Arquivo de janeiro, 2013

advogado-do-diabo

 

 

já houve o tempo das linhas cruzadas,

também a questão do ser tão rico

que só não tinha dinheiro

e tão pobre que só possuia o mesmo dinheiro,

agora o tempo é dos ataques frontais,

o assédio nosso de cada dia não nos dai hoje

mas que em se dando saibamos como receber

e nos sair das empreitadas.

eis que um desses distintos engravatados

muito pobre,

mesmo,

até de educação, se posta diante do colega

e afronta frontalmente

funcionário do BB já teve dinheiro

hoje tá tudo passando fome…

o colega, com tirocínio de camelô em fuga na 25 de março

responde calmamente:

–  a vida é feita de fases, já estivemos bem, hoje não tão bem

da mesma forma os advogados,

tudo são fases meu amigo,

o distinto engravatado, ajeitando e suando um pouco

retruca:

-eu já não sei o que fazer com tanto dinheiro que ganho,

o amigo mais rápido ainda,

em desabalada fase resolve lhe contar uma piada:

– sabe como contrato um advogado?

levo sempre um gato comigo,

o distinto maneira com olhar de apatetado:

como?

é simples , se ele for um rato eu entro,

se for um cachorro saio correndo…

sorriso esverdeado batendo em retirada.

cinderela

 

 

meio sem querer, distraído, andante em piso de shopping

esquecido das vitrines e olhando para o mundo

das idéias do ontem,

nem sacolejei quando de soslaio sapequei o meu olhar na criatura

a cinderela techno.

lembrei de um conto graciliano ou terá sido

guimaraesrosaproseano e ainda

drummond e suas bençãos ,

sobre essa matéria morta e decomposta

das nossas relações familiares,

meio sem querer, distraído, andante em piso de shopping

uma mulher techno, cinderela, viúva de marido vivo

muito vivo

me inspirou essa epitáfio,

por todas as mulheres modernas, emancipadas,

independentes e inteligentes,

que não se libertaram

do feudo masculino e seus grilhões…

O PT É DO PSDB.

Publicado: 25/01/2013 em Domingos - Crônicas

lula_petralhas

 

o partido que mais iludiu pessoas depois de hitler e sua suástica

o partido que mais roubou ilusões e ideiais

o partido que mais botou sindicalistas em cargos chaves no governo

improdutivos

corruptos

inativos

sonegadores.

o partido que mais parece com a sua outra metade o PSDB

o partido que agora quer acabar de vez com o BANCO DO BRASIL.

o partido que foi devidamente enquadrado no STF ,agora quer acabar com

o patrimônio de todos os BRASILEIROS.

NÃO PASSARÃO.

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dica do Stanley Burburinho, no Facebook do Preconceito Racial Não é Mal Entendido

por Ronald Munk e Priscilla Celeste

Sábado, dia 12 de janeiro, eu, meu marido e nosso filho fomos à concessionária BMW Autocraft na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, interessados em um automóvel.

Eu e meu marido somos brancos e nosso filho é um menino negro de sete anos. Chegando à loja, fomos atendidos pela recepcionista e perguntamos pelo vendedor que conhecemos e que já nos atendeu em outras ocasiões.

Como ele estava de folga, a recepcionista foi chamar um outro funcionário para nos atender. Enquanto olhávamos os automóveis aguardando atendimento, nosso filho assistia TV sentado no sofá.

O gerente de vendas da concessionária veio nos atender. Estávamos conversando com ele, quando nosso filho se aproximou de nós. O gerente voltou-se imediatamente para ele e, sem pestanejar, mandou que ele se retirasse da loja, dizendo que ali não era lugar para ele. “Você não pode ficar aqui dentro. Aqui não é lugar para você. Saia da loja.”

Nosso filho ficou olhando para ele, sem compreender o que estava acontecendo. Nós também. Ele insistiu. Meu marido perguntou então porque ele dissera aquilo e sua resposta foi: “Porque eles pedem dinheiro, incomodam os clientes. Tem que tirar esses meninos da loja.”

Quando meu marido disse a ele que o menino negro era nosso filho, ele ficou completamente sem ação, gaguejando desculpas atrás de nós enquanto saíamos indignados da concessionária. Nosso filho perguntou porque eles não aceitavam crianças naquela loja e porque tinham uma TV passando desenhos animados se não gostavam de crianças.

O gerente de vendas não viu em nenhum momento nosso filho interpelando, incomodando ou pedindo qualquer coisa a quem quer que fosse. Sua atitude foi uma ação preconceituosa e prepotente, além de totalmente descabida.

Como somos clientes da concessionária, esperamos que ela se manifestasse nos dias que se seguiram. Isso não aconteceu.

Enviamos então um e-mail ao Grupo BMW relatando o ocorrido, inclusive com transcrição da lei federal no. 7.716, que regulamenta os crimes de discriminação e preconceito racial.

