A ARITMÉTICA DO CASAMENTO.

Publicado: 30/12/2012 em Domingos - Crônicas

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Um grande colega de trabalho, hoje aposentado, me liga em meio a litros de cerveja, para me desejar Feliz Ano Novo, etc pei bufe e coisa e tal.

A cevada já lhe invadindo o cérebro, os neurônios boiando no álcool, e ele relembrando momentos que confesso já havia esquecido.

As biritas tem dessas coisas. Transbordam memórias extintas e as repaginam de acordo com a nossa vontade. Uma matrix que só o álcool pode servir nas taças da vida.

E como não poderia deixar de ser, o amigo dana-se a falar mal do próprio casamento, mais longo do que o meu.

O casamento do amigo passou dos 30 anos e ele não perdeu a mania de ralhar com o cônjuge e maldizer sua condição de casado.

Sempre que alcoolizado, vale frisar.

Porque em verdade, essa parece ser a aritmética do casamento da maioria das pessoas que conheço um pouco melhor.

As pessoas se suportam, se toleram e extravasam na base da adrenalina, do álcool, do trânsito, das crises familiares, na educação dos filhos.

E vão tocando.

Prá mim casamento sempre foi soma. A subtração quem faz é o tempo. Na sua contagem louca e regressiva para a morte, ele vai nos tirando tudo, à medida que vai nos dando.

É um toma lá dá cá quase que atômico.

Segundos que chegam e se esvaem. Uma alucinante fita diante dos olhos.

Pois é, mas e a aritmética do casamento? Qual será?

Tem gente que divide tarefas, divide espaços, divide contas. Divide tanto que terminam definitivamente divorciados.

Tem gente que multiplica, patrimônios, dólares, cuecas, sutians, imóveis e se arrombam na divisão quando o divórcio chega.

Tem gente que subtrai. Esses são de fuderetê a chaminé do sétimo chacra.

Diminuem a energia do outro, sugam o outro. Diminuem a energia dos filhos, dos amigos.

Diminuem o espaço do outro, para chegar o espaço que lhes achar melhor, sogra, sogro, cunhados e aderentes.

Diminuem a capacidade de amar e de sonhar.

Diminuem tanto que desaparecem antes do divórcio. Mesmo que continuem casados, já sumiram na névoa da mais reles mediocridade.

Há os que somam.

No que a soma tem de mais poético, ao contrário de Vinicius que pedia a divisão.

Contrario o genial poetinha que somou tantos casamentos para dizer que a SOMA, a SOMA é a SALVAÇÃO.

Não a SOMA do terapeuta a SOMATERAPIA.

Não a SOMA infantilóide que se confunde com a multiplicação.

Falo da SOMA das dores.

Das aflições.

Dos terrores.

Dos gozos.

Das alegrias.

Das bençãos.

Falo da SOMA geral gratuita e bela que é a própria VIDA, na qual o CASAMENTO VERDADEIRO se insere.

Quem de fato vive bem consigo mesmo consegue se casar e ser feliz.

Mesmo que não seja prá sempre.

Mesmo assim terá valido a pena.

A SOMA deixa um saldo sempre positivo, prá mim essa é a única das operações que vale a pena no casamento.

As outras, as calculadoras, os abutres advogados e os parentes e aderentes se encarregam de torpedear.

E, de fato, Antonio Vieira, o padre jesuíta nos seus SERMÕES vaticinou:

” O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito de amar a menos. O tempo atreve-se a colunas de mármore quanto mais a corações de cera”.

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