Arquivo de maio, 2012

Irandhir Santos

 

Ele já é considerado um dos maiores nomes de sua geração no cinema. Em pouco tempo – e com muito empenho -, Irandhir Santos conseguiu alcançar esse status. Ator da terrinha, nasceu em Barreiros, em 22 de agosto de 1978. Entretanto, passou boa parte da vida em Limoeiro, cidade de origem dos pais.

 

Formado em artes cênicas pela UFPE, em 2003, Irandhir começou chamando a atenção do público na televisão, ao protagonizar a microssérie de Luiz Fernando Carvalho, “A Pedra do Reino”, que foi uma adaptação da obra de Ariano Suassuna “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”. Nela, demonstrou todo talento ao fazer Quaderna, uma espécie de Dom Quixote Armorial. Mas, como já dito, ele construiu sua carreira na sétima arte.

 

Em 2005, fez uma pequena aparição em “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes. Um longa-metragem bastante delicado, que traz uma amizade construída no Sertão, entre um alemão fugido da Segunda Guerra e um nordestino que tenta chegar ao Rio, em busca de melhores condições.

 

Um ano depois, consegue um papel de relevo em “Baixio das Bestas”, do caruaruense Cláudio Assis. Um filme forte e polêmico – o que são marcas do diretor -, tratando de exploração sexual na Zona da Mata pernambucana. Pelo desempenho no longa, foi premiado no Festival de Brasília, levando o troféu de melhor ator coadjuvante.

Irandhir seguiu em projetos interessantes, como “Olhos Azuis”, de Jose Joffily, no qual fazia um brasileiro confinado durante horas em um aeroporto dos EUA e sofrendo as piores pressões, e “Quincas Berro D’Água”, de Sérgio Machado, vindo do texto de Jorge Amado.

 

A grande chance veio com “Tropa de Elite 2”, em que interpretou o deputado Diogo Fraga. A princípio, um antagonista de Nascimento (Wagner Moura), mas com o decorrer da trama, a situação muda. O filme se tornou a obra mais vista em nossos cinemas, com mais de 11 milhões de espectadores, ultrapassando “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, que mantinha o recorde desde 1976 (10.735 mi). Sobre os bastidores, é interessante observar que José Padilha não havia pensado inicialmente em Irandhir para o papel. O diretor chegou a convidar o baiano João Miguel (o Ranulpho de “Cinema, Aspirinas…”, também de “Estômago” e visto recentemente em “Xingu”), que recusou por estar envolvido com outros projetos.

Outro trabalho notável foi o desenvolvido no incomum longa-metragem “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes, onde nunca aparece, apenas escutamos sua voz e vemos imagens filmadas pelo seu personagem.

 

Ainda este ano, Irandhir poderá ser visto em “A Febre do Rato”, segundo trabalho com Cláudio Assis, em que vive um poeta anarquista numa Recife vista em preto e branco. Pela grande entrega – ainda mais intensa que a habitual -, essa talvez seja sua maior interpretação nas telonas. Ele e o filme acabaram premiados no Festival de Paulínia em 2011. E mais adiante, em “O Som ao Redor”, primeiro longa de ficção do crítico e cineasta recifense Kleber Mendonça Filho.

Sobre esse filme, uma história interessante: em agosto de 2010, precisamente no dia 9, eu estava retornando para casa de ônibus. Nas imediações de Setúbal, próximo ao que hoje é o Parque Dona Lindu. Eis que Irandhir embarca no mesmo veículo. Quase não acreditei. O ônibus estava com grande parte das cadeiras ocupadas, contudo, só eu consegui reconhecê-lo, tanto que ele demonstrou surpresa. Irandhir queria conhecer o Shopping Guararapes. Conversamos um pouco, eu falei que era fã desde “A Pedra do Reino”, comentei o fato dele estar em “Tropa 2”, que estreou dois meses depois, em outubro do mesmo ano, e brinquei, dizendo estar surpreso por um artista andar de ônibus. Ele comentou que estava hospedado num flat perto da parada onde subiu e que estava rodando um filme para a Fundação daqui (creio que seja a Fundarpe), dirigido por Kleber. Aparentou ser uma figura bem simples e receptiva.

 

Enfim, tudo isso comprova que o êxito não subiu a cabeça e que ele já é uma realidade, faltando pouco, muito pouco para estar no mesmo nível de um Selton Mello ou do próprio Wagner.

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 B E N N Y    G O O D M A N

Assim como o “blues” , foi por volta de 1926 que o JAZZ de New Orleans virou mania em Chicago, e quase todos os músicos e acadêmicos passaram a dedicar horas estudando seus fundamentos.

Todavia, o garoto BENJAMIM DAVID GOODMAN preferia se aprofundar mais ainda na música clássica, à qual vinha se dedicando desde os 12 anos,estudando na sinagoga e na Hull House.

Já era então considerado um prodígio, tanto que ao se apresentar no Teatro Central Park da cidade, passou à ser cortejado pelos músicos adultos com os quais se apresentaria várias vezes e, já aos 16 anos, gravaria seu primeiro disco atuando como clarinetista (seu instrumento favorito) na banda de BEN POLLACK.

Até cerca dos 21 anos, GOODMAN participou dos discos de vários artistas, e só por volta de 1934 formou sua própria banda.

Ele reconhecia os méritos do jazz “carnavalizante” oriundo de New Orleans mas achava que com temas mais consistentes e menos óbvias “improvisações”,as coisas seriam outras.

Os arranjos maravilhosamente bem amarrados de GLENN MILLER eram o que o facinava e BENNY GOODMAN preferiu seguir esta estrada, acrescentando seu toque pessoal, seu balanço incomparável.

De início, permaneceu com sua orquestra como atração permanente em Los Angeles e posteriormente em sua Chicago. Essas apresentações ganharam notoriedade ao ponto de serem transmitidas pelas rádios, ao vivo.

Noutras palavras, não só os previlegiados frequentadores daqueles clubes noturnos dançavam ao som de sua “big band” mas, sintonizados naquelas rádios, todos os frequentadores de lanchonetes, bares e até mesmo nas residências, bailavam ao som de Goodman. Sua fama logo se espalharia pelo mundo e com sua orquestra formada por negros e brancos (parece lenda mas foi a primeira com tal formação), BENNY GOODMAN passaria a ser reconhecido como o REI DO SWING e o melhor clarinetista da época.

Curiosamente,sua orquestra era considerada então como “de jazz” , chegando ao topo quando sua apresentação no CARNEGIE HALL em Nova York foi ovacionada, além de  registrada em disco. Para se ter idéia da proporção do seu prestígio, foi a primeira jazz band americana à se apresentar na União Soviética. Isto em 1962, com a “guerra fria” quentíssima ,vodkas e balalaikas. Também caiu nas graças de Hollywood participando de mais de 6 filmes,entre estes, “ENTRE A LOURA E A MORENA com Carmem Miranda.