O grupo BMW nos respondeu desculpando-se pelo fato ocorrido, prometendo que a concessionária seria notificada e isentando-se de responsabilidade, uma vez que, “não estamos legalmente autorizados a exercer qualquer ingerência, influência ou participação nas atividades diárias de qualquer concessionária da rede BMW, quer seja em razão de a BMW do Brasil e as concessionárias serem pessoas jurídicas distintas, quer seja em razão de o artigo 16, da Lei n. 6.729/79 expressamente proibir a BMW do Brasil de adotar qualquer postura que influencie a gestão administrativa dos negócios de suas concessionárias”.

Somente uma semana depois do ocorrido recebemos um e-mail do dono da concessionária, desculpando-se, qualificando a atitude de seu gerente como mal-entendido e justificando-a como reação natural de um funcionário que vê um menor desacompanhado em sua loja.

Segundo ele, “o gerente de vendas entendeu que o Sr. e a sua esposa estariam sozinhos e não acompanhados por qualquer outra pessoa, incluindo-se a criança. Assim, no momento em que o seu filho se aproximou do Sr. e de sua esposa, não se atentou que ele estaria acompanhado dos Srs., até porque, segundo relato do meu funcionário, ele não presenciou qualquer diálogo de vocês com o filho.”

O fato de o gerente de vendas não ter percebido que o menino era nosso filho e sua conclusão imediata de que um menino negro, aparentemente sozinho, dentro de uma concessionária BMW, seria um menor desacompanhado e sua atitude de colocá-lo para fora da loja não constituem, em hipótese alguma, um mal-entendido. Trata-se de preconceito de raça, sem qualquer possibilidade de outra interpretação.

A resposta da concessionária demonstra claramente que seu proprietário não tem noção da dimensão do fato ocorrido e compactua com a attitude preconceituosa de seu gerente de vendas. Sua mensagem, que tem como objetivo que esqueçamos o “mal-entendido”, termina com votos de que o fato não abale nosso relacionamento. O mal entendido neste triste episódio foi a tentativa de explicar um crime como mero mal-entendido, ao tentar transformar a situação em “pizza “ e acreditar que tudo acabaria bem e nós, “clientes amigos” para sempre.

Fátima Oliveira: Alguém tem de dar um basta em tamanha desgraça

Fátima Oliveira: O que mais dá a dimensão de completo abandono de idosos é terem “bicheira”

Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_

O “Fantástico” de domingo último, dia 13, exibiu diversas modalidades de violência contra pessoas idosas envolvendo cuidadores remunerados e familiares. A matéria afirmou que as “denúncias de crimes contra idosos crescem quase 200% em um ano”; que elas triplicaram entre 2011 e 2012; e que os “crimes mais denunciados são negligência e violência psicológica. Depois, vêm abuso financeiro e econômico, violência física e abandono”.

Há anos tenho a percepção de que os pronto-socorros se esvaziam no Natal, período em que, desde a antevéspera, há uma pressão familiar exagerada para que idosos e acamados em geral recebam alta. Simples. Natal é festa em casa, e nenhum familiar quer ficar em hospital com doente. Daí a insistência pela alta. Algo bem diferente do restante do ano.

Via de regra, a tendência é se insurgir contra a alta hospitalar, exigindo que seu familiar idoso ou fisicamente dependente permaneça no hospital ad aeternum, sob diferentes argumentos, mas, na base, em geral, está o desejo de não levá-lo para casa.

No Ano Novo, uma festa de rua, dá-se o inverso. A partir do dia 30, começa a romaria do retorno de idosos e acamados para o pronto-socorro, exigindo que fiquem internados. Até uma troca de sonda nasoentérica é motivo para uma esculhambação para que aquele doente fique no hospital. Um disparate total. Dá náuseas.

Há famílias, e são várias, que dão até endereço errado! Pelo rodízio familiar, era a vez de uma fulana cuidar do pai por uma semana. Simples. Ela chamou o Samu, sob o argumento de crises convulsivas (descobrimos que era mentira!), e levou o velho, que não tinha nada, apenas era acamado há anos. Ao fazer a ficha de atendimento, ela deu endereço e telefone de outra irmã e sumiu! A cuidadora viajou para o réveillon na praia! Foi um bafafá, porque a filha cujo endereço estava na ficha de atendimento se recusava a buscar o pai no hospital e só compareceu sob ameaça de um BO por abandono de incapaz! Chegou, cinco horas depois, esbravejando e ameaçou todo mundo de negligência, omissão de socorro…

Há casos em que a pessoa doente está de alta, sobretudo pós Acidente Vascular Cerebral (AVC), com sequelas incapacitantes para a vida autônoma, em que a família fica enrolando por semanas, alegando que precisa se preparar para recebê-la em casa… Se são muitos filhos, o hospital vira um ringue… Cada um tirando o corpo fora mais que o outro… Mas todos querem ser o “procurador” junto do INSS.

Houve um caso em que cada um dos quatro filhos solicitou declaração de que a mãe, com sequelas graves pós-AVC, estava impossibilitada de receber a pensão pessoalmente. Como a declaração havia sido dada à filha que a internou e que, perante o hospital, era a responsável por ela, inclusive em dois atendimentos anteriores, o mundo quase veio abaixo. Disse-lhes que fossem resolver o caso deles na polícia.

