Arquivo de fevereiro, 2012

Um poema bissexto. Quem dera…

Publicado: 28/02/2012 em Poesia

Poemaço quem dera…

Afinal de contas eu … poemitos.

E soluçando vou respirando.

Acabando de vir da roda de choro e samba de raíz lá do Neno.

Pode parecer impossível. Mas foi lá. No Neno.

Samba de raiz.

Choro da melhor qualidade.

Sax, voz, violão de sete e cantor de prima.

E aí?

É um poema bissexto que sai ou não sai nesta terça-feira modorrenta?

Sai, mais ou menos assim:

Amor, quem dera,

promessas te alimentassem,

você não faz de conta,

a dura realidade é o teu concluso resultado,

rimas, versos, síncopes

que nada…

Eu quero é saber com quantos algoritimos se faz

um nerd…

Eu?

Sou da raiz dos irmãos;

Então lá vai:

Vivia esperando,

como se não pertencessse

a lugar nenhum,

Vivia? Quase nada…

Pois viver é antever o que o braço

estende até alcançar a morte…

Vivia,

mas vegetava,

não sabia

que o sono é sagrado

que as manhãs são afônicas,

que as luas são embriaguez,

que o violão é orfão.

Sabe, talvez pressinta,

os passos da vida além da morte.

Não faz poemas,

faz presságios,

olha a sílaba da dor

e se adianta

impedido,

como um atacante fora do seu tempo…

É cedo, 

mais do que o tempo pode predizer,

não foi ontem,

não será por hoje,

encontro velhos vultos,

na emboscada do bar,

eles se agigantam,

pois entesouraram metais,

que enferrujam..

Mas eu insisto..

É um poema longo,

cheio de decassílabos,

os entendidos dirão:

não presta…

o poema tem ritmo, tem luz, tem griffe,

o poema tem dono,

sobrenome,

e acima de tudo

o poema tem um céu.

Qual o céu do meu poema?

Ele não tem nem varanda,

nem balaustrada,

nem alpendre,

o meu poema é velho,

como uma vila de comerciários,

como uma casa amarela,

com0 um alto josé do pinho.

Mas ele existe,

e insiste.

E quem quiser…

Me diga como o poema nasce

de um parto prematuro…

Além da religião…

Está a espiritualidade.

Além do preconceito está o amor.

Quando se compreende que além da religião está a espiritualidade e além do preconceito está o amor, podemos entender e fazer coisas que promovam a paz, a alegria e a união…

REPASSANDO PARA OS IRMÃOS E AMIGOS….

 
Lucidez de um Pastor (Simplesmente Espetacular!!!…)

 

O jovem Pastor Ed René Kivitz lançando um de seus livros.

Parece mentira, mas foi verdade. No dia 1°/Abr/2010, o elenco do Santos, atual campeão paulista de futebol,  foi a uma instituição que abriga trinta e quatro pessoas. O objetivo era distribuir ovos de Páscoa para crianças e adolescentes, a maioria com paralisia cerebral.

Ocorreu que boa parte dos atletas não saiu do ônibus que os levou.

Entre estes, Robinho (26a), Neymar (18a), Ganso (21a), Fábio Costa (32a), Durval (29a), Léo
(24a), Marquinhos (28a) e André (19a), todos ídolos muito aguardados.

O motivo teria sido religioso. A instituição era o Lar Espírita Mensageiros da Luz, de Santos-SP, cujo lema é Assistência à Paralisia Cerebral.

Visivelmente constrangido, o técnico Dorival Jr. tentou convencer o grupo a participar da ação de caridade. Posteriormente, o Santos informou que os jogadores não entraram no local simplesmente porque não quiseram.

Dentro da instituição, os outros jogadores participaram da doação dos 600 ovos, entre eles, Felipe (22a), Edu Dracena (29a), Arouca (23a), Pará (24a) e Wesley (22a), que conversaram e brincaram com as crianças.

Eis que o escritor, conferencista e Pastor (com “P” maiúsculo) ED RENÉ KIVITZ, da Igreja Batista de Água Branca (São Paulo), fez uma análise profunda sobre o ocorrido e escreveu o texto abaixo que tenho o prazer de compartilhar.
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No Brasil, futebol é religião (por Ed René Kivitz)

Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa.
Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.

A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé.
A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.

Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno; ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo; ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.

O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai.
E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.

Mas, quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.
Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.

Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibusQuando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina  ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.

Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico e santista desde pequenininho.

 

 

SOBRE O DIREITO INALIENÁVEL DA VAIA – O PÚBLICO É SENHOR DA RAZÃO E QUEM RECEBE DO POVO RECEBE MUITO BEM.

Maria Betânia foi vaiada no Teatro Santa Izabel algumas décadas atrás. Indignada, jurou nunca mais por os pés em nossa cidade e assim o fez, até ser chamada pelo então prefeito Jarbas Vasconcelos e concedendo uma nova chance ao povo pernambucano resolve aportar por aqui. Não sem antes ainda dissolver suas mágoas, seus rancores e seu estrelismo. Ela pode. Pode?

Milhares de estrelas do porte, maiores, menores que a nossa musa e imensa cantora Betânia também reagem mal às vaias. A vaia é um ato considerado mesquinho, indigno, de má educação e portanto factível de ser exterminado em nome da civilização.

Destôo deste coro dos contentes, pois descontente, acho a vaia uma legítima expressão popular, secular e legítima.

A vaia isolada é ainda mais bela. Compõe a Sinfonia de um indivíduo que se transforma em uma Nação. Corajoso, furioso, justo.

Pois para aplaudir não precisamos de muitos neurônios, apenas o infindável tsunami chamado de inconsciente coletivo.

Um aplauso solitário sim. É verdadeiramente corajoso também.

E belo. Bravo. Bravíssimo.

E ambos VAIA E APLAUSO são faces da mesma moeda e para quem recebe fortunas a cada mês, trabalhando muito ou pouco, no departamento médico ou rachando lenha, não há muito o que reclamar não:

 O POVO REMUNERA MUITO BEM A QUEM DEPENDE DE SEU SUOR, SANGUE E LÁGRIMAS:

– POLÍTICOS(TODOS)

– ARTISTAS(ALGUNS)

– MÚSICOS(ALGUNS)

– JOGADORES DE FUTEBOL(ALGUNS).

– ?

Remunera-se muito mal os professores, os médicos, os garis, os bancários, os bombeiros, os policiais, os dentistas, etc pei bufe e coisa e tal.

E FIM.

E PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES, UM ANTOLÓGICO MOMENTO DA NOSSA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA:

Comentário sobre o Oscar 2012

Neste domingo (26) acontece o Oscar 2012. Organizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (AMPAS), a premiação é a mais prestigiada do cinema e está na 84ª edição. A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, é o filme que concorre ao maior número de categorias (11), entre elas direção, roteiro adaptado e melhor filme. Logo em seguida, com 10 indicações, segue a co-produção França e Bélgica muda e em preto e branco O Artista, favorita aos principais prêmios.

Várias surpresas marcaram as nomeações deste ano (talvez mais para o mal que para o bem). A começar pela redução do número de indicados ao Oscar de melhor filme: 9, um a menos que 2011. As regras para o prêmio principal foram mudadas novamente, desta vez podiam ser indicados entre 5 e 10 filmes e, para estar nessa lista, um longa tinha de ser a 1ª escolha de no mínimo 5% dos votantes (prova de que cada vez mais complicadas ficam as regras da AMPAS). Em contrapartida, mais duas animações foram nomeadas, aumentando para cinco em relação ao ano anterior.

