Publicado: 24/11/2012 em Poesia

T U C A

Lembro com carinho daquela moça gordinha, rostinho arredondado, que cantava tão bem e, principalmente dedilhava seu violão com ricas harmonizações e melodias sofisticadas. Estava sempre presente em festivais, shows e programas de TV quase sempre ladeada por aquela molecada que já se firmara como a nata da MPB. Estou falando de Chico Buarque, Edu Lobo, Nara Leão, Elis Regina e principalmente Geraldo Vandré, com quem escreveu em parceria ocasionalmente. Se muita gente não lembra dela pelo seu apelido, que virou “nome artístico”, TUCA, que dirá de seu verdadeiro nome, VALENZA ZAGNI DA SILVA ?

Nascida em São Paulo em 1944, aos 13 anos já havia concluído o curso de Música Erudita pelo Conservatório Paulista. À partir de então começou à compor embora também tenha sido chamada à interpretar canções de outros colegas em festivais, como foi o caso de PORTA ESTANDARTE de Geraldo Vandré e Fernando Lona, vencendo o 1º Festival de MPB da TV Excelsior. Antes, conhecera essa turma, ao participar de circuitos universitários em Sampa. Com a música CAVALEIRO, que compôs com Vandré, ficou com o 2º lugar no Festival Internacional da Canção realizado no Rio de Janeiro.

Seu primeiro LP, chamado “MEU EU, TUCA!” revelava uma artista inquieta,pouco convencional que, embora inspirada pela Bossa Nova, introduziu elementos da música “caipira” nas suas criações, como a “viola”. Uma ousadia que chamou a atenção da crítica e dos colegas mas teve discreta vendagem. No disco seguinte, flertando com o Tropicalismo, misturou elementos da música medieval à letras de “protesto”. Afinal, estávamos em 1968.
Nessa época, resolveu fixar residência em Paris, onde de início, lançou um “compacto” com Negro Negrito/Que C’est Bom L’amour. Registrado em italiano e francês, o “single” foi bem sucedido e a levou à excursões pela Europa, ganhando uma grande admiradora e amiga, a cantora FRANÇOISE HARDY. A bela francesa terminou por gravar um disco tendo Tuca como arranjadora e violonista, chamado LA QUESTION. A curiosidade ? todas as músicas eram (são) de autoria de TUCA, exceto a última faixa que foi escrita por… TAIGUARA. A batida bossanovística, as harmonias incomuns, belas letras e melodias tornaram o álbum, até os dias atuais, o melhor trabalho da carreira de Françoise, segundo a crítica da Europa. Cá prá nós, um disco de MPB cantado em francês. Sublime. Outra curiosidade é que a canção-título, “La Question”, estourou até no Japão, e no Brasil fez sucesso ao ser incluída na trilha sonora “internacional” da novela arrasa quarteirão, SELVA DE PEDRA. Nesse mesmo período, NARA LEÃO foi à França gravar seu disco “DEZ ANOS DEPOIS”, no qual TUCA participou efetivamente como compositora e violonista. Contudo, apesar de ter suas criações gravadas por vários artistas brasileiros, nada pode se comparar ao sucesso de La Question.

Em 1975, muito bem sucedida na Europa, TUCA resolveu voltar ao Brasil. Lançou um disco vanguardista, belo mas melancólico chamado “DRÁCULA, I LOVE YOU!” totalmente fora dos padrões da MPB de então. Misturava rock, samba e muito experimentalismo. Muito comentado mas esnobado pelas rádios e TVs apesar de sair pela SOM LIVRE da Globo.

Uma parada cardíaca, em 1978, decorrente do excesso de remédios para emagrecer, levou TUCA para o andar de cima. E ela tinha apenas 34 anos. E enfim, fim !

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comentários
  1. Edu disse:

    Muito bacana, João Carlos. Nunca tinha sequer ouvido falar. Como disse em algumas outras postagens, MPB está longe demais da minha praia, mas sempre gostei da canção “La Question” sem nunca imaginar que fora escrita por uma brasileira. Gostei mesmo! Parabéns pelo belo texto e mais ainda, por desencavar uma pérola como essa. Valeu, abração!

  2. JC, vc é extraordinário, está a anos LUZ, deste ser aqui. todos sábados leios as crõnicas, mais em 99% não comento, simples, não conheço, afinal sou um simples pedrense que foi criado ouvindo os bregas, os mais legitimos forrós, mais com o tempo começei a apreciar o bom da MPB e outras, mais confesso, vc está acima de tudo que penso, por isso e por outras admiro. Mesmo com mais de 50, continuo ainda admirando os meus velhos FERNANDO MENDES, JOSE AUGUSTO, ODAIR, ai misturo com outros LUIZ GONZAGA, QUINTETO, CAETANO VELOSO, GERALDO AZEVEDO, RAUL e por ai afora.
    Um abração do tamanho de Pernambuco, ou melhor do nosso timba, que estende-se ao Domingos,Roberto, e tantos outros que conhecemos virtualmente. Posso te falar, aqui e no blog faz falta, muita falta o grande rubro negro ARSENIO e o um grande EDUCADORES DE PE, EDGAR MATOS, saudades deles

  3. João Carlos disse:

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