A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

Publicado: 09/09/2012 em Poesia

Se… (If… , 1968)
Drama, 111 min.


Vencedor da Palma de Ouro em 1969, Se… foi responsável pela estreia de Malcolm McDowell no cinema. O filme também é celebrado por ser o primeiro longa-metragem a fazer uma crítica direta ao sistema educacional inglês. Não à toa, a obra causou grande polêmica no seu lançamento (um embaixador chegou a considerá-lo um insulto à nação).
Distribuída em oito partes, a obra narra uma rebelião estudantil capitaneada pelo jovem Mick Travis (Malcolm). Nos primeiros capítulos, o espectador conhece os hábitos da escola onde a história se passa, com todas as tradições severas daquele internato. Os alunos estão retornando das férias. Três deles, além de Mick, Wallace (Richard Warwick) e Johnny (David Wood), já veteranos, não se conformam com a maneira que são conduzidas as regras do local.
O jeito que se comportam faz com que os chamados “Whips”, garotos mais velhos que têm autoridade perante os demais, passem a persegui-los. No meio de tudo isso, aulas entediantes pontuam o curso do lugar. Às escondidas, o trio bebe, vê fotos de mulheres nuas, entre outros atos proibidos. Posteriormente, a situação vai afunilando. Travis e Johnny chegam a sair da escola e ir à cidade (o que não é permitido, evidente), inclusive roubando uma moto. Mick ainda tem um caso com uma garçonete. Por sinal, este plano lembra o cinema de Glauber, quando os dois embolam nus no chão, ao som de uma Missa Luba, “Sanctus”. Enquanto isso, é sugerida uma relação homossexual entre Wallace e um novato.
Claro que essas atitudes não passariam impunes pelos “Whips”. O trio serve de exemplo para a escola, chicoteados no ginásio. Como é de se esperar, a punição maior fica para Travis. Mas o castigo, ao invés de regenerar, cria maior rancor e essa ira com um sistema que se revela corrupto ocasiona o desejo de vingança na mente e no coração do personagem central. Para o anti-herói (ou seria herói?), “A violência e a revolução são os únicos atos puros”, talvez a frase mais memorável. O desfecho é a resposta para todo o conservadorismo, a caretice e o falso moralismo da sociedade britânica.
Se… marca o início da trilogia Mick Travis. Os outros dois (“Um Homem de Sorte” e “Hospital dos Malucos”) foram igualmente protagonizados por Malcolm McDowell. No entanto, além dos nomes idênticos e funções parecidas, são obras que não guardam ligações quanto a temática. Responsável pela distribuição, a Paramount odiou o resultado e evitou ao máximo colocá-lo em circulação. Mas com o grande fracasso de “Barbarella” nos Estados Unidos, se viu obrigada a pôr “If…” em seu lugar. Para surpresa da distribuidora, acabou obtendo enorme bilheteria.
A direção é de Lindsay Anderson (1923-94), um dos líderes da New Wave (corrente do cinema britânico semelhante à Nouvelle Vague). Em sua extensa carreira, que começou em 1948 e se encerrou no começo dos anos 90, realizou apenas seis longas de ficção. Além dos três citados, “O Pranto de um ídolo” (1963), “In Celebration” (1975) e “As Baleias de Agosto” (1987) – este também é o penúltimo trabalho de Bette Davis. Contudo, não parece haver dúvida quando se afirma que “If…” é a sua obra maior.
Ele varia o filme em sequências em preto e branco e cor. Ao contrário do que se possa pensar, essa alternância não tem significado dramático, ou seja, não demarca tempo, nem situações envolvendo o onírico ou algo do tipo. Como o próprio cineasta contou, essa opção se deu especialmente pela fotografia, pois havia grande dificuldade em iluminar certos ambientes, como é o caso da capela da escola. Por isso, alguns planos foram filmados em P&B.
Ainda é importante observar que Lindsay rodou o filme poucos meses antes das conhecidas manifestações de maio de 68, na França, que até hoje são símbolos da contracultura. Para a elaboração de Se…, o diretor reconheceu que se inspirou em “Zero em Conduta”, de Jean Vigo. Curiosamente, um dos locais utilizados para as filmagens foi a Cheltenham College, onde o cineasta estudou.
Já vemos um pouco do talento de Malcolm McDowell, certamente um dos atores mais fascinantes de todos os tempos. De acordo com o IMDb, trabalhou em mais de 200 projetos, divididos entre televisão (séries e filmes) e cinema. É bem óbvio que Stanley Kubrick o convidou para protagonizar “Laranja Mecânica” ao ver o seu desempenho aqui. E ele leva um tanto de Travis para Alex DeLarge, de modo que este parece ser uma extensão daquele.
O título teria sido retirado do famoso poema de Rudyard Kipling. Toda essa revolta é construída de forma alegórica, com alguns momentos surreais pontuando a trama. O filme é notório por sua abordagem ousada para a época. É também o primeiro a ter um nu frontal feminino aprovado pela censura inglesa. Nunca é demais dizer que chocou a sociedade britânica, conhecida por seu apego às tradições. Entretanto, mostrou o mais importante: o privilégio e o abuso de poucos nas escolas inglesas daquele período (não deve ter mudado tanto). Pela ambientação, se nota que ficou um pouco datado, mas é um trabalho vigoroso, libertário e que merece toda apreciação.

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comentários
  1. Domingos disse:

  2. Domingos disse:

  3. Domingos disse:

  4. João Carlos disse:

    Houldini, agora só faltou nos dizer o que fazer para assistir ! Tá! Fiquei tremendamente curioso!

  5. Houldine Nascimento disse:

    João, If… começou a ser distribuído em DVD no ano de 2009, pela Lume. Não sei está disponível para locação aqui em PE. Grande abraço!

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