Arquivo de dezembro, 2012

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Um grande colega de trabalho, hoje aposentado, me liga em meio a litros de cerveja, para me desejar Feliz Ano Novo, etc pei bufe e coisa e tal.

A cevada já lhe invadindo o cérebro, os neurônios boiando no álcool, e ele relembrando momentos que confesso já havia esquecido.

As biritas tem dessas coisas. Transbordam memórias extintas e as repaginam de acordo com a nossa vontade. Uma matrix que só o álcool pode servir nas taças da vida.

E como não poderia deixar de ser, o amigo dana-se a falar mal do próprio casamento, mais longo do que o meu.

O casamento do amigo passou dos 30 anos e ele não perdeu a mania de ralhar com o cônjuge e maldizer sua condição de casado.

Sempre que alcoolizado, vale frisar.

Porque em verdade, essa parece ser a aritmética do casamento da maioria das pessoas que conheço um pouco melhor.

As pessoas se suportam, se toleram e extravasam na base da adrenalina, do álcool, do trânsito, das crises familiares, na educação dos filhos.

E vão tocando.

Prá mim casamento sempre foi soma. A subtração quem faz é o tempo. Na sua contagem louca e regressiva para a morte, ele vai nos tirando tudo, à medida que vai nos dando.

É um toma lá dá cá quase que atômico.

Segundos que chegam e se esvaem. Uma alucinante fita diante dos olhos.

Pois é, mas e a aritmética do casamento? Qual será?

Tem gente que divide tarefas, divide espaços, divide contas. Divide tanto que terminam definitivamente divorciados.

Tem gente que multiplica, patrimônios, dólares, cuecas, sutians, imóveis e se arrombam na divisão quando o divórcio chega.

Tem gente que subtrai. Esses são de fuderetê a chaminé do sétimo chacra.

Diminuem a energia do outro, sugam o outro. Diminuem a energia dos filhos, dos amigos.

Diminuem o espaço do outro, para chegar o espaço que lhes achar melhor, sogra, sogro, cunhados e aderentes.

Diminuem a capacidade de amar e de sonhar.

Diminuem tanto que desaparecem antes do divórcio. Mesmo que continuem casados, já sumiram na névoa da mais reles mediocridade.

Há os que somam.

No que a soma tem de mais poético, ao contrário de Vinicius que pedia a divisão.

Contrario o genial poetinha que somou tantos casamentos para dizer que a SOMA, a SOMA é a SALVAÇÃO.

Não a SOMA do terapeuta a SOMATERAPIA.

Não a SOMA infantilóide que se confunde com a multiplicação.

Falo da SOMA das dores.

Das aflições.

Dos terrores.

Dos gozos.

Das alegrias.

Das bençãos.

Falo da SOMA geral gratuita e bela que é a própria VIDA, na qual o CASAMENTO VERDADEIRO se insere.

Quem de fato vive bem consigo mesmo consegue se casar e ser feliz.

Mesmo que não seja prá sempre.

Mesmo assim terá valido a pena.

A SOMA deixa um saldo sempre positivo, prá mim essa é a única das operações que vale a pena no casamento.

As outras, as calculadoras, os abutres advogados e os parentes e aderentes se encarregam de torpedear.

E, de fato, Antonio Vieira, o padre jesuíta nos seus SERMÕES vaticinou:

” O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito de amar a menos. O tempo atreve-se a colunas de mármore quanto mais a corações de cera”.

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CAIOF

No hospital, fiquei amarrado numa maca, nu, sem poder me mover. Dois dias num corredor, com frio, e ninguém me dava um cobertor. Acho que fiquei delirando, acordava e dormia, e só lembrava de filmes, principalmente Frances, com Jessica Lange. O que achei até meio chique. Dois dias depois acordei numa cama. Minha irmã, Cláudia, entrou no quarto, nos abraçamos e choramos. Fiquei dois meses no hospital. Comecei a tomar AZT.

