Arquivo de junho, 2012

JI M I    H E N D R I X


A verdade é que 11 entre 10 guitarristas da melhor estirpe louvam-no.

Grandes maestros e estudiosos o exaltam, e com razão. Longe das tecnologias do momento, Hendrix conseguia fazer-nos ouvir sons, timbres jamais escutados antes, apenas munido com sua Fender Stratocaster, um pedal de distorção/wah-wah e o uso frenético da alavanca.

O suficiente para criar solos e introduções matadores e pegajosos (ele não era muito de “riffs”). Todos conhecem Jimi Hendrix mas poucos o ouvem,ao menos,como merece. Isto porque quase não se comenta sobre a voz poderosa,forte e cheia de atitude dele, assim como esquecem do genial compositor que era. Tão criativo que suas versões para canções de outros artistas ganhavam arranjos que, em geral, suplantavam o original. Basta ouvir Hey Joe, ou mesmo All Along The Watchtower de Bob Dylan, considerada a melhor “cover” da história.

Nascido em Seattle em 1942, sabe-se lá porque, seu pai mudou seu nome,quando ainda criança, de Johnny Allen Hendrix para JAMES MARSHALL HENDRIX, presenteando-o com uma guitarra aos 17 anos. Canhoto, inverteu as cordas do instrumento e começou a transformar a guitarra elétrica em “protagonista”, ao menos no rock and roll.

Zanzou pelos EUA, tocando com vários grupos, juntamente com seu amigo BILLY COX, até impressionar ninguém menos que Little Richard que, o incorporou à sua banda. Imagine essas duas feras juntas ? Dizem que as performances eram eletrizantes e incendiárias (há registros), mas enciumado , Richard inventou uma desculpa esfarrapada para rifá-lo do conjunto. Nessas alturas, Jimi chamou a atenção de CHAS CHANDLER, baixista do THE ANIMALS, que o levou para Londres. E ele foi,com a condição de conhecer ERIC CLAPTON, que obviamente virou fã incondicional. Afinal,tudo em Jimi era inédito. O fato é que com Cox e Mitch Mitchell nas baquetas, estava formada a JIMI HENDRIX EXPERIENCE e por conseguinte 3 singles que ganharam o mundo: Hey Joe, Purple Haze e The Wind Cries Mary que juntamente com os álbuns ARE YOU EXPERIENCED ? e AXIS: BOLD AS LOVE já nasceram clássicos imprescindíveis em 67.

Todavia, com muitas cartas na manga, no início de 68 lançou Eletric Ladyland. Esse material naturalmente levou-o ao estrelato, às mãos de Brian Epstein e às históricas apresentações em Londres e nos “festivais” ,como o MONTERREY POP e WOODSTOCK. Há vários registros dessas apresentações, porém precários. Se em estúdio, Jimi “dobrava” suas guitarras, deixando as canções “redondas”, ao vivo, baixo,bateria e guitarra não faziam jus ao seu som,ao menos para os desavisados de agora. Sem contar a pobre captação sonora de então. E não foi por outra coisa que o gênio resolveu refazer a banda, acrescentando mais um guitarrista, percussionistas, passando à chamar-se Band Of Gypsys ( não seria “gypsies ?).

Logo adiante retomou o velho nome (Experience), lançou em 70 o disco The First Ray Of The Rising Sun, depois rebatizado como Cry Of Love. Hendrix era uma lenda viva, uma referência em meio à todo aquele oceano de talentos que brotavam nos anos 60, quando foi encontrado desfalecido por paramédicos num hotel de Londres,acabou morrendo à caminho do hospital vitimado por uma “overdose” (tranqüilizantes ? LSD ? outras tantas ?). Aquilo surpreendeu e assustou o mundo. Clapton alega que entrou em depressão… mesmo!

Daquela época para cá, baterista de respeito usa um kit Ludwig, marca retirada do nome Ludwig Van Beethoven, assim como hoje em dia ninguém abre mão dos amplificadores da marca MARSHALL . E Seattle não é a terra do “grunge”! Duvida ? Basta visitá-la !!!

A FOGUEIRA DAS VAIDADES

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Dona Amélia aniversaria hoje. Não tem festa, nem canjica de tia Celina, nem pamonha de tio Lídio,

nem o piano de meu pai,

nem o fado que minha mãe trouxe de Portugal e o Tejo enfim…

Não, hoje tem uma Hellcife acanhada,

morna,

com fogos de alguns meninos de prédio…

também enclausurados como se a vida fosse pixels e bites e resinas e telas touch-pad.

Não , hoje não tem nem a resenha de Xico Sá, que persigo no feissibuki em tom menor, alvíssaras de um grande escritor nordestino,

Xico Sá que informa que Luiz Gonzaga achava que os Beatles o plagiaram para crescer e fazer sucesso.

E tome link, curtir e compartilhar.

O Fusca sentiu falta de mim tanto quanto eu sinto dele?

Graças a João e Houldine, toda manhã de Sábado tem um belo Som com André cuidando da Engenharia,

e todo Domingo fica iluminado e parece uma tela de cinema com o craque Houldine.

Passeio, sem comentar, pelos blogues dos amigos.

Magna vem por aqui e comenta.

Eu vou por lá e me alimento.

Se ela tivesse feissi , junto com Arsênio, com Tadeu, que maravilha completa.

A família esta lá, os amigos estão lá, os visíveis e os invisíveis, e claro, graças a Deus de todos gosto um bocado.

Não tiro o peso do querer.

que nem sempre é poder.

Eu vez ou outra me espanto com a vaidade de algumas pessoas,

começando pela minha, que já nos ensinava Pedro de Souza, que

se você não se alumiar primeiro e se arrepunar em seguida, não toque na ferida do seu vizinho,

ou vista primeiro suas sandálias, seu sapato, sua dor.

Caiba na roupa que não lhe traz sob medida e sua dor parecerá pequena, a do outro sim, talvez

maior.

Mas, fiquei sem entender, quando presenciei artistas locais, que bem podem vir a ser famosos e mundialmente famosos também,

se engalfinhando no F.B., por críticas que alguém lhes pôs no último espetáculo.

Que artista é incapaz de absorver uma crítica?

Acho que todo ele, na maioria é assim. Seja poeta, contista, repentista, violeiro, ator, atriz, comediante, compositor, músico, arranjador, maestro, virtuose ou pereba.

Uns tortos outros direitos, mas nenhum com a cristalina presença da auto-crítica em dia.

O atraso é pleno, geral e irrestrito.

As acusações sobem como fumaça e se desmancham rapidamente ao som da primeira birita, a primeira festa, o retorno dos elogios.

Viver é difícil.

Escrever é mais complicado do que criar nossos filhos, as palavras são cruéis, nos denunciam, nos sentenciam, nos deixam nús em nossas mediocridade.

