Arquivo de abril, 2011

E agora José? E agora Drummond?

Publicado: 30/04/2011 em Poesia

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Murilo Mendes. A Bandeira.

Publicado: 30/04/2011 em Poesia

A bandeira

 

Durante meses e anos
Nós furamos o sertão,
Atravessamos florestas,
Desviamos o curso dos rios;
Nossas famílias também
Vão resolutas com a gente,
Galinhas, carneiros, porcos,
Tudo aprende geografia.
Num só tempo procuramos
As esmeraldas enormes
E traçamos, fatigados,
O mapa d’este país.
Esmeraldas não achamos,
Ou achamos, mas sloper.
Não achamos esmeraldas,
Mas o tempo não perdemos:
No fim deste pic-nic
Desenrolamos no céu
A bandeira do país.
 

De História do Brasil (1932)

 

Fernando Sabino.

Publicado: 30/04/2011 em Crônicas

A útima crônica
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.”

Fernando Sabino

Patativa do Assaré.

Publicado: 30/04/2011 em Poesia

O alco e a gasolina Patativa do Assaré
(Antônio Gonçalves da Silva)


Neste mundo de pecado
Ninguém qué vivê sozinho
Quem viaja acompanhado
Incurta mais o caminho
Tudo que no mundo existe
Se achando sozinho e triste,
O alco vivia só
Sem ninguém lhe querê bem
E a gasolina também
Vivia no caritó.

O alco tanto sofreu
Sua dura e triste sina
Até que um dia ofreceu
Seu amô a gasolina
Perguntou se ela queria
Ele em sua companhia,
Pois andava aperriado
Era grande o padecê
Não podia mais vivê
Sem companhêra ao seu lado.

Disse ela: dou-lhe a resposta
Mas fazendo uma proposta
Sei que de mim você gosta
E eu não lhe acho tão feio
Porém eu sou moça fina,
Sou a prenda gasolina
Bem recatada, granfina
E gosto muito de asseio.

Se você não é nogento
É grande o contentamento
E tarvez meu sofrimento
Da solidão eu arranque,
Nós não vamo nem casá
Do jeito que o mundo tá
Nós dois vamo é se juntá
E morá dentro do tanque.

Se quisé me acompanhá
No tanque vamo morá
E os apusento zelá
Com carinho e com amô,
Porém lhe dou um conseio
Não vá fazê papé feio
Quero limpeza e asseio
Dentro do carboradô.

Se o meu amô armeja
E andá comigo deseja,
É necessaro que seja
Limpo, zeladô e esperto,
Precisa se controlá,
Veja que eu sou minerá
E você é vegetá,
Será que isto vai dá certo?

Disse o alco: meu benzinho
Eu não quero é tá sozinho
Pra gozá do teu carinho
Todo sacrifiço faço,
Na nossa nova aliança
Disponha de confiança
Com a minha substança
Eu subo até no espaço.

Quero é sê feliz agora
Morá onde você mora
Andá pelo mundo afora
E a minha vida gozá,
Entre nós não há desorde
Basta que você concorde
Nós se junta com as orde
Da senhora Petrobá.

Tudo o alco prometia.
Queria por que queriá
Na Petrobá neste dia
Houve uma festa danada
A Petrobá ordenou
Um ao outro se entregou
E o querozene chorou
Vendo a parenta amigada.

Porém depois de algum dia
Começou grande narquia,
O que o alco prometia
Sem sentimento negou,
Fez uma ação traiçoêra
Com a sua companhêra
Fazendo a maió sugêra
Dentro do carboradô.

Fez o alco uma ruína
Prometeu a gasolina
Que seguia a diciprina
Mas não quis lhe obedecê
Como o cabra embriagado
Descuidado e deslêxado
Dêxava tudo melado,
Agúia, bóia e giclê.

A gasolina falava
E a ele aconceiava,
Mas o alco não ligava,
Inxia o saco a zomba
Lhe respondendo, eu não ligo,
Se achá que vivê comigo
Tá sendo grande castigo
Se quêxe da Petrobá.