A Academia foi ousada ao indicar o mexicano Demián Bichir ao prêmio de melhor ator por “Uma Vida Melhor”, embora ele já tivesse aparecido entre os indicados do SAG (Sindicato dos Atores). Na categoria em que concorre, o prêmio deve ficar para o vencedor do Screen Actors Guild, Jean Dujardin (“O artista”), que desbancou George Clooney (“Os descendentes”) e Brad Pitt (“O homem que mudou o jogo”). Correndo por fora está o inglês Gary Oldman (“O espião que sabia demais”), cujo papel não tem fôlego para ser premiado. Estão ausentes o maior ator do ano, Ryan Gosling (“Tudo pelo poder” e “Drive”), Michael Shannon (“O abrigo”) e o teuto-irlandês Michael Fassbender (“Shame”).

Surpresa ainda maior ficou por conta da indicação de ator coadjuvante para o veterano Max von Sydow (“Tão forte e tão perto”). Conhecido pelos trabalhos com o diretor Ingmar Bergman, Max foi nomeado em 1989 a melhor ator por “Pelle – o conquistador”, e este ano não tinha sido lembrado em outras premiações. Esperava-se que Albert Brooks (“Drive”) aparecesse na categoria, o que não aconteceu. Sydow disputa com o favorito Christopher Plummer (“Toda forma de amor”), Kenneth Branagh (“Sete dias com Marilyn”), Jonah Hill (“O homem que mudou o jogo”) e Nick Nolte (“Guerreiro”).

Por falar em Drive, a sensação que se tem é que este filme foi um dos subestimados do Oscar (poderia concorrer ao menos em roteiro adaptado, ator, trilha, atriz coadjuvante – Carey Mulligan – e ator coadjuvante, além da categoria a que foi indicado, edição de som). O outro esnobado seria a produção independente Ganhar ou Ganhar – a vida é um jogo (disponível em DVD no Brasil), dirigida por Thomas McCarthy e com Paul Giamatti, Amy Ryan e Burt Young no elenco (este por roteiro original, atriz coadjuvante – Amy – e canção, “Think you can wait”, do grupo The National).

O iraniano A Separação – também nomeado a roteiro original – é o provável ganhador do prêmio de filme estrangeiro. Depois da frustração que o Brasil teve com a saída de “Tropa de Elite 2” do processo de seleção da categoria citada, chegou a notícia de que dois conterrâneos, Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, concorrem em canção original com “Real in Rio”, pela animação Rio. Eles disputam com apenas outra música, do longa “Os Muppets”, ao contrário do ano passado, quando três canções ao todo foram indicadas (eles estão fazendo de tudo para acabar com essa categoria).

Mas o que mais foi questionado é a ausência do filme vencedor do Globo de Ouro, As aventuras de Tintim, de Steven Spielberg, em animação. Diante disso, Rango tornou-se o favorito. Woody Allen por “Meia-noite em Paris” e Terrence Malick (será que eles vão aparecer?) por “A árvore da vida” concorrem em direção com Alexander Payne (“Os descendentes”), o agora favorito por ganhar o Sindicato dos Diretores, Michel Hazanavicius (“O artista”), e, naturalmente, Scorsese.

Uma das poucas categorias que não causaram espanto foi a de melhor atriz. Há uma forte disputa entre Meryl Streep (premiada com o Globo de atriz-drama em “A Dama de Ferro”) e Viola Davis (que venceu o SAG por “Histórias cruzadas”). Nessa corrida, Glenn Close (“Albert Nobbs”) ficou para trás. Completam o time Michelle Williams no papel de Marilyn Monroe (“Sete dias com Marylin”) e Rooney Mara (“Millennium”). Ficaram fora Tilda Swinton (“Precisamos falar sobre o Kevin”) e Kirsten Dunst, de “Melancolia” (esta pagou pela língua solta de Lars von Trier).

O Oscar será mais uma vez apresentado pelo comediante Billy Crystal, após conturbada demissão de Eddie Murphy. No Brasil, o evento terá a transmissão na íntegra a partir das 19h30 (horário de Recife) pelo canal pago TNT, com a opinião do crítico Rubens Ewald Filho. Na TV aberta, os direitos pertencem à Rede Globo, que exibirá metade da festa graças ao Big Brother, com os comentários de José Wilker.

HAI KAI de Edgar Mattos. Poema/ço.

Publicado: 25/02/2012 em Poesia




QUISERA TER VOCÊ

AMANHÃ,

DEPOIS,

E SEMPRE

MAS,

SE NÃO FOR POSSÍVEL,

QUE SEJA APENAS HOJE,

PLENAMENTE !

 

MAGICAL MYSTERY TOUR

A oportunidade que a imprensa esperava para malhar os BEATLES finalmente apareceu quando o filme MAGICAL MYSTERY TOUR chegou às telas das TVs britânicas no feriadão do Natal de 1967. Realmente, o filme é muito ruim. Sem pé nem cabeça e absolutamente amador. Houve uma certa prepotência da banda em abrir mão de um roteirista e de um diretor calejados e assumir sozinha aquela empreitada que, para piorar, foi exibida em preto-e-branco , apesar do original colorido. Talvez pelo insucesso do filme, o álbum maravilhoso com a trilha sonora tenha se tornado o patinho feio da carreira do grupo muito injustamente. Magical Mystery Tour é um discaço que, ouvido na íntegra, é tão bom quanto o Sgt. Pepper, embora siga a mesma linha musicalmente psicodélica da época, o que era raríssimo de acontecer com os BEATLES que, preferiam nunca se repetir, mesmo estilisticamente.Todavia, vale lembrar que as sessões de gravações dos “dois” álbuns se misturaram, acontecendo paralelamente. Por incrível que pareça, foram os americanos que deram ao MAGICAL sua roupagem definitiva e que terminou por ser adotada oficialmente pela matriz inglesa e mundo afora. O fato é que a EMI lançou essa trilha sonora de forma esquisita e até inusitada. Ou seja, embalou 2 compactos (cada um com 3 canções) num livreto com fotografias do filme e portanto, a mídia da época sequer passou à considera-lo como mais “um album” do conjunto mas apenas como compactos, apesar do sucesso das vendas. Até antes do lançamento do SGT. PEPPER, os americanos modificavam os discos à seu bel prazer, retirando e acrescentando músicas dos albuns originais e até usando capas e títulos diferentes , sob o argumento da melhor adequação ao mercado deles. Mas a verdadeira intenção era fazer muito mais dinheiro, posto que para cada 2 discos da banda, com a retirada de canções e o acréscimo de músicas lançadas em compacto, eles forjavam um “terceiro” disco e realmente enchiam os bolsos. Por isso mesmo foram ironicamente esnobados pelos Beatles que possaram para um disco americano trajados de açougueiros , exibindo pedaços de carnes , cabeças e braços de bonecas (essa capa foi retirada das lojas e trocada por outra mais convencional quando perceberam a piada. Hoje é uma raridade bastante cobiçada por colecionadores). No caso do MAGICAL MYSTERY TOUR, temos de aplaudir o que fizeram com o disco. Alegando como sempre, questões comerciais, eles acrescentaram 5 canções de compactos recém lançados que, juntamente com as 6 canções inéditas do filme formaram um belíssimo conjunto dando aos Beatles mais um disco fantástico. Gol de letra dos gringos. O disco abre com a canção título lindamente arranjada sob a forma de um “jingle” comercial. Segue com a clássica balada THE FOOL ON THE HILL e suas flautas divinas, que figura hoje como uma das melhores canções do grupo. FLYING é uma faixa curta e instrumental que serve como trilha de uma passagem aérea do filme. BLUE JAY WAY é uma música incomum de Harrison, com melodia meio lúgubre mas interessante, adornada por um órgão estilo catedral. YOUR MOTHER SHOULD KNOW é uma deliciosa canção evocativa que foi usada na cena final. O antigo LADO A encerra com a divina magia de I AM THE WALRUS, outro clássico “nonsense” da banda.O arranjo de cordas e metais, além do efeito “phaser” da voz de Lennon, ainda hoje em dia fazem-na soar moderna e vanguardista. O LADO B abre com o pop cativante de HELLO GOODBYE e sua letra “qualquer-coisa”. Tudo o que se diga das duas pérolas que seguem vira redundância, porque STRAWBERRY FIELDS FOREVER e PENNY LANE já nasceram hinos de uma geração. Além da melodia cantada em falsete e seu arranjo com arabescos, bastante criativo, BABY YOU’RE ARE RICH MAN  é tudo de bom. O disco encerra com chave de ouro com a icônica ALL YOU NEED IS LOVE,  o primeiro hino pacifista da era Woodstock. Marca registrada. Como se vê, o álbum MAGICAL MYSTERY TOUR reúne uma significativa quantidade de clássicos daquele período realmente mágico da música pop, formando um todo brilhante e fundamental na carreira dos 4 cavaleiros do após-calypso. Para o genial HEBERT VIANNA é o seu disco favorito. LENNON também achava o mesmo. E você ?