Seus incontáveis discos vendiam bastante e até os tempos atuais são periodicamente relançados. Entre 1970 e 1985,BENNY GOODMAN se recolheu, adoentado. Mas naquele último ano, durante o Kool Jazz Festival de Nova York, reuniu a meninada e incendiou o ambiente com seu inigualável “swing” , numa apresentação apoteótica. Como era do tipo que “sabia das coisas”, Benny sentia que já tinha cumprido sua missão e em 13 de junho de 1986 “encantou-se”. Vale ressaltar que de sua banda sairam vários grandes nomes do jazz americano. Entre tantos, HARRY JAMES ( trompete), GEORGIE AULD (sax tenor) e o pianista JESS STACY. Chamavam-no “patriarca do clarinete”, “rei do swing” mas Benny Goodman era apenas um gênio !

 

Torpedaço do Broda. Eita…

Publicado: 23/05/2012 em Poesia

R$ 336 Milhões
O NAVIO QUE NÃO NAVEGA…
Júlia Rodrigues

 

 


Em 7 de maio de 2010, ao lado da sucessora que escolhera e do governador pernambucano Eduardo Campos, o presidente Lula estrelou no Porto de Suape um comício convocado para festejar muito mais que o lançamento de um navio: primeiro a ser construído no país em 14 anos, o petroleiro João Cândido fora promovido a símbolo da ressurreição da indústria naval brasileira. Produzida pelo Estaleiro Atlântico Sul (EAS), incorporada ao Programa de Modernização e Expansão de Frota da Transpreto (Promef) e incluída no ranking das proezas históricas do PAC, a embarcação com 274 metros de comprimento e capacidade para carregar até um milhão de barris de petróleo havia consumido a bolada de R$ 336 milhões – o dobro do valor orçado no mercado internacional.

Destacavam-se na plateia operários enfeitados com adesivos que registravam sua participação no parto de mais uma façanha do Brasil Maravilha. Seria uma festa perfeita se o colosso batizado em homenagem ao marinheiro que liderou em 1910 a Revolta da Chibata não tivesse colidido com a pressa dos políticos e a incompetência dos técnicos. Assim que o comício terminou, o petroleiro foi recolhido ao estaleiro antes que afundasse ─ e nunca mais tentou flutuar na superfície do Atlântico.

O vistoso casco do João Cândido camuflava soldas defeituosas e tubulações que não se encaixavam, além de um rombo cujas dimensões prenunciavam o desastre iminente. Se permanecesse mais meia hora no mar, Lula seria transformado no primeiro presidente a inaugurar um naufrágio. Estacionado no litoral pernambucano desde o dia do nascimento, nem por isso o navio deixou de percorrer o país inteiro. Durante a campanha presidencial, transportado pela imaginação da candidata Dilma Rousseff, fez escala em todos os palanques e foi apresentado ao eleitorado como mais uma realização da supergerente que Lula inventou.

A assessoria de imprensa da Transpetro se limita a informar que não sabe quando o João Cândido vai navegar de verdade. O Estaleiro Atlântico Sul, criado com dinheiro dos pagadores de impostos, não tem nada a dizer. Nem sobre o petroleiro avariado nem sobre os outros 21 encomendados pelo governo. No fim de 2011, o EAS adiou pela terceira vez a entrega do navio. A Petrobras, que controla a Transpetro, alegou que os defeitos de fabricação só podem ser consertados no exterior. PODE??!!

Quando o presidente era Nilo Peçanha, João Cândido comandou uma rebelião que exigia a abolição dos castigos físicos impostos aos marinheiros. Passados 102 anos, Dilma e Lula resolveram castigá-lo moralmente com a associação de seu nome a outro espanto da Era da Mediocridade: depois do trem-bala invisível, o governo inventou o navio que não navega.

 

A Dama de Ferro **1/2

Drama biográfico, 104 min.

Margaret Thatcher foi a pessoa que mais permaneceu no cargo de Primeiro-Ministro no Reino Unido: 11 anos (seu governo foi de 1979 a 1990). E, sem dúvida, se trata de uma das figuras mais controversas da política mundial. Não é possível ficar indiferente a sua persona. Amada por muitos e odiada por tantos outros, é inegável a firmeza com que conduziu seu mandato. Pela forte oposição ao Comunismo, os soviéticos lhe deram a alcunha de “A Dama de Ferro”.

O que tinha tudo para ser uma cinebiografia de alto nível vira mediana sob a direção de Phyllida Lloyd (uma realizadora que veio do teatro). Ao invés de mostrar como deveria aquela mulher irredutível, que foi um dos alicerces para a vitória do Capitalismo na Guerra Fria, o filme traz uma Margaret senil, acometida pela doença de Alzheimer. À “Dama de Ferro”, restam as lembranças da época em que esteve no poder.

A história se concentra na luta de Thatcher para se livrar das alucinações que tem, potencializadas na figura do já falecido marido, o empresário Denis Thatcher (Jim Broadbent). E o resultado só não é pior graças ao excepcional desempenho de Meryl Streep (justificando, então, o segundo Oscar de melhor atriz). Ela encarna com muita competência o papel, conseguindo reproduzir os tiques e a voz da Baronesa Inglesa.

O filme não se furta de exibir os períodos de impopularidade que o seu governo passou, incluindo a grande hostilidade aos sindicatos e os atentados sofridos, além do início de sua vida, filha de um simples dono de mercearia (nesta fase é interpretada pela estreante Alexandra Roach). Acompanha-se passo a passo a trajetória de Thatcher na política, quando ingressa no Partido Conservador e fará parte da Câmara dos Comuns, o Parlamento Inglês. Tem o mérito de sugerir uma mulher ausente na criação dos filhos.

O grande momento do longa, naturalmente, é quando vemos a sua determinação durante a Guerra das Malvinas, empenhada em recuperar o arquipélago após invasão dos argentinos. Nesse sentido, é curioso observar como o cinema tem o poder de influenciar a realidade. Foi só o filme ganhar notoriedade para a discussão acerca das Ilhas ser reacendida. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, chegou a fazer um pronunciamento exigindo a posse do arquipélago.

Longe de ser extraordinário, A Dama de Ferro é um retrato decente da mais notável chefe de Estado que já houve (para o bem ou para o mal). Phyllida deve muito à Meryl (elas chegaram a trabalhar juntas no fraco musical “Mamma Mia!”), pois o sucesso do filme repousa sobre os ombros desta que é uma das atrizes mais fascinantes de todos os tempos.

