A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Publicado: 15/04/2012 em Poesia

 

Muito Além do Jardim: contexto histórico e análise da obra

Por Houldine Nascimento

No final dos anos 50 e durante quase toda a década de 60, Hollywood esteve mergulhada em uma grande crise. Boa parte dos filmes possuía enorme orçamento e, no fundo, nada mais eram que repetições de temas. Isso fez com que vários estúdios amargassem prejuízo financeiro. Altos e baixos sempre povoaram a indústria cinematográfica estadunidense, mas, desta vez, a situação aparentava ser irreversível.

A necessidade de mudanças no sistema era urgente. De acordo com o que vigorava, os produtores eram a parte mais importante do processo de execução de um filme. Os diretores estavam relegados a obedecer ordens, no máximo orientar atores, e só! Em 1967, obras como “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas”, de Arthur Penn, e “A Primeira Noite de Um Homem”, de Mike Nichols, davam mostras da transformação que aconteceria alguns anos depois. Aparecia uma “Nova Hollywood” nos anos 70, como o período ficou conhecido. Uma época em que uma geração de diretores americanos, influenciados por cineastas como Michelangelo Antonioni, Jean-Luc Godard, Akira Kurosawa e François Truffaut, assumira o controle artístico das obras. Teve início, então, a “Era dos Diretores” (para mais detalhes, sugiro o livro de Peter Biskind, traduzido pela crítica Ana Maria Bahiana, “Easer Riders, Raging Bulls: Como a geração sexo-drogas-e-rock‘n’roll salvou Hollywood”, que ganhei do grande amigo Arsênio Meira).

Desse período, nomes como Martin Scorsese (“Taxi Driver”), Stanley Kubrick (“2001”, “Laranja Mecânica”, “Barry Lyndon”), Steven Spielberg (“Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”), Peter Bogdanovich (“A Última Sessão de Cinema”, “Lua de Papel”), Francis Ford Copolla (“O Poderoso Chefão 1 e 2”, “Apocalypse Now”), Robert Altman (“M*A*S*H”, “Nashville”), Warren Beatty (“O Céu Pode Esperar”), Woody Allen (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Manhattan”), entre outros, despontaram para o “estrelato”. Entre estes realizadores, se encontrava Hal Ashby.

Nascido no estado de Utah, William Hal Ashby (1929-88) começou a carreira como montador de alguns dos filmes de Norman Jewison (“A Mesa do Diabo”, “Os russos estão chegando! Os russos estão chegando!”, “No Calor da Noite” e “Crown, o magnífico”), dando mostras de seu talento. Numa forma de reconhecimento, foi agraciado com o Oscar de montagem por “No Calor da Noite” (1968).

Ashby almejava coisas maiores. Não tardou para que estreasse na direção.  Em um período de dezesseis anos (1970-86), realizou 12 longas, dos quais se destacaram: a comédia de humor negro “Ensina-me a Viver” (1971); “Esta Terra é Minha Terra” (1976), cinebiografia sobre o músico folk Woody Guthrie; “Amargo Regresso” (1978), um painel sobre as consequências da Guerra do Vietnã e pelo qual recebeu nomeação ao Oscar de direção; e, finalmente, Muito Além do Jardim (Being There, 1979).

Este filme se baseia na publicação homônima datada de 1970, do escritor polonês Jerzy Kosinski (aqui no Brasil, o livro foi lançado um ano depois e recebeu o nome de “O Videota”), que também foi responsável pelo roteiro. Na trama, Chance (interpretado pelo inglês Peter Sellers) é um homem que viveu quase toda a vida trabalhando como jardineiro, numa mansão. O conhecimento adquirido durante esse tempo provém apenas de sua experiência com o jardim da casa e do uso da televisão. Sem saber ler e escrever, Chance tem a trajetória alterada quando o dono do lugar morre. Obrigado a deixar o local, o herói parte numa jornada pela cidade de Washington, sem a mínima noção do que encontrar.

É interessante observar essa transição do personagem para o “mundo exterior”. O diretor faz questão de demarcá-la com a poesia musical “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, notabilizada através do já citado “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Chance corre alguns perigos e acaba sofrendo um acidente ao ser prensado por uma limusine, que pertence a um magnata. A partir disso, ele se torna amigo do empresário em questão, Benjamin Rand (Melvyn Douglas), e da esposa, Elizabeth Eve (Shirley MacLaine). Rand comanda uma instituição financeira e, por sua importância, o presidente dos EUA (Jack Warden), vez ou outra, solicita seus conselhos.

Eve se equivoca acerca do nome de Chance. De “Chance, the gardner” (o jardineiro, em inglês) para Chauncey Gardiner. As simples declarações do personagem central sobre jardim e televisão passam a ser interpretadas pelos demais como geniais metáforas sobre economia, política, entre outros assuntos. Por esse motivo, é convidado a diversos programas de TV, chamado para dar entrevistas a jornais, etc. Até mesmo o presidente o cita nos discursos. É cogitado inclusive para o cargo máximo do país. A certa altura, ele diz “Não leio”, no que é prontamente respondido por um chefe de uma editora “E quem lê?”. No filme, talvez o único que tenha noção de quem realmente seja Chance é o médico do magnata (vivido por Richard Dysart).