Todavia, o que mais dá a dimensão de completo abandono é de idosos, acamados e crianças com miíase (mye=moscas; ase=doença), o que se chama na roça de “bicheira”, coisa não rara em Belo Horizonte. Fico possessa, pois acho que gente não é para ser comida viva por bichos!

Puxando pela memória, expus, sucintamente, alguns casos, apenas para demonstrar diferentes graus de violação dos direitos humanos que as famílias perpetram contra seus familiares com dependência física de cuidados, com o intuito de demonstrar a banalização e a naturalização da violência a que estão submetidos no cotidiano. Alguém tem de dar um basta em tamanha desgraça.

Algumas músicas que estavam no PEN-DRIVE do carro dele. Eita meu velho…

Um pop bacana, riff da guitarra na medida:

 

O gênio Raphael Rabello e a Musa que andou por aqui e está sempre aqui:

o solo que ele faz igual e deixa a gente esperando tocar assim um dia:

tá nevando em Lyon – França, mas o sol vem. vamos que vamos Daniel:

Levitando com o VIMEO.

Publicado: 19/01/2013 em Poesia

VIDA SELVAGEM. Beleza curta…

Publicado: 18/01/2013 em Poesia

carmosina eye drops

 

 

 

Não sei quem é a comentarista que nos brindou com o poema abaixo no post de Affonso Romano de Sant”Anna, mas agradeço imensamente e o publico aqui, valeu olhos de drops. Que beleza mais linda de ser ler:

Os Limites do Autor Às vezes, ocorre um autor estar aquém — do próprio texto. De o texto ter-se feito, além dos dedos, como gavinha que inventou a direção de seu verde, e fonte que minou o inconsciente segredo. Um texto ou coisa que ultrapassa a régua, a etiqueta e o medo, copo que se derrama, corpo que no amor transborda a cama e se alucina de gozo onde havia obrigação. Enfim, um texto operário que abandonou o patrão. Às vezes ocorre um autor estar aquém da criação. O texto-sábio criando asas e o autor pastando grudado ao chão. — Como pode um peixe vivo estar aquém do próprio rio? — Que coisa é esse bicho que rompe as grades do circo e se lança na floresta no descontrole de fera? — Que coisa é essa que se enrola? É fumaça? ou texto? que se alça do carvão? Lá vai o poema ou trem que larga o maquinista na estação e se interna no sertão. Ali o poema olhado de binóculo — só de longe tocado — e o autor, falso piloto largado na pista ou salas do aeroporto, atrás do vidro, enquanto o texto levanta seu vôo cego com o radar da emoção. Enfim, um poema que vira pássaro onde termina a mão ou avião desgovernado que ilude o autor e a pista e explode na escuridão.

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Já me acostumei a ser chamado de louco desde a mais tenra infância,

me recordo bem da santa indignação de minha mãe, quando criança, pivete, pirroto, dentro de um supermercado,

alguém perguntou a ela – esse menino é doido?

recordo para sempre da sua indignação,

comigo inclusive,

como se eu tivesse culpa da minha loucura…

Não tenho nenhum problema e juro , já me acostumei a ser chamado de louco.

Na maioria das vezes as pessoas o fazem por carinho, admiração.

não, não é loucura não, é que as pessoas costumam se admirar e para não dar bandeira elas te chamam de louco,

repare se não acontece o mesmo com você.

Você está muito feliz e declama um poema do seu poeta louco preferido, um trecho de sua música dos Beatles preferida,

qual a reação?

Você está muito feliz e beija e abraça pessoas conhecidas e até estranhos,

qual a reação?

Você sempre está com um motivo para celebrar, cantar, dançar e…

qual a reação?

Você está triste e fica muito triste mesmo e quando vem o banzo é prá torar, é intenso,

as pessoas se assustam, pois você na sua intensidade mete muito medo,

qual a reação?

Você se espanta e não deixa o tédio lhe tomar conta,

os dias não escorrem, eles pulsam vivo dentro da sua poética maneira de ser.

Você busca em plena terça-feira uma nesguinha de céu, cata uma estrela, puxa o ar dos pulmões com força

vai pela inspiração, pelo coração: você é louco.

É muito bom ser assim,

dá prá dormir em horas incertas,

acordar muitas vezes em horas mais incertas ainda,

dá para seguir a banda dos descontentes e viva Torquato Neto,

dá para continuar gostando de riffs de guitarras, solos de bateras,

violões clássicos que ninguém ouve mais,

vozes raras que ninguém nem ouviu ainda mas estão lá nos bolachões de vinil,

dá para fazer um bocado de coisa boa em nome da loucura

que nada mais é do que a poesia nossa de cada dia.

Isso sem ter feito mal a ninguém.

Meus amigos, não tenho amigos.

