. Viva o Clube.

Nós passarinhos eternamente cantando:

N – A – U – T – I -C – O.

 

DIRIGENTES AQUI TAMBÉM JÁ HOUVE.

Não adianta chorar que a HISTÓRIA É IMPLACÁVEL.

OS ROUBOS, AS LADROAGENS, A SACANAGEM INTERNA E EXTERNA ESTA PASSA.

FICAM AS GLÓRIAS, A HEGEMONIA, A BELEZA, A ESTRELAS, A SOBERANIA, MESMO QUE FEITA NOS BASTIDORES.

 

ENTÃO OREMOS.

PELO TÚMULO DO FUTEBOL QUE VIROU A NOSSA PROVÍNCIA.

 

AMÉM.

Pina (ALE/FRA, 2011) Cotação: *****

O prestigiado cineasta alemão Wim Wenders (Paris, Texas, O Amigo Americano, Asas do Desejo) iniciou, em 2008, a preparação de um documentário sobre a vida e a obra da coreógrafa Pina Bausch, uma das norteadoras da dança contemporânea. No ano seguinte, aos 68 anos (1940-2009), ela viria a falecer, e isso representou um tremendo baque para o diretor, não só pela perda desta que foi uma grande amiga, mas também pelo que havia planejado para o longa-metragem. Wenders chegou a cancelar o projeto, mas foi persuadido pelos demais membros da Tanztheater Wuppertal, companhia gerenciada por Pina durante 35 anos, a continuar fazendo esta obra.

Sendo assim, teve de promover modificações. Além da inédita roupagem em 3D, não há o enfoque que se espera de um documentário (conta-se que o diretor planejava fazer um filme de estrada sobre o processo de criação de Pina Bausch): “Decidimos que queríamos fazer outro filme. Não um filme sobre Pina, mas um filme para Pina. Para todos nós, foi um jeito de superar o choque e aprender a lidar com o fato de que ninguém pôde se despedir dela. O filme se tornou uma maneira de todos dizerem adeus”, revelou Wim, em entrevista.

O que se vê são trechos das peças criadas pela coreógrafa alemã, desta vez interpretados sem ela (as coreografias são retratadas na cidade de Wuppertal, em que o balé se situa). E um breve depoimento de cada dançarino que esteve com ela durante sua trajetória. Pessoas de várias nacionalidades, incluindo uma brasileira, chamada Regina Advento. Tudo funciona realmente como uma homenagem. A música está presente quase todo tempo, associada a esta arte fascinante que Pina ajudou a revolucionar ao adicionar elementos teatrais.

O mundo pôde conhecer um pouco mais dela há alguns anos, em “Fale com Ela”, de Pedro Almodóvar, no qual executava dois números.

É importante atentar para o uso (bem contundente) do 3D que grandes realizadores vêm fazendo. Além de Wim, outro alemão e também para um documentário, Werner Herzog (“A Caverna dos Sonhos Perdidos”); e Martin Scorsese, em “A Invenção de Hugo Cabret”. Em Recife, Pina se encontra em cartaz no Cinema da Fundação, onde é projetado em 2D. Mesmo sendo idealizado para terceira dimensão, o filme resiste bem quando exibido no formato tradicional, mantendo a força, o que prova sua qualidade (aqui, chegou a ter sessões de pré-estréia no UCI Shopping Recife, em 3D, mas não pude ir, infelizmente). Lançado no Festival de Berlim, em 2011, foi o escolhido pela Alemanha para representar o país no Oscar 2012 (acabou nomeado à categoria de documentário).

O fato é que a dança com Pina transcende, alcança a alma, nos leva a um outro nível. Em suas palavras: “O que interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que as move”. Wenders conseguiu mostrar isso ao espectador. Esse documentário mexeu muito comigo, com o meu interior. E encerra de uma forma muito edificante, com um pensamento/convocação desta grande bailarina: “Dance, dance, caso contrário, estamos perdidos”.

 

               

 B A N D   O N   T H E   R U N

Este disco representou a redenção de Paul McCartney e de sua banda WINGS, que até então não vinha tendo nenhuma boa vontade da crítica com seus trabalhos. Mesmo acumulando sucessos nas paradas, suas músicas eram constantemente comparadas às dos Beatles e à de seus ex-companheiros de grupo. Certamente por isso, o músico recusava-se à tocar os clássicos de sua antiga banda em suas excursões. Mas o ano de 1973 começaria bem para Paul, cujo single com My Love chegou aos primeiros lugares creditada como sua melhor canção desde THE LONG AND WINDING ROAD. Logo em seguida, outro single com a música tema do filme 007, Live And Let Die, chegaria ao topo coberta por todos os encômios da imprensa. Assim, tão logo finalizou uma “tour” pelo Reino Unido, McCartney começou à esboçar o embrião de seu próximo LP, ensaiando e gravando “demos” em sua fazenda escocesa.