Também me diverti muito. Fiz amizade com muitas enfermeiras – habituadas a lidar com as verdades da vida, são pessoas diretas e sinceras – com todo mundo. O cara que fazia a faxina era pai-de-santo, uma outra enfermeira fazia parte de um grupo que tinha contatos com uma civilização extraterrestre, uma médica era kardecista, uma psicóloga me disse que tinha feito uma masectomia e estava toda ligada em anjos. O médico que me tratava era meu leitor. Ele teve um cuidado especial comigo e fiquei confiando nele. Eu pensava: “Bom, se o Francisco gosta do que escrevo, não vai querer me matar”. Quando saí do hospital , tudo me parecia tão precioso.
Como não escondi, desde o primeiro momento, que estava com Aids, não tive vergonha. Quando a gente não esconde, não há rejeição. Posso contar nos dedos de uma mão as pessoas que pararam de ligar. Nenhum amigo íntimo desapareceu. E tem uns, como a escritora Lygia Fagundes Telles, que ligam toda semana. Talvez eu tenha sorte, meus amigos sejam muito bons. Ou talvez, no meio em que eu circulo, isso já virou meio arroz-de-festa, ninguém mais nota a questão da Aids.
Mas quando entro no avião as pessoas se cutucam, me viram na TV e dizem: “Esse aí é o Caio Fernando Abreu, o escritor que está com Aids”. Recentemente dei um grito no avião. Duas peruas se cutucavam e cochichavam. Fiquei impaciente e disse aos berros: “Sou eu mesmo, o que foi?” Elas ficaram envergonhadas. Na maioria das pessoas senti uma coisa solidária, às vezes um pouco tensa. Elas não sabem muito bem o que fazer comigo.
A Aids mudou a relação das pessoas com o sexo. Deu origem até a coisas não muito boas, como o sexo por telefone, sexo por computador. Nesse sentido, nos deixou muito mais solitários com a nossa libido. Tocar o outro é uma aventura. Há dez anos era uma coisa banal. Isso é manipulado pela sociedade, pela igreja. Eu tenho amigos e amigas que não treparam mais. A camisinha pode rasgar, tem orifícios minúsculos. Eles ficaram paranóicos. O mundo contemporâneo está conduzindo o ser humano a uma grande solidão.
Não fiquei santificado com a doença. De alguma forma, sempre busquei a religiosidadee acreditei que este plano é ilusão. Uma passagem para tentar melhorar nós mesmos. Minha parte são os livros, uma tentativa de ajudar as pessoas a se conhecerem. Sou muito ligado em candomblé, e isso está refletido no trabalho. Meu romance Onde Andará Dulce Veiga? tem a estrutura hierárquica de um jogo de búzios. Todos os orixás são invocados no livro. O primeiro é Exu, que estabelece a ligação entre o humano e o divino.
Em agosto do ano passado, fiquei hospitalizado. Saí em setembro, vim para Porto Alegre, juntei forças e fui, no mês seguinte, à Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. E retornei definitivamente. É gostoso voltar a morar com os pais, voltar à própria cidade. Descobri que os lugares não existem. Passam a existir quando se olha para eles e se adjetiva o lugar. Meu corpo está aqui. Não tenho a menor necessidade de sair daqui.
Muitos amigos foram embora, outros moram no Rio e Sâo Paulo. Por aqui, vejo o Luciano Alabarse, diretor de teatro gaúcho, falo com a escritora Lya Luft. E tenho um bom amigo, que conheci há uns dois anos, que se chama Léo de Oxalá – é um pai-de-santo. Não vou me relacionar com pessoas que ficam dizendo coisas desagradáveis. Tem os que sumiram por causa da Aids. Compreendo. Eu mesmo, quando alguns amigos ficaram doentes, fugi. Era o medo do espelho, talvez.
Que bom que eu tenho um tempo determinado. Posso me concentrar nas coisas que quero fazer. Posso escrever. Agora publiquei Ovelhas Negras, restos que nunca joguei fora. É o que foi ficando na gaveta desde os 14 anos de idade. Uma tentativa de revisar a mim mesmo. Parece um pouco com um livro póstumo e é uma maneira de fazer isso antes de morrer, revisando eu mesmo minha obra. O livro é uma passagem por momentos meus e do país: a ditadura, o sonho hippie, o exílio, a Aids. Tinha medo de não conseguir terminar o livro. Mas ele está aí, juntei tudo, já que vou morrer.
No livro tem uma história que foi censurada pelo Jornal do Brasil na época da eleição do Collor. O jornal pediu para o Márcio Souza escrever sobre o Lula e eu faria o mesmo com o Collor. Escrevi a história de um menino que sonha com um garoto ruivo e manco. No dia seguinte, vai para as pedras do Arpoador, no Rio, e lá aparece o garoto. Ele pergunta ao menino Collor se quer ser o dono de um país inteiro. Ele diz sim. E o garoto acaba comendo ele – era o demônio. O conto se chama O Escolhido. O José Castello, que era o editor, disse que a cúpula do jornal optou por não publicar. Quando o Collor ganhou, liguei e disse: “Por causa de covardia como a de vocês é que o cara foi eleito”. Tive receio de publicá-lo no livro. Acho que o caso do irmão, Pedro Collor, foi coisa de magia negra.
Tem uma coisa da Aids que é preocupante. Um dia eu estava no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, uma mulher atravessou o saguão e disse: “Deixe-me abraçá-lo. Você foi escolhido”. Eu agradeci. Ora, escolhido! Eu desejo saúde. A Aids não é um castigo de Deus. Pode ser um castigo no sentido de que a natureza foi violada demais. Então o homem tem que ser punido. O planeta, Gaia, é um organismo vivo, como uma planta.
Não sei quanto tempo tenho pela frente. O Betinho está aí há sete ou oito anos. Fisicamente não tenho nada. A única coisa grave é o sarcoma de Kaposi, uma forma rara de câncer na pele. Essa mancha no nariz é uma das lesões que eu queimei. O problema é que eu tenho por todo o corpo, e pode dar por dentro do corpo. É uma das infecções oportunistas. No hospital Emílio Ribas, vi um rapaz com esse câncer na boca, do tamanho de uma bola de tênis. Tenho horror da deformação.
Aprendi comigo mesmo a sair do próprio bode. Acho que todas as pessoas deveriam pensar no lado da luz. Está com vontade de se matar? Tudo bem, toma um banho, vai ao cinema, compra umas flores. Ficar trancado no quarto não vai resolver os problemas. Ora, vai na locadora, pega um vídeo da Doris Day e pronto!
Depois que fiquei doente, minha auto-estima não diminuiu. A minha vaidade é que acabou. E a coisa é irônica comigo, a doença me atingiu no rosto. Meus valores passaram a ser outros. A viagem delirante do ego parou de existir. Não preciso provar mais nada. Agora quero ter saúde e continuar meu trabalho. Ultimamente eu respondo assim aos que se queixam pra mim: “Pensa no Zaire”. “