E assim ele permanece
No carro a tudo aborrece,
Se a gasolina padece
O chofé também se atrasa
Hoje o alco veve assim
Do jeito do cabra ruim
Que bebe no butiquim
E vai vomitá na casa.


(Mantida a grafia original)


Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu numa pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, em 05-03-1909. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada. O fato de ter passado somente seis meses na escola não impediu que sua veia poética florescesse e o transformasse em um inspirado cantor de sua região, de sua vida e da vida de sua gente. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor “honoris causa” por universidades locais. Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que “para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento”.

O poeta faleceu no dia 08/07/2002, aos 93 anos.


O texto acima foi extraído do livro “Ispinho e Fulô”, editado pela Universidade Estadual do Ceará/Prefeitura Municipal de Assaré – 2001, pág. 264.

Mar Português. Fernando Pessoa.

Publicado: 30/04/2011 em Poesia

(*) Como na história do Super-man, o tempo se adianta e o Sábado chega antes, para desanuviar a semana. Em tempo: Roberto Vieira escreveu o mais belo poema que já pude ler sobre o Náutico e sua torcida. Todos lerão com certeza. Trouxe a paz que este blog não conseguiu. Ainda bem que Roberto conseguiu. Golaço de placa. Golaço de Bita. Mas vamos ao craque João Carlos:

 O CORAÇÃO ELIS

Vale recontar que no início dos anos 80 eu me encontrava no Rio de Janeiro com um grupo de candidatos à compositores de Recife (que me hospedaram) além de outros de vários cantos do Brasil.Lembro que as gravadoras publicavam internamente quais artistas estariam montando repertório para entrar em estúdio  e isso sempre vazava de modo que o mundo inteiro corria para compor algo para Simone, Bethânia, Gal, Fábio Jr, Cauby, Nélson Gonçaves, Tim Maia e fosse quem fosse, até Xuxa ou Os Trapalhões.

E nunca vingava.

 Acompanhei várias vezes um ou outro que,tinha de deixar uma fita e as letras na portaria que seriam “devidamente entregues” ao produtor.

Logo percebi que havia naquele comportamento uma boa dose de ingenuidade misturada à esperança.Em geral,inútil.

O fato é que, uma vez lançado o disco de um desses artistas, se evidenciava a panelinha de sempre. Alguns tinham sua turma de cervejadas, peladas de futebol enfim, do dia-a-dia  e outros eram do tipo PF (prato feito).

A turma do  PF incluia quase sempre o fillet de Caetano, Gil, Chico, Milton, Gonzaguinha e inevitavelmente regravações da turma da antiga  (Caimmy, Noel, Pixinguinha, Gonzagão, Ary Barroso…). Até o arranjador era o mesmo (Linconl Olivetti) e às vezes, se abria espaço para algum “emergente” no auge (Djavan, Sullivan & Massadas, Chico César que,inocentemente quase leva Elba e Daniela Mercury às vias de fato,dia desses).

Se você comparasse o “novo” de Gal com o de Simone ou Emílio Santiago daria até prá rir porque bastaria botar as vozes de um no disco do outro e nada mudaria. Mesmos compositores e produtor. De todos, os maiores PF eram Santiago e Simone. O primeiro com sua bem sucedida série AQUARELA BRASILEIRA (do volume 1 ao 1992) . Agora,se Caetano resolvia gravar um sambão (É HOJE) e se dava bem,Simone imediatamente faria o mesmo (O AMANHÃ) meses depois.

Mesmo quem leu a biografia O FURACÃO ELIS talvez não tenha notado uma bela faceta daquela mulher. Fala-se ainda hoje do seu temperamento “estourado”, sua impaciência e seu perfeccionismo mas poucos lembram da generosidade,do carinho e da atenção respeitosa que Elis dedicava aos novos compositores.

Recebia-os em casa, conversava e em geral, mesmo cercada de músicos da nata da nata como seu marido César Mariano, Chico Batera, Hélio Delmiro e outros, a baixinha é quem escolhia seu repertório, embora aberta à sugestões. Em seus discos, ao lado de compositores já estabelecidos e dos históricos ( e destes, nunca gravava o óbvio) estava sempre um ou mais iniciantes até então desconhecidos. Elis Regina nunca se acomodou.