Sexta de luxo com Erico Veríssimo.

Publicado: 24/02/2012 em Poesia

As mãos de meu filho

Erico Verissimo

Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros.
Beethoven.

Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.

Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria.

Adágio. O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda.

Num dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao sol… A melodia, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente.

Quando o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater. Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a platéia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos.

Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico.

Suggestion Diabolique.

D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os pés, machucando os calos.

Não faz mal. Estou no camarote. Ninguém vê.

Mexe os dedos do pé com delícia. Agora sim, pode ouvir melhor o que ele está tocando, ele, o seu Gilberto. Parece um sonho… Um teatro deste tamanho. Centenas de pessoas finas, bem vestidas, perfumadas, os homens de preto, as mulheres com vestidos decotados — todos parados, mal respirando, dominados pelo seu filho, pelo Betinho!

D. Margarida olha com o rabo dos olhos para o marido. Ali está ele a seu lado, pequeno, encurvado, a calva a reluzir foscamente na sombra, a boca entreaberta, o ar pateta. Como fica ridículo nesse smoking! O pescoço descarnado, dançando dentro do colarinho alto e duro, lembra um palhaço de circo.

D. Margarida esquece o marido e torna a olhar para o filho. Admira-lhe as mãos, aquelas mãos brancas, esguias e ágeis. E como a música que o seu Gilberto toca é difícil demais para ela compreender, sua atenção borboleteia, pousa no teto do teatro, nos camarotes, na cabeça duma senhora lá embaixo (aquele diadema será de brilhantes legítimos?) e depois torna a deter-se no filho. E nos seus pensamentos as mãos compridas do rapaz diminuem, encolhem, e de novo Betinho é um bebê de quatro meses que acaba de fazer uma descoberta maravilhosa: as suas mãos… Deitado no berço, com os dedinhos meio murchos diante dos olhos parados, ele contempla aquela coisa misteriosa, solta gluglus de espanto, mexe os dedos dos pés, com os olhos sempre fitos nas mãos…

De novo D. Margarida volta ao triste passado. Lembra-se daquele horrível quarto que ocupavam no inverno de 1915. Foi naquele ano que o Inocêncio começou a beber. O frio foi a desculpa. Depois, o coitado estava desempregado… Tinha perdido o lugar na fábrica. Andava caminhando à toa o dia inteiro. Más companhias. “Ó Inocêncio, vamos tomar um traguinho?” Lá se iam, entravam no primeiro boteco. E vá cachaça! Ele voltava para casa fazendo um esforço desesperado para não cambalear. Mas mal abria a boca, a gente sentia logo o cheiro de caninha. “Com efeito, Inocêncio! Você andou bebendo outra vez!” Ah, mas ela não se abatia. Tratava o marido como se ele tivesse dez anos e não trinta. Metia-o na cama. Dava-lhe café bem forte sem açúcar, voltava apara a Singer, e ficava pedalando horas e horas. Os galos já estavam cantando quando ela ia deitar, com os rins doloridos, os olhos ardendo. Um dia…

De súbito os sons do piano morrem. A luz se acende. Aplausos. D. Margarida volta ao presente. Ao seu lado Inocêncio bate palmas, sempre de boca aberta, os olhos cheios de lágrimas, pescoço vermelho e pregueado, o ar humilde… Gilberto faz curvaturas para o público, sorri, alisa os cabelos. (“Que lindos cabelos tem o meu filho, queria que a senhora visse, comadre, crespinhos, vai ser um rapagão bonito.)

A escuridão torna a submergir a platéia. A luz fantástica envolve pianista e piano. Algumas notas saltam, como projéteis sonoros.
Navarra.

Embalada pela música (esta sim, a gente entende um pouco), D. Margarida volta ao passado.

Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocêncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo…

— Inocêncio, quando é que tu crias juízo?

O pior era que ela não sabia fazer cenas. Achava até graça naquele homenzinho encurvado, magro, desanimado, que tinha crescido sem jamais deixar de ser criança. No fundo o que ela tinha era pena do marido. Aceitava a sua sina. Trabalhava para sustentar a casa, pensando sempre no futuro de Gilberto. Era por isso que a Singer funcionava dia e noite. Graças a Deus nunca lhe faltava trabalho.
Um dia Inocêncio fez uma proposta:

— Escuta aqui, Margarida. Eu podia te ajudar nas costuras…

— Minha Nossa! Será que tu queres fazer casas ou pregar botões?

— Olha, mulher. (Como ele estava engraçado, com sua cara de fuinha, procurando falar a sério!) Eu podia cobrar as contas e fazer a tua escrita.

Ela desatou a rir. Mas a verdade é que Inocêncio passou a ser o seu cobrador. No primeiro mês a cobrança saiu direitinho. No segundo mês o homem relaxou… No terceiro, bebeu o dinheiro da única conta que conseguira cobrar.

Mas D. Margarida esquece o passado. Tão bonita a música que Gilberto está tocando agora… E como ele se entusiasma! O cabelo lhe cai sobre a testa, os ombros dançam, as mãos dançam… Quem diria que aquele moço ali, pianista famoso, que recebe os aplausos de toda esta gente, doutores, oficiais, capitalistas, políticos… o diabo! — é o mesmo menino da rua da Olaria que andava descalço brincando na água da sarjeta, correndo atrás da banda de música da Brigada Militar…

De novo a luz. As palmas. Gilberto levanta os olhos para o camarote da mãe e lhe faz um sinal breve com a mão, ao passo que seu sorriso se alarga, ganhando um brilho particular. D. Margarida sente-se sufocada de felicidade. Mexe alvoroçadamente com os dedos do pé, puro contentamento. Tem ímpetos de erguer-se no camarote e gritar para o povo: “Vejam, é o meu filho! O Gilberto. O Betinho! Fui eu que lhe dei de mamar! Fui eu que trabalhei na Singer para sustentar a casa, pagar o colégio para ele! Com estas mãos, minha gente. Vejam! Vejam!”

A luz se apaga. E Gilberto passa a contar em terna surdina as mágoas de Chopin.

No fundo do camarote Inocêncio medita. O filho sorriu para a mãe. Só para a mãe. Ele viu… Mas não tem direito de se queixar… O rapaz não lhe deve nada. Como pai ele nada fez. Quando o público aplaude Gilberto, sem saber está aplaudindo também Margarida. Cinqüenta por cento das palmas devem vir para ela. Cinqüenta ou sessenta? Talvez sessenta. Se não fosse ela, era possível que o rapaz não desse para nada. Foi o pulso de Margarida, a energia de Margarida, a fé de Margarida que fizeram dele um grande pianista.