 

 D E E P    P U R P L E

Meu pai tinha acesso livre à discoteca das rádios gêmeas, CLUBE e TAMANDARÉ, que funcionavam no saudoso Palácio do Rádio (Av. Cruz Cabugá). Lá trabalhava um rapaz negro,bastante atencioso e antenado, que nos tratava com especial atenção e boa vontade. Não lembro o seu nome, mas sei que era discotecário (recebia,catalogava,armazenava e selecionava as músicas e discos requisitados pelos programadores). Um dia,nos revelou que que tinha um projeto para um programa semanal,aos sábados,exclusivamente de rock (e suas vertentes), que seria então, pioneiro aqui em PE. Mas vinha encontrando dificuldades para convencer seus superiores. Ele seria o produtor, escreveria os textos e selecionaria as músicas e os artistas. Mas não seria o locutor (sua voz não ajudava). Meu pai comprou a idéia e como tinha muita credibilidade com o pessoal dali,defendeu com argumentos irrefutáveis o programa que, juro,também não lembro o nome.Parece que era SÁBADO ROCK. O Programa estreou às 15 Hs pela Rádio Tamandaré (a dona do pedaço,então) e teve um retorno surpreendente. O rapaz selecionou um monte de bandas e artistas solos dos quais a maioria eu desconhecia. Lembro do Black Sabbath, Bob Dylan e de uma desconhecida banda chamada DEEP PURPLE com sua Smoke On The Water que pegou todo mundo de surpresa. Muito  oportunamente, a segunda edição do programa foi inteiramente dedicada ao Deep Purple, em especial,ao seu recém lançado LP, MACHINE HEAD. E não se falava noutra coisa na cidade. Para alegria de todos,choveu patrocinadores atrás de espaço e meu pai,claro,correu para comprar aquele discaço.

O DEEP PURPLE revelou vários músicos e vocalistas que fizeram história e ainda estão atuando em bandas de rock atuais, todavia sua formação e seu som inimitável, centrava-se na guitarra veloz e melódica de RITCHIE BLACKMORE, no órgão envenenado com distorção do virtuoso JON LORD, na fantástica bateria de IAN PAICE, no baixo certeiro de ROGER GLOVER e nos vocais de IAN GILLAN (que até hoje é referência dos histéricos vocalistas do “metal”).  Entre 68 e 69, a banda lançou 3 discos sem muito retorno. Mas já com sua formação clássica,o PURPLE começou à fazer história, moldando um rock pesado (definido como hard rock) claramente inspirado na música erudita, base da formação musical de Blackmore e Lord. Tudo isso sustentado por um balanço e uma “pegada” irresistíveis. Quando o PURPLE e o LED emularam o “heavy metal” ,antes de tudo, exigia-se criatividade,harmonia e originalidade no rock. Pena que seus seguidores dos 80 prá cá, desvirtuaram o estilo, resumindo-o à zoada,velocidade e um vocalista pedindo socorro à beira do abismo. O melhor da banda está em seus 7 álbuns lançados entre 1970 e 1975. As pérolas são: In Rock (70), Fireball (71), Who Do We Think We Are (73), Burn (74), Stormbringer (74) e finalmente, Come Taste The Band (75). Todos fundamentais, especialmente COME TASTE THE BAND, onde usaram elementos e balanços do “funk”. Mas peraí ? O que eles fizeram em 1972 ?

Em 1972, alugaram a unidade móvel de gravação dos Stones e foram para Montreux,na Suiça, “cometer” um dos melhores discos de rock da história, recheado de clássicos, discoteca básica, item fundamental para qualquer colecionador.  MACHINE HEAD, o disco, deveria ser obrigatório nas escolas de artes. Talvez os atuais metaleiros estivessem fazendo algo digno. E aqui,cabe um acontecimento que entraria para os anais da música contemporânea. Quando o grupo já estava finalizando o projeto, resolveu assistir à apresentação de Frank Zappa e sua banda Mothers Of Invention, no já então reverenciado FESTIVAL DE JAZZ DE MONTREUX. Acontece que no ápice do show, um fã tresloucado resolveu inadvertidamente, disparar um sinalizador de embarcações na direção do teto. A coisa quase vira catástrofe. As cortinas do teatro começaram à arder em chamas,o show foi cancelado e o público retirado com segurança do local que, ficava à beira mar (ou seria um rio ?). Este episódio poderia passar batido, uma quimera, não tivesse inspirado a banda a criar um dos mais significativos rocks de todos tempos,cujo “riff” de guitarra é considerado o “melhor” já escrito, e que acompanha a letra que narra exatamente todo  aquele acontecimento. A canção é ela mesma, Smoke On The Water.  Além dessa maravilha, o álbum tem a hiper-eletrizante Highway Star, que o “velho” adorava,especialmente pelos solos de guitarra e órgão lindamentes “bachianos” (confiram!). Na cadenciada Maybe I’m A Leo, os solos acentuam as vertentes jazzísticas dos músicos. Outra maravilha do disco, que chegou imediatamente às paradas foi um rock prá lá de elegante chamado Never Before. MACHINE HEAD  tinha (tem) ainda, LAZY, PICTURES AT HOME e a estonteante Space Truckin’.

Sempre que escuto as canções deste CD e aprecio sua capa, minha mente e meu coração voltam-se para aquele período. Lembro daquele prédio da Cruz Cabugá, de Dona Lourdes Sorel e Zezé,  do meu pai… mas confesso que não me perdôo por não lembrar o nome daquele rapaz que entrou em minha história. É prá ficar realmente deep purple de vergonha!

Nietzsche era alvirrubro…

Publicado: 17/05/2012 em Poesia

Para a maioria, quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!

Cocaína realmente frita o seu cérebro, comprova estudo.
Pesquisa mostra que usuários da droga perdem massa cinzenta com o dobro do ritmo considerado normal pela medicina.

Uma pesquisa publicada nesta terça-feira (24 de abril) no periódico Molecular Psychiatry indica que o consumo frequente de cocaína faz com que seu cérebro envelheça de forma extremamente rápida. Segundo os cientistas responsáveis, a perda de massa cinzenta ocorre em ritmo mais acelerado do que o normal em quem é dependente da droga.

O estudo avaliou um total de 120 pessoas — 60 das quais tinham o costume de utilizar a substância. Exames revelaram que quem consome o tóxico perde um volume médio de 3,08 mililitros de cérebro por ano, o dobro da quantidade daqueles que não usavam qualquer espécie de droga. A maior parte das perdas ocorria nos córtex pré-frontal e temporal, zonas responsáveis por controlar aspectos como atenção, capacidade de tomar decisões, autocontrole e memória.

“Conforme envelhecemos, todos perdem matéria cinzenta”, afirma a Dra. Karen Ersche, da Universidade de Cambridge. “Porém, o que vemos é que usuários crônicos de cocaína perdem matéria cinzenta em um ritmo muito maior, o que dá sinais de envelhecimento prematuro. Nossas descobertas oferecem novas informações sobre o motivo pelo quais déficits cognitivos vistos em idades avançadas também costumam ser observados em pessoas de meia idade que costumam usar a droga”, complementa.

Segundo o site Motherboard, levantamentos das Nações Unidas mostram que há cerca de 21 milhões de usuários de cocaína espalhados pelo mundo — desses, uma fatia de 1% é dependente da droga. Isso pode resultar em um problema grave no futuro, já que muitas pessoas em idade produtiva seriam incapazes de fazer qualquer atividade devido ao envelhecimento precoce de seus cérebros.

Vinicius.

Publicado: 17/05/2012 em Poesia

É proibido falar ao motorneiro

Chico Anysio



Era muito grande a surpresa do velhote que, ao receber alta após vinte e dois anos acamado (reuma­tismo infeccioso), pela primeira vez saía à rua.