Nunca se contentava com o fácil,o tiro certo.Buscava  o novo, arriscava e dava a cara à tapas.

Mesmo Chico Buarque e Edu Lobo, seus contemporâneos de festivais, ganharam mais credibilidade com suas interpretações. Basta uma pequena pesquisa para se concluir que ninguém se lixava prá MILTON NASCIMENTO até ela registrar corriqueiramente suas criações. IVAN LINS não era o cara que compos a música  Madalena “de Elis ?”.

E SUELI COSTA ? E FÁGNER (Mucuripe), BELCHIOR (Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais), e aquele neguinho atrevido metido à vanguardista chamado GILBERTO GIL, bem no comecinho (Oriente,Meio de Campo,Ladeira da Preguiça) ?  Alguém conhecia um jovem violeiro sertanejo chamado RENATO TEIXEIRA até Elis tornar Romaria um clássico ? E aqueles dois barbudos alternativos, JOÃO BOSCO/ALDIR BLANC de Bala Com Bala, e mais adiante O Mestre Sala dos Mares e O Bêbado e a Equilibrista ? Sabe aquela roqueira  que era dos Mutantes,uma porralouca chamada RITA LEE que começava uma carreira solo ?

Pois é. “Vivendo E Aprendendo A Jogar” virou música “de trabalho” (single), sucesso e tema de novela na voz da Pimentinha e seu autor,até então um incipiende garoto pianista chamado GUILHERME ARANTES ganhou robustez (logo logo Bethânia gravaria “Brincar de Viver”) . Vixe! Até eu mesmo ia esquecendo do ZÉ RODRIX (Casa No Campo).

Em seus dois últimos discos lançados em vida Elis Regina deu a mão ao TUNAI ( As Aparências Enganam ) e àqueles mineirinhos maneiros,  BETO GUEDES (O Medo de Amar é O Medo de Ser Livre) e LÔ BORGES (Trem Azul). Até PAULO COELHO ganhou profundidade com o bolero ME DEIXAS LOUCA.

Se no “coração” de Elis Regina cabia clássicos como Folhas Secas, Fascinação,Tiro Ao Álvaro e outros da turma das antigas,cabia os pais e filhos da Bossa Nova, sempre, sempre havia lugar para àqueles então noviços pé-rapados da MPB. Seria uma missão em vida ?

PS: Pena que DJAVAN tenha chegado mais tarde!

 

 

 

 

Laura Ridings.

Publicado: 29/04/2011 em Poesia de Laura Ridings

PARA UM

 QUASE AMIGO

Para trás!

Sou pedra.
…….Você tem de rasgar sua carne para escavar meu peito.

Sou tempestade.
…….Ninguém relaxa comigo.

Sou montanha.
…….Moureje até o topo, e vire um solitário.

Sou gelo.
…….Você tem que congelar para que eu derreta.

Sou mar.
…….Não vou devolver você.

Se isto o assusta,
Para trás! Para trás!

Ainda que, se você for meu amigo,
Não lhe serei nada disso.

tradução: Rodrigo Garcia Lopes

.

 PS –

ALÉM

Dor é impossível de se descrever
Dor é a impossibilidade de descrever
Descrever o que não é possível descrever
O que deve ser uma coisa além da descrição
Além da descrição para não ser conhecido
Além do conhecido mas não mistério
Não mistério mas dor não claro mas dor
Mas dor além mas aqui além .

Em especial atenção ao irmão mais novo Edgar Mattos:

 

Este blog é diferente.

É feito por mãos generosas.

Que não medem esforços para ajudar não só  a mim. A ajuda é mútua e todos saem ganhando.

Aqui não há partidos, nem clubes, nem desafinados, nem descontentes.

Há um livre pensar. Não um duplipensar.

Estamos longe de George Orwell.

Fatos nos trouxeram até aqui. Buda nos legou isso. Fatos e atos. Atos são as nossas vidas.

Nossos destinos. Nosso desenho nessa passagem. Nesta viagem.

