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REFLEXÕES SOBRE A ARTE DE VIVER” [TRECHO]
Por Joseph Campbell

Se você quer um título universitário para compensar um complexo de inferioridade, abra mão do complexo, pois ele é algo artificial.

Quando você cursa uma universidade, não faz aquilo que você quer fazer. Você descobre o que o professor quer que você faça para receber o diploma e faz isto. Se você quer o título para dar aulas, o ideal é fazer o curso da maneira mais rápida e fácil. Tendo recebido o diploma, aí você expande a sua educação.

Recebi uma bolsa de estudos na Europa, e fui cursar a Universidade de Paris. Estava dedicando-me ao francês e ao provençal medievais e à poesia dos trovadores. Quando cheguei à Europa, descobri a Arte Moderna: James Joyce, Picasso, Mondrian – toda aquela turma. Paris, em 1927-1928, era outra coisa. Depois, fui à Alemanha, comecei a estudar Sânscrito e me envolvi com o hinduismo. Depois Jung enquanto estudava na Alemanha. Tudo estava se abrindo – deste lado, daquele lado. Bem, a minha dúvida na época foi: “Devo voltar para aquela garrafa?” Meu interesse pelo romance celta se fora.

Fui à universidade e disse: “Olha, não quero voltar para aquela garrafa”. Tinha feito todas as matérias necessárias para o título; só precisava redigir a maldita tese. Não me deixavam ir para outro lugar e dar prosseguimento aos estudos, e por isto eu disse, vão para o inferno. Mudei-me para o campo e passei cinco anos lendo. Nunca tirei meu Ph.D. Aprendi a viver com absolutamente nada. Estava livre e não tinha responsabilidades. Foi maravilhoso.

É preciso coragem para fazer aquilo que você deseja.

Outras pessoas têm um monte de planos para você.

Ninguém quer que você faça o que você quer fazer.

Eles querem que você embarque na viagem deles, mas você pode fazer o que quiser.

Eu fiz isto. Fui para o mato e li durante cinco anos.

Foi entre 1929 e 1934, cinco anos. Fui para uma pequena cabana em Woodstock, Nova York, e mergulhei. Tudo que fazia era ler, ler, ler, e tomar notas. Foi na época da Grande Depressão. Eu não tinha dinheiro, mas havia uma importante distribuidora de livros em Nova York chamada Stechert – Hafner, e eu escrevia e pedia livros para eles – os livros de Frobenius eram caros – e eles me mandavam alguns exemplares, e eu não pagava. Era assim que as pessoas agiam durante a Depressão. Eles esperaram até eu conseguir um emprego, e então eu os paguei. Foi um gesto muito nobre. Fiquei realmente grato por eles.

Li Joyce, e Mann e Spengler. Spengler fala de Nietzsche. Vou a Nietzsche. Então, descubro que não se pode ler Nietzche sem ter lido Schopenhauer, e por isso vou a Schopenhauer. Descubro que não se pode ler Schopenhauer sem ter lido Kant. Então, vou a Kant.- bem, concordo, você pode começar daqui, mas é bem difícil. Depois Goethe.

Era excitante ver que Joyce estava na verdade, lidando com o mesmo material. Ele nunca menciona o nome de Schopenhauer, mas posso provar que esse foi uma figura importante na forma como Joyce construiu seu sistema.

Depois leio Jung e vejo que a estrutura de seu pensamento é basicamente a mesma de Spengler, e fico reunindo todo este material.

Não sei como passei esses cinco anos, mas estava convencido de que ainda sobreviveria a mais alguns. Lembro-me de uma ocasião em que tinha uma nota de um dólar na gaveta de uma cômoda, e eu sabia que enquanto ela estivesse ali, eu ainda contaria com meus recursos. Foi bárbaro. Eu não tinha responsabilidade, nenhuma. Era excitante – escrever meus comentários no diário, tentar descobrir o que eu queria. Ainda tenho tudo isto. Quando leio esse material hoje, não consigo acreditar. Na verdade, houve momentos em que quase pensei – quase pensei – “Caramba, gostaria que alguém me dissesse o que eu tenho de fazer”, algo assim Ser livre, implica tomar decisões, e cada decisão é uma decisão que altera o destino. É muito difícil encontrar alguma coisa no mundo exterior que se ajuste ao que o sistema dentro de você tanto anseia. Hoje, sinto que tive uma vida perfeita: aquilo de que precisava apareceu justamente quando eu precisava. Na época, eu precisava viver sem emprego durante cinco anos. Isso foi fundamental.

Como diz Schopenhauer, quando você analisa sua vida em retrospecto, tem a impressão de que seguiu um enredo, mas, no momento da ação, parece o caos: uma surpresa atrás da outra. Depois, mais tarde, você vê que foi perfeito. E tem uma teoria: se você estiver seguindo seu próprio caminho, as coisas virão até você. Como é seu próprio caminho, e ninguém o percorreu antes, não existe um precedente; logo, tudo que acontece é uma surpresa, e na hora certa.

 

INSÔNIA

O tempo esquece de nos limar nas noites

em que ela aparece.

Não é solidária, nos faz solitários, aumenta o som do imaginário,

traz os nossos queridos ausentes de volta,

nossos piores medos.

Faz a digestão virar uma guerra de cem anos, faz cem anos durarem uma noite.

Faz e não desfaz. Tudo que é possível ser construído, a eleita rainha dos terrores consegue:

A insônia não tem menos que um milhão de adjetivos e homônimos. Não me arrisco a eleger nenhum.

Eu a tenho como companhia indesejada, não permitida, não adquirida, da mesma forma que não escolhi minha altura, a cor da pele, minhas orelhas, minha vida.

Ela nasceu em parto prematuro, desde os 11 anos de idade.

Época em que se tem que dormir bem para poder crescer.

Vai daí meu 1,68 que já nem sei se já virou 1,65 de desaltura. Mínimo Minimorum.

De lá prá cá a convivência é tormentosa. Como a seca no sertão, como as enchentes amazônicas, sempre em grande estilo. Implacável.

Durante e após os vinte anos aplaquei sua ira com álcool. Muitos litros. Destilarias. Mas não consegui destilar um sono tranquilo.

A vida de bancário com um pentacampeonato de assaltos (hexa necas) trouxe mais gordura a insônia. Os terrores naturais trouxeram os terrores urbanos e as lembranças desses momentos ficaram grudando feito pixe. Noite após noite.

Yoga, Meditação, Reike, Alongamentos, Florais, Macrô, Macô. Nada.

Nadinha. Algumas golfadas de alívio. Para não morrer na praia.

Finalmente a química humana chegou para mim na forma hexagonal de um comprimido laranja.

O tal agente que não é agente do Vietnâ.

Virei comparsa do laranjinha.

Que antes era o rosinha. O velho Lexotan.

Hoje consigo dormir na base da porrada do Frontal.

Que virou um belo texto do livro de Bial e outros poetas intitulado Tarja Preta.

O texto ;Frontal com Fanta.

Dá para dormir. Um sono de superfície. Um sono de formica. Não quis escrever formiga, é formica mesmo, de fininho. De nada mesmo. Aquele sono dos passarinhos.

Mas consigo acordar com cara de pastel de feira vencido. E pegar no tranco.

Sou amigo e irmão do banho frio. Nas madrugadas mais frias, nos dias mais chuvosos estou lá debaixo do chuveiro gelado acordando dedo por dedo, cada fio de cabelo, cada pedaço do meu eu insone e inquieto.

E sigo…