Depoimento a Fátima Torri – Revista Marie Claire – Set 1995

quarteto souza

as gerações batendo bola

que a vida é ligeira

e o som requer coragem.

as gerações se encontrando

 nesta tarde

em Piedade.

logo ali

que do Rosarinho

se fez um pulo.

eu, meu filho, meu irmão ,o filho dele e o neto.

estamos em boas mãos,

as violas agradeceram

e dessa maneira

vivemos o último sábado de 2012.

É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.
Friedrich Nietzsche

a poesia pode amar

e antes e nunca,

pois amigos

existem no mundo

dos sonhos.

por isso a poesia

é 

 atreve-se

aos filósofos

e é ópio puro,

sem refinamentos.

da saliva prá baixo

tudo é pedra

a poesia

pode amar,

nós podemos

quase nada.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade

2013

AS PUBLICAÇÕES DO FUSCA SERÃO LIDAS AGORA NO APLICATIVO FACEBOOK/SÁBADO SOM/A VIDA EM 24 FPS/DEMAIS.

A LEITURA ESTÁ MAIS AGRADÁVEL E MAIS RÁPIDA. ALÉM DOS COMENTÁRIOS SEREM MAIS FÁCEIS DE VISUALIZAR.

UMA GRANDE HISTÓRIA ACONTECEU AQUI NESTE BLOG. E ESTÁ GUARDADA PARA SEMPRE.

GRATO A TODOS.

FELIZ 2013.

SAÚDE, PAZ, LUZ, HARMONIA E MUITA PROSPERIDADE.

No Toitiço.

Globo_Ouro

 

Globo de Ouro divulga os indicados

O fim de ano chega e as grandes premiações começam a anunciar os filmes concorrentes. Na semana passada (13), o Globo de Ouro divulgou os indicados da 70ª edição, que acontece em 13 de janeiro. O prêmio é organizado pela Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA) e se divide entre a TV e o Cinema. Dirigido por Steven Spielberg, o drama “Lincoln” tem sido bastante elogiado e larga na frente com sete indicações, incluindo filme-drama, diretor, ator (Daniel Day-Lewis) e atriz coadjuvante (Sally Field). Em seguida, nomeados em cinco categorias, estão empatados “Django Livre”, de Quentin Tarantino; e “Argo”, de Ben Affleck. Para filme estrangeiro, despontam “Amor”, de Michael Haneke, e “Intocáveis”, de Olivier Nakache e Eric Toledano. Também indicado à categoria está “Ferrugem e Osso”, de Jacques Audiard. O filme ainda garantiu nomeação de melhor atriz à Marion Cotillard. Alguns longas brasileiros tentaram entrar na disputa: “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho; “Heleno”, de José Henrique Fonseca; e “Xingu”, de Cao Hamburger.
Oscar anuncia lista de semi-finalistas em filme estrangeiro

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (AMPAS) divulgou, na última sexta-feira (21), uma lista com nove filmes pré-selecionados para a categoria filme estrangeiro do Oscar 2013. O representante do Brasil, “O Palhaço”, ficou no meio do caminho. O longa de Selton Mello chegou a ser exibido para os membros, em L.A. Entre os filmes que continuam lutando por uma das cinco vagas, estão o ganhador da Palma de Ouro 2012, “Amor”, de Michael Haneke; o chileno “No”, de Pablo Larraín, que trata dos bastidores do plebiscito que decidiu pela saída de Pinochet como Chefe de Estado; e o francês sucesso de público “Intocáveis”. O anúncio com os todos os nomeados sai no dia 10 de janeiro.
Confira lista com os nove filmes que permanecem na disputa:

“Amor”, de Michael Haneke (Áustria);
“War Witch”, de Kim Nguyen (Canadá);
“No”, de Pablo Larraín (Chile);
“O Amante da Rainha”, de Nikolaj Arcel (Dinamarca);
“Intocáveis”, de Olivier Nakache e Eric Toledano (França);
“The Deep”, de Baltasar Kormákur (Islândia);
“Kon-Tiki”, de Joachim Rønning e Espen Sandberg (Noruega);
“Além das Montanhas”, de Cristian Mungiu (Romênia);
“Sister”, de Ursula Meier (Suíça).