Poesia é minha cachaça, a cachaça de Arsênio. Assim começamos.

Chegaram com muita honra e orgulho um após o outro: João Carlos, Edgar Mattos, André Gustavo, Tadeu Rocha, Osvaldo Soares, Carlos Maia, Magna Santos e muito mais gente, desculpem o esquecimento

Fomos formando a nossa confraria.

Tadeu tem o blog dele. Excelente.

Magna tem o blog dela. Excelente.

Carlos tem o blog dele. Excelente.

Arsênio, Edgar, João Carlos, André, por excesso de humildade e talvez por não terem tempo , preferem ser sócios honorários de vários blogs e contribuem e enriquecem estes mesmos blogs com comentários, poemas, textos, crônicas de primeira linha.

São realmente imprescindíveis.

Nas eleições presidenciais do ano passado o Fusca ficou adesivado pró Dilma. Deu calor por aqui. Bastante. Reinou a paz em seguida. Perdemos Felipe Holder. Perda incomensurável. Paciência. A democracia requer paciência, sabedoria e aceitar os contrários. Holder até hoje não voltou. Eu o aguardo com esperança. Quem sabe…

Nas finais do campeonato, na minha opinião, Berillo aparece com um factóide.

Acabo de ver um vídeo feito por celular (João Carlos avisou aqui no comentário) , muito mal feito, não se ouve nada, se vê um Toninho Monteiro exaltado, na porta do Restaurante.

O vídeo do pr do Náutico Berillo está aí embaixo. Fala também o pai de Eduardo Ramos. A minha conclusão é pura decepção. Factóide. Assim penso eu.

O Presidente da FPF está enfurecido. Quer respostas em 24 horas.

Avisa que vai punir com afastamento de 02 (dois) anos o clube envolvido no ato de corrupção.

Vejam o clima que foi criado para o Clássico.

Foi o Fusca do Domingos e Família? No Toitiço? A Barbearia em Manhã de Sábado?

A resposta meus amigos está com vocês.

E caso eu esteja errado.

Já escrevi minha RETRATAÇÃO PÚBLICA.

Que acredito, vai mofar aqui no HD do meu PC.

 

Um grande abraço a todos.

PS – Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo… é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua…

Mário Quintana

O verdadeiro papel da torcida.

Publicado: 29/04/2011 em Crônicas

Do Blog do Torcedor:

Cerca de mil torcedores do Náutico compareceram no treino da equipe nos Aflitos nesta tarde. Em meio à denúncia feita pelo pai de Eduardo Ramos e pelo Náutico de que o Sport tentou subornar o meia alvirrubro, o registro ficou de lado, mas agora é feito na galeria de fotos abaixo.

Para o técnico do Náutico, Roberto Fernandes, a presença fortalece o grupo alvirrubro num momento de dúvidas. Ele só exagerou na quantidade de torcedores que viu no local.

“Eu queria fazer um registro do que seria a grande notícia do dia, o apoio de 3, 4, 5 mil torcedores fazendo de um treinamento um jogo. Isso mostra a confiança, o apoio, um pequeno couvert da festa que eu falo (o jogo), da demonstração de que a torcida realmente vai lotar os Aflitos num momento de dificuldade e a gente vai fazer um grande jogo e corresponder a essa expectativa. Temos um grupo que está comprometido, um grupo jovem, e depois de uma derrota dessas geram-se questionamento e dúvidas, mas eu tenho certeza que eles vão para os treinamentos finais sabendo que apoio não vai faltar para esse domingo”, disse Roberto Fernandes.

Coisa de time pequeno.

Coisa de dirigente medíocre.

Aperto de gente incompetente na hora da decisão: Frouxidão!

Vexame nacional. Vexame local. Vexame em nossos corações.

Há muitos anos tenta-se esconder um caudaloso rio de lama e escândalos em Rosa e Silva.

E tudo passa. Descaminhos, desvarios, ruínas.

E tudo passa.

Prá pior.

Falei anteriormente que o nosso amor não morre nunca e é impenetrável.

Isto é fato.

Não é factóide.