E é assim que eu fico pastando, como burro que sou.

Feliz porque quanto menos escrevo, mais leio, dos outros.

O Fusca se mantém com a belezura de João Carlos de Mendonça e Houldine Nascimento e André Gustavo.

E mais não digo.

No final do ano volto por aqui.

Estou muito feliz na condição de copidesqui.

Abraços juninos.

Benção minha vó, minha tia e minha mãe.

E meu pai.

Deserto Feliz

(Brasil, 2007) ***

Drama, 88 min. Direção: Paulo Caldas. Com: Nash Laila, Hermila Guedes, Magdale Alves, Peter Ketnath, João Miguel, Zezé Motta e Servílio de Holanda.

Demorou alguns anos para que Paulo Caldas decidisse realizar mais um longa de ficção. O cineasta paraibano é lembrado até hoje pelo enorme sucesso obtido em 1997 com “Baile Perfumado”, filme que dirigiu com Lírio Ferreira e se tornou um clássico do cinema brasileiro contemporâneo. Em 2000, chegou, ainda, a realizar um documentário: O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas.

Nesta nova fita, narrada em flashback e que conta exclusivamente com sua direção, trouxe o submundo da prostituição. A heroína é Jéssica (Nash Laila), uma garota de 15 anos que vive numa cidadezinha próxima a Petrolina, chamada Deserto Feliz.

O filme é dividido claramente em três partes, embora nunca se use letreiro para delimitar: Sertão, Recife, Europa. Após ser violentada pelo padrasto (Servílio), ela decide ir para a capital pernambucana, onde acaba fazendo parte do turismo sexual e entrando em contato com drogas.

Lá, divide um apartamento (no famigerado Holiday) com outras duas prostitutas, uma delas é Pâmela, interpretada por Hermila Guedes (“Céu de Suely”). Numa de suas ações, Jéssica conhece Mark (Peter Ketnath, de “Cinema, Aspirinas e Urubus”), um alemão que cria uma relação de afeto com ela e a leva para o seu país.

Algo curioso a se destacar é que no desenrolar das situações, a menina vive a cantarolar uma música de brega que fala de amor, como um escape a tudo aquilo que sucede.

Paulo Caldas executa algumas experimentações com movimentos de câmera ousados. Não há dúvida de que é uma história triste, em que o diretor busca denunciar a exploração sexual a que muitas menores de idade se submetem, mas, pelo desfecho, traz uma mensagem de esperança, mostrando que é possível sair, largar essa situação. Caldas também abre espaço para denunciar o tráfico de animais através dos personagens de João Miguel e Servílio de Holanda.

Deserto Feliz não parece ter sido feito com a mesma paixão de Baile Perfumado, pois é conduzido com certa frieza, além do fato de que os personagens não são tão desenvolvidos como deveria. Trata-se de uma fita direcionada a um público mais restrito. Contudo, não deixa de ser um bom filme.

 

                                     W   A   N   D   O

 

Logo que fiquei sabendo do falecimento do WANDO, pensei em escrever algo sobre ele, mas enquanto matutava, sua biografia era exibida à exaustão  por todo tipo de mídia existente. Assim, deixei a poeira baixar para acrescentar umas verdades que muita gente das gerações mais recentes desconhece. Bom, Wando nasceu numa cidadezinha de Minas praticamente fundada por um ascendente seu, que ali tinha uma propriedade (sítio, fazenda…). Migrou para Juiz de Fora onde, garoto, foi engraxate, camelô e feirante mas, no meio disso tudo, estudou violão clássico. Isso mesmo!  Portanto, certamente conhecia bem harmonias e melodias refinadas e, acreditem, exibia-se ao instrumento executando música erudita para sua turma, especialmente os brotos. Apesar dos elogios, percebeu que a mulherada mais apreciava canções populares românticas e resolveu enveredar por  outras praias.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, cantando nas noites enquanto tentava emplacar suas composições, sem sucesso. Resolveu arriscar São Paulo e as oportunidades começaram a aparecer. Primeiro com a gravação por JAIR RODRIGUES de um samba escrito por ele que virou mania e faz parte de qualquer antologia decente do estilo:  O Importante é Ser Fevereiro. Assim chegou ao seu primeiro LP.  GLÓRIA A DEUS E SAMBA NA TERRA, título do disco, que apareceu lá por casa via Rádio Tamandaré (depois de ouvi-lo providenciamos uma cópia para nossa discoteca)  merece umas observações mais acuradas.  Na verdade, o artista era muito influenciado por Chico, Caetano e Gil, tanto e de tal maneira que o conteúdo desse LP  não conseguia disfarçar (o próprio artista reconheceria tempos depois). Estávamos diante de um novo cantor/compositor que prometia.  Boas canções, balanços irresistíveis,letras bem amarradas . Tudo embalado por ricas harmonias. Havia mesmo certa sofisticação, especialmente nas músicas de andamento lento. O disco não vingou. Infelizmente. Não teve a divulgação necessária, nem jabá suficiente para sensibilizar as rádios e TVs e por conseguinte, o público consumidor. Mas acreditem, era um bom disco. Nunca mais o ouvi e admito que hoje em dia tanto poderia soar datado como poderia ser “uma revelação”. Como saber ? Só consigo trazer à memória parte de Benedito Batuqueiro com sua levada samba-rock à La Novos Baianos.

Outro capítulo à parte chama-se, MOÇA. Claro que hoje, esta música chega à ser “brega”, melosa e apelativa,  mas é bom lembrar que em 1975 a conversa era outra. O machismo ainda estava fortemente encruado nas cabeças até do mais vanguardista riponga. Casar-se com uma jovem desvirginada significava admitir-se côrno por antecipação.Mesmo nas classes média e alta, casamentos eram forjados, forçados e até mortes ocorriam caso uma moça aparecesse sem o “selo de garantia”. Pior mesmo era se estivesse grávida. Engraçado que,casar com viúva não era recriminado. Pois bem, dentro deste contexto, aparece uma toada onde um  rapaz declara seu amor , seu tesão e todas as suas melhores intenções para uma senhorita ex-vírgem socialmente “amaldiçoada”. Nem Roberto Carlos nem Chico Buarque tinham ousado tanto, creio. Embora,o segundo tenha cantado uma relação lésbica (com todos os encobrimentos possíveis) em sua peça/disco CALABAR. A música foi um verdadeiro estrondo. Um sucesso que, bem ou mal, permanece até hoje em dia. E faça-se justiça, foi bastante inovador, então.