Na sombra do camarote, Inocêncio sente que ele não pode, não deve participar daquela glória. Foi um mau marido. Um péssimo pai. Viveu na vagabundagem, enquanto a mulher se matava no trabalho. Ah! Mas como ele queria bem ao rapaz, como ele respeitava a mulher! Às vezes, quando voltava para casa, via o filho dormindo. Tinha um ar tão confiado, tão tranqüilo, tão puro, que lhe vinha vontade de chorar. Jurava que nunca mais tornaria a beber, prometia a si mesmo emendar-se. Mas qual! Lá vinha um outro dia e ele começava a sentir aquela sede danada, aquela espécie de cócegas na garganta. Ficava com a impressão de que se não tomasse um traguinho era capaz de estourar. E depois havia também os maus companheiros. O Maneca. O José Pinto. O Bebe-Fogo. Convidavam, insistiam… No fim de contas ele não era nenhum santo.

Inocêncio contempla o filho. Gilberto não puxou por ele. A cara do rapaz é bonita, franca, aberta. Puxou pela Margarida. Graças a Deus. Que belas coisas lhe reservará o futuro? Daqui para diante é só subir. A porta da fama é tão difícil, mas uma vez que a gente consegue abri-la… adeus! Amanhã decerto o rapaz vai aos Estados Unidos… É capaz até de ficar por lá… esquecer os pais. Não. Gilberto nunca esquecerá a mãe. O pai, sim… E é bem-feito. O pai nunca teve vergonha. Foi um patife. Um vadio. Um bêbedo.

Lágrimas brotam nos olhos de Inocêncio. Diabo de música triste! O Betinho devia escolher um repertório mais alegre.

No atarantamento da comoção, Inocêncio sente necessidade de dizer alguma coisa. Inclina o corpo para a frente e murmura:

— Margarida…

A mulher volta para ele uma cara séria, de testa enrugada.

— Chit!

Inocêncio recua para a sua sombra. Volta aos seus pensamentos amargos. E torna a chorar de vergonha, lembrando-se do dia em que, já mocinho Gilberto lhe disse aquilo. Ele quer esquecer aquelas palavras, quer afugenta-las, mas elas lhe soam na memória, queimando como fogo, fazendo suas faces e suas orelhas arderem.

Ele tinha chegado bêbedo em casa. Gilberto olhou-o bem nos olhos e disse sem nenhuma piedade:

— Tenho vergonha de ser filho dum bêbedo!

Aquilo lhe doeu. Foi como uma facada, dessas que não só cortam as carnes como também rasgam a alma. Desde esse dia ele nunca mais bebeu.

No saguão do teatro, terminado o concerto, Gilberto recebe cumprimentos dos admiradores. Algumas moças o contemplam deslumbradas. Um senhor gordo e alto, muito bem vestido, diz-lhe com voz profunda:

— Estou impressionado, impressionadíssimo. Sim senhor! Gilberto enlaça a cintura da mãe:

— Reparto com minha mãe os aplausos que eu recebi esta noite… Tudo que sou, devo a ela.

— Não diga isso, Betinho!

D. Margarida cora. Há no grupo um silêncio comovido. Depois rompe de novo a conversa. Novos admiradores chegam.

Inocêncio, de longe, olha as pessoas que cercam o filho e a mulher. Um sentimento aniquilador de inferioridade o esmaga, toma-lhe conta do corpo e do espírito, dando-lhe uma vergonha tão grande como a que sentiria se estivesse nu, completamente nu ali no saguão.

Afasta-se na direção da porta, num desejo de fuga. Sai. Olha a noite, as estrelas, as luzes da praça, a grande estátua, as árvores paradas… Sente uma enorme tristeza. A tristeza desalentada de não poder voltar ao passado… Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misérias…

O porteiro do teatro, um mulato de uniforme cáqui, caminha dum lado para outro, sob a marquise.

— Linda noite! — diz Inocêncio, procurando puxar conversa. O outro olha o céu e sacode a cabeça, concordando.

— Linda mesmo.

Pausa curta.

— Não vê que sou o pai do moço do concerto…

— Pai? Do pianista?

O porteiro pára, contempla Inocêncio com um ar incrédulo e diz:

— O menino tem os pulsos no lugar. É um bicharedo.

Inocêncio sorri. Sua sensação de inferioridade vai-se evaporando aos poucos.

— Pois imagine como são as coisas — diz ele. — Não sei se o senhor sabe que nós fomos muito pobres… Pois é. Fomos. Roemos um osso duro. A vida tem coisas engraçadas. Um dia… o Betinho tinha seis meses… umas mãozinhas assim deste tamanho… nós botamos ele na nossa cama. Minha mulher dum lado, eu do outro, ele no meio. Fazia um frio de rachar. Pois o senhor sabe o que aconteceu? Eu senti nas minhas costas as mãozinhas do menino e passei a noite impressionado, com medo de quebrar aqueles dedinhos, de esmagar aquelas carninhas. O senhor sabe, quando a gente está nesse dorme-não-dorme, fica o mesmo que tonto, não pensa direito. Eu podia me levantar e ir dormir no sofá. Mas não. Fiquei ali no duro, de olho mal e mal aberto, preocupado com o menino. Passei a noite inteira em claro, com a metade do corpo para fora da cama. Amanheci todo dolorido, cansado, com a cabeça pesada. Veja como são as coisas… Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis… Não podia ser o artista que é.

Cala-se. Sente agora que pode reclamar para si uma partícula da glória do seu Gilberto. Satisfeito consigo mesmo e com o mundo, começa a assobiar baixinho. O porteiro contempla-o em silêncio. Arrebatado de repente por uma onda de ternura, Inocêncio tira do bolso das calças uma nota amarrotada de cinqüenta mil-réis e mete-a na mão do mulato.

— Para tomar um traguinho — cochicha.

E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas.
O texto acima foi publicado no livro “Contos“, Editora Globo — Rio de Janeiro, 1983 e, agora, selecionado por Ítalo Moriconi, incluído em “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século“, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 173.

 

Carro…ças

Publicado: 23/02/2012 em Brasil mostra a tua cara!

Automovelcracia III: O anjo exterminador

 

Em 1992 houve um plebiscito em Amsterdã. Os habitantes desta cidade holandesa decidiram reduzir à metade o espaço, já bastante limitado, ocupado pelos automóveis. Três anos mais tarde, foi proibido o trânsito de carros particulares em todo o centro da cidade italiana de Florença, proibição essa que incluirá a cidade inteira à medida que se multipliquem os bondes, as linhas de metrô, os calçadões e os ônibus. Além, é claro, das ciclovias: dentro de pouco tempo será possível atravessar toda a cidade sem riscos, pedalando num meio de transporte que custa pouco, não gasta nada, não invade o espaço humano nem envenena o ar.

Enquanto isso, um relatório oficial confirmava que os automóveis ocupam um espaço bem maior do que as pessoas na cidade norte-americana de Los Angeles, mas lá ninguém pensou em cometer o sacrilégio de expulsar os invasores.

A quem pertencem as cidades? – Amsterdã e Florença são exceções à regra universal de usurpação. O mundo foi motorizado velozmente, à medida que as cidades e as distâncias cresceram, e os meios de transporte público abriram caminho para o automóvel particular. O presidente francês Georges Pompidou exaltou esse movimento dizendo que “é a cidade que precisa se adaptar aos automóveis e não o inverso”. Mas suas palavras ganharam um sentido trágico quando foi revelado que as mortes por poluição na cidade de Paris aumentaram brutalmente durante as greves do final do ano passado: a paralisação do metrô multiplicou as viagens de automóvel e esgotou os estoques de máscaras antipoluentes.