 

 

LUIZ MELODIA

L U I Z    M E L O D I A

Ali pelos anos 70, a TV Globo costumava produzir “clips” exclusivos com artistas brasileiros que exibia em primeira mão, sempre no programa FANTÁSTICO. Raramente acertava. A maioria ficava sempre brega e tosco. Agora imaginem a cena; MELODIA, já então tido como sócio remido dos “artistas malditos”, está lá na “poderosa” gravando um vídeo para sua versão de NEGRO GATO (Getúlio Cortes), tranquilo, apenas dublava sua voz enquanto aqueles cenários e fundos esquisitos entravam e saiam até que, de repente vê-se cercado por um punhado de belas mulheres rolando, fazendo caras e bocas, trajando biquínis, orelhas e maquiagens do felino em questão. Melodia parou imediatamente e negou-se àquilo! Assim já era demais! Alguém ameaçou que seria daquele jeito ou nada. Mesmo ficando claro que seria banido definitivamente da emissora, Luiz Melodia foi embora. Ficou um longo tempo fora da Globo e mesmo assim manteve sua carreira e sua credibilidade artística intactas. Claro, pode mesmo ter perdido público por não aparecer na maior rede de TV do Brasil, mas nunca se arrependeu. Construiu uma carreira perene, tranqüila e robusta, mantendo seu público fiel (prá ser sincero, não sei dizer se o “veto” já foi abolido ou não, mas agora tanto faz).

Nascido e criado no morro de São Carlos, no Estácio, Rio, filho de uma costureira e de Oswaldo Melodia, que trabalhava no cais e nas horas vagas levava o filho para tocar com ele na Igreja Batista e nas rodas de samba, onde conheceu Ismael Silva, Geraldo Pereira e a arte de Noel Rosa. Acontece que Luiz era fã da Jovem Guarda e mais tarde se encantou com Chico Buarque e o balanço do Jorge Benjor. Cabeça aberta, ligou-se também no pop internacional. Hoje, seu ídolo maior é o Chet Baker. Ainda um molecote, formou o grupo OS INSTANTÂNEOS que tocava de tudo, até samba. Logo após cumprir o Serviço Militar, apresentava-se com o violão em botecos da cidade até que um dia ao assisti-lo, Waly Salomão e Torquato Neto ouviram-no cantar sua “PÉROLA NEGRA” e resolveram mostrá-la à GAL COSTA que preparava seu disco “Gal A Todo Vapor” de 72. A cantora se apaixonou pela canção e resolveu gravá-la. E foi um sucesso, levando LUIZ MELODIA (que já então adotara o sobrenome artístico do pai) ao seu primeiro LP, com o título de sua bem sucedida canção. O disco não foi um estrondo mas, teve êxito mais entre a classe média (universitários e que tais) do que entre o povão. “Estácio Holy Estácio”, “Estácio, Eu e Você” e “Vale Quanto Pesa” são outros belos momentos.

Adiante, a poderosa gravadora SOM LIVRE o contratou. Não deu outra, o disco Maravilhas Contemporâneas teve enorme sucesso comercial, sendo ainda hoje um trabalho de qualidade superior. Do dia prá noite, as rádios executavam à exaustão o samba-delícia CONGÊNITO que se revezava com o samba-canção JUVENTUDE TRANSVIADA, que entrou na trilha da novela PECADO CAPITAL de 1976. MELODIA virou astro do primeiro time. Quem ousaria contestar, naquela época, os elogios de Caetano, Chico Buarque, Bethânia, Gal e cia bela ?
LUIZ MELODIA soava moderno, antenado. Sua música evocava todas as suas influências (samba,rock,MPB,jazz…). Cortejado como compositor e intérprete preciso mas, mesmo citando suas origens nas letras, recebeu críticas afiadas por ser do morro e fazer uma música sofisticada. O besteirol de sempre. Melodia na verdade, e provavelmente sem esta pretensão, era o mais bem acabado herdeiro do Movimento Tropicalista. Mas as críticas o afetaram de tal modo,que ele resolveu se esconder na Bahia, por um tempo. Só em 1979, voltou pro Rio e lançou outro discaço, MICO DE CIRCO. A mídia então subserviente ao Regime Militar, já o tinha carimbado como “maldito” ( tal Gonzaguinha,Mautner,Walter Franco…) e lhe fecharam portas, o que o levou aos shows, sempre com lotações esgotadas. Acho que o episódio na Globo se deu neste período.

Creio que ao final, MELODIA terminou aprovando e adotando essa sistemática. Lança discos com parcimônia, com intervalos na faixa de 3 anos (sua discografia é bem modesta em relação aos demais colegas) mas está sempre se apresentando pelo Brasil, França, Suiça, Japão, quase anualmente. Justamente por seu ecletismo como compositor, artistas como Gal, Bethânia, Cidade Negra, Skank, Dora Vergueiro, Barão Vermelho e… Ângela Maria gravaram (e gravam) suas criações, enquanto ele próprio permanece registrando clássicos como A VOZ DO MORRO, QUASE FUI LHE PROCURAR (imperdível) e TEREZA DA PRAIA (num dueto definitivo com EMÍLIO SANTIAGO) e outros mais.