Desse ponto em diante, Wando desligou-se de quaisquer pretensões artísticas e norteou sua carreira em torno de temas assemelhados à MOÇA. Se até Roberto Carlos gravou sua  A MENINA E O POETA logo em seguida, por que mudar ? O cara entrou de cabeça no popularesco erótico-musical de refinado mau gosto, sempre se saindo bem. Criou um público fiel e não muito diferente dos fãs do Roberto (de 75 prá cá) e soube manipulá-lo com competência, mantendo e apimentando o estilo com a “sacada” comercial e folclórica das  calcinhas e, até falecer, deliciou a patuléia inculta e brega com coisas do tipo Chora Coração, Fogo e Paixão e Tenda dos Prazeres. E por falar em BREGA, seria o Wando  um AUTÊNTICO ou um OPORTUNISTA ?  A resposta meu amigo, agora é luz, é raio, estrela e luar!

 

 

G E O R G E    M A R T I N

 

Quando alguma coisa espetacular está para acontecer, quando está escrito nas estrelas, é fantástico observar como tudo converge e se harmoniza.  O fenômeno chamado THE BEATLES é uma dessas maravilhas, ainda mais quando tomamos conhecimento da vida das pessoas que ajudaram e participaram do fato. Uma dessas pessoas, certamente a única  que merece ser chamada de o Quinto Elemento é o maestro,compositor,arranjador e produtor  GEORGE  MARTIN.  Típico cidadão inglês, com aquela conhecida fleuma elegante, porém com um enorme apetite por novidades e vôos cegos, especialmente em sua área: a música.

Apesar de sua paixão pelos sons, MARTIN só foi estudar  formalmente quando já rapaz feito. Ele já conhecia os rudimentos do piano quando após servir durante a guerra,apesar de jamais ter entrado em combate, usou sua categoria de “veterano” para conseguir uma bolsa na famosa GUILDHALL  SCHOOL, onde além do piano se aperfeiçoou no oboé. Uma curiosidade desta época é que ele teve como professora a Senhora Margareth Asher , mãe de JANE, futura namorada  e musa inspiradora de vários clássicos de McCartney. Após se graduar, George foi trabalhar na BBC, em cujo laboratório musical, começou à desenvolver  suas experimentações sonoras. Dali foi para a EMI, a gravadora matriz, começando como assistente até que em 1962 foi designado  produtor responsável pela então pequena e insignificante subsidiária da EMI de selo PARLOPHONE. Na verdade, tornou-se alvo de chacotas dos colegas,posto que seu selo resumia-se à lançar discos de comédias radiofônicas. Noutras palavras,atores como PETER SELLERS, DUDLEY MOORE e os famosos  GOONS (espécie de Casseta & Planeta) gravavam suas vozes (novelas e principalmente comédias) enquanto  Martin criava a cortina sonora que daria vida ao texto (efeitos de chuva,passos,trânsito,vozerio etc). Mal sabia o quanto essa experiência  seria fundamentalmente útil adiante, em sua vida. Mas naquele momento, não conseguia esconder a frustração por não ter produzido nada de relevante no campo da música. Enquanto invejava os colegas da casa e da concorrência, rezava para encontrar um cantor ou uma banda pop. Mas a mágica já estava acontecendo.

Naquele mesmo período, Martin não imaginava que,muito mais desesperado do que ele, estava  Brian Epstein, um jovem e bem sucedido comerciante de Liverpool que sem mais nem porque, cismou de virar empresário daquele “grupinho” e que naquele momento, sob os mais diversos argumentos  (até piadas grosseiras) , ouvia um sonoro NÃO de todas as gravadoras (inclusive a EMI) após apresentar o “tape” da bandinha, feito na DECCA no dia 1/1/62. Para cada recusa, sob os risos dos executivos, Epstein vaticinava: Eles serão maiores que ELVIS!  Todavia, até Brian já tinha quase desistido quando “alguém” sugeriu que ele fosse à uma pequena editora e transformasse aquele “tape” em acetado (o velho LP) e lá chegando, outro “alguém” que por acaso ouviu as músicas rolando, aconselhou Epstein à encontrar-se com George Martin, armando inclusive, o encontro.

Embora nenhum deles tenha então revelado ao outro, aquilo era o “encontro dos desesperados”.  E assim como Brian enxergou carisma naqueles rapazes desleixados, GEORGE MARTIN enxergou talento por trás daquele repertório óbvio (tinha até uma versão esquisita de BESAME MUCHO). E o resto é história e lendas que todos conhecemos.

Se o genial Phil Spector ganhou notoriedade mundial por sua famosa Muralha Sonora, Martin pode ser reconhecido como o criador dos arranjos estilo MENOS É MAIS. Além de sua enorme capacidade para perceber a “alma” de uma canção, seus arranjos potencializavam certas passagens e apenas “pontuavam” outras. Como produtor,de início limitava-se a coordenar as gravações,usando efeitos para fazer brilhar mais ainda as vozes  (solo ou vocal) e equalizar os instrumentos (observem que desde o início o “som” dos Beatles nunca embolava) fazendo as músicas soarem límpidas, claras, mesmo nos mais viscerais “rockões”.  Na medida em que a música dos Beatles crescia em conteúdo (harmônicos e líricos) sua competência era mais e mais requisitada, como arranjador e como especialista em “efeitos sonoros”. E quanto mais a banda viajava mais ele embarcava na nave,sem vacilar e com  entusiasmo autêntico. Vejamos  Yesterday , que se resume à dois violões e à voz de Paul. Ele usou apenas um quarteto de cordas (viola,violino e dois celos). Ouçam os vôos do violino e dos celos,aqui e acolá. nos pequenos trechos sem voz. Em In My Life, a banda saiu para lanchar, deixando um espaço para um solo instrumental que queriam a la BACH. Martin bolou um lindo trecho mas tão sofisticado que nem ele poderia executar. Assim,baixou em um tom a velocidade do tape e tocou primeiro a mão direita e depois a esquerda nas notas médias/agudas do piano que,ao voltar à velocidade correta soaram lindamente como um “cravo”. Lennon quase desmaia ao ouvir. Talvez como OBELIX, George Martin deve ter caído num caldeirão de LSD quando bebê, pois das idéias do grupo ele gastava noites e noites invertendo sons,criando atmosferas,”loops”  e quaisquer efeitos desejados. Na fase psicodélica o que ele criava estava sempre um passo adiante da concorrência (e falo do Floyd , Zappa , Hendrix e outras feras da época).