Essa sim, é a loucura de hoje e dói prá caramba…

 

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
Friedrich Nietzsche

Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura.
Aristóteles

A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.
Michel Foucault

 

carros-g-20110921

 

 

uma dose cavalar de educação

outra dose de bom senso,

uma homeopática dose de respeito as leis do trânsito

saber que o seu carro

é apenas mais um carro

num montanha de ferro empacada.

buzinar, só dentro do seu quarto,

avançar sinal só dentro do seu banheiro,

contra-mão só no sonho, pensando no proibido,

dar fechada, não dar a preferência,

xingar, blasfemar, catar coquinhos,

só quando tiver a pé e de madrugada.

o berço que nos embalou

agora é o nosso asfalto quente, sujo e triste de todo dia,

o berço que nos embalou

nos faz motoristas esquecidos

da nossa condição de pedestres,

parecemos mais rupestres criaturas

com fúria e insanidade e as mãos no volante.

a solução para o nosso trânsito

passa por milhões de projetos

e muita engenharia de tráfego

mas não tem viaduto, túnel e avenida,

não tem binário, VLT e METRÔ

 que resolva a questão de tanto carro na rua

e tanta gente mal educada,

apenas e tão somente o berço…

Não espere o horário do trânsito livre, não espere ouvir o que você não quer, não espere a vida dar merda para colocar a culpa na vida.
Tati Bernardi

Rilke1

– Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

O Cego

Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência –
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

Como suportar, como salvar o visível, senão fazendo dele a linguagem da ausência, do invisível?

Rainer Maria von Rilke (Praga, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926).

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por Magaly Pazello, especial para o Viomundo (viomundo.com.br)

Este foi um final de semana muito triste, perdemos Selarón no Rio de Janeiro e, em Nova York, aos 26 anos, Aaron Swartz se suicidou.

A internet perdeu um de seus mais brilhantes sonhadores, ativista, prodígio da computação, escritor. Essa perda trágica repercute intensamente pela internet, como uma onda de dor, espanto e indignação. Mais e mais sites publicam relatos, declarações, notícias.

Esse rapaz, os quais os sites de notícia não se cansam de sublinhar que sofria de depressão, sofreu os efeitos da máquina de moer do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Acusado de “roubar” milhões de artigos científicos ele enfrentava um processo judicial que poderia resultar em 35 anos de prisão caso fosse considerado culpado. No centro desse processo se instalou uma séria controvérsia que deixa uma marca indelével sobre o direito de todas as pessoas ao acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Aaron Swartz, aos 13 anos foi o ganhador do ArsDigita Prize, uma competição para jovens criadores de websites não-comerciais que fossem úteis, colaborativos e voltados para atividades educacionais. O prêmio incluiu uma visita ao famoso Massachusetts Institute of Technology (MIT), que mais tarde seria protagonista dos eventos que o levaram ao suicídio.

Aos 14 anos, Aaron integrou a equipe de criadores do RSS 1.0, um recurso bacana de leitura de sites através de atualizações em tempo real, os famosos feeds. Eu adoro!

Aos 15 anos, integrou a equipe que desenhou as licenças Creative Commons.

Na sequência, fundou uma start-up, que depois se fundiu à rede social Reddit, onde ele desenvolveu a plataforma que a levaria ao sucesso. E cujo desenho também resultou na base de sites Open Library, ou seja, bibliotecas abertas, e no Archive.org, uma espécie de máquina do tempo da internet. E esta seria sua vida e sua bandeira a partir de então: o acesso ao conhecimento e à informação, sua disponibilização online gratuita através de plataformas abertas, o desenvolvimento técnico dessas plataformas. Especialmente o acesso ao conhecimento e à informação públicas e geradas a partir de recursos públicos. Suas atividades profissionais nunca visaram à obtenção de lucro e promoção pessoal. Sua genialidade está presente em dezenas de projetos semelhantes.

Crítico de filmes e pesquisador, seu blog tinha um enorme público. Entre 2010 e 2011, foi bolsista do Laboratório de Ética Edmond J. Safra na Harvard University, onde pesquisava sobre corrupção institucional. Fundou e era líder do DemandProgress.org, uma plataforma inteligente de ciberativismo.

Aaron foi uma das vozes fortes contra o SOPA-Stop Online Piracy Act, um projeto de lei contra a pirataria online proposto pelo poderoso setor de propriedade intelectual e direitos de autor, a indústria fonográfica e de cinema. Mas o projeto de lei, de fato, iria endurecer as leis a tal ponto que sequer mencionar um texto num blog seria considerado um ato ilegal, estrangulando o direito à liberdade de expressão.

Aaron, junto com Shireen Barday, “baixou” e analisou por volta de 440 mil artigos acadêmicos da área de Direito para determinar o tipo de financiamento que os autores receberam. Os resultados, publicados no Stanford Law Review, levaram a trilhar os caminhos dos fundos públicos para pesquisa. Por causa de sua capacidade de processar grandes quantidades de dados era requisitado para colaborar com vários outros pesquisadores. Disto resultou o projeto theinfo.org, que chamou a atenção do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

O theinfo.org tornou livre e aberto o acesso a uma imensa base de dados públicos somente disponível gratuitamente através de máquinas instaladas em 17 bibliotecas em todo o país, o que obrigava as pessoas interessadas a se deslocar até os pontos de acesso ou, então, pagar 10 centavos por peça. Foram aproximadamente 20 milhões de páginas da Corte Federal, algo de tirar o fôlego. Ele deixou muita gente brava com essa façanha, a tal ponto que começou a ser investigado pelo FBI, contudo sem consequências.