Atualmente, LUIZ MELODIA continua sua bem sucedida carreira no mesmo ritmo. Devagar e sempre. Ou não foi ele quem nos ensinou: “se a gente falasse menos/talvez compreendesse mais/ teatro, boate, cinema…”

24FPS

 

“Matando suavemente

No Recife, segue em cartaz a ação “O Homem da Máfia” (Killing them softly). Produzido e estrelado por Brad Pitt, o filme traz um assalto a uma casa de jogos clandestina, praticado por uma dupla inexperiente. Jackie Cogan (Pitt) é contratado para eliminar as pessoas responsáveis pelo roubo. Para isso, convoca um velho conhecido, Mickey (James Gandolfini, da série “A Família Soprano”), temperamental criminoso em condicional. O longa competiu no Festival de Cannes 2012. Brad convidou o neozelandês Andrew Dominic para dirigir e roteirizar o filme. Isto porque Pitt gostou do resultado obtido em “O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford” (no qual trabalharam juntos, em 2007). O cineasta preza por algumas cenas em slow motion e não pondera na violência gráfica. A história tem como pano de fundo o discurso do, até então, presidenciável Barack Obama, no ano de 2008, e a grave crise econômica em que os Estados Unidos mergulharam.

O Som ao Redor entre os melhores do ano

O primeiro longa-metragem de ficção do crítico e cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho continua fazendo sucesso. Em lista recente, o jornal The New York Times colocou “O Som ao Redor” entre os 10 melhores filmes do ano. A trama se passa numa rua de classe média na zona sul recifense. Há a chegada de um grupo de seguranças para, supostamente, “garantir a paz” na região. Paralelamente, uma moradora se vê em um dilema por conta do barulho provocado pelo cachorro de seu vizinho. A obra é descrita oficialmente como “uma crônica brasileira, uma reflexão sobre história, violência e barulho”. A produção ocupa o nono lugar da lista. No Top 10 também estão trabalhos de diretores prestigiados, casos de Lincoln (2º), de Steven Spielberg; Django Livre (7º), de Quentin Tarantino; O Mestre (5º), de Paul Thomas Anderson; além do vencedor do Festival de Cannes deste ano, Amor (1º), que é dirigido por Michael Haneke. “O Som ao Redor” pode ser visto no Cinema da Fundação, neste domingo (16), às 19h30, em sessão que ainda contará com debate.

Estreias

Hermila Guedes protagoniza o novo trabalho de Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”), que chegou aos cinemas na última sexta (14). A sinopse explica que Era uma vez eu, Verônica traz uma jovem de 24 anos formada há pouco em medicina. Orfã de mãe, ela mora com o pai, José Maria. A casa é cheia de discos de vinil antigos. No momento, Verônica não tem mais tempo para discos, para cantar músicas ou mesmo para noitadas com as amigas, pois trabalha em um ambulatório de Psiquiatria de um hospital público. Em uma dessas noites de volta para casa, Verônica, já cansada de tanto ouvir problemas alheios, decide usar o gravador, fiel companheiro das provas da faculdade, para narrar, em forma conto de fadas, os próprios problemas.

Também foi lançado nessa semana um dos filmes mais aguardados de 2012. O Hobbit: Uma jornada inesperada (The Hobbit: Un Unexpected Journey) é um prólogo da trilogia “O Senhor dos Anéis”. O enredo aborda a aventura de Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), tio de Frodo. Junto com o mago Gandalf, o anão Thorin e seus 13 companheiros, ele tentará reaver um tesouro da família de Thorin, que foi roubado pelo temido dragão Smaug. O filme conta com a direção do mesmo cineasta da trilogia, Peter Jackson.”

H A R R R Y     N I L S S O N

NILSSON (1)

No apogeu da chamada “Invasão Britânica”, numa mesma entrevista Lennon respondeu que o melhor cantor americano era Nilsson. E o melhor grupo ? Paul não vacilou: Nilsson! Este americano novaiorquino, era mesmo um “mago” dos estúdios. Apesar de ser mais conhecido como cantor/compositor, atuava também no cinema, produzindo,atuando e dirigindo roteiros por ele mesmo elaborados.

Ganhou enorme credibilidade no meio artístico por produzir seus discos, onde além de cantar,fazia vocais, coros de fundo e tocava alguns instrumentos e, pasmem, não fazia shows nem excursões. Suas aparições resumiam-se a TVs e não raro,mesmo nessas, aparecia em vídeos (ou clips). Um tanto afeito ao super-estrelato, a credibilidade da crítica e a fidelidade de seu público cativo o satisfaziam. E isso lhe rendeu além da amizade sincera, o respeito e a admiração de expoentes como os Beatles, The Who, Beach Boys, Led Zeppelin e outros, que sempre recorriam ao seu talento quando necessitavam de “um algo mais” em seus trabalhos. Nilsson alcançava 3 oitavas, afinal.

Ainda adolescente migrou para a Califórnia e por lá, escreveu para THE MONKEES o sucesso Cuddly Toys , mas foi com uma música escrita por FRED NEIL para o filme PERDIDOS NA NOITE, que sua voz ganhou o mundo, e lhe rendeu o Grammy de melhor interpretação. A canção era “Everybody’s Talking”, um clássico sempre atual. No ano seguinte, seu álbum NILSSON SCHMILSSON traria outro sucesso arrebatador (e mais um Grammy). Sua perfeita versão para “Without You” de PETE HAM e TOM EVANS da banda Badfinger. Como se vê, de seus 3 grandes sucessões, apenas Coconut foi escrita por ele.