Na Alemanha, em 1950, trens, ônibus, metrôs e bondes transportavam três quartos da população; hoje, levam menos de um quinto. A média européia caiu para 25%, o que ainda é muito se comparado aos Estados Unidos, onde o transporte público atinge apenas 4% do total. Henry Ford e Harvey Firestone eram amigos íntimos, e ambos se davam extremamente bem com a família Rockefeller. Essa afeição recíproca desembocou numa aliança de influências que esteve diretamente relacionada com o desmantelamento das linhas de trens e a criação de uma vasta rede de estradas, em todo o território norte-americano. Com o passar dos anos, nos Estados Unidos e no mundo inteiro, tornou-se cada vez mais esmagador o poder dos fabricantes de automóveis e de pneus,e dos industriais do petróleo. Das sessenta maiores empresas do mundo, metade pertence a esta santa aliança ou está de alguma forma ligada à ditadura das quatro rodas.

Dados para um prontuário – Os direitos humanos terminam onde começam os direitos das máquinas. Os automóveis emitem impunemente um coquetel de substâncias assassinas. A intoxicação do ar é espetacularmente visível nas cidades latino-americanas, mas é bem menos notada em algumas cidades do Norte do mundo.A diferença é explicada, em grande parte, pelo uso obrigatório dos catalisadores e da gasolina sem chumbo. No entanto, a quantidade tende a anular a qualidade, e esses progressos tecnológicos vão perdendo seu impacto positivo diante da proliferação vertiginosa do parque automotivo, que se reproduz como se fosse formado por coelhos.

Visíveis ou dissimuladas, reduzidas ou não, as emissões venenosas formam uma extensa lista criminosa. Para dar apenas três exemplos, os técnicos do Greenpeace denunciaram que é dos automóveis que provém mais da metade do total do monóxido de carbono, do óxido de nitrogênio e dos hidrocarbonetos, que tão eficientemente contribuem para a destruição do planeta e da saúde humana. “A saúde não é negociável. Chega de meios-termos”, declarou o responsável pelo setor de transportes de Florença, no início do ano. Mas em quase todo o mundo, parte-se do princípio de que é inevitável que o divino motor, em plena era urbana, seja o eixo da vida humana.

Copiamos o que há de pior – O ruído dos motores não deixa ouvir as vozes que denunciam o artifício de uma civilização que te rouba a liberdade para depois vendê-la, e que te corta as pernas para te obrigar a comprar automóveis e aparelhos de ginástica. Impõe-se no mundo, como único modelo possível de vida, o pesadelo de cidades onde os carros mandam, devoram as zonas verdes e se apoderam do espaço humano. Respiramos o pouco de ar que eles nos deixam; e quem não morre atropelado sofre de gastrite por causa dos engarrafamentos.

As cidades latino-americanas não querem se parecer com Amsterdã ou Florença, e sim com Los Angeles, e estão conseguindo se transformar numa horrorosa caricatura daquela vertigem. Levamos cinco séculos de treinamento para copiar em vez de criar. Já que estamos condenados à copiandite, poderiamos escolher nossos modelos com um pouco mais de cuidado. Anestesiados pela televisão, publicidade e cultura de consumo, engolimos a história/estória da chamada modernização, como se essa brincadeira de mau gosto e humor negro fosse o abracadabra da felicidade.

 

A Automovelcracia II: A liturgia do divino motor.

Com o deus de quatro rodas acontece aquilo que costuma acontecer com os deuses: nascem a serviço das pessoas, mágicos conjuros contra o medo e a solidão, e acabam pondo as pessoas a seu serviço. A religião do automóvel, que tem seu vaticano nos Estados Unidos da América, tem o mundo de joelhos a seus pés.

Seis, seis, seis – A imagem do Paraíso: todo norte-americano possui um carro e uma arma de fogo. Os Estados Unidos detém a maior concentração de automóveis e também o mais numeroso arsenal de armas num único país, os dois negócios básicos da economia nacional. Seis, seis, seis: de cada seis dólares gastos pelo cidadão médio, um é consagrado ao automóvel; de cada seis horas de vida, uma é dedicada a viajar de carro ou a trabalhar para pagá-lo; e de cada seis empregos, um está direta ou indiretamente ligado ao automóvel, e outro está direta ou indiretamente ligado à violência e suas indústrias.

Quanto mais gente os automóveis e as armas assassinarem, e quanto mais natureza eles destruírem, mais crescerá o Produto Interno Bruto. Como bem diz o pesquisador alemão Winfried Wolf, em nosso tempo, as forças produtivas transformaram-se em forças destrutivas. Talismãs contra o desamparo ou convites ao crime? A venda de carros é simétrica à venda de armas, e bem se poderia dizer que faz parte dela: os acidentes de trânsito matam e ferem, a cada ano, mais norte-americanos do que todos os norte-americanos mortos e feridos ao longo da Guerra do Vietnã, e a carteira de motorista é o único documento necessário para qualquer um comprar uma metralhadora, e com ela cozinhar à bala toda a vizinhança.

A carteira de motorista não é apenas usada para estes fins; ela também é imprescindível para pagamentos com cheques ou para sacá-los, para fazer um trâmite burocrático ou para assinar um contrato. Nos Estados Unidos, a carteira de motorista serve como documento de identidade. Os automóveis outorgam identidade às pessoas.

Os aliados da democracia – O país conta com a gasolina mais barata do mundo, graças aos presidentes corruptos, aos xeques de óculos escuros e aos reis de opereta que se dedicam a malvender petróleo, a violar direitos humanos e a comprar armas norte-americanas. A Arábia Saudita, por exemplo, que aparece nos primeiros lugares das estatísticas internacionais pela riqueza de seus ricos, pela mortalidade de suas crianças e pelas atrocidades de seus verdugos, é o principal cliente da indústria norte-americana de armas.

Sem a gasolina barata fornecida por estes aliados da democracia, o milagre não seria possível: nos Estados Unidos, qualquer um pode ter um carro e muitos podem trocá-lo freqüentemente. E se o dinheiro não for suficiente para o último modelo, já estão à venda aerosóis que dão aroma de nova àquela velharia comprada três ou quatro anos antes, àquele autossauro.

Dizes que carro tens e eu te direi quem és e quanto vales. Esta civilização que adora carros tem pânico da velhice: o automóvel, promessa de juventude eterna, é o único corpo que pode ser trocado.

A gaiola – A esse outro corpo, o de quatro rodas, é dedicada a maior parte da publicidade na televisão, a maior parte das horas de conversa e a maior parte do espaço das cidades. O automóvel dispõe de restaurantes para se alimentar de gasolina e óleo, e tem a seu serviço farmácias para comprar remédios, hospitais para ser examinado, diagnosticado e curado, dormitórios para dormir e cemitérios para morrer.

Ele promete liberdade às pessoas; por alguma razão as estradas são chamadas de freeways, caminhos livres, e no entanto atua como uma gaiola ambulante. O tempo de trabalho humano foi reduzido em pouco ou nada, e porém ano após ano aumenta o tempo necessário para ir e voltar ao trabalho, devido ao trânsito atolador, que nos obriga a avançar penosamente e às cotoveladas.

Vive-se dentro do automóvel e ele não larga do nosso pé. Drive by shooting sem sair do carro, à toda velocidade, pode-se apertar o gatilho e disparar a esmo, como está em voga nas noites de Los Angeles. Drive thru teller, drive by eating, drive in movies: sem sair do carro pode-se sacar dinheiro do banco, comer hambúrgueres e assistir a um filme. E sem sair do carro pode-se contrair matrimônio, drive in marriage: em Reno, Nevada, um casal passa com o seu automóvel por baixo de arcadas de flores de plástico; numa janelinha aparece a testemunha e na outra o pastor, que os declara marido e mulher, bíblia nas mãos e, na saída, uma funcionária ornamentada de asas e auréola entrega a certidão de casamento e recebe a gorjeta, chamada de love donation.