Mas a história foi bem diferente com o MIT. Ainda no Laboratório de Ética de Harvard, em 2011, Aaron se utilizou do acesso aberto do MIT para coletar por volta de 4,8 milhões de artigos científicos, incluindo arquivos da base JSTOR muito conhecida no mundo acadêmico. O caso veio a público, creio, quando ele foi preso em julho de 2011.

A controvérsia sobre se seria roubo ou não foi substituída pelo debate sobre se era correto a cobrança por artigos científicos cujas pesquisas são financiadas com dinheiro público. Sobre a mercantilização e privatização do conhecimento científico, direitos de autor e os custos para tornar esses materiais disponíveis. Uma campanha de apoio a Aaron e o manifesto Guerrilla Open Access, escrito por ele em 2008, ganhou outra vez visibilidade (uma tradução pode ser encontrada aqui).

Segundo a ONG Electronic Frontier Foundation, embora os métodos de Aaron fossem provocativos, os seus objetivos eram justos. Ele lutava para libertar a literatura científica de um sistema de publicação que tornava inacessível essa produção para a maior parte das pessoas que realmente pagaram por isso, quer dizer, todas as pessoas que pagam impostos. Essa luta deveria ser apoiada por todos.

As coisas começaram a tomar outros rumos com o declínio do debate. Após a devolução das cópias digitais dos artigos, a JSTOR decidiu não apresentar queixa contra Aaron. Mas a façanha desta vez resultou num processo por crime cibernético por parte do governo dos Estados Unidos munido pelo MIT. Em seu desabafo ao saber do suicídio, Lawrence Lessig escreveu:

Logo no início, para seu grande mérito, JSTOR compreendeu que era “apropriado” desistir: eles declinaram de dar prosseguimento à sua própria ação contra Aaron e pediram ao governo para fazer o mesmo. O MIT, para sua grande vergonha, não foi limpo, e então o promotor teve a desculpa que ele precisava para continuar sua guerra contra o “criminoso” que nós amamos e conhecemos como Aaron.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos interpretou a ação de Aaron como crime de roubo e a demanda foi levada ao grande júri que decidiu que ele deveria ir a julgamento. Então, a máquina de fazer moer do governo começou a funcionar.

Primeiramente, Aaron foi acusado de quatro crimes todos relativos à violação de sistema informático. Mas depois o Departamento de Justiça, numa atitude de “exemplaridade”, acrescentou mais nove acusações, todas contidas na Lei de Abuso e Fraude Informática, e atos de conspiração.

Além disto, familiares e amigos, como Lawrence Lessig, relatam situações de intimidação por parte do Departamento de Justiça. Alex Stamos, especialista em crimes cibernéticos, além de inúmeras outras vozes, desmontam item por item o exagero forçado na perseguição a Aaron, a verdade sobre o “crime”.

O efeito cascata dessas acusações resultaram na possibilidade real de Aaron Swartz ser condenado a 35 anos de prisão e multa de 1 milhão de dólares!!!

Lawrence Lessig diz:

Aqui, é onde nós precisamos de um melhor sentido de justiça e de vergonha. O que é ultrajante nesta história não é apenas [o que aconteceu com] Aaron. É também o absurdo do comportamento do promotor. Bem desde o início, o governo trabalhou tão duro quanto pode para caracterizar o que Aaron fez da forma mais extrema e absurda. A “propriedade” que Aaron “roubou”, nós fomos informados, valia “milhão de dólares” — com a dica, e então a sugestão, que o seu objetivo de obter lucro com o seu crime. Mas qualquer um que diga que se pode ganhar dinheiro com um estoque de ARTIGOS ACADÊMICOS é idiota ou mentiroso. Estava claro o que disto não se tratava, mas o nosso governo continuou a pressionar como se tivesse agarrado terroristas do 11/09 com a boca na botija.

Não consigo imaginar o que passou com esse rapaz de personalidade introvertida, apresentando um quadro de depressão, à medida que a data do julgamento se aproximava. Sua solidão, seu medo diante deste quadro kafkiano. Sua morte me pareceu daqui de longe uma forma de exílio. Como o exílio do protagonista das tragédias gregas. A morte é a condenação ao exílio da República que não permite a existência dos poetas.

No sábado, ainda sob o impacto do acontecimento, sua família fez um comunicado público, culpando as autoridades judiciais e o MIT. O documento afirma que essa morte não é apenas uma tragédia pessoal, mas sim um produto de um sistema de justiça criminal repleto de intimidações, o qual iria punir uma pessoa por um alegado crime que não fez vítimas.

Essa última parte é a chave de todo o enredo, pois para a aplicabilidade da lei com a qual Aaron seria julgado era necessário uma série de aspectos todos ausentes dos atos cometidos.

Um memorial online está sendo construído em homenagem a Aaron.

O funeral será realizado nessa terça-feira, 15 de janeiro, em Illinois.

Como tributo a comunidade ciberativista criou uma página com o objetivo de ser um grande e espontâneo repositório de produção acadêmica colocada a disposição de todas as pessoas de forma gratuita e aberta.

Todas as pessoas estão convidadas a disponibilizar seus trabalhos em qualquer idioma. No twitter acompanhe pela hashtag #pdftribute.

