SÁBADO SOM. POR JOÃO CARLOS DE MENDONÇA. PARTE II

Publicado: 23/06/2012 em Poesia

                                     W   A   N   D   O

 

Logo que fiquei sabendo do falecimento do WANDO, pensei em escrever algo sobre ele, mas enquanto matutava, sua biografia era exibida à exaustão  por todo tipo de mídia existente. Assim, deixei a poeira baixar para acrescentar umas verdades que muita gente das gerações mais recentes desconhece. Bom, Wando nasceu numa cidadezinha de Minas praticamente fundada por um ascendente seu, que ali tinha uma propriedade (sítio, fazenda…). Migrou para Juiz de Fora onde, garoto, foi engraxate, camelô e feirante mas, no meio disso tudo, estudou violão clássico. Isso mesmo!  Portanto, certamente conhecia bem harmonias e melodias refinadas e, acreditem, exibia-se ao instrumento executando música erudita para sua turma, especialmente os brotos. Apesar dos elogios, percebeu que a mulherada mais apreciava canções populares românticas e resolveu enveredar por  outras praias.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, cantando nas noites enquanto tentava emplacar suas composições, sem sucesso. Resolveu arriscar São Paulo e as oportunidades começaram a aparecer. Primeiro com a gravação por JAIR RODRIGUES de um samba escrito por ele que virou mania e faz parte de qualquer antologia decente do estilo:  O Importante é Ser Fevereiro. Assim chegou ao seu primeiro LP.  GLÓRIA A DEUS E SAMBA NA TERRA, título do disco, que apareceu lá por casa via Rádio Tamandaré (depois de ouvi-lo providenciamos uma cópia para nossa discoteca)  merece umas observações mais acuradas.  Na verdade, o artista era muito influenciado por Chico, Caetano e Gil, tanto e de tal maneira que o conteúdo desse LP  não conseguia disfarçar (o próprio artista reconheceria tempos depois). Estávamos diante de um novo cantor/compositor que prometia.  Boas canções, balanços irresistíveis,letras bem amarradas . Tudo embalado por ricas harmonias. Havia mesmo certa sofisticação, especialmente nas músicas de andamento lento. O disco não vingou. Infelizmente. Não teve a divulgação necessária, nem jabá suficiente para sensibilizar as rádios e TVs e por conseguinte, o público consumidor. Mas acreditem, era um bom disco. Nunca mais o ouvi e admito que hoje em dia tanto poderia soar datado como poderia ser “uma revelação”. Como saber ? Só consigo trazer à memória parte de Benedito Batuqueiro com sua levada samba-rock à La Novos Baianos.

Outro capítulo à parte chama-se, MOÇA. Claro que hoje, esta música chega à ser “brega”, melosa e apelativa,  mas é bom lembrar que em 1975 a conversa era outra. O machismo ainda estava fortemente encruado nas cabeças até do mais vanguardista riponga. Casar-se com uma jovem desvirginada significava admitir-se côrno por antecipação.Mesmo nas classes média e alta, casamentos eram forjados, forçados e até mortes ocorriam caso uma moça aparecesse sem o “selo de garantia”. Pior mesmo era se estivesse grávida. Engraçado que,casar com viúva não era recriminado. Pois bem, dentro deste contexto, aparece uma toada onde um  rapaz declara seu amor , seu tesão e todas as suas melhores intenções para uma senhorita ex-vírgem socialmente “amaldiçoada”. Nem Roberto Carlos nem Chico Buarque tinham ousado tanto, creio. Embora,o segundo tenha cantado uma relação lésbica (com todos os encobrimentos possíveis) em sua peça/disco CALABAR. A música foi um verdadeiro estrondo. Um sucesso que, bem ou mal, permanece até hoje em dia. E faça-se justiça, foi bastante inovador, então.

Desse ponto em diante, Wando desligou-se de quaisquer pretensões artísticas e norteou sua carreira em torno de temas assemelhados à MOÇA. Se até Roberto Carlos gravou sua  A MENINA E O POETA logo em seguida, por que mudar ? O cara entrou de cabeça no popularesco erótico-musical de refinado mau gosto, sempre se saindo bem. Criou um público fiel e não muito diferente dos fãs do Roberto (de 75 prá cá) e soube manipulá-lo com competência, mantendo e apimentando o estilo com a “sacada” comercial e folclórica das  calcinhas e, até falecer, deliciou a patuléia inculta e brega com coisas do tipo Chora Coração, Fogo e Paixão e Tenda dos Prazeres. E por falar em BREGA, seria o Wando  um AUTÊNTICO ou um OPORTUNISTA ?  A resposta meu amigo, agora é luz, é raio, estrela e luar!

 

 

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comentários
  1. dom mingão disse:

    Wando, conforme relatei no feissibuki, tempos bons de puladas de muros nos clubes de Hellcife, Alemão, Portugues, Internacional, Náutico, Country (essa quase cadeia) e muitas carreiras boas. Brega? Nem pensar. MPB e gafieira e muita cana, muito run Montilla e Merino depois. e o fígado lembra e dói nessa hora. amém.

  2. Magna disse:

    João, enquanto André não chega, vê se você reconhece.
    Abraço.
    Magna

    Do mesmo disco, uma de Isolda e Milton Carlos:

  3. andregustavo disse:

    Gosto de Wando,pricipalmente do clássico Nêga,que é uma mstura de sambarock com letra citando o candomblé.É muito boa essa canção:

  4. andregustavo disse:

    Nando Reis soube valorizar,,sem pieguices,Wando:

  5. andregustavo disse:

    Pedro Luis tb regravou e deu uma roupagem nova a Nêga:

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