O automóvel, corpo renovável, tem mais direitos que o corpo humano, condenado à decrepitude. Os Estados Unidos da América empreenderam, nestes últimos anos, a guerra santa contra o demônio do fumo. Nas revistas, a publicidade dos cigarros aparece atravessada por obrigatórias advertências à saúde pública. Os anúncios advertem, por exemplo: “A fumaça do cigarro contém monóxido de carbono”. Mas nenhum anúncio de automóveis adverte que muito mais monóxido de carbono contém a fumaça dos automóveis. As pessoas não podem fumar. Os carros, sim.

Automovelcracia: o carro domina nossa razão e nossa emoção

Sequestro dos fins pelos meios: o supermercado o compra, o televisor lhe assiste, o automóvel o dirige. Os gigantes que fabricam automóveis e combustíveis, negócios quase tão rentáveis quanto armas e drogas, convenceram-nos de que o motor é o único prolongamento possível do corpo humano. Em nossas cidades, submetidas à ditadura do automóvel, a grande maioria das pessoas não tem outra alternativa a não ser pagar para viajar, como sardinhas em lata, num transporte público destrambelhado e insuficiente.

A sociedade de consumo, oitava maravilha do mundo, décima sinfonia de Beethoven, impõe-nos sua simbologia de poder e sua mitologia de ascensão social. “O carro é seu melhor amigo”, informa um anúncio. A vertigem sobre rodas o fará feliz: “Viva uma paixão!”, oferece outro anúncio. A publicidade o convida para entrar na classe dominante acessando a chavinha mágica que liga o motor: “Imponha-se!”, ordena a voz que dita as ordens do mercado, e também: “Demonstre que você tem personalidade!”. E, se não me falha a memória da infância, se você colocar um tigre no tanque, você será o mais rápido e o mais poderoso de todos, e passará por cima de quem atrapalhar o seu caminho em direção ao sucesso.

A linguagem fabrica a realidade ilusória que a publicidade precisa para vender seus produtos. Mas ocorre que, na realidade real, os instrumentos criados para multiplicar a liberdade contribuem para nos encarcerar. O carro, essa máquina de ganhar tempo, devora o tempo humano. Nascido para nos servir, coloca-nos a seu serviço: ele nos obriga a trabalhar mais e mais horas para poder alimentá-lo, rouba nosso espaço e envenena nosso ar.

Em nome da liberdade de empresa, da liberdade de circulação e da liberdade de consumo, o ar urbano tornou-se irrespirável. O carro não é o único culpado pela agressão cotidiana ao ar no mundo, mas é quem mais diretamente ataca os habitantes das cidades. As ferozes descargas de chumbo que se enfiam no sangue, agredindo os nervos, o fígado e os ossos, têm efeitos devastadores principalmente no hemisfério sul, onde não são obrigatórios os catalizadores nem a gasolina purificada. Conforme denunciam os ecologistas, em Santiago do Chile, cada criança que nasce aspira o equivalente a sete cigarros diários e uma em cada quatro crianças sofre de alguma forma de bronquite.
O que é a ecologia? Um táxi pintado de verde?

Na Cidade do México, os táxis pintados de verde são chamados de táxis ecológicos e chamam-se de parques ecológicos as poucas árvores de cor doentia que sobrevivem ao assédio dos carros. Numa publicação oficial, as autoridades da capital mexicana difundiram alguns conselhos ecológicos que parecem ter sido inspirados pelos mais sombrios profetas do apocalipse.

A Comissão Metropolitana de Prevenção e Controle da Contaminação Ambiental recomenda textualmente aos habitantes da cidade que “permaneçam o menor tempo possível ao ar livre, mantenham fechadas portas e janelas e não pratiquem exercícios das 10 às 16 horas” nos dias muito poluídos, que são quase todos.

Segundo relatam os estudiosos de antiguidades gregas. a cidade nasceu como um lugar de encontro das pessoas. Há espaço para as pessoas nestas imensas garagens? Pouco antes da publicação desses conselhos ecológicos, saí caminhando pelas ruas da Cidade do México. Andei quatro horas entre motores que rugiam. Sobrevivi. Meus amigos me deram boas-vindas emocionados, mas me recomendaram um bom psiquiatra.

Os automóveis matam uma multidão, a cada ano, no mundo inteiro. Em muitos países, as estatísticas são duvidosas, ou inexistentes ou não estão atualizadas. As últimas estimativas globais disponíveis (do Worldwatch Institute, de Washington) indicam que mais de 250 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito em 1985. Nem a guerra do Vietnã matou tanta gente em apenas um ano.

No mundo inteiro, o trânsito é a primeira causa de morte entre os jovens, acima de qualquer doença, droga ou crime. Uma enorme campanha internacional de propaganda, com nuances francamente terroristas, adverte diariamente aos jovens sobre os riscos do sexo em tempos de Aids. Por que não fazer uma campanha semelhante acerca dos perigos do automóvel? A carteira de motorista equivale à licença de porte de armas?

Andar de bicicleta pelas ruas das grandes cidades latino-americanas, que não têm ciclovias, é a forma mais prática de se suicidar. Nos países do sul do planeta, onde as normas existem para serem violadas, há muito menos carros do que nos países do norte, porém matam muito mais.

Porque os latino-americanos que não têm nem terão carro próprio – a imensa maioria não pode nem poderá comprá-lo – continuam condenados a aguardar nas esquinas, sem outro remédio a não ser esperar os escassos ônibus? Por que não abrir, antes que se já tarde, ciclovias protegidas nas avenidas e ruas principais?

Os carros não votam, mas os políticos têm pânico de provocar-lhes o mínimo desgosto. Nenhum governo latino-americano atreveu-se a desafiar o poder motorizado. É verdade que recentemente Cuba se encheu de bicicletas, mas isso não aconteceu durante os trinta e tantos anos de revolução. A bicicleta aparece maciçamente em Cuba quando não há outro remédio, porque não sobra uma gota de petróleo: não como uma alegria desfrutável, mas como uma calamidade inevitável.

Nem sequer as revoluções, às quais ninguém poderia negar o desejo de mudança, propuseram-se a pôr em prática esta singela maneira de diminuir a dependência das onipotentes empresas que dominam o negócio do transporte e do petróleo no mundo. Não existe pior colonialismo do que aquele que nos conquista o coração e nos apaga a razão.

Poemas de Carnaval… quem vem lá?

Publicado: 21/02/2012 em Poesia

Custei a compreender que a fantasia
É um troço que o cara tira no carnaval
E usa nos outros dias por toda a vida.

Aldir Blanc e João Bosco

 

Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.

Trecho do livro ‘Em Liberdade’ de Graciliano Ramos

 

 

“Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro…”

Adriana Falcão

 

 

Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Clarice Lispector

 

 

PS ESPECIAL DE LUXO. NO TOITIÇO E AMÉM:

 

“Queria ser presidente por um dia. Faria uma lei que anulasse o carnaval em prol da nação. Argumentos lógicos não me faltam: Diminuição de acidentes; menor índice de HIV positivo; melhorar imagem do país no exterior; cortar semana ociosa para que aumentemos nossa renda; valorizar a imagem da mulher brasileira; investir os 2 bilhões por ano do carnaval em educação; diminuir consumo de drogas nesse período….
.
Acho que não teria o apoio popular pra isso. Já tivemos presidentes que afundaram a educação, a habitação, a reforma agrária, a inflação, a renda familiar, os empregos, e até mesmo presidente que roubou nossa poupança. Ninguém reclamou. Porém se eu acabasse com o carnaval certamente me matariam.
.
Mesmo sabendo o risco que corro,aceitaria essa missão suicida, afinal, é melhor morrer no país do carnaval do que viver no carnaval desse pais.”