O JSTOR publicou suas condolências imediatamente e o MIT anunciou que vai investigar sua responsabilidade na morte de Aaron, mas para mim este anúncio beira o cinismo.

E o que nós aqui no Brasil temos com isso?

Bom, a internet foi concebida como uma plataforma sem fronteiras físicas e territoriais. E quando ocorre um evento, triste ou alegre, seja onde for, que está relacionado ao âmago do funcionamento desse incrível sistema isso nos interessa.

O aperfeiçoamento técnico da internet e seu sistema regulatório é, também, de grande interesse de todos, sobretudo quando este aperfeiçoamento está relacionado com o acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Em relação à produção científica vale lembrar que o governo brasileiro tem tido uma participação importante na formação de uma cultura de acesso aberto e gratuito. Embora de maneira, por vezes, contraditória.

Mas deixando as idiossincrasias de lado… a área de saúde é um belo exemplo de acesso compartilhado ao conhecimento com a instalação, no Brasil, da BIREME, em 1967, cujo objetivo é contribuir com o desenvolvimento da saúde fortalecendo e ampliando o fluxo de informação em ciências da Saúde. Dela, em 2002, surgiu o projeto Scielo, uma biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros que se expande pela América Latina.

No início dos anos 2000, em consonância com a o debate global, é lançado o Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso Livre à Informação Científica com vários setores e órgãos do governo brasileiro entre os apoiadores da inicitiava (leia aqui e aqui).

Contudo, a sucessão de eventos desde a cópia dos milhares de artigos científicos até o processo judicial e o incremento da pena — resultando na absurda possibilidade de Aaron ser condenado a 35 anos de prisão mais multa — serve de alerta para a necessidade de nós mesmos repensarmos e revisarmos estrategicamente as recentes leis aprovadas no nosso Congresso Nacional sobre cibercrime, além da debilidade política e conceitual a que chegou o Marco Civil.

Nós não estamos distantes de absurdos como o caso de Aaron! Em terras tupiniquins outros absurdos já acontecem por causa do uso excessivo das leis de difamação e persistência das leis de desacato.

Magaly Pazello é pesquisadora do Emerge — Centro de Pesquisa e Produção em Comunicação e Emergência da Universidade Federal Fluminense (UFF), sendo responsável pela área de pesquisa de governança na internet. É ciberativista e feminista.

 

O doido da garrafa

adrianafalcao

 
Adriana Falcão
Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido.

Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.

O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco com um nome de mulher e, enquanto estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. Depois ia esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou dezessete dias para ser construída.

Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. Uai aí aquela da mulher de blusa verde atravessando a rua apressada, e o Doido da Garrafa imediatamente compunha um samba, uma valsa, um rock, um rap, um blues, dependendo da mulher de blusa verde, do atravessando, da rua e do apressada. Geralmente ficava uma obra-prima.

Gostava muito de observar as pessoas na rua, do cheiro de café, de cantar e de ouvir música. Não gostava muito do fato de ter pernas, mas acabou se acostumando com elas. De cabelo ele gostava. Em compensação, tinha verdadeiro horror a multidão, bermudão, tubarão, ladrão, camburão, bajulação, afetação, dança de salão, falta de educação e à palavra bife.

Escrevia cartas para ninguém, umas em prosa, outras em poesia, como mero exercício de estilo.

Tinha mania de dar entrevistas para o vento e já sabia a resposta de qualquer pergunta que porventura alguém pudesse lhe fazer um dia.

Ajudava o dicionário a explicar as coisas inventando palavras necessárias, como dorinfinita.

Adorava álgebra, mas tinha particular antipatia por trigonometria, pois não encontrava nenhum motivo para se pegar pedaços de triângulos e fazer contas tão difíceis com eles.

Conhecia mitologia a fundo.

Tinha angústia matinal, uma depressão no meio da tarde que ele chamava de cinco horas, porque era a hora que ela aparecia, e uma insônia crônica a quem chamava carinhosamente de Proserpina.

Sentia uma paixão azul dentro do peito, desde criança, sempre que olhava o mar e orgulhava-se muito disso.

Acreditava no amor, mas tinha vergonha da frase.

Às vezes falava sozinho. Preferia tristeza à agonia.

Todas as noites, entre oito e dez e meia, era visto andando de um lado para o outro da rua, método que tinha inventado para acabar de vez com a preocupação de fazer a volta de repente, quando achava que já tinha andado o suficiente. (Preferia que ninguém percebesse que ele não tinha para onde ir.) Enquanto andava, repetia dentro da cabeÇa incessantemente a palavra ecumênico sem ter a menor idéia da razão pela qual fazia isso.

Durante o dia o Doido da Garrafa trabalhava numa multinacional, era sujeito bem visto, supervisor de departamento, ganhava um bom salário e gratificações que entregava para a mulher aplicar em fundos de investimento.

No fim do ano ia trocar de carro.

Era excelente chefe de família.

Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das suas próprias garrafas um pouquinho.

