A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

Publicado: 10/06/2012 em Poesia

 

Eduardo Coutinho

Antes de adentrar o assunto principal, neste caso “Edifício Master”, uma admirável obra de Coutinho, se faz necessário abordar um pouco da vida e carreira do cineasta em questão.

Eduardo de Oliveira Coutinho nasceu em 11 de maio de 1933, na cidade de São Paulo. Ele chegou a cursar Direito na cidade natal, mas não concluiu. Sua formação em cinema se deu na França, onde estudou direção e montagem no IDHEC, no final dos anos 50. Nos anos 60, esteve envolvido com o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, a UNE. Foi este mesmo CPC o ponto de partida de Cabra Marcado para Morrer, uma das obras fundamentais do cinema brasileiro. Coutinho planejara realizar uma “ficção baseada em fatos reais”, sobre o assassinato de João Pedro Teixeira, o chefe das Ligas Camponesas, ocorrido em 62.

“Cabra…” seria interpretado pelas pessoas que estiveram presentes quando do crime, incluindo a viúva, Elizabeth Teixeira. O filme começou a ser rodado dois anos depois, em 1964. No entanto, devido ao golpe de estado sofrido no mesmo ano, Coutinho foi impedido de continuar as filmagens e alguns membros da equipe foram presos pelas forças repressoras, sob a acusação de comunismo.

Sendo assim, o projeto parou por um bom tempo, até o diretor ter a notícia, em 1981, de que os negativos não foram destruídos pela ditadura. Eduardo Coutinho retomou Cabra Marcado para Morrer, mas o transformou em um notável documentário sobre a separação entre a viúva e os filhos, durante o período em que o filme ficou parado. Lançado em 1984, “Cabra” recebeu prêmios no Brasil e no mundo, sendo responsável por alçar o diretor à condição de um dos mais respeitados documentaristas do país.

Coutinho também teve carreira de prestígio na televisão, quando preparou trabalhos para o programa “Globo Repórter”. Além disso, dirigiu alguns longas de ficção (O Homem que Comprou o Mundo e Faustão) e colaborou no roteiro de filmes como A Falecida (1965) e Garota de Ipanema (1967), ambos de Leon Hirszman, e Dona Flor e seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto.

Coutinho segue fazendo documentários. Obras notáveis como “Boca de Lixo”, “Jogo de Cena”, “As Canções” e Edifício Master. E por falar neste aqui:

Edifício Master (2002)

276 apartamentos distribuídos em 12 andares. Cerca de 500 moradores fazem parte do Edifício Master, um prédio de classe média baixa, localizado em Copacabana. O processo de feitura do documentário é revelado logo nos minutos iniciais. Coutinho alugou um dos apartamentos durante um mês para vivenciar o ambiente. O filme foi realizado durante uma semana, com três equipes ao todo.

Eduardo Coutinho entra em contato com dezenas de moradores. Aos poucos, vai adentrando em cada apartamento. Conhecemos uma gama de pessoas de diversos tipos. O diretor não se vale de grandes recursos audiovisuais, apenas de sua valorosa experiência enquanto entrevistador. Impressiona a capacidade o documentarista em extrair sutilezas, particularidades dos entrevistados. Coutinho ganha a confiança do sujeito filmado e os depoimentos ganham um poder de revelação que sempre acaba por surpreender o espectador.

Ele sabe exatamente o momento em que inserirá depoimentos descontraídos, como é o divertido caso contado por Maria do Céu, e entrevistas de conotação mais intensa e austera, a exemplo da garota de programa Alessandra ou então do aposentado Henrique, que relata ter conhecido o músico Frank Sinatra enquanto trabalhava em uma companhia estadunidense.

Nota-se o “isolamento” de um apartamento ao outro, com cada família vivendo sua “realidade”. Ao mesmo tempo em que os apartamentos são próximos, há em vários casos uma falta de convivência entre os vizinhos. Com poucos recursos, Coutinho mostra mais uma vez por que é tão respeitado e chamado de “mestre”.

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comentários
  1. Magna disse:

    Houldine, hoje mesmo ouvi falar de Eduardo Coutinho. Interessante coincidência. Suas informações sobre o autor e uma de suas obras nos levam a ter mais curiosidade em conhecê-lo.
    Gostaria de informar que o Hospital Barão de Lucena mantém um projeto, levando cultura e arte para o meio hospitalar, na tentativa, pelo que compreendi, de ampliar os horizontes de pacientes, funcionários e demais pessoas(é aberto ao público). Ocorre mensalmente, sempre numa quinta-feira pela manhã e tem sempre um debatedor interessante para levantar, junto com os espectadores, boas questões. Nesta quinta (dia 14) às 9h será o filme Canções de Eduardo Coutinho com o psicanalista Antônio Ricardo como debatedor.
    Fica então a dica.
    Abraços.
    Magna

  2. Houldine Nascimento disse:

    Legal, Magna! Eu estava louco pra ver esse filme de Coutinho, mas perdi as oportunidades. Lembro que ele esteve em cartaz na Fundação. E recentemente houve uma mostra com Coutinho no São Luiz, mas não fui porque “As Canções” foi exibido justamente no dia da final do Pernambucano, na Ilha. Esta aí uma bela chance. Tentarei ir. É no próprio hospital mesmo, não é? Abraço.

  3. João Carlos disse:

    @ boas novas. A volta do Houldine e a volta com um texto maravilhoso. CABRA MARCADO eu assisti e fiquei comovido. Ainda mais sabendo sobre as idas e vindas da filmagem.Outro que pretendo assistir é o Edifício Master.Creio que nestas alturas só em DVD ou numa sala especial.Mas vou achar sim!

  4. Magna disse:

    Houldine, acabei de enviar email para ti dando maiores informações. Sim, o filme é exibido no próprio hospital.
    Abraço.
    Magna

  5. Magna disse:

    Houldine e demais fusconautas, acabo de receber email da organizadora do cinema do Hospital Barão de Lucena informando que o filme não será As Canções, pois não existe nem cópia digital. Uma pena.
    O filme da próxima quinta será surpresa, portanto. Porém, certamente, como foram os outros, será muito bom, pois eles primam pela qualidade.
    Abraços.
    Magna

  6. João Carlos disse:

    Hoje já é quinta.Mas eu cumpro meu ritual diário.Venho aqui no mínimo 2 vezes por dia… e a poesia ? Cadê os fusconautas ?

  7. Magna disse:

    João, também bato meu ponto, apesar de algumas vezes silenciosa. A roda-viva tem girado com velocidade e, para não sair pela tangente, tenho me agarrado como posso.
    Sementeiras tem enfrentado uma seca digna do sertão, muito embora anteontem tenha brotado algo lá, porém o negócio está difícil. O Fusca tem prosseguido seu percurso, não importando se mais nos sábados e domingos, mas tem prosseguido, até porque não é por acaso que nosso amigo precisa do “plural” para se nomear ‘DomingoS’.
    Vamos em frente.
    Amanhã é dia de Som, estarei talvez apenas no domingo, pois o batente começa cedo e termina tarde para mim amanhã.
    Enfim, amigos, bom final de semana e que Deus continue abençoando a todos vocês e seus familiares.
    Abração!
    Magna

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