Claro que ele passou à ser requisitado por todos à partir de então.Cantores,instrumentistas e como compositor de trilhas sonoras. Os milhões que ajudou a fazer cair nos cofres da EMI nunca foram reconhecidos,continuando à receber a “merreca” de sempre. Até que pediu as contas e virou produtor “free lancer”, cobrando o que merecia e mesmo a EMI teve de paga-lo como devido, posto que,a máquina de fazer grana chamada The Beatles só gravava com ele. De fato,a ligação dele com a banda é tão umbilical que muita gente esquece que a banda  gringa de folk rock, AMERICA, ganhou notoriedade (e discos de ouro e platina) quando o contratou (ver I NEED YOU, HORSE WITH NO NAME,ONLY IN YOUR HEART etc). O genial guitarrista JEFF BECK, sempre incensado pela crítica com seus discos maravilhosos,chegou ao topo do topo,sendo aclamado mundo afora, quando lançou seu disco considerado “perfeito”,o melhor e mais recomendado álbum no estilo “fusion”, chamado Blow By Blow, produzido por?  E ao ouvi-lo,você certamente não vai acreditar que é de 1975 mas de “ontem à noite”. Realmente um gênio,um gentleman este senhor oitentão que aposentado,atua vez em quando como consultor em diversas produções,especialmente às do filho Giles. Seu último trabalho foi  a fantástica montagem/trilha sonora para o espetáculo  LOVE do CIRQUE DU SOLEIL em cartaz desde 2006 (ahhhhhhhhh! O arranjo de cordas para WHILE MY GUITAR…).

 

PS I LOVE YOU:

 

– Martin apresentou a música HOW DO YOU DO aos Beatles na certeza de que seria um nº 1. A banda recusou e insistiu em sua FROM ME TO YOU que,de fato chegaria ao topo.E só saiu de lá quando GERRY AND THE PACEMAKERS chegou com HOW DO YOU DO.Sugestão de Martin.

– Quando apresentaram PLEASE PLEASE ME à Martin,com sua levada de valsa tipo Roy Orbinson,o maestro aconselhou: “Parece um pastiche mas não é ruim.Acelerem  o ritmo como um rock e mantenham os contracantos!”. O resultado todos conhecemos.

– “SOMETHING é uma maravilha George! Cante suavemente,como quem conversa discretamente com um amigo.Deixe os botões de voz e as cordas comigo!”.

– As 3 vozes da música BECAUSE pareciam perfeitas e suficientes mas MARTIN resolveu dobrar mais 2 vezes cada uma. BECAUSE é cantada por 9 vozes: Lennon,Macca e Harrison.

– O arranjo soberbo de SHE’S LEAVING HOME não foi escrito por Martin que apenas regeu a orquestra e trabalhou o contracanto de John e Paul.

–  Apesar de terminar “correndo” do projeto LET IT BE, é de George Martin a produção e arranjos do single GET BACK/DON’T LET ME DOWN.

– Pouco antes de morrer, Lennon recebeu Martin no Dakota e falou que se pudesse faria novamente todo o trabalho dos Beatles. Martin assustou-se: “Mesmo STRAWBERRY FIELDS ?”. Lennon: “Principalmente esta!” . Very John! pensou o maestro. Lennon também confessou que só pensava nele para o Double Fantasy e Martin falou que a produção ficou excelente.John: Mas com você seria melhor!”. Ahhhhh  por que não me chamaram ? Disse Martin. “Ficamos com vergonha! Eu achava que você preferia o Paul” (o velho Jealous Guy).

Nenhum produtor conseguiu “captar” e registrar tão bem as vozes de John e George quanto Martin. Nunca. Por melhor que ambos tivessem alcançado na carreira solo ( e foram fantásticos), tenho absoluta certeza que Martin faria bem melhor. Apenas McCartney trabalhou com ele após os Beatles. Em LIVE AND LET DIE (que orquestra!) e nos álbuns  TUG OF WAR e PIPES OF PEACE.

ELTON JOHN após O REI LEÃO queria fazer um trabalho antológico. Chamou GEORGE MARTIN e fizeram o álbum MADE IN ENGLAND… O melhor Elton dos últimos anos!

 

 

 

Febre do Rato

 

Não dá para falar do cinema pernambucano atual sem pensar em Cláudio Assis. O diretor caruaruense, dos premiados “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”, sempre leva às telonas temas ousados e, obviamente, polêmicos. Em seu terceiro longa-metragem, Febre do Rato, trouxe uma história mais palatável, sem deixar de lado suas inquietudes.

Essa “brandura” está evidente na figura de Zizo (estupenda interpretação de Irandhir Santos), um poeta marginal recifense que possui um periódico intitulado “A Febre do Rato”. A expressão é conhecida da população local e serve ainda para evidenciar todo o anarquismo do poeta, sua voracidade.

Ele nutre um peculiar gosto por mulheres de idade avançada, transando com elas em seu tanque. Também costuma declamar suas poesias para os amigos em diversas ocasiões. Certo dia, Zizo conhece Eneida (Nanda Costa), uma bela jovem que desperta sua atenção. O poeta cria uma espécie de devoção por ela e não vai sossegar até conquistá-la.

Paralela a essa situação, conhecemos personagens divertidos e suas histórias. O vai-e-vem da relação entre o coveiro Pazinho (um sereno Matheus Nachtergaele) e sua parceira. E a turma da construção abandonada, Oncinha (o pianista Victor Araújo), Boca Mole (Juliano Cazarré) e Rosângela (Mariana Nunes).

No dia em que se comemora a Independência do Brasil, Zizo decide realizar um manifesto no centro da cidade. É aí que vem o clímax do filme e todo o som e a fúria do diretor.

Febre do Rato foi aclamado no ano passado, no Festival de Paulínia, quando recebeu oito prêmios, entre eles o de melhor filme, ator – para Irandhir – e atriz – para Nanda.

As poesias são de autoria de Miró, um poeta bem popular em Pernambuco e dão um toque especial ao excelente roteiro de Hilton Lacerda. Há que se louvar a fidelidade dos atores a Cláudio Assis, pois eles se entregam de todas as formas aos seus pedidos, sem medo de expor seus corpos.

Isso criou problemas, sobretudo numa cena rodada na Rua da Aurora, onde a polícia interveio. “Estava tudo certo, pagamos tudo o que era preciso e não ganhamos nenhum centavo da Prefeitura, nem de nada. Vieram quase dez carros de polícia para prender os dois atores”, revela o diretor.

O personagem central se confunde com o próprio Assis – que é poeta por excelência, sempre entregando obras com paixão. Ele é bastante corajoso ao escolher, em conjunto com o diretor de fotografia Walter Carvalho, rodar em preto e branco, e isso faz do filme um primor ainda maior.

A fita é mais que uma declaração de amor ao Recife (ou um “beijo na boca”, como prefere o diretor), o que já seria grande coisa.  É um hino à liberdade, seja ela qual for, política ou sexual.

P.S.: Assisti ao filme em novembro de 2011, na abertura do IV Janela Internacional de Cinema do Recife. A projeção apresentou problemas. Além de considerável atraso para a exibição do filme, mal dava para ouvir o som de “Febre…”. Dessa maneira, fiquei impossibilitado de acompanhar alguns momentos poéticos, embora “lutasse” para tal. A previsão de estreia do longa é para a semana que vem, dia 22 e deve ser exibido no Cinema da Fundação. Pretendo rever.