 

mamaecoragem

Eu me lembro sempre da música do Ave Sangria onde em determinado ponto da letra a poesia de Marco Polo apontava:

– minha casa é o reino do mal o meu pai é um animal, minha mãe há muito que enlouqueceu, só resta eu com a minha faca e a minha Nau…

Era comum as gerações que viraram os anos 60, entrarem nos anos 70 com o peso do chumbo nas costas e com suas famílias destroçadas.

Eu mesmo e a torcida do framengo inteiro conhece alguém que sobreviveu a esses núcleos enlouquecedores e estão por aí, vivos e redivivos.

No bairro onde me criei, não precisei sobreviver a este tipo de núcleo pois tive muita sorte.

Não sei se mereço.

Mas foi assim.

Minha família despertava inveja da grande família Maia, tido como modelo de acerto e perfeição.Choviam tijoladas e mais tijoladas de ácidas críticas.

Tudo porque tínhamos um quantum de normalidade que não invalidava as nossas loucuras, pelo contrário, cada um era respeitado mas tinha limite.

Isso fez a diferença.

Somos seis e estamos bem.

Agora somos cinco no regaço meu e de Ana e os meninos  começam a voar para o controle das suas vidas.

Agora estamos com uma saudade de Daniel que nem sei dizer.

Mas ele está com um sorriso tranquilo,

uma paz que continua,

sua marca registrada.

Está com seu violão,

com o seu coração grande e bonito

e estamos aqui com ele sempre.

Passei aqui neste domingo chuvoso para lembrar a Ana e as meninas: Gabi e Bella que o bom está apenas começando para ele e elas.

Daniel vai passar pela melhor aventura que um estudante pode ter na vida e que graças a Deus pudemos lhe oferecer:

Intercâmbio, no que a palavra tem de mais honesta e decente.

Lá na França ele vai aprender e muito o que a vida tem lhe reservado de  bom, de desafios, de dificuldades, de superação.

E mais uma vez, como diriam os gênios bahianos: mamãe mamãe não chore…

catarina-migliorini

 

não tanto pelo fato de um japonês ter pago por um pequeno pedaço do corpo, milionário pedaço por sinal, valer a pena ou não,

muito menos pelas questões éticas e morais que foram enlaçadas na mídia

ou pelos furiosos ataques dos extremistas religiosos,

 a questão é que em tempos de leilões de cérebros, leilões de consciência, toneladas de silicone, plásticas e muito BBB e FAZENDA,

alguém não perceba a migração violenta que muitas pessoas interessantes estão fazendo:

trocando a vida acadêmica, o esforço de pensamento, o amor ao trabalho, pela amor as bundas, peitos, olhos, narizes, cabelos, atributos cada vez mais valorizados, em detrimento da espiritualidade, do caráter bem formado, do esforço em se tornar melhor a cada dia de dentro prá fora,

eu pouco li a respeito desse leilão e de outros que proliferam como mosquitos da dengue por aí.

isso é consequência…

as causas são o excesso de teletelas globais permeando e impermeabilizando a capacidade das novas gerações de usar o seu discernimento.

as causas são os desdobramentos cruéis da primeira Lei, a LEI DE GÉRSON.

que infelizmente marcou o nosso país para sempre.

não sei se esse leilão em particular se perpetrou.

sei que já há uma capa de Playboy,

haverá talvez um filme a la Surfistinha,

convites para virar atriz,

e talvez, mais alguns bons trocados na conta-corrente.

agora me digam mesmo,

não é muito mais decente a vida das meninas do calçadão?

 

PS – Os virgens

(…)Quando falamos em virgindade, logo pensamos em sexo, e a partir do dia que o experimentamos, o mundo parece perder seu mistério maior. Não somos mais virgens! Que grande ilusão de maturidade.
Virgindade é um conceito um tanto mais elástico. Somos virgens antes de voltar sozinhos do colégio pela primeira vez. Somos virgens antes do primeiro gole de vinho. Somos virgens antes de ver Paris, Somos virgens antes do primeiro salário. E podemos já estar transando há anos e permanecermos virgens diante de um novo amor.
Por mais que já tenhamos amado e odiado, por mais que tenhamos sido rejeitados, descartados, seduzidos, conquistados, não há experiência amorosa que se repita, pois são variadas as nossas paixões e diferentes as nossas etapas, e tudo isso nos torna novatos.
As dores, também elas, nos pegam despreparados.A dor de perder um amigo não é a mesma de perder um carro num assalto, que por sua vez não é a mesma de perder a oportunidade de se declarar para alguém, que por outro lado difere da dor de perder o emprego. Somos sempre surpreendido pelo que ainda não foi vivido.
Mesmo no sexo, somos virgens diante de um novo cheiro, de um novo beijo, de um fetiche ainda não realizado. Se ainda não usamos uma lingerie vermelha, se ainda não fizemos amor dentro do mar, se ainda cultivamos alguns tabus, que espécie de sabe-tudo somos nós?
Eu ainda sou virgem da neve, que já vi estática em cima das montanhas, mas nunca vi cair. Sou virgem do Canadá, da Turquia, da Polinésia. Sou virgem de helicóptero, Jack Daniels, revólver, análise, transa em elevador, LSD, Harley Davidson, cirurgia, rafting, show do Lenny Kravitz, siso e passeata. A virgindade existencial nos acompanha até o fim dos nossos dias, especialmente no último, pois somos todos castos frente à morte, nossa derradeira experiência inédita. Enquanto ela não chega, é bom aproveitar cada minuto dessa nossa inocência frente ao desconhecido, pois é uma aventura tão excitante quanto o sexo e não tem idade para acontecer.
Martha Medeiros

