Hoje é o dia dedicado…

Publicado: 14/03/2012 em Poesia

Espaço em branco compartilhado com Drummond, Pessoa, Clarice, Leminski, Quintana, Bandeira, Edgar, Tadeu, Arsênio, Magna, João Carlos, André, Oswaldo, Vinicius, Cora, Alice, João Cabral, Erickson Luna,Fátima Viganó e todos os que estão aqui e no Hubble, porque:

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

É preciso ler Baudelaire, é preciso estar sempre bêbado, é preciso ter mãos pálidas para anunciar o fim do mundo…

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comentários
  1. Magna disse:

    Quando se chega em casa uma hora dessas, graças a Deus…pensamos: tarefa cumprida por hoje, dando também graças por não considerar nossa tarefa cOmprida, embora seja mesmo, pois só Deus sabe mesmo onde vai parar ou onde não vai parar.
    Então, levamos na “testa” um Drummond assim: puro, límpido…meu Deus! Nem vi Jobim, Domingos, depois vejo, agora quero só Drummond, só dele preciso, só dos ombros dele necessito.
    Quem sabe um dia eu alcance essa depuração, esse querer…quando não precisarei mais dizer de coisas que já existirão por completo em mim.
    Esse poema é pleno demais e eu não sei mais o que dizer. Tudo o que poderia ainda dizer, é desnecessário, assim como o que disse até aqui. Mas, perdoe, Drummond, eu ainda não tenho esses ombros nem esses sentimentos…nem tuas mãos, muito menos teus olhos.
    Abraços!
    Magna
    Obs.:abaixo coloco outro poema tão pleno quanto este, enviado, dia desses, por um querido amigo que aqui agradeço.

    MUNDO GRANDE

    Não, meu coração não é maior que o mundo.
    É muito menor.
    Nele não cabem nem as minhas dores.
    Por isso gosto tanto de me contar.
    Por isso me dispo,
    por isso me grito,
    por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
    preciso de todos.
    Sim, meu coração é muito pequeno.
    Só agora vejo que nele não cabem os homens.
    Os homens estão cá fora, estão na rua.
    A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
    Mas também a rua não cabe todos os homens.
    A rua é menor que o mundo.
    O mundo é grande.
    Tu sabes como é grande o mundo.
    Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
    Viste as diferentes cores dos homens,
    as diferentes dores dos homens,
    sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
    num só peito de homem… sem que ele estale.
    Fecha os olhos e esquece.
    Escuta a água nos vidros,
    tão calma, não anuncia nada.
    Entretanto escorre nas mãos,
    tão calma! Vai inundando tudo…
    Renascerão as cidades submersas?
    Os homens submersos – voltarão?
    Meu coração não sabe.
    Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
    Só agora descubro
    como é triste ignorar certas coisas.
    (Na solidão de indivíduo
    desaprendi a linguagem
    com que homens se comunicam.)
    Outrora escutei os anjos,
    as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
    Nunca escutei voz de gente.
    Em verdade sou muito pobre.

    Outrora viajei
    países imaginários, fáceis de habitar,
    ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
    Meus amigos foram às ilhas.
    Ilhas perdem o homem.
    Entretanto alguns se salvaram e
    trouxeram a notícia
    de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
    entre o fogo e o amor.
    Então, meu coração também pode crescer.
    Entre o amor e o fogo,
    entre a vida e o fogo,
    meu coração cresce dez metros e explode.
    – Ó vida futura! Nós te criaremos.

    Carlos Drummond de Andrade

  2. E mais não digo Magna. Big abraço Poeta Magna no dia da Poesia. Amém. Teus ombros, tua poesia, tuas sementes também nos ajudam a suportar o mundo.

  3. Arsenio Meira Junior disse:

    Dom Mingão Broda. Post no toitiço.
    Magna falou e disse.
    Drummond, o meu poeta adorado (mas seria necessário que outros tivessem a mesma divulgação).
    Aqui é o arvoredo.
    Poesia, musica e fraternidade.

    Então, vai esse poemaço de Cassiano Ricardo pro blog e para os confrades:

    “O acusado

    Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia
    De chorar, me vinham de outros olhos.

    Já o sangue que caminha em minhas veias pro futuro
    Era um rio.

    Quando eu nasci já as estrelas estavam em seus lugares
    Definitivamente
    Sem que eu lhes pudesse, ao menos, pedir que influíssem
    Desta ou daquela forma, em meu destino.

    Eu era o irmão de tudo: ainda agora sinto a nostalgia
    Do azul severo, dramático e unânime.
    Sal — parentesco da água do oceano com a dos meus olhos,
    Na explicação da minha origem.

    Quando eu nasci, já havia o signo do zodíaco.

    Só, o meu rosto, este meu frágil rosto é que não
    Quando eu nasci.

    Este rosto que é meti, mas não por causa dos retratos
    Ou dos espelhos.
    Este rosto que é meu, porque é nele
    Que o destino me dói como uma bofetada.
    Porque nele estou nu, originalmente.
    Porque tudo o que faço se parece comigo.
    Porque é com ele que entro no espetáculo.
    Porque os pássaros fogem de mim, se o descubro
    Ou vêm pousar em mim quando eu o escondo.

  4. Irmão, “… o destino me dói como uma bofetada… Cassiano Ricardo . Não comento. Admiro a tua sensibilidade e este POEMAÇO disse tudo. E mais não digo, só AMÉM. No dia da Poesia, madrugo no outro dia lendo Cassiano graças a você.

  5. João Carlos disse:

    Eitcha! Só mestres pelos mestres! E eu drumo ?

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