Quando Lennon,solteiro novamente, foi morar em L.A., teve em Nilsson o ombro amigo, parceiro de casa, farras e canções. Depois vieram o Ringo e Keith Moon. Foi dessa turma que ganhou o apelido de MILKMAN (leiteiro). Participou do disco WALLS AND BRIDGES de John, com quem compôs a bela “Old Dirty Road”. Lennon produziu seu LP Pussycat, cheio de covers e bastante capenga. Até ousaram deixar de fora outra parceria da dupla (recentemente lançada), a bela Mucho Mungo. Escreveu, produziu e atuou com Ringo no filme Son Of Dracula (O Filho de Drácula), na verdade, uma comédia. E naturalmente, gravou a trilha sonora.

Ao mesmo tempo que Lennon voltava para Yoko, Nilsson voltou para a família, dedicando-se à criar os filhos, mas sempre envolvido em projetos musicais ou cinematográficos. Recolheu-se mais ainda quando soube da morte do baterista do The Who, KEITH MOON. O músico foi encontrado no apartamento onde vivia , que pertencia à Nilsson. Mais adiante, o assassinato de Lennon o derrubou. Liderou um movimento contra a venda de armas à civis nos EUA, que de fato não mudou nada.Em 1993 sofreu um infarto mas recuperou-se. Voltou com tudo, compondo, gravando e lançando seu último disco, pois no dia 15 de janeiro de 1995, HARRY EDWARD NILSSON III, o velho Milkman, se foi definitivamente.

Houve honras e homenagens mas, certamente, a maior de todas o coloca entre os grandes da música pop e no coração dos que amavam (e amam) aqueles tempos. Valeu NILSSON !

 

laranja

“Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)
Inglaterra, 1971. Drama, 138 min. Direção: Stanley Kubrick. Elenco: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Adrienne Corri.

Clássico absoluto do cinema, é incrível o poder profético que Laranja Mecânica teve ao mostrar nos anos 70 que gangues atacariam pessoas sem algum motivo aparente, além dos processos de ressocialização pouco efetivos, por vezes grotescos, e a manipulação do povo pelas diversas correntes políticas.

Inspirado no livro homônimo do escritor britânico Anthony Burgess (1917-93), o filme dirigido por Stanley Kubrick conta a trajetória de Alexander DeLarge (o genial Malcolm McDowell), um jovem que vive em uma Inglaterra do futuro, fazia uso da chamada “ultraviolência”, praticava roubos, estupros e nutria grande apreço pela música de Beethoven, especialmente pela 9ª Sinfonia.

Alex é líder de uma gangue, cujos membros são chamados “drugues” (“amigos”, em russo), que cometiam diversos tipos de crime. Juntos, agridem um idoso morador de rua, invadem a casa de um escritor, onde a destroem, batem nos que lá estão e chegam ao extremo de cometer um estupro. Em outra invasão, Alex comete um assassinato e, após este fato, é capturado pela polícia e condenado a vários anos de prisão.

Ele enxerga em uma técnica experimental de recuperação criada recentemente por um cientista, a “técnica Ludovico”, uma chance de escapar dali. Só que esse agressivo método patrocinado pelo governo, ao invés de recuperá-lo, o torna vulnerável, uma vez que ele não tem mais poder de reação a qualquer ato de violência, tampouco tocar uma mulher nua.

É abandonado pelos pais, agredido por idosos e por uma dupla de policiais que eram ex-companheiros de gangue. Depois de diversas agressões sofridas, Alex ironicamente retorna à casa do escritor, militante de oposição, onde é, de início, acolhido, mas depois sofre um tipo de tortura ao ser trancado em um quarto e obrigado a escutar a Nona Sinfonia de Beethoven (pela qual havia criado aversão na técnica experimental), com objetivos políticos de conduzi-lo à morte e culpar o governo.

DeLarge, ao se ver oprimido por todos que cruzam o seu caminho e, ao mesmo tempo, por sua impotência, tenta de forma desesperada o suicídio, uma maneira de se libertar de todo aquele sofrimento. Não consegue.

De tantas, a cena mais memorável, indiscutivelmente, é a da invasão à casa do escritor, feita de improviso, na qual canta “Singin’ in the rain”. A ideia de utilizar a canção naquela passagem partiu de Malcolm.

O filme pode ser visto como uma alegoria que tem o intuito de criticar a submissão do homem ao Estado. Conforme constatado em pesquisas, o aumento do crime e da delinquência em governos posteriores à época do filme estava ligado ao declínio da família, à degeneração moral e ao desgaste dos valores tradicionais.

O título do livro advém de uma expressão inglesa: “As queer as a clockwork Orange” (“tão bizarro quanto uma laranja mecânica”). Burgess fez uma tremenda sátira à sociedade de seu país. Muito bem adaptado por Kubrick, “Laranja…” é considerado um dos grandes trabalhos do cineasta.”