BAND ON THE RUN foi um álbum cercado por problemas  e fatos  curiosos. Querendo mudar de ares, de posse de uma lista com os estúdios da EMI pelo mundo, Paul decidiu por Lagos na Nigéria (o Rio de Janeiro também foi cogitado), mas antes mesmo da viagem o guitarrista da banda se desentendeu com ele e se mandou. Por sua vez, o baterista pediu às contas na véspera do embarque, alegando entre outras coisas que não queria ir pro fim do mundo. Determinado como sempre, Macca  viajou apenas com Linda e o guitarrista Denny Laine, além do produtor e engenheiro Geoff Emerick, velho camarada de Abbey Road e mais 2 “roadies”, disposto à assumir as “baquetas” e outras guitarras. E o fez.  Só quando já se encontrava em Lagos, deu-se conta de que o país vivia sob um regime militar duríssimo com patrulhas fardadas em cada esquina. As ruas exibiam esgotos à céu aberto e o estúdio era precário, com uma mesa defasada de 8 canais e, como já era convencionado por lá, teve de abrir a carteira, “dá um por fora” para conseguir suprir as necessidades técnicas e todas as que, por ventura, iam aparecendo. De certa feita, viu-se cercado por uma daquelas patrulhas e foi destratado com certa violência. Noutra ocasião, foi assaltado por 5 marginais que além do dinheiro e outros pertences, surrupiaram as fitas gravadas dos ensaios na Escócia, com o repertório do futuro disco e, isso custou-lhes o trabalho de “puxar” pela memória para lembrar detalhes dos arranjos e trechos de melodias.  Uns dizem que foi o músico Fela Kuti, outros afirmam ter sido o ativista político e músico Ransomi Kuti (vai ver,  são a mesma pessoa) que acusou Paul de utilizar (explorar) músicos nativos. O fato é que o tal sujeito foi convidado ao estúdio para comprovar que isso não estava acontecendo e a idéia de se contratar, com pagamentos justos, artistas nigerianos foi deixada de lado. Para completar, o ex-baterista de Hendrix, GINGER BAKER, que tinha um estúdio na cidade, queria porque queria que os WINGS gravassem nele. Politicamente, como sempre, Paul utilizou-o para registrar uma música, Picasso’s Last Words (Drink To Me) onde Ginger aparece tocando percussão.. Além dessa faixa, o grosso de BAND ON THE RUN foi finalizado em Lagos com a música-título e as demais (Jet,  Bluebird, Let Me Roll It, Mamunia, No Words, Helen Wheels e 1985). De volta à Londres, o álbum foi  acrescentado com os arranjos de cordas e metais de Tony Visconti, o sax de Howie Casey (em Bluebird e Mrs. Vandebilt) e acreditem, o músico nigeriano Remi Kabaka, foi contratado para gravar mais percussão em Bluebird. Seria o velho humor inglês ?

Naturalmente, a capa do disco foi inspirada pelo título, sendo feito várias fotos  numa sessão externa de um domingo. Além dos Wings,  posaram para a capa (e filme em 16mm) alguns atores,um campeão de boxe, amigos de Paul. O disco foi lançado no final de dezembro de 73, atribuído à PAUL McCARTNEY AND WINGS, chegando ligeirinho aos primeiros lugares e por lá permanecendo até 1975. Foi bastante festejado pela crítica como a primeira obra-prima de McCartney. Ainda nos dias atuais a obra permanece entre as mais brilhantes do rock. Mas a melhor notícia sobre esse LP (hoje CD) é que  depois de seu lançamento e estrondoso sucesso, McCartney  resolveu revisitar o repertório dos Beatles em shows. Bom prá nós!

PS I LOVE YOU:

– BLUEBIRD é literalmente uma bossa-nova com todos os ingredientes.

– De férias com Linda na JAMAICA, Paul encontrou-se com Steve McQuenn e Dustin Hoffman,que filmavam PAPILLON por lá. Conversando com Macca, Hoffman estava curioso sobre o processo criativo musical e foi informado que era como os dos atores. Bastava aparecer um “motivo”. No dia seguinte, Hoffman estava comentando sobre o falecimento de Pablo Picasso, contando que na noite anterior ao seu falecimento, este teria oferecido aos amigos uma bebida ,dizendo: “Bebam por mim! Bebam à minha saúde! Vocês sabem que eu não posso mais beber!”. Quase que imediatamente,Paul pegou o violão e cantarolou o refrão (“Drink to me! Drink to my health! You know I can’t drink anymore!”). Dustin Hoffman afirmaria que, depois do nascimento dos filhos, aquele teria sido o momento mais fantástico que testemunhara. PICASSO’S LAST WORDS (Drink To Me) é uma música com trechos melódicos completamente diferentes entre si, inspirada no “cubismo”.