Andava pelo Rio como se estivesse fazendo turismo numa cidade a que nunca fora. Tudo mudado, tudo tão lindo e tão diferente. O aterro, os gramados em volta de postes que mais pareciam perna de ema (quando queimar uma luz como é que mudam?), o monumento ao soldado desconhecido, tudo era novidade. Trocaram a roupa da cidade durante sua enfer­midade.

Quis ir à Galeria Cruzeiro tomar um chope no Bar Nacional e lá encontrou uma cidade em pé, de mil andares, e se contentou com uma laranjada no Bob’s. O Tabuleiro da Baiana, os bondes, por onde andavam? Estaria perdido? Poderia perder-se numa cidade que era sua apenas por ter ficado tão pouco tempo (vinte e dois anos) com aquele reumatismo idiota? A Rua das Marrecas tinha o nome de um po­lítico e havia um prédio encimando o Cine Metro onde ele assistira, quinze vezes seguidas, a Greer Garson em Rosa de esperança. E a Lapa, meu Deus! O que fizeram com a minha Lapa? Pelo menos a igreja está de pé, mas aquilo é novo, aquilo lá não existia, no meu tempo não tinha aquilo, roubaram os trilhos? O que fizeram dos trilhos?

O homem andava, na sua caminhada de reconhecimento, sem saber se devia aplaudir ou vaiar o progresso, já que em nome do progresso tudo tinha sido feito e modificado. Saí de casa a caminho da casa do amigo Vergara, com quem jogava xadrez nos tempos idos. De sua casa, na rua Taylor, até a casa do Vegara, na Santo Amaro, costumava ir de bonde (qualquer um servia, porque todos passavam no Largo do Machado), mas hoje estava disposto a ir a pé. Sabe lá se não acabaram também com a Praça Paris!

E o homem ia andando, sempre com o olhar circular pelos cantos da cidade. O passeio Público cercado. Se está cercado deixa de ser público!

Sem menos esperar, quase caiu num buraco.Dentro do buraco um homem, com um capacete prateado na cabeça, usava uma pá com a qual aumentava o buraco, jogando no asfalto a terra que dele tirava.

— Alô — disse o convalescente.

— Alô  resmungou, sem muita vontade, o trabalhador.

— O que é que o senhor está fazendo aí? perguntou o reumático ao homem que cavava.

— Cavando — disse o homem ao velho.

Vejam só. Além dos muitos buracos que há na cidade, em vez de fechá-los, o governo trata de abrir outros. Então era isso. Os buracos eram feitos com a concordância do governo. Ou talvez por determinação governamental.

— Fazendo um buraco, não é? — quis certificar-se o reumático.

— É, um buraco — precisou o cara de capacete metálico.

Exatamente o que ele pensara. Uma barbaridade. Onde estão as ForçasArmadas, que permitem este descalabro? Tiram-se os bondes e dão-se buracos. Bela política, essa!

— E pra que fazer um buraco, moço?

— Progresso, né? — rezingou o homem que cavava e cavava, jogando terra, algumas vezes, sobre os sapatos do velho que o aborrecia, olhando-o do alto do buraco.

Que progresso mais idiota. Depois, aposto que nem põem placas avisando que ali há um buraco, vem uma criança.

— Feche este buraco — ordenou valendo-se do seu título de cidadão.

— Não chateia! — repeliu o operário.

— Este buraco é um perigo. É um atentado à segurança pública. Como cidadão, eu ordeno: jogue no buraco esta terra — completou, enquanto empur­rava com o pé número 35 um punhado de terra que se espalhou pelo metálico capacete do trabalhador.

— Pára de jogar terra aqui, cara. Este buraco é para as obras do metrô.

Foi como se falasse latim ao Lampião. Metrô? Não teria ele querido dizer Metro? Não seria a insta­lação de mais um cinema?

— Metrô — interrogou o velho que saía à rua após vinte e dois anos de leito. — Não será Metro?

— Metrô, cara. Um trem.

Era o que faltava. Botar um trem ali, em pleno Jardim da Glória. Bolas ao progresso, que tira os bondes, tão fresquinhos e baratos, e, no seu lugar, coloca vastíssimos trens, de ruído insuportável. Agora é que ninguém dorme, da Conde Lage até nem se sabe onde.

— Que trem é esse? — questionou o homem contra o progresso.

— Será possível? — sofreu o operário que cavava às duas da tarde, sob um sol de meio-dia (era janeiro).

— Diga. Que trem é esse? Na qualidade de cidadão, eu exijo uma explicação — insistiu, zangado, o homem.

— Olhe, meu amigo. Metrô é um trem que anda por baixo da terra. Faz-se um túnel debaixo do chão, botam-se os trilhos e o trem vai pelos trilhos — explanou o empregado das obras do metrô o melhor que pôde, para encerrar, de uma vez, o assunto.

— Por baixo da terra? E ninguém respira?

— Há ventiladores.

— E a gente entra no trem de que modo?

— Há entradas. Vai haver uma entrada ali (apontou longe), o senhor compra a passagem, desce as escadas, o trem vem, o senhor entra e vai.

— Muito bem. É o progresso, não é?

— É.

— E, sendo debaixo da terra, não suja a roupa, nem…?

— É um túnel! — irritou-se o operário. — O trem corre dentro do túnel.

— Maravilhoso — admitiu. — Maravilhoso!

— Agora dê licença — pediu o funcionário, voltando a jogar terra sobre o asfalto lá em cima.

Um trem por baixo da terra. O governo está trabalhando, mesmo. Estava até arrependido de ter pensado as coisas tão antigovernistas que pensara. Ainda bem que ninguém ouviu. Podia ser tomado como um sujeito anarquista.

— E quando fica pronto?

— Hein?

— Esse trem que o senhor falou. Demora para ficar pronto?

— Um pouco.

— Mais ou menos quanto tempo?

— Uns quatro anos.

— Ah, é muito, não posso esperar.

E dirigiu-se mesmo a pé para a casa do Vergara, na Rua Santo Amaro.

VERGONHA DE SER ALVIRRUBRO.

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Nem ia comentar sobre um jogo onde meu time não estava em campo.

Já estávamos fora há muito tempo.

Quarto lugar.

Atrás do Salgueiro.

Mas vi tanto cinismo no PFC com a visita de torcedores ao clube e ao CT que não aguentei.

Não tenho os nervos de aço de um analfabeto funcional que ocupa a presidência.

Não tenho o cinismo inocente e fingido do presidente do conselho. Aquele das 200 horas.

Não tenho a rapinagem do marketeiro tungão que tenta fazer o tour pelos Aflitos e do alto da impunidade afirma:

“A nossa futura casa é a Arena onde o Náutico ira mandar seus jogos pelos próximos 33 anos”.

Até lá meu Deus tomara que uma epidemia de honestidade e decência varra essa gangue de Rosa e Silva.

Extermine-os pela luz da verdade.

Os coloque em alguma prisão de segurança máxima.

Oito anos na fila.

E a vergonha de ser alvirrubro invade minha alma de forma inexorável.

Uma folha de mais de um milhão.

Vinte milhões que ninguém sabe onde foram parar.

Uma diretoria de futebol rachada que nem o solo nordestino.