CELLY

C E L L Y     C A M P E L L O

Quando se fala do rock brasileiro, em geral se comete uma injustiça . Não chega a omissão mas, há um pequeno grupo de cantores que formaram um movimento sem nome, por pura afinidade musical e adesão espontânea, que quase sempre é citado ligeiramente e… passa batido. O rock brasileiro não começou com Roberto Carlos e a Jovem Guarda.

Na verdade, na época em que aquela garotada tentava fazer rock, Roberto tentava ser João Gilberto. Sérgio Murilo, Carlos Gonzaga, Ronnie Cord, Tony Campello e sua irmã, CELLY, foram os nomes que se destacaram da 1ª turma. De fato, foi uma cantora de samba-canção, NORA NEY quem primeiro registrou um rock, e na versão original, Rock Around The Clock de Bill Haley. Lembram de um tal MIGUEL GUSTAVO ,autor da marchinha “Prá Frente Brasil”, hino da seleção de 70 ? (essa até o MR-8 cantava, e de fato mereceu e merece o nosso carinho porque é uma delícia. Das canções associadas à Ditadura Militar, essa ficou fora de nossa rejeição óbvia, desde o gol do Carlos Alberto) pois bem, ele foi o autor do primeiro rock gravado no Brasil, “ROCK AND ROLL EM COPACABANA”. Logo depois,em 1957, foi lançada por BETINHO & SEU CONJUNTO, “ENROLANDO O ROCK”. De fato nada dessas tentativas vingou até CELLY CAMPELLO estourar com a versão de ESTÚPIDO CUPIDO. Ai a coisa pegou. Pelas vendas de discos, execuções em rádio e aparições na TV, temos que admitir que bem antes de Wanderléa, Rosemary, Rita Lee, Gal… durante um curto mas muito intenso período, a garota CELLY reinou absoluta e arrastou sua turma: RONNIE CORD (Biquine de Bolinha Amarelinho…), CARLOS GONZAGA (Diana) e o irmão TONY. Todavia, era CELLY CAMPELO quem ocupava as paradas com sucessivas canções.

Embora tenha nascido na capital, CÉLIA BENELLI CAMPELLO foi criada em Taubaté e aos 6 anos de idade já estava participando do “cast” do programa CLUBE DO GURI naquela cidade, onde também estudou piano, violão e balé. Já tinha seu programa exclusivo na Rádio Cacique com apenas 12 anos. Orientada pelo irmão, gravou seu primeiro disco em São Paulo aos 15 anos (78 RPM) e estreou na TV em 1958 para, no ano seguinte dividir com TONY , seu próprio programa de televisão, CELLY & TONY EM HIFI na TV RECORD. Contudo, seu sucesso era apenas regional, até que lançou ESTÚPIDO CUPIDO. Celly começou nesse ponto, à tornar-se uma estrela nacional. Chegou à aparecer até no cinema com Mazzaropi em JECA TATU. Cada vez mais requisitada, a cantora acumulava hits (Lacinhos Cor-de-Rosa; Banho de Lua;Billy, Trem do Amor; Broto Legal…) e o título de RAINHA DO ROCK BR. Cely estampava capas de revistas diversas, monopolizando a turma jovem e ,segundo consta, era de longe a favorita para dividir com o iniciante discreto,Roberto Carlos, a liderança do programa Jovem Guarda, quando o “amor” falou mais alto e a garota aos 20 anos de idade, largou literalmente a carreira em seu momento mais significativo para casar-se com o namorado desde a adolescência, José Eduardo Gomes Chacon. E foi uma ruptura sem volta com a carreira.

Assumiu com todas as letras o papel de dona-de-casa, cuidando do marido e dos filhos que chegaram (Cristiane e Eduardo que lhe dariam dois netos). Sumiu então da mídia e com o passar dos tempos jamais demonstrou um mínimo arrependimento. E seu lugar foi sendo ocupado primeiro pela bela ROSEMARY com suas versões de Rita Pavone, e em seguida pelo estrondoso sucesso do Roberto e sua turma. Que não faziam nada muito diferente do que Celly vinha fazendo. Versões de músicas estrangeiras, com letras ingênuas, bobas até, sobre melodias simples porém cativantes. Afinal, nosso rock estava engatinhando.

Por volta de 1976, a Globo lançou uma novela, cujo enredo se passava “naqueles tempos inocentes”, que se chamava ESTÚPIDO CUPIDO. A trilha sonora, naturalmente só podia contemplar toda aquela turma de pioneiros, notadamente Celly Campello. De repente, todas aquelas canções, quase 15 anos após a precoce aposentadoria daquela jovem, estavam de volta às paradas. Surpreendente. Com os filhos criados e o incentivo do marido, Celly Campello ensaiou um retorno. Primeiro com uma participação na novela como a própria, e logo em seguida,lançando um novo disco. Uma produção equivocada que, preferiu voltar ao estilo (com todos os clichês) de sua carreira em 1960, quando deveriam atualizar seu repertório. Como a coisa não pegou, Celly, resolveu se recolher novamente, sem volta. E mais uma vez sumiu da mídia, que só voltou à falar dela quando de seu precoce falecimento, vitimada por um câncer em 3 de março de 2003 em Campinas.