O link gentilmente cedido por Houldine:

                                           A  S     M  U  S  A  S

 

No Brasil, os compositores costumam omitir suas musas. Mulheres que deram origem a muitos clássicos da MPB continuam desconhecidas. Até porque, a maioria é imaginada, uma mistura de várias pessoas, ou até mesmo “encomendadas” como  as personagens de filmes e novelas. Lá fora, é um pouco mais fácil identificar, até porque muitas são deliberadamente, citadas nas canções ou em depoimentos dos autores. Outras tantas são tão óbvias que não são novidades. Recentemente foi lançado um livro muito interessante sobre o assunto. Fiz um esforço para não ser tão “lugar comum” mas como veremos, é inevitável.

LOLA

Esta deusa inspirou 2 canções antológicas: LOLA (THE KINKS) e  TAKE A WALK ON THE WILD SIDE de LOU REED. Lola era presença constante nas boates mais “chics” de Londres. Lugares freqüentados pela elite pop da Inglaterra.

 

SARAH , a primeira esposa de BOB DYLAN, com quem viveu até o final dos anos 70. Foi a musa   da balada SARAH do álbum DESIRE de 1975.

 

PATTIE BOYD, foi casada com George Harrison e com Eric Clapton. Depois, dizem, teve um caso com Ron Wood. Pattie era uma jovem modelo quando conheceu George nas filmagens de A HARD DAY’S NIGHT. Casaram em 1966 e se separaram em 1974. Ainda no final dos 60, Clapton escreveu para ela sua clássica LAYLA. Clapton que,pela amizade com Harrison,engoliu sua paixão até a separação do casal. Mas o casamento dele com a musa durou tanto quanto espumas ao vento. George sempre afirmou que SOMETHING foi criada à partir de uns versos de James Taylor, mas o mundo todo acredita que Pattie foi a musa inspiradora desse clássico dos BEATLES.

                                                                              

  EMILY, a garota saboreando um picolé Fri-Sabor Morando/Côco foi a musa da canção SEE EMILY PLAY do primeiro disco do PINK FLOYD.
   

PRUDENCE FARROW   acompanhava a irmã, a atriz MIA FARROW na Índia, no “ashram” do Maharish, e meditou tanto que pirou,trancando-se em seu bangalô.   Todos ficaram preocupados. Então John Lennon escreveu uma canção que com Paul e George foram cantar para ela. DEAR PRUDENCE, gravada no White Album.

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ANGIE BOWIE ,mulher inteligente,sexy e de forte personalidade. Foi esposa de DAVID BOWIE que escreveu para ela o hit SPIDERS FROM MARS. Sim, é ela mesma a musa de ANGIE dos ROLLING STONES.

JANE ASHER, já era uma atriz respeitada em Londres,apesar de seus 17 anos, quando começou à namorar McCartney. A relação durou até 1968. Alguns clássicos dos BEATLES foram inspirados em Jane, como HERE,THERE & EVERYWHERE e AND I LOVE HER. Foi no piano de Jane que nasceu YESTERDAY e FOR NO ONE.

NICE foi a primeira esposa de Roberto Carlos,com quem casou ainda nos anos 60. Todo mundo sabe que ele escreveu canções para todas as suas esposas e “casos”. Mas foi durante o relacionamento com Nice que ele escreveu suas melhores baladas. DETALHES, por exemplo.

 

FLORA GIL, essa bela morena, no fim dos anos 70 prendeu o coração de GILBERTO GIL. Desde então, ninguém chega à ele senão por ela. A esposa anterior do artista foi brindada com duas pérolas: Sandra e Drão  (uma lindíssima espécie de mea culpa) mas no disco LUAR, Gil se superou ao escrever para sua musa um dos mais sublimes momentos da MPB, a bossa-nova FLORA.

Foi exatamente assim, como na foto, que essa então jovem morena de aproximadamente 15 anos foi cortejada pelos olhos de Tom e Vinícius. Pois é, HELÔ PINHEIRO, apenas A GAROTA DE IPANEMA.

 

Não lembro de outra mulher na vida de Erasmo Carlos senão NARINHA. Essa bela mulher simplesmente inspirou a letra de COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ. E teve mais, citada nominalmente em COQUEIRO VERDE, Narinha faleceu prematuramente e desde então não se tem notícia de outra musa na vida do Tremendão, ao menos, significativamente. “Sou forte/mas não chego/aos teus pés” , assim cantou Erasmo em MULHER. Precisa dizer mais ?

   GLÓRIA PIRES é uma das melhores atrizes brasileiras. Tão admirada que, a gente até perdoa o fato de ela ter sido casada com Fábio Jr. Afinal, era quase uma adolescente. Desde então, mantém um relacionamento estável e consistente com o injustamente ignorado compositor ORLANDO MORAIS, que escreveu para ela PODEROSO CHEFÃO, A CANÇÃO. Acho que só eu escutei essa maravilha!

  DEDÉ VELOSO, coincidentemente irmã de SANDRA (ex-esposa de Gil), casou-se com CAETANO VELOSO ainda no auge do Tropicalismo e o casamento durou até meados dos anos 80. Terminou sem nenhum estardalhaço. Como é notório, Caetano não poupa ninguém. Que o digam, SÔNIA BRAGA (Tigresa), VERA ZIMMERMAN (Vera Gata) e REGINA CASÉ (Rapte-Me Camaleoa). Mas foi para quem que o nosso querido compositor escreveu MINHA MULHER, QUEIXA e VOCÊ É LINDA ?

Claro que eu sei que este “post” exibiu apenas uma dose e que faltaram muitas musas. Justo essa que você está lembrando agora. Será que teríamos Jealous Guy,Woman e Starting Over sem YOKO ONO ? Ou mesmo My Love e Maybe I’m Amazed sem LINDA ?  Estaríamos ouvindo Fool To Cry dos STONES sem BIANCA JAGGER ?  Que mulher poderia ter sido a inspiração para Carinhoso, Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda, Carolina ou Ela é Carioca ? Não faço a menor idéia. Se você sabe, a hora é essa!

 

 

 

 

 

 

Eduardo Coutinho

Antes de adentrar o assunto principal, neste caso “Edifício Master”, uma admirável obra de Coutinho, se faz necessário abordar um pouco da vida e carreira do cineasta em questão.

Eduardo de Oliveira Coutinho nasceu em 11 de maio de 1933, na cidade de São Paulo. Ele chegou a cursar Direito na cidade natal, mas não concluiu. Sua formação em cinema se deu na França, onde estudou direção e montagem no IDHEC, no final dos anos 50. Nos anos 60, esteve envolvido com o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, a UNE. Foi este mesmo CPC o ponto de partida de Cabra Marcado para Morrer, uma das obras fundamentais do cinema brasileiro. Coutinho planejara realizar uma “ficção baseada em fatos reais”, sobre o assassinato de João Pedro Teixeira, o chefe das Ligas Camponesas, ocorrido em 62.

