A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Publicado: 22/04/2012 em Poesia

Pina (ALE/FRA, 2011) Cotação: *****

O prestigiado cineasta alemão Wim Wenders (Paris, Texas, O Amigo Americano, Asas do Desejo) iniciou, em 2008, a preparação de um documentário sobre a vida e a obra da coreógrafa Pina Bausch, uma das norteadoras da dança contemporânea. No ano seguinte, aos 68 anos (1940-2009), ela viria a falecer, e isso representou um tremendo baque para o diretor, não só pela perda desta que foi uma grande amiga, mas também pelo que havia planejado para o longa-metragem. Wenders chegou a cancelar o projeto, mas foi persuadido pelos demais membros da Tanztheater Wuppertal, companhia gerenciada por Pina durante 35 anos, a continuar fazendo esta obra.

Sendo assim, teve de promover modificações. Além da inédita roupagem em 3D, não há o enfoque que se espera de um documentário (conta-se que o diretor planejava fazer um filme de estrada sobre o processo de criação de Pina Bausch): “Decidimos que queríamos fazer outro filme. Não um filme sobre Pina, mas um filme para Pina. Para todos nós, foi um jeito de superar o choque e aprender a lidar com o fato de que ninguém pôde se despedir dela. O filme se tornou uma maneira de todos dizerem adeus”, revelou Wim, em entrevista.

O que se vê são trechos das peças criadas pela coreógrafa alemã, desta vez interpretados sem ela (as coreografias são retratadas na cidade de Wuppertal, em que o balé se situa). E um breve depoimento de cada dançarino que esteve com ela durante sua trajetória. Pessoas de várias nacionalidades, incluindo uma brasileira, chamada Regina Advento. Tudo funciona realmente como uma homenagem. A música está presente quase todo tempo, associada a esta arte fascinante que Pina ajudou a revolucionar ao adicionar elementos teatrais.

O mundo pôde conhecer um pouco mais dela há alguns anos, em “Fale com Ela”, de Pedro Almodóvar, no qual executava dois números.

É importante atentar para o uso (bem contundente) do 3D que grandes realizadores vêm fazendo. Além de Wim, outro alemão e também para um documentário, Werner Herzog (“A Caverna dos Sonhos Perdidos”); e Martin Scorsese, em “A Invenção de Hugo Cabret”. Em Recife, Pina se encontra em cartaz no Cinema da Fundação, onde é projetado em 2D. Mesmo sendo idealizado para terceira dimensão, o filme resiste bem quando exibido no formato tradicional, mantendo a força, o que prova sua qualidade (aqui, chegou a ter sessões de pré-estréia no UCI Shopping Recife, em 3D, mas não pude ir, infelizmente). Lançado no Festival de Berlim, em 2011, foi o escolhido pela Alemanha para representar o país no Oscar 2012 (acabou nomeado à categoria de documentário).

O fato é que a dança com Pina transcende, alcança a alma, nos leva a um outro nível. Em suas palavras: “O que interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que as move”. Wenders conseguiu mostrar isso ao espectador. Esse documentário mexeu muito comigo, com o meu interior. E encerra de uma forma muito edificante, com um pensamento/convocação desta grande bailarina: “Dance, dance, caso contrário, estamos perdidos”.

 

Anúncios
comentários
  1. João Carlos disse:

    Tirante eu, parece que o Fusca tem o dom de tornar poesia o que aqui aparece. Que beleza de texto do Houldini.Só não entendo como um filme desses não passou no circuito comercial (de fato).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s