A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

Publicado: 01/07/2012 em Poesia

Luz nas Trevas – a volta do Bandido da Luz Vermelha
(Brasil, 2010). Policial, 83 min.

 

Principal representante do “Cinema Marginal”, Rogério Sganzerla desejava realizar uma continuação de “O Bandido da Luz Vermelha”. Lançado em 1968, a obra maior do diretor catarinense trouxe uma linguagem bastante inovadora para o cinema nacional, desconstruindo tudo aquilo já visto por aqui. No entanto, Sganzerla não pôde colocar em prática o seu sonho já que faleceu em 2004, em decorrência de um tumor no cérebro.
Sendo assim, a viúva do cineasta e estrela de muitos de seus filmes, Helena Ignez, prosseguiu com o projeto. Em Luz nas Trevas – a Volta do Bandido da Luz Vermelha, ela dividiu a direção com Ícaro Martins. Na história, Jorge Prado (Ney Matogrosso) é condenado por todos os seus crimes e tantos outros que não cometeu. Personagem central de outrora, ele deixa de ser o principal foco e passa-se a acompanhar a trajetória de seu filho, Tudo ou Nada, em duas fases: na infância e adolescência, quando questiona à mãe (Sandra Corveloni) quem é o pai; e enquanto adulto (quando é interpretado por André Guerreiro Lopes).
Tudo ou Nada segue os passos do pai, se tornando um criminoso nos moldes do progenitor, invadindo casas para assaltar e ter relações com as mulheres presentes. No vagar, conhece Jane (a bela Djin Sganzerla, casada com Lopes e filha de Helena e Rogério) e desenvolve uma relação com ela. Não por acaso, o papel de Djin é bastante parecido com o da mãe no clássico de 68. O bandido é igualmente perseguido por uma polícia corrupta, ávida por colocar as mãos nessa figura que causa o terror na cidade de São Paulo.
Rico em referências, que vão desde “Acossado” a Jimi Hendrix, o filme é bastante feliz e honra tanto a memória de Sganzerla quanto a de seu longa-metragem. É extremamente bem executado sob o ponto de vista técnico com a câmera por vezes inclinada e montagem acelerada, coincidindo com o ritmo frenético do anti-herói. É prazeroso ver Sergio Mamberti (que havia feito uma ponta muito divertida em “Bandido…”) retornar na figura de um político em época de candidatura e a presença iluminada de atrizes como Simone Spoladore, Bruna Lombardi e Sandra Corveloni, além da figura emblemática de José Mojica.
Os diretores também recorrem à utilização de filtros de cor, e o mais utilizado naturalmente é o vermelho. E à presença de imagens de arquivo de “O Bandido da Luz Vermelha”, com citações marcantes. “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”, o que deixa claro o tom anarquista da fita.
Outra situação nítida é a apreciação de Sganzerla pelas histórias em quadrinho. A linguagem dos dois filmes remete à caricatura presente no estilo das HQs. Os créditos iniciais são apresentados da mesma forma que no filme de Sganzerla, quando apareciam em um letreiro eletrônico na rua. As ações também são narradas no estilo de um noticiário policial radiofônico.
Neste momento, “Luz nas Trevas…” se encontra em cartaz na sessão de arte do UCI Recife. Nos finais de semana, é exibido às 12h10 e de segunda a quinta às 19h20. O resultado é intenso, provocativo, contudo, mais acessível que a obra de Rogério Sganzerla. Fica o registro desta que é uma importante continuação de um grande longa-metragem.
Relembrando O Bandido da Luz Vermelha ****
Brasil, 1968. P&B. Ação, 92 min. Idioma: Português. Direção e roteiro: Rogério Sganzerla. Fotografia: Peter Overbeck. Música: Sganzerla. Com: Paulo Villaça, Helena Ignez, Luiz Linhares, Pagano Sobrinho.

O filme é livremente inspirado na vida de João Acácio Pereira da Costa, meliante conhecido como “Bandido da Luz Vermelha” por usar uma lanterna dessa cor nas ações. Aqui, Jorge (Paulo Villaça) é um criminoso que costuma estuprar, assaltar e matar suas vítimas de classe média alta ao invadir suas residências. Por sua maneira peculiar de agir, usando vários disfarces, a captura é bastante difícil e a polícia leva muito tempo para saber de quem se trata.
Ele se envolve com Janete Jane (Helena Ignez, mulher do diretor e ex de Glauber Rocha), ligada à organização “Mão Negra”, de que faz parte o político popular e corrupto das classes baixas J.B. (Pagano Sobrinho). É denunciado por ela e, como vingança acaba matando-a para pouco tempo depois se matar (essa morte é parecida com a que acontece em “Pierrot Le Fou”, de Godard, embora Jorginho morra eletrocutado, junto com o policial Cabeção – Luiz Linhares, uma morte um tanto trash).
O filme já inicia de uma forma não convencional quando os créditos aparecem em um letreiro eletrônico na rua. Sempre mencionando a região da Boca do Lixo, periferia paulistana. É descrito como “um faroeste sobre o terceiro mundo”. As ações são narradas por duas pessoas no estilo de um programa policial de rádio, a exemplo de um “Bandeira 2” da vida, de uma forma bem irônica.
A trilha é bem bacana, fazendo uso de música clássica, rock americano, folk e música latina, entre outros gêneros. Há ainda uma referência ao filme “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias, ao aparecer um cartaz. Procurando sempre ressaltar a condição de terceiro mundo e possui frases que coincidem com isso como “o terceiro mundo vai explodir”. É o longa-metragem de estreia do diretor catarinense e tido como sua obra-prima.
Sônia Braga chega a fazer uma pequena participação como uma das vítimas, fazendo sua estreia no cinema. Sérgio Mamberti faz uma notável e divertida ponta como um gay passageiro do táxi dirigido pelo bandido. Sem dúvida, é uma das obras fundamentais de nosso cinema.

 

 

 

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Eitcha! Se animei-me! Barra pesada perde!

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