Danilo Gentili





 

Tão forte e tão perto (EUA, 2012) Cotação: 5/10

 

Por Houldine Nascimento

 

Os atentados de 11 de Setembro de 2001 ainda repercutem na vida dos americanos. Tanto que, por motivos questionáveis, uma guerra foi movida usando essa desculpa. Uma década depois, o cineasta inglês Stephen Daldry decide rodar um longa que tem como pano de fundo aquele acontecimento que mudou o curso da história da humanidade. Baseado no livro de Jonathan Safran Foer (que aqui se chamou “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”) publicado em 2005, Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close, EUA, 2012) conta a história de um garoto que não consegue superar a perda do pai, morto numa das Torres do World Trade Center.

 

Oskar Schell (o estreante Thomas Horn, em missão ingrata) é daquelas crianças prodígios que só os Estados Unidos é capaz de ter. Com nove anos, o menino possui um nível intelectual difícil de encontrar até mesmo em certos adultos. Inventor amador como se descreve, ele tem uma grande admiração pelo pai, o joalheiro Thomas Schell (Tom Hanks). Quando “o pior dia de todos” chega, Oskar se comporta de uma maneira natural à situação, sem aceitar o ocorrido. Contraditoriamente, busca uma explicação racional para isso.

 

Se apegando a uma chave localizada dentro de um envelope, no antigo armário do pai, com o nome “Black”, o garoto parte com todos seus medos numa jornada pelos distritos nova-iorquinos para achar a pessoa em questão e a fechadura correta para esse mistério. A certa altura, Oskar diz: “não acredito em milagres”, no que é rapidamente respondido por uma das centenas de pessoas que possuem esse sobrenome: “se você encontrar o dono dessa chave, isso será um verdadeiro milagre”.

 

Até então fora das grandes premiações, Tão Forte e Tão Perto foi nomeado para dois Oscars (ator coadjuvante – para Max von Sydow – e filme). Sydow vive um homem mudo que é inquilino da avó de Oskar e se propõe a ajudá-lo. Os melhores momentos são proporcionados exatamente quando o veterano ator sueco (célebre pelos trabalhos com Ingmar Bergman) está em cena, de tal forma que torcemos para ele permanecer, um contraponto à chatice do menino. Além de Max von Sydow, o filme tem de melhor a fotografia, assinada por Chris Menges, e a trilha de Alexandre Desplat.

 

Embora haja o pretexto de que o comportamento dele se dá pela ausência de um ente querido, é difícil de aturar uma história em que o personagem central faz tudo para ser desagradável durante quase toda a projeção. Entre uma das tantas atitudes insuportáveis do garoto, está a que ele confronta a mãe (interpretada por Sandra Bullock), ainda frágil, dizendo desejar que fosse ela no lugar do marido. No elenco, ainda há Viola Davis e Jeffrey Wright como dois dos Black e  John Goodman fazendo o porteiro do prédio onde os Schell moram.

 

Stephen Daldry mostrou ser um diretor interessante quando fez a sua estreia com outro filme que trazia uma criança como protagonista, “Billy Elliot” (2000). Dois anos mais tarde veio sua obra maior, “As Horas”, no qual Nicole Kidman se entregou por completo na figura da escritora Virginia Woolf. Em 2008, ele realizou “O Leitor”. Pelos três trabalhos, foi nomeado ao Oscar de direção. A Academia de Hollywood gosta bastante dele, prova disso é ter indicado este último trabalho (sem dúvida o mais fraco) à principal categoria. Em vários momentos dos mais de 120 minutos, custa entender qual a finalidade de Tão Forte e Tão Perto. A trama parece “andar em círculos”. É difícil de acreditar que Daldry se dispôs a fazer um filme que, no final das contas, não chega a lugar algum.

 T R I B U T O    ?

Tenho um tremendo “pé atrás” com os chamados CDs do tipo “TRIBUTO A…”, porque raramente encontrei algum cujo homenageado não tenha sido vitimado pela boçalidade histriônica dos intérpretes.Sim, há versões empolgantes mas, geralmente não passam de 10% do conteúdo total.
Um bom coração resolve homenagear algum cantor/banda/compositor e para isso convoca artistas de estilos variados. Alguns da novíssima geração e outros já calejados, obviamente por motivos mercadológicos. Então o que acontece ou ao menos fica subentendido é que, boa parte dos convidados, ou não conhece ou não é muito chegado ao reverenciado e aproveita a ocasião mais para se exibir, em detrimento da obra. Não é raro canções serem desconstruidas, perderem sua essência e identidade em favor de modernísmos MTV. Isso quando o cara não pinta de voz e violão “barzinhos” para destilar sua versão “intimista” de APESAR DE VOCÊ ou LIKE A ROLLING STONE.

Bem diferente daquele artista que genuinamente admira o seu colega ou determinada canção e resolve grava-la, colocando-a em seu repertório.É claro que ele vai botar sua marca, seu estilo, mas a gente sente que ali há reverência e respeito,além da consciência de que nem toda música pode ser remexida demais.

Dia desses, foi lançado um filme sobre Bob Dylan e para a trilha sonora foram convocados todos e todas do pedaço.Mas o que prometia ser um discaço resultou numa obra decepcionante.Um desfile de estrelismos e “mudernidades” que devem ter desagradado o compositor. Há versões maravilhosas das canções de Dylan espalhadas em discos de seus colegas que,juntas, formariam um belíssimo conjunto.Para citar algumas, Simply Red (Positively 4º Street), George Harrison (If Not For You), Brian Ferry (Knocking on a heaven’s door) e Norah Jones (I’ll be your baby tonight) e tantas outras que dariam um album duplo.

Se você não aguenta mais ouvir a milionésima versão bossa-nova de Sonífera Ilha na voz da próxima sensação da MPB, pode comprar Bethânia revitalizando a obra de Roberto/Erasmo ou o maravilhoso album de SANTANA, onde ele se debruça com toda salerosidad  (?) sobre seus temas favoritos de outros colegas de geração.Realmente, parece que, quando o projeto reune vários intérpretes, a coisa não decola.Vira um insosso de plumas e paetês.

Não há mas muito o que dizer.Fuja dos DISCOS TRIBUTOS. O resto certamente o VJ André vai arrasar.Pode apostar.

RECADO PARA A COLOMBINA

 

( de um Pierrot apaixonado…….pelo Carnaval )

 

Tenho uma coisa para lhe dizer

Sei que você gosta de outro

Mas a vida é bela

 

Seja como for

Vou pra casa de Noca

Tomar umas e outras

Me segura senão eu caio no passo

 

Ah, confete pedacinho colorido de saudade,

Saudade que me trouxe pelo braço

Eu daqui não saio, eu não vou embora

Até a quarta-feira ingrata

A gente brinca esquecendo a dor

 

Um diabo louro faiscou na minha frente

( E minha mãe sem nora…)

Eu não digo não porque faz mal ao coração

Mas aquele beijo foi um beijo de vampira

 

Ainda bem que a nossa vida é um Carnaval !

 

 

Edgar Mattos

Só assim podemos entender o BBB, a GROBO, os GROBAIS, O Congresso, O PT, O PSDB, DUDU, PRECATÓRIOS, Poder Judiciário e outras m… mais:
Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu seu anel de diamante ser levado pelas águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancara o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margarida. O pai e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse:

– Agora me lembro, não era um homem, eram dois.

– E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse:

– Então está com o terceiro!

Pois se lembrara que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para espanto dela.

– Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo e a deixou desfalecida – gritaram os aldeões. – Matem-no!

– Esperem! – gritou o homem, no momento  em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço. – Eu não roubei o anel. Foi ela que me deu!

