Sobre a morte e o morrer.

Publicado: 30/04/2012 em ESPIRITUALIDADE

 

Gil, na sua poesia imensa afirma: – morrer deve ser tão frio, como na hora do parto…

Rubem Alves, em sua filosofia extraordinária, lembra o bruxo Dom Juan quando afirma: – como você pode achar algo sério, se a morte está do seu lado esquerdo ao alcance da sua mão. Pergunte a ela – a morte como Conselheira.

Clarice Lispector termina A Hora da Estrela com um estupor e uma pergunta: – meu Deus só agora eu me lembrei que as pessoas morrem, mas EU TAMBÉM ?

Drummond morreu em vida logo depois de sua filha…

Castro Alves atiçou o Senhor ao afirmar que… o estilete de Deus quebrou a minha taça…

De noite, sempre nas conversas antes de dormir (ela sim eu quase sempre não durmo) me vem a pergunta eterna:

– O que nos acontece depois que sairmos deste mundo?

– Acho que voltamos para o lugar de onde viemos.

– Suor frio, taquicardia, insônia clara que virá depois da resposta. Não sei e toda vez que entro no caixão figuradamente, não consigo o tão sonhado desapego. Tenho tantas raízes por aqui…

– Mas será que teremos memória?

– Kundera responde por mim, lembrando que todo esforço do homem é para esquecer.

Será que viemos para esquecer de tudo?

Não há como viver no esquecimento se a morte respira junto a nós e seu hálito fresco se renova todo dia, como agora, em que presenciei mais um nascer do sol da minha varanda e sei que ELA está tão perto de mim que posso alcançá-la com meu braço…

Ela dorme o sono dos justos. Eu vou pagar meu Karma perambulando pela casa, sofá , rede, televisão, livro, internet, até que surja pelo cansaço a entrega ao sono brevis. Mais ou menos como nos debatemos diante da morte.

A vida inteira nos preparamos para não morrer.

A vida inteira nos iludimos com o esquecimento.

A vida inteira , na verdade, termina sendo apenas uma preparação.

Para a morte.

Que vem a ser algo desesperador. Estremecedor. Violentamente inútil.

As palavras irão desaparecer.

O conhecimento e a memória irão sucumbir.

A sua foice é tão poderosa que a comparam ao poder do AMOR.

A MORTE COMO CONSELHEIRA.

– A vejo tão bela entregue ainda ao sono dos justos. Já invejei o seu sono reparador, a sua tranquilidade, a sua coragem.

Hoje a admiro.

Quem consegue dormir de prima não deve temer a morte.

Pois consegue se desligar do mundo com rapidez e partir para o mundo dos sonhos.

Que creio, vem a ser o mundo dos mortos.

Onde podemos encontrar as pessoas que partiram.

Que nos deixaram aleijados.

De saudade…

De falta de ar…

Da total desorientação de não podermos simplesmente nos olharmos através dos olhos deles e delas.

Não há mais aquele abrir de portas e a expressão: – oh meu filho, você já jantou?

Não há mais aquelas mãos deslizando no piano e a voz de barítono me chamando: – meu filho venha escutar essa valsa…

Beijei aquelas mãos frias,

Beijei o rosto materno em cor de cera,

Me despedi de tanta gente neste meio século de desventuras,

Que acho natural , cruelmente natural, que daqui há pouco meus filhos estejam beijando o meu corpo em completa dissolução.

Buda sentou-se embaixo da árvore sagrada e começou o seu processo de dissolução no Universo.

Como creem os budistas.

E partiu na mais completa consciência, desperto, pronto para se dissolver.

Eu , sinceramente, agradeço por este dia de branco.

Dia de trabalhar.

Dia de fuga.

Dia de esquecimento.

A mente ocupada não deixa penetrar pensamentos sobre a morte.

E o morrer.

A vida quer pressa, quer urgência.

A vida quer da gente coragem.

E mesmo tremendo de medo, quase congelado, seguindo passo a passo.

Eu vou…

 

 

PS – Meu deus, só agora me lembrei que a gente morre. mas – mas eu também?! não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. sim.

Clarice Lispector

 

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes

 

A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.

Epicuro

 

SONETO LXV
Se a morte predomina na bravura
Do bronze, pedra, terra e imenso mar,
Pode sobreviver a formosura,
Tendo da flor a força a devastar?
Como pode o aroma do verão
Deter o forte assédio destes dias,
Se portas de aço e duras rochas não
Podem vencer do Tempo a tirania?
Onde ocultar – meditação atroz –
O ouro que o Tempo quer em sua arca?
Que mão pode deter seu pé veloz,
Ou que beleza o Tempo não demarca?
Nenhuma! A menos que este meu amor
Em negra tinta guarde o seu fulgor.

William Shakespeare

 

A morte parece menos terrível quando se está cansado.

Simone de Beauvoir

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comentários
  1. Arsenio Meira Júnior disse:

    Eita post que põe a gente pensativo.
    É isso aí, Broda.
    Sobre esse tema universal e incontornável, o nosso conterrâneo, o grande Joaquim Cardozo decretou:

    “O Relógio

    Quem é que sobe as escadas
    Batendo o liso degrau?
    Marcando o surdo compasso
    Com uma perna de pau?

    Quem é que tosse baixinho
    Na penumbra da ante-sala?
    Por que resmunga sozinho?
    Por que não cospe e não fala?

    Por que dois vermes sombrios
    Passando na face morta?
    E o mesmo sopro contínuo
    Na frincha daquela porta?

    Da velha parede triste
    No musgo roçar macio:
    São horas leves e tenras
    Nascendo do solo frio.

    Um punhal feriu o espaço…
    E o alvo sangue a gotejar;
    Deste sangue os meus cabelos
    Pela vida hão de sangrar.

    Todos os grilos calaram
    Só o silêncio assobia;
    Parece que o tempo passa
    Com sua capa vazia.

    O tempo enfim cristaliza
    Em dimensão natural;
    Mas há demônios que arpejam
    Na aresta do seu cristal.
    No tempo pulverizado
    Há cinza também da morte:
    Estão serrando no escuro
    As tábuas da minha sorte.”

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