– MAMUNIA vem do árabe e significa “abrigo seguro”. Sua letra versa sobre os benefícios da chuva. Alguém lembrou de RAIN dos Beatles ?

– HELEN WHEELS era o apelido do Jeep da família. Um trocadilho com Hell On Wheels . É um rock sacolejante sobre um passeio por cidades britânicas (como Back In The USA de Berry). Exceto nos Estados Unidos, ela saiu como single e ficou fora do LP.

– A canção BAND ON THE RUN foi em princípio, inspirada por George Harrison que, nas reuniões de negócios dos Beatles com seus contadores, costuma repetir  “If I ever get out of here!”  (algo como. “se eu pudesse dá o fora daqui!”).

PEQUENO RECADO A BANDEIRA*

Esqueci teu aniversário, lembrei apenas do índio que compartilha o dia teu. Tu, pequeno como te julgavas, deve se alegrar por partilhar a data com estes esquecidos de tudo. Eles que um dia foram muitos, como testamento, não deixam nem terra nem água, pois não consideram nada como seus. Deixam, como tu: a vida, a lida e o muito do que não têm.

Assim, Bandeira, em nome de todos os esquecidos, que teu nome seja hasteado em todas as estações, sobretudo no inverno, aquecendo os desabrigados.

Assim seja.

Magna Santos

Como eu nunca votei nem no dirigente nem no político, estou fazendo barba , cabelo e bigode. Infelizmente com meu querido clube indo para o buraco. Amém. Oremos.

 

Muito Além do Jardim: contexto histórico e análise da obra

Por Houldine Nascimento

No final dos anos 50 e durante quase toda a década de 60, Hollywood esteve mergulhada em uma grande crise. Boa parte dos filmes possuía enorme orçamento e, no fundo, nada mais eram que repetições de temas. Isso fez com que vários estúdios amargassem prejuízo financeiro. Altos e baixos sempre povoaram a indústria cinematográfica estadunidense, mas, desta vez, a situação aparentava ser irreversível.

A necessidade de mudanças no sistema era urgente. De acordo com o que vigorava, os produtores eram a parte mais importante do processo de execução de um filme. Os diretores estavam relegados a obedecer ordens, no máximo orientar atores, e só! Em 1967, obras como “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas”, de Arthur Penn, e “A Primeira Noite de Um Homem”, de Mike Nichols, davam mostras da transformação que aconteceria alguns anos depois. Aparecia uma “Nova Hollywood” nos anos 70, como o período ficou conhecido. Uma época em que uma geração de diretores americanos, influenciados por cineastas como Michelangelo Antonioni, Jean-Luc Godard, Akira Kurosawa e François Truffaut, assumira o controle artístico das obras. Teve início, então, a “Era dos Diretores” (para mais detalhes, sugiro o livro de Peter Biskind, traduzido pela crítica Ana Maria Bahiana, “Easer Riders, Raging Bulls: Como a geração sexo-drogas-e-rock‘n’roll salvou Hollywood”, que ganhei do grande amigo Arsênio Meira).

Desse período, nomes como Martin Scorsese (“Taxi Driver”), Stanley Kubrick (“2001”, “Laranja Mecânica”, “Barry Lyndon”), Steven Spielberg (“Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”), Peter Bogdanovich (“A Última Sessão de Cinema”, “Lua de Papel”), Francis Ford Copolla (“O Poderoso Chefão 1 e 2”, “Apocalypse Now”), Robert Altman (“M*A*S*H”, “Nashville”), Warren Beatty (“O Céu Pode Esperar”), Woody Allen (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Manhattan”), entre outros, despontaram para o “estrelato”. Entre estes realizadores, se encontrava Hal Ashby.

Nascido no estado de Utah, William Hal Ashby (1929-88) começou a carreira como montador de alguns dos filmes de Norman Jewison (“A Mesa do Diabo”, “Os russos estão chegando! Os russos estão chegando!”, “No Calor da Noite” e “Crown, o magnífico”), dando mostras de seu talento. Numa forma de reconhecimento, foi agraciado com o Oscar de montagem por “No Calor da Noite” (1968).

Ashby almejava coisas maiores. Não tardou para que estreasse na direção.  Em um período de dezesseis anos (1970-86), realizou 12 longas, dos quais se destacaram: a comédia de humor negro “Ensina-me a Viver” (1971); “Esta Terra é Minha Terra” (1976), cinebiografia sobre o músico folk Woody Guthrie; “Amargo Regresso” (1978), um painel sobre as consequências da Guerra do Vietnã e pelo qual recebeu nomeação ao Oscar de direção; e, finalmente, Muito Além do Jardim (Being There, 1979).