“Cabra…” seria interpretado pelas pessoas que estiveram presentes quando do crime, incluindo a viúva, Elizabeth Teixeira. O filme começou a ser rodado dois anos depois, em 1964. No entanto, devido ao golpe de estado sofrido no mesmo ano, Coutinho foi impedido de continuar as filmagens e alguns membros da equipe foram presos pelas forças repressoras, sob a acusação de comunismo.

Sendo assim, o projeto parou por um bom tempo, até o diretor ter a notícia, em 1981, de que os negativos não foram destruídos pela ditadura. Eduardo Coutinho retomou Cabra Marcado para Morrer, mas o transformou em um notável documentário sobre a separação entre a viúva e os filhos, durante o período em que o filme ficou parado. Lançado em 1984, “Cabra” recebeu prêmios no Brasil e no mundo, sendo responsável por alçar o diretor à condição de um dos mais respeitados documentaristas do país.

Coutinho também teve carreira de prestígio na televisão, quando preparou trabalhos para o programa “Globo Repórter”. Além disso, dirigiu alguns longas de ficção (O Homem que Comprou o Mundo e Faustão) e colaborou no roteiro de filmes como A Falecida (1965) e Garota de Ipanema (1967), ambos de Leon Hirszman, e Dona Flor e seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto.

Coutinho segue fazendo documentários. Obras notáveis como “Boca de Lixo”, “Jogo de Cena”, “As Canções” e Edifício Master. E por falar neste aqui:

Edifício Master (2002)

276 apartamentos distribuídos em 12 andares. Cerca de 500 moradores fazem parte do Edifício Master, um prédio de classe média baixa, localizado em Copacabana. O processo de feitura do documentário é revelado logo nos minutos iniciais. Coutinho alugou um dos apartamentos durante um mês para vivenciar o ambiente. O filme foi realizado durante uma semana, com três equipes ao todo.

Eduardo Coutinho entra em contato com dezenas de moradores. Aos poucos, vai adentrando em cada apartamento. Conhecemos uma gama de pessoas de diversos tipos. O diretor não se vale de grandes recursos audiovisuais, apenas de sua valorosa experiência enquanto entrevistador. Impressiona a capacidade o documentarista em extrair sutilezas, particularidades dos entrevistados. Coutinho ganha a confiança do sujeito filmado e os depoimentos ganham um poder de revelação que sempre acaba por surpreender o espectador.

Ele sabe exatamente o momento em que inserirá depoimentos descontraídos, como é o divertido caso contado por Maria do Céu, e entrevistas de conotação mais intensa e austera, a exemplo da garota de programa Alessandra ou então do aposentado Henrique, que relata ter conhecido o músico Frank Sinatra enquanto trabalhava em uma companhia estadunidense.

Nota-se o “isolamento” de um apartamento ao outro, com cada família vivendo sua “realidade”. Ao mesmo tempo em que os apartamentos são próximos, há em vários casos uma falta de convivência entre os vizinhos. Com poucos recursos, Coutinho mostra mais uma vez por que é tão respeitado e chamado de “mestre”.

                          S  H  E  R  Y  L      C  R  O  W

Ela tem uma formação musical robusta. Certamente já veio ao mundo predestinada à essa arte, tanto que desde a tenra idade jamais se imaginou seguindo outra carreira . Toca piano, teclados, contra-baixo, guitarra e percussão. E como! Nascida numa pequena cidade do Missouri  nos EUA , após concluir o curso de música se especializando em  “composição”, encontrou trabalho como professora de música, dando aulas para crianças deficientes. Mais adiante, a jovem, bela e talentosa SHERYL conseguiu se virar trabalhando como vocalista (backing vocal) para várias estrelas como Eric Clapton (com quem algum tempo depois teria um curto “affair”), Rod Stewart e  Michael Jackson. Artistas de peso, convenhamos.

SHERYL juntou seus “minguados” para investir numa “demo” com suas criações. Chamou alguns colegas, alugou um estúdio e mandou ver.  O resultado agradou em cheio aos executivos da A&M  Records que, a cercaram dos melhores músicos de estúdio e refizeram o trabalho de forma mais profissional, resultando no álbum TUESDAY NIGHT MUSIC CLUB (1993).  Uma estréia acima das expectativas, que revelava todas as influências e gêneros da artista cujo estilo, passeava pelo rock, country, pop e blues com rara intimidade. E a ótima canção All I Wanna Do com sua levada  meio “latin rock” cairia como uma luva no gosto popular, alavancando as vendagens do disco, que continha outras tantas pérolas, entre elas o blues Run Baby Run. TUESDAY é daqueles trabalhos que já nascem antológicos, discografia básica, mas a crítica não encontrando outros defeitos, preferiu atribuir a qualidade do produto à produção e ao talento dos músicos participantes. Então…

Com seu nome já estabelecido tão rapidamente e absolutamente aborrecida com a imprensa que reduzira sua competência em seu primeiro álbum, SHERYL CROW demorou 3 anos para lançar seu segundo trabalho. Acontece que entre os shows e excursões que realizara nesse período, ela vinha gravando “sozinha”  e pacientemente  “todos os instrumentos” para seu disco que  chamou-se singelamente , Sheryl Crow. Desta vez, a crítica teve de se calar e aplaudir. Nesse interregno, Sheryl  viveu com o ator Owen Wilson um romance discreto mas a relação intensa que teve com o ciclista profissional Lance Armstrong deu pano para as mangas. O sempre vencedor Lance, foi acometido por um câncer com prognósticos pouco animadores,mas com o apoio de sua primeira esposa, quase milagrosamente, curou-se definitivamente, voltando às pistas com sucesso e caindo nos braços de Sheryl com ímpeto ainda maior. As maldições lançadas ao casal eram o mote das publicações sensacionalistas e também das “sérias” mas, como de praxe, o estardalhaço mais ainda uniria os dois  e SHERYL CROWN , criativa como nunca, lançaria mais um festejado e realmente imperdível disco. C’mon , C’mon  confirmaria a competência da artista, com todo seu frescor roqueiro, convidados de luxo e um hit inspirado por e com o nome do ator Steve McQuenn, empolgante. Quando o relacionamento com Armstrong chegava ao topo da deteriorização (principalmente por parte dele) , toda a decepção e desengano de SHERYL desembocaram num disco fraco, prá baixo e decepcionante:  Wildflower. Totalmente de menos! Esse clima permaneceu de 2006, com o divórcio, até 2008. Não faltaram amigos. Apresentou-se como convidada num show de Clapton, dividindo com este os microfones em LITTLE WING de Jimi Hendrix. Registrou em áudio e vídeo uma das mais belas e comoventes baladas da atualidade,ao lado de Sting, chamada Always On Your Side.