 Um elenco cheio de jogadores velhos e em fim de carreira e muito, mas muito caros.

Um clube de pires na mão para o marketing e para o público.

Um clube que serve e nunca é servido pela mesma famiglia há mais de uma década.

É vergonhoso.

É sem futuro.

E fim.

Tom Hanks

 

Nascido em 9 de julho de 1956 em Concord, Califórnia, Thomas Jeffrey Hanks é o que se pode chamar de bom homem. Nunca esteve envolvido em escândalo, sendo querido por todos em Hollywood. É pai de quatro filhos: Colin (também ator) e Elizabeth (esses no primeiro casamento, com a desconhecida atriz Samantha Lewes); Chester e Truman (tidos com a também atriz Rita Wilson, com quem é casado desde 1988).

Tom iniciou sua carreira como ator em séries de TV, no começo dos anos 80, desempenhando pequenos papéis. Mas o primeiro sucesso ocorreu em 1984, quando estrelou ao lado de Daryl Hannah a comédia romântica Splash, do amigo Ron Howard. Isso fez com que ganhasse notoriedade, recebendo convites para mais filmes.

Quatro anos depois, protagonizou Quero ser grande (1988), pelo qual foi indicado ao Oscar. Aqui está presente uma das cenas mais graciosas e memoráveis da década. Hanks e Robert Loggia tocam em um piano gigante “Heart and Soul”.

Filadélfia (1993) foi a sua consagração. Neste filme, interpreta um advogado homossexual que, embora escondesse sua condição dos patrões, é demitido ao descobrirem que tem AIDS e luta na justiça por reparação. Uma atuação esplêndida, sem vícios, pontual e fez com que recebesse o Oscar de melhor ator.

A segunda estatueta veio logo no ano seguinte com Forrest Gump – o contador de histórias, de Robert Zemeckis. Nele, Hanks viveu um deficiente mental que tem papel fundamental na construção da sociedade americana nas últimas décadas. Esta fita é querida por muita gente.

Não há como esquecer as comédias românticas com Meg Ryan, Sintonia de Amor (1993) e Mens@gem para você (1998), ambas da diretora Nora Ephron. Ou então o Capitão John H. Miller em O Resgate do Soldado Ryan (1999), de Steven Spielberg. E o que dizer do carcereiro Paul no espiritualista À espera de um milagre (1999), de Frank Darabont? Ele também povoou a infância de várias pessoas ao dublar o caubói Woody na franquia animada Toy Story, da Pixar.

Nos anos 2000, executou vários trabalhos de destaque como Náufrago (2000), de Zemeckis; Prenda-me se for capaz (2002) e O terminal (2004), de Spielberg; Estrada para a perdição (2002), de Sam Mendes; O código Da Vinci (2006), de Howard; e tantos outros de uma belíssima carreira nas telonas.

Em 2009, Tom Hanks foi eleito vice-presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, responsável por distribuir os prêmios do Oscar. Recentemente, pôde ser visto em Larry Crowne, sua segunda incursão como realizadora (antes tinha se aventurado na direção de The Wonders, 1996), e Tão Forte e Tão Perto.

  

 

J O R G E   B E N    J O R

Chega a ser surpreendente constatar o quando Jorge Ben Jor vem mantendo uma carreira musical perene desde 1963. Seu “site” oficial não disfarça a imodéstia ao trata-lo como única unanimidade na MPB. Realmente,para mim, Jorge Ben Jor é de fato um fenômeno singular, goste-se ou não de sua arte. Tecnicamente, trata-se de um artista extremamente limitado. É um músico de poucos recursos,um melodista simplório e um letrista óbvio.Mas sempre “correndo por fora” conseguiu emplacar sucessos consecutivos como cantor e como compositor, com os mais variados intérpretes e de vários movimentos musicais, desde a Bossa Nova até os dias atuais. Até a “patrulha ideológica” dos anos de chumbo, sequer ousou fustiga-lo, mesmo sendo ele o autor de um hino ufanista como País Tropical. Preferiram caçar o intérprete,o Simonal.

Jorge, nunca escreveu uma canção verdadeiramente antológica.Digna de enciclopédia de MPB. Seus grandes e muitos sucessos são canções agradáveis,geralmente balançadas,malemolentes e não raro,de letras até, ora incompreensíveis ora juvenis ou primárias. No entanto conseguem chegar ao gosto popular tanto quando ganham a simpatia e a admiração de seus pares. Aqui e alhures. Sua segunda música lançada, MAS QUE NADA ,não só foi apenas regravada exaustivamente no exterior,  foi a única (isso mesmo: única) música em “português” a alcançar o 1º lugar nas paradas americanas. É mole ?

No auge da Bossa Nova, Carlos Imperial até tentou empurrar sua rapaziada no movimento.Mas seus protegidos da Turma da Tijuca não foram bem aceitos. Eram o Tim Maia,Roberto Carlos,Erasmo e o Jorge Ben. Este último que,curiosamente curtia LUIZ GONZAGA e ATAULFO ALVES, fazia um samba tão longe das raízes tradicionais quanto da sofisticação harmônica da Bossa (misto de maracatu ?), que caiu no gosto popular logo na estréia com Chove Chuva e em seguida com Mas Que Nada (ela mesma!). Esnobado pela corrente bossanovística (ou bossanovista),mesmo assim transitou bem pela Jovem Guarda claro, e era também figurinha carimbada no FINO DA BOSSA. E naquele tempo,quem aparecia num era imediatamente descartado do outro.Enquanto OS INCRÍVEIS (O Vendedor de Bananas) e ERASMO (Menina Gata Augusta) estouravam com suas criações, ELIS REGINA fazia o mesmo com Zazueira e Se Segura Malandro e Jair Rodrigues com Papa Gira. Quando o TROPICALISMO chegou, o primeiro convidado foi Ben Jor. E foi entrando com tudo. Que Pena,Tuareg (Gal Costa), A Minha Menina (Os Mutantes), Mano Caetano (Maria Bethânia), além dos duetos em disco com GIL. Na verdade,até hoje em dia,essa turma,especialmente Caetano e Gal, gravam e regravam Ben Jor, sempre. Quando a dupla TOQUINHO & VINÍCIUS estava no auge, Jorge lançou uma canção cheia de candura e de harmonias um pouco fora de seus padrões. QUE MARAVILHA!, como eu viria à constatar mais tarde, tinha um toque de TOQUINHO, seu parceiro naquela música.

Mais para o fim da era dos Festivais, emplacou, na voz de MARIA ALCINA, a sacolejante e quase ingênua FIO MARAVILHA , cujo tão entoato refrão,resumia-se a “Fio Maravilha/nós gostamos de você”. No final dos anos 70,ao lado de um entusiasmado Caetano Veloso, voltou às paradas com IVY BRUSSEL. Pouco antes, surgira um movimento musical de tiro curto,o BLACK RIO. A referência ? Claro, Ben Jor. Se nos anos 80, não fez nada memorável, continuou sendo reverenciado por vários ícones do BRock,como Lulu Santos, Kid Abelha e principalmente, Fernanda Abreu. O MANGUE BEAT pernambucano,já nos 90, o tomou como parâmetro e influência indisfarçável. Evocando seu primeiro LP, SAMBA ESQUEMA NOVO, a banda recifense MUNDO LIVRE S/A não vacilou para nomear seu também album de estréia como Samba Esquema Noise. E mesmo nos dias atuais,seu estilo é copiado ou quase plagiado por cantores e grupos. SEU JORGE e a BANDA EDDIE que o digam!