“Muito Além do Jardim” pode ser visto como uma grande sátira aos meios de comunicação de massa. Na obra, é feita uma crítica à alienação por vezes proporcionada pela TV e ao sempre perverso mundo da política, seja qual for o lugar. É uma obra à frente de seu tempo. Possivelmente, é a melhor atuação do genial Peter Sellers, um artista multifacetado, capaz de fazer várias vozes e composições, que veio a falecer no ano seguinte ao lançamento. Comparado a trabalhos anteriores, como a série de filmes da “Pantera Cor de Rosa”, em que fazia o inspetor Clouseau, ou então “Dr. Fantástico”, no qual interpretava três personagens, se vê uma entrega total do ator. Ele se deixa levar por Chance. Indo de encontro a sua carreira quase toda de papéis cômicos, é visivelmente um papel dramático, em que se contém bastante. E o resultado é bem delicado.

O filme recebeu prêmios. Foi indicado a dois Oscars: melhor ator – para Peter – e melhor ator coadjuvante (Melvyn Douglas), tendo vencido esta categoria. Também concorreu no Festival de Cannes, em 1980, ao Globo de Ouro e ao BAFTA. Há quem afirme que Sellers não levou o Oscar (acabou perdendo para Dustin Hoffman em “Kramer versus Kramer”) por conta dos outtakes que aparecem durante os créditos finais. Esse foi o motivo pelo qual Peter teria brigado com os produtores e o diretor, pois, segundo ele, a colocação dessas tomadas “tirou toda a magia do resultado”.

O autor Jerzy Kosinski (que se suicidou em 91) promoveu algumas modificações na adaptação de seu texto ao cinema. A personagem Louise, empregada da mansão onde Chance morou grande parte da vida, se muda antes da morte do patrão, e não depois, inclusive chegando a morrer. Não há aquele encontro entre o herói e jovens gângsteres.  No livro, não fica claro se Benjamin Rand falece ou não, apenas se tem ciência de que está muito doente. As cenas de contato de Chance com o sexo são bem mais ousadas que as apresentadas na telona. A resolução também difere nas duas modalidades artísticas.

Outra curiosidade: o papel de Benjamin Rand foi antes oferecido a Laurence Olivier, mas este o teria recusado quando da leitura do roteiro, ao ver que havia uma cena de masturbação para a personagem de Shirley MacLaine. E como informa o site IMDB, o final previsto para o filme era outro. Ao conversar com um diretor sobre a produção, durante as filmagens, Hal falou que “Era como andar no ar”. Por isso do encerramento tão bonito, em que o personagem de Sellers caminha sobre as águas, uma clara analogia com Jesus Cristo.

*Dedicado à Magna Santos

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Fantástico esse filme Houldini. Ah como faz tempo que assisti. O pior é que clássicos assim não se acha fácil nas locadoras. Mais um golaço do Dine! Na titela!

  2. dom mingão disse:

    A cena:

  3. Magna disse:

    Houldine, já tentei comentar aqui umas 3 vezes, esta é a 4ª(o computador, ultimamente, anda me pregando peças). Muitíssimo obrigada. Vir aqui e me deparar com este presentão…só memória de amigo é capaz desta façanha.
    Como já havia dito há alguns meses atrás, gosto muito de Peter Sellers. Ele simplesmente me emociona. Este filme é um clássico. Maravilhoso. Aliás, os filmes de Sellers tem recorrente uma qualidade que vai nas sutilezas, um humor que nos identificamos, pois traz o humano, a simplicidade. Não sei se você já viu o filme sobre ele: A vida e morte de Peter Sellers.
    No término da faculdade, Houldine, editamos algumas cenas de filmes para ilustrar a música Monte Castelo (Renato Russo) com o fim de encerrar o discurso da oradora – grande amiga. A cena deste filme, quando Sellers anda sozinho entre carros foi uma delas. Ademais, grandes amigos que formei e cultivo até hoje nos denominamos Clouseaus, numa referência ao personagem do Sellers na Pantera Cor de Rosa e atestanto nossa própria distração e leseira mesmo que ainda mantemos como um modo de nos situarmos com alegria neste mundo. Como vê, tenho excelentes motivos para sentir alegria com este presente seu.
    Domingos já deixou uma das cenas lindas dele. Deixo outras.
    Abração e, novamente, muito obrigada.
    Deus te abençoe!
    Magna
    Obs.:Houldine, você já assistiu
    Um convidado muito trapalhão é demais:

    Finalmente, um dos Clouseaus:

    Aqui o filme sobre Peter Sellers:

  4. Houldine Nascimento disse:

    Excelente, Magna!!!

    Não vi ainda “A vida e morte de Peter Sellers”, mas cheguei a ver algumas cenas soltas no youtube, como aquela em que ele está com Kubrick (Stanley Tucci). Assim como não assisti a “Um convidado bem trapalhão” (pretendo vê-los um dia). Mas Sellers é aquele exemplo de ator que tem o poder de alavancar um filme. Não faz muito tempo, durante as férias, assisti a “Assassinato por Morte”, no qual Peter interpreta um investigador chinês (mais um de seus tipos). O filme tem um elenco classe A (Maggie Smith, David Niven, Peter Falk, James Coco, Alec Guiness, entre outros), mas o desempenho de Peter Sellers verdadeiramente eleva a produção (é o que melhor há no longa).

    Grande abraço.

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