SÁBADO SOM. POR JOÃO CARLOS DE MENDONÇA.

Publicado: 02/06/2012 em Poesia

É R L O N    C H A V E S

No 5º FIC (Festival Internacional da Canção) no final de 1970, o maestro,arranjador,regente,pianista e vibrafonista ÉRLON CHAVES conquistou a platéia com uma canção de letra “qualquer coisa” (bem no estilo do amigo,irmão de cor, fã e colega,Wilson Simonal) mas com um arranjo fantástico de metais,  muito balanço chamada “Eu Só Quero Mocotó“. ÉRLON apresentou-se com sua BANDA VENENO, na verdade uma ousada orquestra de 40 músicos (empolgados) e arrasou, mas deixou para a “noite final” a surpresa que preparara`nos bastidores. Durante a execução da música o “negão” anunciou: “Agora faremos um número quente !” e foi então que belas louras e branquelas arrodearam-no e o cobriram de beijos e amassos. Foi uma avalanche de protestos das senhoras pudicas do Brasil. Dizem que até um grupo de esposas de militares subescreveram um manifesto aos “generais” protestanto contra a imoralidade,petulância e arrogância daquele negro sendo cortejado por mulheres brancas. E o nosso maestro foi recolhido “aos costumes”. Não sem antes passar por aqueles indescritíveis interrogatórios.
Sabe-se pouco da infância de ÉRLON CHAVES além do fato de ter participado de alguns filmes como figurante infantil. Mas desde os 7 anos de idade em sua cidade natal,São Paulo, estudou no CONSERVATÓRIO CARLOS GOMES,base de sua formação musical. Dali começou sua carreira como pianista da noite, o que fez brotar sua veia “jazzistica”. Foi imediatamente contratado pela TV Excelsior para a qual compos o tema de abertura do canal. Mais tarde mudou-se para o Rio de Janeiro como diretor musical da TV Rio. Nesse período, foi um dos criadores do FIC (embora só tenha participado da quinta e fatídica edição,na era Médici), excursionou pela Europa como pianista e arranjador de ELIS REGINA, temporada que culminou com aqueles antológicos shows em Paris.
ÉRLON CHAVES era um antenado estudioso.Seus arranjos pouco convencionais, eram bastante requisitados e embora escrevesse com categoria para qualquer estilo, sua praia era a música negra americana,cujo conhecimento o fez transpo-la para a MPB.Aqui, vale ressaltar que o mundo estava sendo balançado por uma reação em cadeia ao racismo que mais ainda cresceu com o assassinato de Luther King, o movimento dos Panteras Negras e o “slogan”  BLACK IS BEAUTIFUL. No Brasil, SIMONAL ombreava (e até superava) com Roberto Carlos, TONY TORNADO (então um belo negão) era o “instant darling” com sua BR 3, e TIM MAIA dava os primeiros passos. Não à-toa , ÉRLON era admirado e até cortejado por colegas como Rogério Duprat e novatos como César Mariano e Wagner Tiso.
Por uma questão de justiça, temos que reconhecer que o apresentador de TV, Flávio Cavalcanti, reconhecidamente conservador e defensor empedernido da Ditadura Militar de então, encarou tudo e todos e contratou ÉRLON para seus dois programas de televisão, fazendo-o “jurado” em A GRANDE CHANCE e diretor, arranjador e regente da orquestra do PROGRAMA FLÁVIO CAVALCANTI. Vale lembrar que,naquela época,nem a mais brilhante novela tinha fôlego para competir com a audiência de Flávio Cavalcanti. Parece piada mas, para se ter idéia,teve garoto batizado com o nome de “Flávio Cavalcanti Rei da Televisão Brasileira.” De verdade. E graças a esta enorme visibilidade, o maestro ganhou notoriedade muito além dos bastidores, chegando a dividir um álbum com Paul Mauriat e sua orquestra. Nesse período,arrebatou prêmios pela música que escreveu para o polêmico filme Soninha Toda Pura.
Nosso músico,até o imponderável episódio do FIC, era reconhecidamente um tipo risonho,tranquilo e de índole contemporizadora.Mas sua atitude naquela noite, deixou aflorar um “ranço” racista contra os artistas negros da MPB que terminou respingando nos colegas… especialmente SIMONAL. E foi justamente no dia 14 de novembro de 1974, após discutir defendendo Simonal num restaurante da zona sul carioca, que ÉRLON CHAVES, enquanto paquerava uns discos de jazz numa loja ali perto, veio à falecer vitimado por um infarto fulminante. Tinha apenas 41 anos de idade. Com tanta mudança nas tecnologias de estúdio, nos estilos e modelos musicais, dá prá imaginar o que teria produzido o  maestro ÉRLON CHAVES caso estivesse ainda por aqui ? Eu acho que dá!
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comentários
  1. andregustavo disse:

    Conhecia não Erlon Chaves.Só imagino as farras que ele deve ter feito com o velho Simona…vivendo e aprendendo com o SS.Bora começar com o tema de Pigmaeão 70:

  2. andregustavo disse:

    Tema no mínimo curioso,hehehehehehe:

  3. andregustavo disse:

    olha que versão massa!:

  4. andregustavo disse:

    Outra versão cheia de suingue:

  5. João Carlos disse:

  6. andregustavo disse:

    Não tem Ipanema?Vai de Paramaribo….:

  7. andregustavo disse:

    Fui atras de Flavio Cavalcanti com Erlon,mas olha só a raridade que eu achei

  8. andregustavo disse:

    Gostei da capa do LP….

  9. andregustavo disse:

    Mais versões:

  10. João Carlos disse:

    Realmente interessante essa versão de Mrs. Robinson.

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