Factóide é apoiar-se nas muletas da sua indigência moral, ética e administrativa, para criar um clima de guerra. Factóide é não saber ter perdido a primeira batalha e não saber como recompor o equilíbrio para a próxima. Apenas isso.

Gente grande sabe fazer. Gente competente. Levanta os cacos e se agiganta.

Na reta final.

Mas não temos o DNA dos vitoriosos no comando da Nau Alvirrubra. Infelizmente. E já faz tanto tempo…

Temos uma torcida que vale por muitas e tem um valor incalculável.

Uma torcida que não vive de factóides. Ele faz a História e admite apenas os fatos.

Apenas as facções organizadas que se autodenimam “torcidas organizadas” vão embarcando nesta onda de violência e denuncismo. Por isso hoje receberam um belo prêmio: não poderão ir aos jogos das finais do campeonato. Muito pouco para tantos anos de vandalismo, covardia e violência. Muito pouco mesmo. 
Mas o que é realmente pequeno é este vídeo que constrangido publico aqui neste blog, onde passaram, passam e se Deus quiser passarinhos os Quintanas, Drummonds, Clarices, Fernandos, Manueis e suas eternas Bandeiras, João Cabrais e tais e fins e outros tantos que nem sei, milhares de poetas, grandes, imensos, muitos levitados, muitos eternos. Nenhum que tenha jamais rabiscado um factóide.

Com a palavra Fernanda Young:

“Ser mediocre é viver na zona franca da existência.”

 

Faço minhas as palavras dos irmãos: qualquer semelhança com políticos tucanos é mera coincidência. Pensei em Maradona. Cheira mal…

Assistindo um Clássico dos Clássicos de 1992, em pleno Arruda, vi o quanto a nossa torcida comparecia aos jogos.

De igual para igual.

O Arruda meio a meio: vermelho e branco e vermelho e preto.

Sem torcidas organizadas criminosas.

Sem cordões de isolamento.

Sem grades.

Quase pacificamente, pois a rivalidade por mais que saudável, deixa os nervos à flor da pele.

Mas, quase não se falava em mortos.

Não porque não os contássemos, mas simplesmente porque eles não existiam.

No caminho da violência urbana, que transbordou do isolamento da periferia e estuprou nossos lares, o futebol ainda guardava um romantismo exemplar.

Nossa torcida encolheu nas lágrimas da arquibancada. Tecido frágil. Quase purulento.

Cresceu nos bares e nas televisões dos lares.

Conjugação do medo + vergonha.

Porque o cidadão tem vergonha dos vexames.

O cidadão tem vergonha dos amarelões e apagões.

Ele quer raça e isso em Rosa e Silva mingua igual a chuva no semi-árido.

Cresce a desonra. Os dirigentes pútridos e fétidos.

Crescem como crescem as pragas e parasitas nas lavouras.

Não colocaram os defensivos adequados. As rameiras tiram nosso viço, nossa seiva.

Não atingem o nosso amor e os nossos corações. Estes são impenetráveis.

São a nossa defesa mais sólida. Quem dera nossa zaga jogasse assim.

Vamos em frente isto posto o nosso Timbú agoniza mais não morre. Visto aí embaixo. Com direito a samba enredo e tudo.

A esperança morre primeiro. Nós morremos por último.

Gostaria de poder ter dado ao meu filho Daniel mais vitórias, mais glórias, mais taças.

Mais ele é a vitória que todo Pai aguarda ansioso pelo seu Filho. Que ele se transforme em um homem de valores, de princípio, de caráter.

E nesse quesito, embora pequena a minha contribuição, ele faz valer o que realmente vale a pena. E as meninas Gabriela e Izabella , independente do time que torçam ou venha a torcer, também estão de pé na vida.

E no final dessa História é isso que importa.

O amor pelo Clube não morre nunca.

Nós é que vamos despeçando o nosso coração pelo caminho.

Até um dia em que jogaremos todos por um só time.

E será em outro gramado.

A longa peleja da Eternidade.

Até breve meus amigos.

Peladas

Armando Nogueira

 

 

Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto

E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe.” Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.

Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA – Especial.” Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.

No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.

Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.

Nova saída.

Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.

O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.

Em cada gomo o coração de uma criança.

 

Lágrimas e testosterona

Moacyr Scliar

Atenção, mulheres, está demonstrado pela ciência: chorar e golpe baixo. As lágrimas femininas liberam substâncias, descobriram os cientistas, que abaixam na hora o nível de testosterona do homem que estiverem por perto, deixando o sujeito menos agressivos. Os cientistas queriam ter certeza de que isso acontece em função de alguma molécula liberada — e não, digamos, pela cara de sofrimento feminina, com sua reputação de derrubar até o mais insensível dos durões. Por isso, evitaram que os homens pudessem ver as mulheres chorando. Os cientistas molharam pequenos pedaços de papel em lágrimas de mulher e deixaram que fossem cheirados pelos homens. O contato com as lágrimas fez a concentração da testosterona deles cair quase 15%, em certo sentido deixando-os menos machões.

(Publicado no caderno Ciência, 7 de Janeiro de 2011)

Ele vivia furioso com a mulher. Por, achava ele, boas razões. Ela era relaxada com a casa, deixava faltar comida na geladeira, não cuidava bem das crianças, gastava de mais. Cada vez porém, que queria repreendê-la por urna dessas coisas, ela começava a chorar. E aí, pronto: ele simplesmente perdia o ânimo, derretia. Acabava desistindo da briga, o que o deixava furioso: afinal, se ele não chamasse a mulher à razão, quem o faria? Mais que isso, não entendia o seu próprio comportamento. Considerava-se um cara durão, detestava gente chorona.

Por que o pranto da mulher o comovia tanto? E comovia-o à distância, inclusive. Muitas vezes ela se trancava no quarto para chorar sozinha, longe dele. E mesmo assim ele se comovia de uma maneira absurda.

Foi então que leu sobre a relação entre lágrimas de mulher e a testosterona, o hormônio masculino. Foi urna verdadeira revelação. Fina! mente tinha uma explicação lógica, científica, sobre o que estava acontecendo. As lágrimas diminuíram a testosterona em seu organismo, privando-o da natural agressividade do sexo masculino, transformando o num cordeirinho.

Uma idéia lhe ocorreu: e se tomasse injeções de testosterona? Era o que o seu irmão mais velho fazia, mas por carência do hormônio.

Com ele conseguiu duas ampolas do hormônio. Seu plano era muito simples: fazer a injeção, esperar alguns dias para que o nível da substância aumentasse em seu organismo e então chamar a esposa à razão.

Decidido, foi à farmácia e pediu ao encarregado que lhe aplicasse a testosterona, mentindo que depois traria a receita. Enquanto isso era feito, ele. de repente caiu no choro,um choro tão convulso que o homem se assustou: alguma coisa estava acontecendo?

É que eu tenho medo de injeção, ele disse, entre soluços. Pediu desculpas e saiu precipitadamente. Estava voltando para casa. Para a esposa e suas lágrimas.

Moacyr Scliar, que morreu no último dia 27/02/2011, à 1h. aos 73 anos, escrevia na coluna “Cotidiano” do jornal “Folha de São Paulo”, às segundas-feiras um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal. Esta é a última coluna do médico e escritor publicada naquele espaço.

Este texto, inédito, foi enviado pelo escritor ao jornal no dia 11/01/2011 , antes de sofrer um AVC (acidente vascular cerebral), no dia 17/02/2011.

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue.

Fernando Pessoa

Eu não entendi nada. Só sei que nada sei e como diz o mestre JC, Caguite é com a gente, vamos incluir o amarelo junto com o vermelho e branco. E sigamos. Espia:
Esse é o Timbú veio de guerra. Agoniza mas não morre. E temos tanta sorte com dirigentes quanto o Brasil com os políticos. PT Saudações:

A desculpa para a incompetência. A falta de preparo de um dirigente inocente , puro e besta. Para se preparar para uma guerra tudo vale a pena no futebol. Os bastidores são podres, Nelson Rodrigues já falava disso há mais de trinta anos. E de que adianta isso?