Creio que seria bem mais fácil indicar “quem não gravou” Jorge Ben Jor do que “quem gravou” (uma verdadeira lista telefônica). Embora seu último sucesso nos remeta aos anos 90, uma música com 2 acordes e letra indecifrável chamada W/BRASIL (que se sustenta no arranjo irresistível do genial SERGINHO TROMBONE), Jorge Ben Jor continua lotando teatros,arenas e estádios daqui e do mundo.Internacionalmente, é um dos artistas brasileiros mais reconhecido e admirado.

À bem da verdade, desde os primórdios, BEN JOR fazia um samba dançante, diferente de tudo o que se fazia, e calçado numa base rítmica contagiante, conquistou o público com sua originalidade embora suas letras não fossem (nem são) grandes coisas. Desde então,vem burilando e modernizando seu “balanço”, sempre cercado por músicos no mínimo, brilhantes. Quem copiou ou aderiu ao estilo,até tentou disfarçar chamando-o de “sambalanço” ou “samba-rock” e, teve até um clone de pouco fôlego chamado BEBETO, alguém lembra ? E então ? JORGE BEN JOR é ou não é um fenômeno ?

– Segundo o próprio, longe de coisas tipo numerologia, a mudança de JORGE BEN para JORGE BEN JOR deu-se por questões relativas aos Direitos Autorais internacionais. Sua grana estava sendo depositada,por engano,na conta de George Benson.

– Um famoso e muito competente (além de popular) crítico musical dos anos 60/70,já falecido, Zé Fernandes, chamava-o simplesmente de enganador! Caetano Veloso chama-o de gênio!

– CHICO BUARQUE, mais polidamente, afirmou que havia artistas que ele admirava e que o influenciavam muito. Por sua vez, havia aqueles que ele admirava mas não o estimulavam musicalmente. Instado, confessou: no primeiro caso,Caetano. No segundo, Jorge Ben Jor!

Jean Arp e as estrelas artificiais

Juliana Szabluk

Meus trovões me despertaram do profundo sono como sempre.

Tateei o criado-mudo à esquerda até encontrar meus óculos. Ainda sonolenta, névoa sobre a realidade, fui colocá-lo no rosto e entrei em pânico – minha cabeça havia desaparecido. Corri ao espelho rapidamente e, do reflexo sem reflexão, surgiu a comprovação: eu não tinha mais uma cabeça. Meu corpo terminava no pescoço. Uma escultura de Jean Arp numa situação surrealista, ainda era inexplicavelmente detentora de todos os sentidos, contudo fisicamente mutilada.

— A presença dele seria minha razão agora… — senti. Perdida, sentei no sofá úmido pela constante chuva que lavava as poucas almas da região. O cheiro de mofo rescendia da vizinhança. Constantemente, passava a mão curiosa pelo toco acima de meu peito. Apesar do desconforto, estava calma, quase que feliz em liberdade inesperada.

As memórias que restavam em locais refutados de mim me alertavam sobre as últimas discussões que tive com minha cabeça. Nos intimidamos, confrontamos, levantamos hipóteses de abandono mútuo. Estava claro que as ameaças tinham se concretizado. Onde poderia achar meu crânio desertor? Refleti sobre os lugares que ela gostava de ir e, sem hesitar, mais verdadeira e impulsiva do que achava ser possível, fui atrás.

Cheguei ofegante no planetário da cidade. A escuridão da sala seria um empecilho em minha jornada. Olhei por cima até perceber que uma cabeça solitária não tem altura suficiente para ser vista por detrás das poltronas. Vaguei fila por fila, em meio ao brilho das estrelas artificiais de um céu que pertencia a todos. Pensei ter visto algo semelhante a mim bem à frente, mas era apenas uma coruja relaxando com seu amargo charuto. Me olhou, piou, não entendi, parti.

Prossegui meu caminho em direção ao prédio dele. A cabeça sempre foi contra nosso amor, certamente a encontraria lá, o afrontando, exigindo explicações ao inexplicável, palavras ao indizível e imagens congeladas aos mais vivos sentimentos. Olhei para cima, curvei meu corpo dolorido até visualizar o décimo andar: a luz da sala estava acesa. Desviei das poças d’água e levantei com força a grade do antigo elevador, sentindo cada vértebra se romper, causando indescritível agonia. Subi.

O apartamento estava aberto… Estranhei. Atravessei a sala iluminada e ouvi gritos afobados, urros selvagens vindos de uma cabeça e de um homem que quase sempre negou qualquer outra parte de seu corpo. Ironias fantásticas, ambos se voltaram para mim, me analisaram de cima a baixo.

Fui esquecida velozmente em nome da discussão dos dois sobre o que deveria ser feito em relação aos três. Não compreendi o porquê do apego pela argumentação, mas me limitei a pegar o que era meu de volta. Precisava da cabeça mais por medo do que poderia causar aos outros do que por necessidade vital.

Fui até ela e me mordeu, a desgraçada. Larguei de uma só vez e foi rolando pela cama até parar no travesseiro, muda como eu. Os segundos de silêncio foram insuportáveis:

— Agora sabe onde estive sempre que sumia no meio da noite… — Disse ele com lágrimas nos olhos em doce amargura.

Ignorei o pranto, voltei à cabeça e a ergui, tentando desviar das mordidas, tapando-lhe a violenta boca. Parecia que queria me dizer algo, então lhe dei a chance de finalmente se pronunciar:

— A cabeça você encontrou, agora já podemos ir em busca do coração.

(2006)

Qual o seu legado para a humanidade?

O que deixará você desses seus anos. Sua vida. Seu mundo.

Seu quarto arrumado.

Seus papéis, seus extratos, sua contabilidade.

Suas finanças, seu saldo.

O que deixará você de bom para os que te conheceram?

Depois de algum tempo você será apenas um retrato, um santinho, memórias a se desbotar?

O que fará você depois de ter partido?

O que farão de você os que te amam, os que te odeiam, os que te suportam?

Quem deitará falta da tua presença?

Quem perderá o sono pela tua ausência?

Quem perderá o ar?

Haverá sentido na tua breve existência?

De fato estas perguntas foram raios que me atingiram no último final de semana.

Não necessariamente nesta desordem.

Mas o foram.

Raios na cabeça.

Que não explodiu porque faltaram miolos.

Ou porque é muito dura.

De fato é isto a passagem do homem sobre a terra.

Um pacote que a parteira entrega para o coveiro.

E ponto final.

O bom de tudo isso?

É apreciar o belo sem moderação.

E , definitivamente, poder escrever sem censura, sem mesura, sem frescura e sem nada dever e sem nada cobrar de ninguém.