Olhando para trás, não ouviremos nada demais. Sua música era singela e desprentenciosa. Era o comecinho do começo. Mas mesmo em seu berço, o rock and roll pegou as pessoas (especialmente a juventude) por seu ritmo e sua “guitarrada”. As letras ainda não eram grandes coisas. Mas não é preciso nenhum eruditismo musical, nenhuma pose de especialista para reconhecer que o 1º nome do rock brasileiro chama-se CELLY CAMPELLO. A Rainha do ROCK… e sem rei!

 

PSI LOVE YOU: Gilberto Gil, em dois brilhantes momentos de sua carreira, evocou CELLY. No rock BACK IN BAHIA (“nervoso, querendo ouvir Celly Campello/prá não cair…) e na belíssima toada, RETIROS ESPIRITUAIS (“é tão bom sonhar contigo/ oh luar tão cândido). Precisa dizer mais ?

 

B  R  E  A D

BREAD (1)

Há um certo equívoco com relação ao som do Bread. Geralmente o grupo é rotulado como “baladeiro”, algo próximo ao BEE GEES, certamente porque de fato, suas canções mais recorrentes são lentas, belas, bem harmonizadas e inconfundíveis, o que encobria sua face “roqueira”. Mas ao ouvirmos seus álbuns completos nos deparamos com uma variedade de ritmos e levadas deliciosas. Não raro ouvimos contratempos e balanços sincopados de extremo bom gosto, execuções certeiras que não disfarçam as habilidades dos músicos que, flertavam com o blues,o jazz,o country, o funk e o puro rock, as vezes se misturando numa mesma música. Outra feliz característica da banda era o som limpo, cristalino, com os instrumentos muito bem realçados, cada um a seu tempo.


David Gates
, além de guitarrista e pianista, era um compositor bem acima da média, criador de melodias bem urdidas sobre elegantes harmonias. O mesmo pode-se afirmar da dupla Griffin/Royer que também criou canções memoráveis que costumavam dar o equilíbrio necessário aos discos do conjunto.

Em princípio, o BREAD se exibia em bares e casas noturnas médias em Los Angeles até que foram contratados pela WARNER/ELEKTRA apenas como grupo de estúdio, acompanhando outros cantores. Na mesma época o baterista Mike Botts, completaria o quarteto. Ao tomar conhecimento do trabalho que vinham desenvolvendo como banda, a gravadora não hesitou e lançou o single com Make It With You, que atingiu imediatamente o 1º lugar nos EUA, chegando muito bem à Europa. A canção também garantiu o sucesso do álbum BREAD de 1969 o que permitiu ao grupo realizar as primeiras excursões pelo país natal. O álbum seguinte, ON THE WATERS foi recebido com discrição. Mas a trilogia que viria adiante, levaria a banda a ganhar notoriedade e sucesso mundiais. O primeiro deles, MANNA, teve uma recepção arrebatadora, repleto de clássicos como Take Confort, She Was My Lady e a deliciosa Too Much Love. Mas bem acima destas pérolas, uma balada inebriante, lançada também como single, caiu nas graças e nos corações do planeta; “IF” surpreendeu de fato, com suas lindas letra,melodia e harmonia, pontuada por cordas discretas , bem desenhadas e uma guitarra com “wah-wah” arrepiante. A canção foi imediatamente acrescentada ao repertório de cantores que iam de Johnny Mathis à Elvis, embora nenhuma delas tenha sequer passado perto da versão original do Bread.

Quando as rádios começaram à executar Everything I Own , a sonoridade do BREAD já era inconfundível. Esta música também ganharia posteriormente várias regravações (eu encontrei umas 12 diferentes) e seguiu-se uma fileira de sucessos como Diary, Mother Freedom, Down On My knees e a canção-título do novo disco, Baby I’m-A Want You. Nestas alturas, o grupo já estava devidamente estabelecido mundialmente. Este álbum ainda figura entre os melhores trabalhos produzidos no rock/pop. Eu sou até suspeito porque sou fã desse disco de “cabo à rabo”. E olha que muita gente não atentou para duas canções que esbanjam elegância: Dream Lady e Daughter. Embora um pouco menos completo, o disco GUITAR MAN teve a merecida recepção de público e crítica.

Além da canção-título, trazia preciosidades como Welcome To The Music, mais uma balada clássica, Aubrey, entre boleros,rocks e tantos outros estilos. Mas sem perder a marca do grupo.

Eles se conheceram em 68 e separaram-se em 1973. Neste curto período produziram no mínimo 3 álbuns fundamentais e umas duas dezenas de músicas maravilhosas. Nunca ficou claro o motivo da cizânia, apesar de comentarem sobre uma disputa entre os compositores. Ensaiaram um retorno em 1977 com o disco LOST WITHOUT YOUR LOVE que recebeu elogios da imprensa e até teve um discreto sucesso. Mas ficaram nisso. E eu nem falei na maravilhosa canção, Clouds. Tudo tem seu tempo. Mas o que importa é que o BREAD é hoje, muito mais do que uma banda de pé de página nas publicações sérias sobre música pop.

Quase esqueço. O nome BREAD , literalmente significa “pão”. Mas naquele tempo era também uma gíria para “dinheiro”.