Refeita e em plena forma, nos brindou com um álbum delicioso, Detours (2008), apresentando os hits Gasoline e Motivation. Aos 50 anos, bela e sexy como sempre, a garota mantêm-se como a melhor revelação da música internacional desde os anos 90. A prova ? Seu disco de 2010, 100 Miles From Memphis.  Totalmente demais!

PS I LOVE YOU:  Outras pérolas na voz de SHERYL:  Everyday Is A Winding Road – Sweet Child O’ Mine – Say What You Want To – Real Gone – Superstar .

 

O inconsciente de uma nação de um clube, como o próprio povo se autodenomina, o que aliás é de uma estupidez tamanha, pois bem, esse inconsciente é terrível.

Porque do não saber-se, do não conhecer-se, resultam catástrofes naturais, estupores, desordens e catatonias em geral.

Não se conhecer é a pior de todas as tragédias. Até maior do que a própria existência grega atual, com desemprego, falências e kaos.

E deste fato de domínio público, da figura do torcedor, especificamente do torcedor de futebol, mas redutivo ainda, do torcedor de futebol no Brasil…

entendo ser algo próximo ao vício do crack, que nunca usei, mas conheço (graças a Deus bem de longe) pessoas que usaram ou usam e estão morrendo e vegetando e…

posso perceber serem muito próximos do fim que se revela: … a demência…

Fiz , tempos atrás , uma alusão ao clube que torço (?) como sendo, ele o clube, um cabaré.

Cometi um pecado mortal. Desses que minha querida avó Amélia me mandaria ao inferno. Direto e de cabeça prá baixo.

Porque afinal um cabaré pode ser algo bem próximo de um clube de futebol ou não? SIM !!!

E no final as semelhanças são imensas.

Apenas o gerenciamento do estoque é que muda diametralmente. E como muda.

Mas o meu crime foi ser absolvido pela História. A pequena estória de um clube de ficção….

Talvez pouco ou quase nada eu saiba do amor do torcedor pelo seu clube.

E deste amor, além de iconoclasta, vislumbro eu algumas perguntas sem resposta que faço aqui a quem interessar possa respondê-las:

1) Que amor é esse que lhe leva ainda a sonhar após oito anos de traição, derrotas e vergonhas incomensuráveis com uma improvável ressurreição?

2) Que amor é esse que lhe coloca diante de um aparelho de TV, de rádio, Internet, tambor, coisa parecida e lhe faz parecer primo distante do Neanderthal “Homus Idiotis Ignobis”?

3) Que amor é esse que é partilhado, grilado, vendido, surrupiado, espoliado e que no final você não defende dos seus abutres? Onde você se encontra?

4) Que amor é esse que lhe põe uma camisa, uma calça, uma bandeira, lhe tira muitas vezes o dinheiro da feira e no final lhe trai com uma bola qualquer, outro time qualquer?

5) Que amor é esse que lhe impõe uma ida a um estádio, sob chuva, sob sol, cambistas, flanelinhas, pedintes, ladrões (de preto e com apito na boca) e você volta prá casa feliz mesmo após seu time ser goleado, humilhado, roubado (ladrões no camarote) ?

6) Que amor é esse que faz muitas vezes você discutir com gente que você ama, amigos fiéis, filhos, mulher, marido, namorada, namorado, etc pei bufe e coisa e tal. Que porra de amor é esse?

São apenas seis razões em forma de pergunta.

Hexa é luxo.

PS – algumas respostas encontradas no INFO PENSADOR:

Sou um torcedor fanático, torço de coração,adoro vestir a camisa do meu time, gritar todo dia de jogo, bater palmas, assoviar, suspirar, pensar em cada lance, cada drible, cada chute certeiro, cada momento de treinamento, cada momento instintivo, cada erro, cada acerto, quantos técnicos passaram, cada jogo surpreendente, alguns comuns, todas as graças de um momento, todos os momentos de glória, ahhhh cada vitória, cada lagrima derramada, sou um torcedor fanático, lembro de todos os jogos, algumas vitórias, algumas derrotas, quantos escorregões em dias de chuva, quanto suor em dias de calor, quantos adversários querendo contra meu time e quantas cicatrizes, mas isso não o abalou, cada dia meu time se prepara mais, cada dia esta cada vez melhor, tenho orgulho dele, o importante é a fibra, a raça, a motivação que dou ao meu time, torcendo e gritando de coração em cada partida, cada resultado, obrigado time! Amanhã meu time terá uma nova partida, um novo jogo, ele está preparado, cada vez mais preparado, buscando realmente fazer arte quando entrar em cena, este time logo completará 10220 partidas, e estas partidas, são jogadas a cada dia da minha vida, hoje tenho 28 anos de jogos da vida.
Use cada dia como um treinamento para o próximo dia, e o mais importante, torça por você!

Rudson Kiyoshi Souza Carvalho

Amo o futebol. Odeio o torcedor.

Rogério de Souza Baptista

Poucas instituições serão tão abrangentemente nacionais quanto o Flamengo – a Igreja Católica, sem dúvida, é uma delas, e, talvez o jogo do bicho. E olha que o Flamengo não promete a vida eterna e nem o enriquecimento fácil. Ao contrário, às vezes mata de enfarte e, quase sempre, só dá despesa. Mas uma coisa ele tem em comum com a religião e o bicho: a Fé! Por onde vai, o Rubro-Negro arrasta multidões fanatizadas. Há quem morra com o seu nome gravado no coração, a ponta de canivete. O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, no Flamengo venta, chove, troveja, relampeja. Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante ou por um dia.”

Nelson Rodrigues (torcedor do Fluminense)