Porque eu desconfio (como desconfia Luiz Fernando Veríssimo) que o homem verdadeiramente livre e feliz é o homem que não tem medo do ridículo.

 

 

 

Cavalo de Guerra

War Horse (EUA, 2012). Cotação: ***

Aventura, 146 min. Direção: Steven Spielberg. Com Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, Niels Arestrup, Tom Hiddleston.

“Tubarão”, “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, “E.T.” e “A Lista de Schindler” são grandes filmes. Se Steven Spielberg tivesse realizado apenas estes quatro, isso já seria suficiente para alçá-lo à condição de um dos maiores cineastas do século XX. Mas, não satisfeito, Spielberg também dirigiu outras obras de valor como “A Cor Púrpura”, “Prenda-me se for capaz”, “Munique”, além de ter criado as sagas de Indiana Jones (junto com o amigo George Lucas) e do Parque dos Dinossauros. Não há dúvida de sua importância.

Como se sabe, sua nova empreitada é Cavalo de Guerra, história vinda de um livro infanto-juvenil de Michael Morpurgo, publicado em 1982. No entanto, o que despertou o interesse de Spielberg foi uma peça britânica de 2007, que se baseava na publicação e atingiu enorme sucesso. Vendo o caráter imagético da obra, tratou de adaptá-la.

Fundamentalmente, é sobre uma amizade entre Joey, um cavalo puro-sangue, e o jovem Albert (o estreante Jeremy Irvine), dias antes de a Primeira Guerra Mundial ter início, numa cidadela inglesa chamada Devon. Joey vai parar na fazenda de Albert depois que o seu pai, Ted (Peter Mullan), o comprou em um leilão após uma disputa com um senhorio. Isso preocupa a mãe (Emily Watson), pois com o alto preço pago pelo cavalo, a família encontra dificuldade para quitar o aluguel e se vê obrigada a realizar uma colheita. Mas como, se não há um animal especializado nisso?

Albert trata de treiná-lo para fazer o serviço. Não adianta muito e o cavalo acaba vendido para um oficial do exército britânico (o competente Tom Hiddleston). A partir disso, Joey passará a ser testemunha ocular de uma guerra. Transitando pelo campo de batalha alemão, conhecendo dois jovens desertores e até mesmo fazendo companhia a uma garotinha (a revelação Celine Buckens) e ao seu avô (o francês Niels Arestrup, de “O Profeta”). Os anos da Primeira Guerra são percorridos e o garoto não esquece o velho amigo. O amor é tanto que decide servir às forças armadas de seu país, na esperança de reencontrar Joey.

 

O velho Spielberg é conhecido pelo sentimentalismo exacerbado. E o que é uma de suas marcas, não fica ausente aqui. Ele carrega o filme de um tom melodramático e que se torna uma forma apelativa de envolver o espectador (é improvável não se comover na cena em que o cavalo fica preso por arames). O principal problema reside na maneira com que se conduz a história.

Não há como negar o preciosismo técnico. O visual de “Cavalo de Guerra” é espetacular, no que é a colaboração do fotógrafo habitual, Janusz Kaminski, e reverencia a era de ouro hollywoodiana. É preciso também reconhecer a competência de Steve na simulação das cenas de guerra, algo que havia mostrado muito bem em “O Resgate do Soldado Ryan”. Na hesitação dos combatentes ingleses nas trincheiras, ele executa uma homenagem a Stanley Kubrick, em particular a “Glória Feita de Sangue”.

Contudo, apesar dos artifícios de apelar à emoção e de sequências graciosas, o filme é um tanto disperso, não conseguindo prender como deveria a atenção. Talvez houvesse uma objetividade maior e fossem cortados vários minutos de gordura, ajudasse a criar maior empatia. E a escolha de Irvine para fazer esse jovem se faz precipitada pelo seu desempenho vacilante.

Indicado a seis Oscars (filme, trilha – John Williams -, edição sonora, direção de arte, fotografia e mixagem de som), “Cavalo de Guerra” não é uma nova obra-prima (e está longe de ser). Steven Spielberg merece respeito por tudo o que fez, mas não dá para dizer que este é um grande filme.

 

 M I C H A E L    J A C K S O N

Joe Jackson era um pai rigoroso. Mantinha a imensa prole trancafiada em casa e ái de quem ousasse tocar em sua guitarra.A mãe logo  fez a garotada Testemunhas de Jeová. Eles saiam de porta em porta pregando. Mas nada disso impedia as fugas para trelar na vizinhança e, os mais velhos, de surrupiar a guitarra para estudarem e cantarem juntos. Até que um dia o velho Joe descobriu tudo mas, percebeu também o talento que emanava daqueles meninos e bem ao seu estilo, virou empresário dos filhos. Na verdade ,dos cinco primeiros,que sob sua batuta (o certo seria dizer, cinturão) os obrigava à uma rotina espartana de ensaios. Qualquer protesto ou vacilo sumiam de imediato na base da “porrada”.  Nem mesmo Michael com apenas 5 anos era poupado da música e das coreografias exaustivamente treinadas. Quando o JACKSON FIVE  estava afiado, Joe foi à Detroit e os apresentou à Motown  de Berry Gordy Jr. O sucesso não demorou. Sucessivamente,músicas ganhavam as paradas e nas apresentações do grupo,as coreografias chamavam a atenção. De toda monta,o talento do pequeno Michael se destacava dos demais e seus solos vocais junto à sua dança viraram mania. O conjunto ganhou até uma série de “desenhos animados” para TV que também fez muito sucesso no Brasil e ajudou nas vendagens de discos e shows, engordando sobremaneira os cofres do papai Joe.

Entrando na puberdade, a mudança de voz de MJ forçou uma parada. Até curta, mas a Motown tinha outros planos. Paralela à carreira com os irmãos, Michael iniciava sua carreira solo nas doses exatas. Não necessariamente nessa ordem ,  baladas “soul” como I’ll Be There, Ben e Music and Me espalharam-se pelo mundo na voz de MJ ao mesmo tempo em que a carreira do JACKSON FIVE,mesmo com o garoto prodígio, parecia declinar,discretamente. Já nessa fase,de repente, MJ ensaiava a sua dança do robô, que mais tarde viraria febre com o nome de Break Dance. Mesmo se mantendo no JACKSON FIVE , o jovem “performer” tinha planos mais ambiciosos. No set de O MÁGICO DE OZ  (filme que estrelou com Diana Ross) conheceu o genial músico e produtor Quincy Jones, a quem revelou querer produzir um disco épico. Algo como WHAT’S GOING ON  (71) do Marvin Gaye e SONGS IN THE KEY OF LIFE (76) do Stevie Wonder, pedindo que este o indicasse um produtor. QUINCY JONES se indicou. Naquela época, Quincy já era um produtor para poucos. Queridinho em Hollywood,o homem que formou uma dupla com o “cumpadre” RAY CHARLES, era o produtor de SINATRA,ARETHA,SARAH VAUGHAN, bandas de funk e de outros poucos eleitos.