maquina

o papel e a fidelidade eram em branco e preto

não havia telas,

sons,

vídeos,

só a tinta mágica branca que corrigia…

o papel e a liberdade eram em branco e preto

não havia nada além

das imagens,

dos sonhos,

das janelas,

e as redes de pano eram o nosso vício…

o papel e a música das teclas eram em branco e preto

não havia nada além

da inspiração,

do coração

dos afetos e do álcool

das musas

e do cansaço

e eu não passava de um sonhador…

a máquina de escrever morreu em branco e preto

e hoje eu

ando preso numa rede social

longe da janela do poeta,

da cidade do poeta

da praça do poeta,

todos os créditos são para os nerds

inventores da alquimia desta era,

mas seu eu pudesse

agora mesmo,

trocar este teclado silencioso

pelo som do maracatu da velha máquina

eu voltava correndo,

para o colo da poesia.

amizade2

 

Um luto que dura alguns segundos para mim é um milagre.

Hoje de tarde pude passar pelo aperto do coração e pela certeza de uma amizade finda.

Que não sei absolutamente nada do que ficou.

Se houve, tenho certeza, uma amizade, bons momentos, alguns até raros, hoje me despeço dela.

Pensei que houvesse dor nesta partida,

pensei que houvesse mais do que essa dor,

houvesse uma saudade,

uma vontade de abraçar, 

apertar as mãos pelo menos,

sorrir,

contar alguma velha nova história,

bater de ombros, jogar conversas…

mas nada,

uma amizade finda é algo raro e belo em nossas vidas,

me revela o que são de verdade as pessoas quando não estão diante da tela de um computador.

As pessoas de carne e osso, com seus medos e heroísmos,

com seus antagonismos,

com seus espelhos de nós, o teatro e o seu duplo do grande mestre Artaud,

eis que se arvora a hora destes finais sem grandes finais.

Uma amizade finda é algo quase como um negócio desfeito.

Devolvem-se os bens, se põe as mãos nos bolsos e se foge dali.

Cuidei bem de mim e não cuidei bem do meu ex-amigo.

Parece soneto de Wilde e os seus amigos amantes,

o que de fato não é meu caso.

Parecia uma irmão,

ora mais do que isso,

parecia uma compreensão,

ora menos do que isso,

parecia um acerto definitivo,

ora menos do que isso.

Parecia tudo e até me enganei,

mas no fundo, bem no fundo da minha alma tacanha e bizonha,

creio ter sido um trote, um telefonema errado, uma linha cruzada no meio do oceano.

Não fica nada de uma amizade finda, porque simplesmente de concreto houve o ENGANO.

duda2013

 

 

Perto, bem perto de bater na primeira trave. A trave dos 30 anos de labuta no BB.

Recordo dessa frase aí em riba, do meu querido velho sempre a dizer: Domenico Ricodarti di me…

Estávamos em 1982 e chegou o comunicado do banco me chamando para os exames de admissão. Gelei, afinal com 20 anos ia assumir um emprego.

Na época, um grande emprego e ainda hoje sim, porque não. Não devemos no prato…

Quando me amofinei prás bandas de Garanhuns escutava essa voz, um diapasão, parecia o seu piano Essenfelder a batucar um samba de uma nota só.

Caramba e se passaram três décadas daquela tarde em que ao telefone, meu velho pai ligou para todos os amigos possíveis e impossíveis para dizer do orgulho do filho caçula.

Caçula que começava ganhando mais do que ele um Médico, um salvador de vidas, um anônimo guerreiro que me pedia para não esquecê-lo.

Hoje procuro neste mapa-mundi aí  e peço ajuda ao Hubble para ver se encontro a sua música, a sua voz, os seus passos.

Procuro em vão.

Ele nos olha, tenho certeza e nos tem sempre chegado em momentos difíceis, nas horas precisas e nas horas dos festejos, que almoço e música foram um dos seus legados.

Mas a terra é muito pequena e suas mãos precisavam reger outras harmonias.

Sinto sua falta e hoje é dia de dizer ao meu filho, que está de malas prontas para a França.

Daniel, Ricordati di me…

E a vida segue.

Como dizia Adalberto, que saudade linda meu filho.

E então…

 

amor bandido

 

ou a lógica dos amantes que se chamam de Mô, Mozinho, Mozão, Amor, etec pei bufe e coisa e tal.

 

O amor tem razão,

tem mentiras,

tem de suportar,

não tem de ser eterno.

O amor tudo padece

o evangelista nos ensina,

o amor não tem razão,

nem lógica,

nem compostura,

pois

quando os amantes

colocam

apelidos

ingratos,

insanos,

delituosos,

tortos

obscenos,

a coisa tende a ser tudo

o que pode haver de mais além,

só não é amor.

Nem aqui

nem em outro planeta.

Né não Mô?