O fim é lindo

Fabrício Carpinejar

Minha casa é estranhamente regulada. Quando uma lâmpada queima, as outras vão junto. É um boicote que aumenta em minutos para testar a paciência. O gás da cozinha falta bem no momento da janta, e logo de madrugada, com o objetivo de me constranger ao telefone com uma lista infindável de entregadores. Se o computador estraga, o chuveiro também e o microondas sofre problemas de circuito. Confio que os aparelhos se imitam e conversam entre si. Devem reivindicar melhores condições de trabalho e uso, cobrar insalubridade, ou estão cansados das extensões e da sobrecarga indevidas. O certo é que minha casa é grevista. Insurgente. Nunca acontece de algo quebrar isoladamente.
Cheguei a minha residência depois de uma série de viagens. E mal acendi a luz, puf, puf, puf. Meu dedo estalou em cada interruptor. Teve até choque. Foi patético, para não dizer desanimador. Corredores mexendo as sombras, as paredes escorrendo a cegueira.
Mas, um pouco antes de explodirem, as lâmpadas aumentaram sua fosforescência. Puxaram todo o resto de força para refulgirem a extinção. Estenderam seus aros como nunca antes, com a potência de um refletor.
O mesmo ocorreu com o gás de cozinha, a chama das bocas subiu com perigosa curiosidade. Poderia ouvir o fogo gemer. Ele escurecia as bordas das panelas com sua assinatura. Quase formava os dedos de uma mão.
Conclui que o fim é lindo.
Assim como as luzes da casa e do fogão, o amor perto do desastre não se economiza. Não mais se contém. É desesperadamente transparente.
Um casal diante do fim terá a grande noite de sua vida por não prever uma próxima. Sairá do esconderijo porque não se vê mais seguro. Mostrará do que é capaz. Queimará o que guardou, não fará mais nenhum jogo, esquecerá a sedução e os conselhos dos amigos. Mais intensidade do que intenção.
É o escândalo da verdade. Tímidos se transformam em terroristas, calmos ficam enervados, pacientes se portam como histéricos. Por um instante, não há medo de fazer as propostas mais desvairadas, confessar palavras reprimidas, estender os olhos como um lençol limpo.
O fim é lindo. Do crepúsculo, de uma vela, de uma chuva. O fim é esperançoso, exigente. Pancadas de beleza. O som e o sol pulam como um suicida ao avesso para dentro da vida.

Fabrício (Carpi Nejar) Carpinejar nasceu em Caxias do Sul – RS, em 23 de outubro de 1972, filho do poeta Carlos Nejar. É mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Recebo email do broda Houldine informando do não envio da coluna deste domingo.

Muita gentileza, atenção e respeito para conosco. Nossos fiéis 33 leitores.

O Fusca é hoje João e Houldine.

Uma tabelinha de ouro que foi chegando , chegando e tomou conta da Barbearia,

Que hoje fica em descanso com a ausência do nosso jornalista/cineasta/crítico/fuscopoeta.

Que seja breve e volte recuperado.

Saúde plena e total para o nosso amigo Houldine.

Um dos torcedores mais educados que já pude conhecer na minha vida.

Fica uma vídeo em sua homenagem:

 

 

É R L O N    C H A V E S

No 5º FIC (Festival Internacional da Canção) no final de 1970, o maestro,arranjador,regente,pianista e vibrafonista ÉRLON CHAVES conquistou a platéia com uma canção de letra “qualquer coisa” (bem no estilo do amigo,irmão de cor, fã e colega,Wilson Simonal) mas com um arranjo fantástico de metais,  muito balanço chamada “Eu Só Quero Mocotó“. ÉRLON apresentou-se com sua BANDA VENENO, na verdade uma ousada orquestra de 40 músicos (empolgados) e arrasou, mas deixou para a “noite final” a surpresa que preparara`nos bastidores. Durante a execução da música o “negão” anunciou: “Agora faremos um número quente !” e foi então que belas louras e branquelas arrodearam-no e o cobriram de beijos e amassos. Foi uma avalanche de protestos das senhoras pudicas do Brasil. Dizem que até um grupo de esposas de militares subescreveram um manifesto aos “generais” protestanto contra a imoralidade,petulância e arrogância daquele negro sendo cortejado por mulheres brancas. E o nosso maestro foi recolhido “aos costumes”. Não sem antes passar por aqueles indescritíveis interrogatórios.
Sabe-se pouco da infância de ÉRLON CHAVES além do fato de ter participado de alguns filmes como figurante infantil. Mas desde os 7 anos de idade em sua cidade natal,São Paulo, estudou no CONSERVATÓRIO CARLOS GOMES,base de sua formação musical. Dali começou sua carreira como pianista da noite, o que fez brotar sua veia “jazzistica”. Foi imediatamente contratado pela TV Excelsior para a qual compos o tema de abertura do canal. Mais tarde mudou-se para o Rio de Janeiro como diretor musical da TV Rio. Nesse período, foi um dos criadores do FIC (embora só tenha participado da quinta e fatídica edição,na era Médici), excursionou pela Europa como pianista e arranjador de ELIS REGINA, temporada que culminou com aqueles antológicos shows em Paris.
ÉRLON CHAVES era um antenado estudioso.Seus arranjos pouco convencionais, eram bastante requisitados e embora escrevesse com categoria para qualquer estilo, sua praia era a música negra americana,cujo conhecimento o fez transpo-la para a MPB.Aqui, vale ressaltar que o mundo estava sendo balançado por uma reação em cadeia ao racismo que mais ainda cresceu com o assassinato de Luther King, o movimento dos Panteras Negras e o “slogan”  BLACK IS BEAUTIFUL. No Brasil, SIMONAL ombreava (e até superava) com Roberto Carlos, TONY TORNADO (então um belo negão) era o “instant darling” com sua BR 3, e TIM MAIA dava os primeiros passos. Não à-toa , ÉRLON era admirado e até cortejado por colegas como Rogério Duprat e novatos como César Mariano e Wagner Tiso.
Por uma questão de justiça, temos que reconhecer que o apresentador de TV, Flávio Cavalcanti, reconhecidamente conservador e defensor empedernido da Ditadura Militar de então, encarou tudo e todos e contratou ÉRLON para seus dois programas de televisão, fazendo-o “jurado” em A GRANDE CHANCE e diretor, arranjador e regente da orquestra do PROGRAMA FLÁVIO CAVALCANTI. Vale lembrar que,naquela época,nem a mais brilhante novela tinha fôlego para competir com a audiência de Flávio Cavalcanti. Parece piada mas, para se ter idéia,teve garoto batizado com o nome de “Flávio Cavalcanti Rei da Televisão Brasileira.” De verdade. E graças a esta enorme visibilidade, o maestro ganhou notoriedade muito além dos bastidores, chegando a dividir um álbum com Paul Mauriat e sua orquestra. Nesse período,arrebatou prêmios pela música que escreveu para o polêmico filme Soninha Toda Pura.
Nosso músico,até o imponderável episódio do FIC, era reconhecidamente um tipo risonho,tranquilo e de índole contemporizadora.Mas sua atitude naquela noite, deixou aflorar um “ranço” racista contra os artistas negros da MPB que terminou respingando nos colegas… especialmente SIMONAL. E foi justamente no dia 14 de novembro de 1974, após discutir defendendo Simonal num restaurante da zona sul carioca, que ÉRLON CHAVES, enquanto paquerava uns discos de jazz numa loja ali perto, veio à falecer vitimado por um infarto fulminante. Tinha apenas 41 anos de idade. Com tanta mudança nas tecnologias de estúdio, nos estilos e modelos musicais, dá prá imaginar o que teria produzido o  maestro ÉRLON CHAVES caso estivesse ainda por aqui ? Eu acho que dá!