OFF THE WALL, foi muito bem acolhido. Vendeu sem dificuldades e gerou um clássico chamado  Don’t Stop ‘Till Get Enough, mas Michael não estava satisfeito. Na verdade, o disco era muito bom, até sugeria algumas novidades, mas no geral era um álbum de soul/funk quase convencional, com pegadas da decadente disco-music. De qualquer maneira, muito se lamentou o disco não ter levado o GRAMMY, especialmente pela indiscutívelmente bela balada  She’s Out Of My Life. Mas QUINCY sabia o caminho das pedras e explicou ao MJ que todos aqueles álbuns  memoráveis aos quais ele tanto se referia tinham um componente fundamental: OUSADIA!  Não se prendiam à estilos e fórmulas. Pelo contrário, propunham novos estilos e fórmulas.

Com carta branca, QUINCY JONES utilizou-se da mais requintada e moderna tecnologia. Cercou-se por músicos escolados e refinados, sendo rigoroso na escolha do repertório. MICHAEL que na ocasião já tinha se livrado do pai “manager” e assinado com a EPIC (um selo da CBS), apresentou algumas músicas suas (4 vingaram) que escreveu de forma meio “sui generis”. Como não sabia tocar nenhum instrumento, bolava as canções de cabeça e as gravava numa fita K-7. Para a balada/soul The Girl Is Mine, Paul McCartney foi  convidado para dividir os vocais naquela que ficaria conhecida como a “Tereza da Praia” do Rock. Para as guitarras poderosas e certeiras de Beat It, Eddie Van Halen (líder do VAN HALEN) assumiu a  palheta. E para a sinistra narrativa (no meio e no fim) da canção título, Thriller (escrita pelo músico Rod Tenpertom), ninguém menos que Vincent Price. Ao final, muita coisa sobrou e apenas 9 músicas ficaram no disco mas,MICHAEL JACKSON acabara de parir um clássico. Um dos melhores álbuns da história. Belo,cheio de ingredientes diversos e acima de tudo “ousado”. THRILLER  era A NOVIDADE.

Como se sabe, o disco foi um fenômeno em todos os critérios (vendas,prêmios etc) mas acreditem, não foi de uma vez. Foi um processo que se estendeu do lançamento em 1982 até o final de 84, e muito bem pensado. Inclusive os modernos e inovadores “vídeo-clips”. Lançar à conta-gotas “singles” com as músicas que,cada uma à seu tempo,estimulariam as vendas do LP, foi uma das estratégias utilizadas. Começou por THE GIRL IS MINE que foi seguida pelo balanço irresistível de BILLY JEAN (a letra versa sobre um cara negando a paternidade de um filho) com um solo de guitarra prá lá de “funky”, e o primeiro inesquecível “clip”. Mais adiante, o rockão BEAT IT chegou com tudo e mais um “clip” visceral. No final de 83 foi enfim lançado o single com a música-título. THRILLER, ainda nos dias atuais, conserva o mesmo frescor do lançamento. A música é mais um sublime momento da arte deste planeta. Nenhuma antologia do bom gosto, da criatividade musical, estaria completa sem THRILLER. E seu “clip” mudou completamente o conceito do ramo. Fantástico.

Daí por diante, MICHAEL JACKSON já entronizado entre os maiores ícones do rock, lançou álbuns maravilhosos,embora distantes do fundamental  “Thriller”. BAD, BLACK OR WHITE, REMEMBER THE TIME, YOU ARE NOT ALONE, e uma versão empolgante de COME TOGETHER entre outros tantos clássicos imperdíveis foram registrados. No meio do caminho, escreveu e protagonizou com LIONEL RITCHIE a balada “nem lá nem cá”  We Are The World com a participação da elite musical americana (até DYLAN) para um projeto humanitário de Quincy Jones.

Não vou falar de suas esquisitices (problemas com pedofilia,casamento com a filha de Elvis,morar num parque temático, sacanear Macca comprando os direitos dos Beatles,do “embranquecimento”,do rosto deformado por plásticas nem de sua morte prematura e melancólica). O MICHAEL JACKSON que guardarei sempre no coração será a imagem daquele menino negro, bonito e saudável da capa e dos sons de Thriller que, desde a primeira audição me reportou à Milton Nascimento. Boquiaberto pensei: “nada será como antes!”.

Poemeterno de Roberto Freire.

Publicado: 03/05/2012 em Poesia

 

Tradução livre de Roberto Freire (o psicanalista, poeta e inventor da Somaterapia) sobre poema de Edna St Vicente Millay:
 CANTO FÚNEBRE DA INSUBMISSÃO
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Eu não concordo com a descida dos corações amantes à terra dura.
Assim é, será e foi desde tempos imemoriais: eles seguem pelas trevas, os sábios e os belos.
Coroados de lilases e de louros, eles partem; mas eu não me conformo.
Amantes e pensadores, contigo, dentro da terra, transformados na poeira morna e cega. Um fragmento do que tu sentias, daquilo que tu sabias, uma fórmula,uma frase apenas restou —  mas o melhor está perdido.
As respostas rápidas e vivas, o olhar honesto, o riso, o amor estes  partiram.
Partiram para alimentar as rosas. Os botões serão meigos, elegantes e perfumados.
Eu sei. Mas eu não aprovo. Mais preciosa era a luz em teus olhos que todas as rosas do mundo.
Fundo, fundo, fundo na escuridão da cova, docemente, os belos, os ternos, os bons, calmamente eles descem, os inteligentes,os espirituais,  os bravos.
Eu sei. Mas não estou de acordo. E eu não me conformo.
 
 

Poeminha: Última Vontade

Millôr Fernandes

Enterrem meu corpo em qualquer lugar.
Que não seja, porém, um cemitério.
De preferência, mata;
Na Gávea, na Tijuca, em Jacarepaguá.
Na tumba, em letras fundas,
Que o tempo não destrua,
Meu nome gravado claramente.
De modo que, um dia,
Um casal desgarrado
Em busca de sossêgo
Ou de saciedade solitária,
Me descubra entre fôlhas,
Detritos vegetais,
Cheiros de bichos mortos
(Como eu).
E como uma longa árvore desgalhada
Levantou um pouco a laje do meu túmulo
Com a raiz poderosa
haja a vaga impressão
De que não estou na morada.
Não sairei, prometo.
Estarei fenecendo normalmente
Em meu canteiro final.
E o casal repetirá meu nome
Sem saber quem eu fui,
E se irá embora
Preso à angustia infinita
Do ser e do não ser.
Ficarei entre ratos, lagartos,
Sol e chuvas ocasionais,
Estes sim, imortais
Até que um dia, de mim caia a semente
De onde há de brotar a flor
Que eu peço que se chame
Papáverum Millôr.

Lembrando Millôr Fernandes, face a seu falecimento em 27 de março de 2012.

Texto extraído do livro “Papáverum Millôr”, editado pela Editora Prelo, Guanabara –  1967, pág. 13. Publicado com a grafia de 1967.


Rubem Alves. Eterno.

Publicado: 01/05/2012 em ESPIRITUALIDADE

Sobre a morte e o morrer

Rubem Alves


O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.