Este filme se baseia na publicação homônima datada de 1970, do escritor polonês Jerzy Kosinski (aqui no Brasil, o livro foi lançado um ano depois e recebeu o nome de “O Videota”), que também foi responsável pelo roteiro. Na trama, Chance (interpretado pelo inglês Peter Sellers) é um homem que viveu quase toda a vida trabalhando como jardineiro, numa mansão. O conhecimento adquirido durante esse tempo provém apenas de sua experiência com o jardim da casa e do uso da televisão. Sem saber ler e escrever, Chance tem a trajetória alterada quando o dono do lugar morre. Obrigado a deixar o local, o herói parte numa jornada pela cidade de Washington, sem a mínima noção do que encontrar.

É interessante observar essa transição do personagem para o “mundo exterior”. O diretor faz questão de demarcá-la com a poesia musical “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, notabilizada através do já citado “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Chance corre alguns perigos e acaba sofrendo um acidente ao ser prensado por uma limusine, que pertence a um magnata. A partir disso, ele se torna amigo do empresário em questão, Benjamin Rand (Melvyn Douglas), e da esposa, Elizabeth Eve (Shirley MacLaine). Rand comanda uma instituição financeira e, por sua importância, o presidente dos EUA (Jack Warden), vez ou outra, solicita seus conselhos.

Eve se equivoca acerca do nome de Chance. De “Chance, the gardner” (o jardineiro, em inglês) para Chauncey Gardiner. As simples declarações do personagem central sobre jardim e televisão passam a ser interpretadas pelos demais como geniais metáforas sobre economia, política, entre outros assuntos. Por esse motivo, é convidado a diversos programas de TV, chamado para dar entrevistas a jornais, etc. Até mesmo o presidente o cita nos discursos. É cogitado inclusive para o cargo máximo do país. A certa altura, ele diz “Não leio”, no que é prontamente respondido por um chefe de uma editora “E quem lê?”. No filme, talvez o único que tenha noção de quem realmente seja Chance é o médico do magnata (vivido por Richard Dysart).

“Muito Além do Jardim” pode ser visto como uma grande sátira aos meios de comunicação de massa. Na obra, é feita uma crítica à alienação por vezes proporcionada pela TV e ao sempre perverso mundo da política, seja qual for o lugar. É uma obra à frente de seu tempo. Possivelmente, é a melhor atuação do genial Peter Sellers, um artista multifacetado, capaz de fazer várias vozes e composições, que veio a falecer no ano seguinte ao lançamento. Comparado a trabalhos anteriores, como a série de filmes da “Pantera Cor de Rosa”, em que fazia o inspetor Clouseau, ou então “Dr. Fantástico”, no qual interpretava três personagens, se vê uma entrega total do ator. Ele se deixa levar por Chance. Indo de encontro a sua carreira quase toda de papéis cômicos, é visivelmente um papel dramático, em que se contém bastante. E o resultado é bem delicado.

O filme recebeu prêmios. Foi indicado a dois Oscars: melhor ator – para Peter – e melhor ator coadjuvante (Melvyn Douglas), tendo vencido esta categoria. Também concorreu no Festival de Cannes, em 1980, ao Globo de Ouro e ao BAFTA. Há quem afirme que Sellers não levou o Oscar (acabou perdendo para Dustin Hoffman em “Kramer versus Kramer”) por conta dos outtakes que aparecem durante os créditos finais. Esse foi o motivo pelo qual Peter teria brigado com os produtores e o diretor, pois, segundo ele, a colocação dessas tomadas “tirou toda a magia do resultado”.

O autor Jerzy Kosinski (que se suicidou em 91) promoveu algumas modificações na adaptação de seu texto ao cinema. A personagem Louise, empregada da mansão onde Chance morou grande parte da vida, se muda antes da morte do patrão, e não depois, inclusive chegando a morrer. Não há aquele encontro entre o herói e jovens gângsteres.  No livro, não fica claro se Benjamin Rand falece ou não, apenas se tem ciência de que está muito doente. As cenas de contato de Chance com o sexo são bem mais ousadas que as apresentadas na telona. A resolução também difere nas duas modalidades artísticas.

Outra curiosidade: o papel de Benjamin Rand foi antes oferecido a Laurence Olivier, mas este o teria recusado quando da leitura do roteiro, ao ver que havia uma cena de masturbação para a personagem de Shirley MacLaine. E como informa o site IMDB, o final previsto para o filme era outro. Ao conversar com um diretor sobre a produção, durante as filmagens, Hal falou que “Era como andar no ar”. Por isso do encerramento tão bonito, em que o personagem de Sellers caminha sobre as águas, uma clara analogia com Jesus Cristo.

*Dedicado à Magna Santos