Texto belíssimo de Juliana Szabluk. Direto do Releituras.

Publicado: 10/05/2012 em Poesia

Jean Arp e as estrelas artificiais

Juliana Szabluk

Meus trovões me despertaram do profundo sono como sempre.

Tateei o criado-mudo à esquerda até encontrar meus óculos. Ainda sonolenta, névoa sobre a realidade, fui colocá-lo no rosto e entrei em pânico – minha cabeça havia desaparecido. Corri ao espelho rapidamente e, do reflexo sem reflexão, surgiu a comprovação: eu não tinha mais uma cabeça. Meu corpo terminava no pescoço. Uma escultura de Jean Arp numa situação surrealista, ainda era inexplicavelmente detentora de todos os sentidos, contudo fisicamente mutilada.

— A presença dele seria minha razão agora… — senti. Perdida, sentei no sofá úmido pela constante chuva que lavava as poucas almas da região. O cheiro de mofo rescendia da vizinhança. Constantemente, passava a mão curiosa pelo toco acima de meu peito. Apesar do desconforto, estava calma, quase que feliz em liberdade inesperada.

As memórias que restavam em locais refutados de mim me alertavam sobre as últimas discussões que tive com minha cabeça. Nos intimidamos, confrontamos, levantamos hipóteses de abandono mútuo. Estava claro que as ameaças tinham se concretizado. Onde poderia achar meu crânio desertor? Refleti sobre os lugares que ela gostava de ir e, sem hesitar, mais verdadeira e impulsiva do que achava ser possível, fui atrás.

Cheguei ofegante no planetário da cidade. A escuridão da sala seria um empecilho em minha jornada. Olhei por cima até perceber que uma cabeça solitária não tem altura suficiente para ser vista por detrás das poltronas. Vaguei fila por fila, em meio ao brilho das estrelas artificiais de um céu que pertencia a todos. Pensei ter visto algo semelhante a mim bem à frente, mas era apenas uma coruja relaxando com seu amargo charuto. Me olhou, piou, não entendi, parti.

Prossegui meu caminho em direção ao prédio dele. A cabeça sempre foi contra nosso amor, certamente a encontraria lá, o afrontando, exigindo explicações ao inexplicável, palavras ao indizível e imagens congeladas aos mais vivos sentimentos. Olhei para cima, curvei meu corpo dolorido até visualizar o décimo andar: a luz da sala estava acesa. Desviei das poças d’água e levantei com força a grade do antigo elevador, sentindo cada vértebra se romper, causando indescritível agonia. Subi.

O apartamento estava aberto… Estranhei. Atravessei a sala iluminada e ouvi gritos afobados, urros selvagens vindos de uma cabeça e de um homem que quase sempre negou qualquer outra parte de seu corpo. Ironias fantásticas, ambos se voltaram para mim, me analisaram de cima a baixo.

Fui esquecida velozmente em nome da discussão dos dois sobre o que deveria ser feito em relação aos três. Não compreendi o porquê do apego pela argumentação, mas me limitei a pegar o que era meu de volta. Precisava da cabeça mais por medo do que poderia causar aos outros do que por necessidade vital.

Fui até ela e me mordeu, a desgraçada. Larguei de uma só vez e foi rolando pela cama até parar no travesseiro, muda como eu. Os segundos de silêncio foram insuportáveis:

— Agora sabe onde estive sempre que sumia no meio da noite… — Disse ele com lágrimas nos olhos em doce amargura.

Ignorei o pranto, voltei à cabeça e a ergui, tentando desviar das mordidas, tapando-lhe a violenta boca. Parecia que queria me dizer algo, então lhe dei a chance de finalmente se pronunciar:

— A cabeça você encontrou, agora já podemos ir em busca do coração.

(2006)

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Eitcha! E arroi ? Quase perdi a cabeça… tomem!

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