E apontou para a donzela, diante do escândalo de todos.

O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira  que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel, dizendo “Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará o seu amor”. E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra.

Todos se viraram contra a donzela e gritaram: “Rameira! Impura! Diaba!” e exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço.

Antes de morrer, a donzela disse para o pescado:

– A sua mentira era maior que a minha. E eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade?

O pescador deu de ombros e disse:

– A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem a cria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.

 

    ENSINAR É PRECISO

 

                                         EDGAR MATTOS

 

“Vocês, professores, detém uma parcela do saber de que se valem as classes dominantes para fazer legitimado o seu poder.

 

Quantos mais forem os que sabem, menos numerosos serão os que fazem da exploração da ignorância o seu lucrativo negócio.

 

Não existe arma mais poderosa, em termos de revolução social, do que uma docência direcionada, com competência e responsabilidade, para a estimulação da consciência popular.

 

Por isso, tanto quanto os signos do alfabeto, cumpre-lhes ensinar a seus alunos o bê-a-bá da cidadania.

 

Sem conhecer bem os seus direitos, pouco adiantará a um homem a perversa faculdade de ser capaz de ler a história da sua própria miséria.

 

Ensinar, pois, é preciso :

  • Ensinar que a inevitável desigualdade entre os homens, contingência da diversidade bio-psicológica que tanto engrandece a humanidade, não poderá nunca servir para justificar desnivelamentos sociais tão profundos quanto os que distanciam, em grau de iniquidade, riquezas tão opulentas e misérias tão absolutas !
  • Ensinar que a pobreza é apenas uma circunstância superável, jamais um estigma a marcar inexoravelmente o destino dos homens.
  • Ensinar que a Justiça para o pobre não deve ser só pena e prisão, mas sobretudo a proteção dos seus direitos de cidadão a uma vida digna e decente.
  • Ensinar que a Liberdade, garantia do espaço de cada um, assenta-se na ordem e no respeito ao direito do outro; que a anarquia, lei do mais forte, inviabiliza o exercício da Liberdade.
  • Ensinar que toda organização estatal deve aos cidadãos condições suficientes de alimentação, moradia, saúde e educação; que falida estará, por princípio, a Sociedade incapaz de assegurar a sobrevivência condigna de todos os seus “sócios”.
  • Ensinar que o voto é a oportunidade democrática de o homem influir no seu próprio destino; não se pode vender ao dinheiro, nem trocar pelo favor; que seu único preço é o compromisso do candidato avalizado muito mais pela sua prática de vida do que pela retumbância do seu discurso;
  • Ensinar, especialmente,
  • que a Segurança começa na Justiça,
  • que a Justiça se alicerça na Democracia,
  • que a Democracia se inicia com a Educação,
  • que a a Violência é a reação dos que não sabem,
  • que a Ignorância é a pior prisão,
  • que a Liberdade começa a ser soletrada na Escola.

ENSINAR É PRECISO !

 

(trecho de discurso de paraninfo da 1ª turma do curso de formação de professores da Escola Mardônio Coelho, da Bomba do H

Recife (PE) – Em um belo dia de julho de 2009, o ex-preso político Alípio Freire nos guiou pelo Memorial da Resistência em São Paulo. Ali ele conduziu a mim, a minha esposa e filha pelas celas do Deops paulista e, em lugar da pura exposição do terror estatal, nos mostrou humanidade e sementes de esperança entre mortos e torturados.

Enquanto Alípio discorria por entre aquelas paredes, era possível notar que nele  residiam juntos um artista plástico, um intelectual, um bom narrador de casos e causos, contados como se surgissem do nada, no meio de pausas de um cigarro e outro. Mas isso, digamos, ainda não estava materializado como um documento íntimo, pessoal da história daqueles anos – eram percepções de passagem entre fumaças. A existência do Memorial era, é objetiva, a sua necessária e dura referência está ao lado de nós. Ali houve e há uma história ocorrida antes e agora pelo rescaldo da ditadura, da sociedade de classes, abjeta e objetiva.

Mal sabia eu que outro Memorial da Resistência já se encontrava em gestação, em uma forma imprevisível e original, como agora sei ao ler “Poemas – De Ordem Política e Social”. Pois aqui ocorre o lugar de um outro Departamento, que em vez de um Deops se estabelece como um Poeops, mas nada de Poe, de Allan Poe, porque Alípio Freire escreve à sua maneira a Poesia que é uma Resistência daquelas vidas de jovens e velhos, homens e mulheres subversivos contra a Ordem. E o resultado agora todos vão conhecer.

Quisera eu poder guiá-los neste momento. Ainda que não tenha o dom do artista Alípio, quando em 2009 nos conduziu pelo Memorial da Resistência, tentarei algo à semelhança de uma apresentação do poeta neste livro que se abre como um fruto maduro, caído do pé da árvore do Brasil.

Na primeira revelação, descubro que todo poeta chama, reclama e ensina para o leitor uma nova poética – aquela que o liberta e nos liberta do vício do acostumado, da forma que é fôrma. Os indivíduos mais tradicionais e conservadores – e nada mais burro e estéril que pessoas condenadas à carga desses dois adjetivos – poderiam dizer que em alguns poemas de Alípio há uma tendência de versos que são uma prosa em linhas descontínuas. E com isso o estúpido confunde poesia com determinados temas e canto ao orvalho na flor, por um lado, e por outro, com a obscuridade, que com freqüência é vista como sublime.

Mas o que é a poesia? Será ela somente a de significados multívocos, quando não ambíguos, com a dignificação de “poesia aberta?” Ou seria ela, mais propriamente, aquele associada ao sentido de beleza e verdade, verdade e beleza, beleza e verdade, até o sol raiar e noite adentro? Se não for isso, parem aqui e respondam depois da leitura:

“Eu tenho uma casinha

 lá na Marambaia

 fica na beira da praia

 onde helicópteros e aviões da Aeronáutica

 despejavam corpos de opositores do regime.

 Alguns

ainda com vida

Outros

esquartejados.

O terror de Estado contaminou tudo.

Até o nosso mais lírico cancioneiro”.

 

Na segunda revelação, descubro que este é um livro e lugar onde nasce e se inaugura uma floresta de citações mais adiante, em futuros discursos de políticos iluminados, em poemas vindouros de jovens poetas, em inteligentes conversas de muitos jovens e militantes de todas idades, inconformados com o lixo de mundo que recebem.  Se não, olhem alguns versos, como estes:

“Da tragédia

Nós sobrevivemos

ao pau-de-arara.

Mas o pau-de-arara

também sobreviveu”.

 

Então vamos chegando mais perto da poética de Alípio Freire. A sua estética liga o domínio de conquistas cultas ao pensamento maduro, que gera reflexão, pois este é o poeta que não abstrai, não exclui o pensamento da sua poesia. Isso quer dizer: este poeta é um intelectual de esquerda, um pensador que exerce a sua história e cultura em um só corpo:

“Coquetel

 Uma garrafa

 Uma rolha

 Gasolina

 Óleo 30

 Pólvora e ácido nítrico

Ou uma mecha em chamas…

… e…

desde então

aquela dificuldade insana de hierarquizar os alvos”.

 

E mais esta Prestação de contas:

“Para morrer

 basta estar vivo.

 Para viver

 não.”

A vontade que deixa na gente é de escrever somente com os seus poemas, porque descobrimos neles a expressão de um desconforto nosso, uma angústia que não teve ainda vida expressa. Como nestes versos, vizinhança de um epigrama:

“Onde não há igualdade

  toda liberdade é sempre um excesso

  de privilégios”.

 

Enfim, aqui reside uma poesia que são cravos, mas não são flores.

(Do prefácio ao livro “Poemas – De Ordem Política e Social”)