Madrugada…

Publicado: 03/04/2012 em Domingos - Crônicas

Paratodos

Ganhei um presente, um regalo, um mimo de extremo bom gosto e qualidade.

Junto com o envelope, a certeza de que temos bons e poucos amigos.

E como eles são importantes.

Raros.

Congruentes, nos fazem um bocado bem. Um bem bocado. Um tamanho de felicidade sem tamanho.

Existe, com certeza, uma confraria dos Insones.

Não sei ao certo onde ela fica, se tem sede, mas com certeza ela é real.

Das insônias clássicas, raras e eventuais, aprendi de tudo um pouco.

Porém, um livro nascido da Insônia, um livro que é um clássico, esse é um grande tesouro.

As madrugadas escorrem literalmente pelas mãos e somam brasas, acrescentam fogo aos nossos olhos,

que teimam em ficar cada vez mais ativos, expressivos, quase arregalados.

O cérebro não dorme. A alma nunca. O corpo? Ás vezes padece.

Quantas vezes entrei no chuveiro como num pit stop, para poder pegar no tranco e sem pensar começar o dia.

Começar o dia jogando comida prá dentro, colírio nos olhos, buscando todo oxigênio do mundo.

A madrugada deixou a ressaca, hora de levantar acampamento.

Já antevejo como será o dia de hoje, tendo que enfrentar oito, nove, dez horas de batente, com o motor avariado.

Me acompanha o tesouro. Lido já em fase adiantada e que servirá de companhia e releituras deliciosas por outras madrugadas.

Me acompanha o livro do caçula e broda, me acompanha o alemão para estressados, me acompanha até um gibi, como nas crônicas

do broda está lá devidamente registrado. A importância dos gibis no hábito de ler.

É bom saber-se acompanhado no silêncio insone das madrugadas.

Não há música. O barulho do teclado pode fazer a esposa acordar. A casa respira e dorme e pede silêncio.

Tenho de me deslocar em compasso lento, quase abreviando os passos, para não despertar o sono dos inocentes.

Devo ter um bocado de pecados, ou não tê-los nenhum, não sei ao certo como anda a minha contabilidade celestial,

mas decerto se há os que dormem o sono dos justos, com certeza reinvidico a insônia dos absolvidos, haja um corpo para que

eu posso me declarar por inteiro isento da culpa católica.

Já relatei sobre as penitências de um infante, hoje renovo os votos da parceria com a insônia, que me surpreende sem nenhuma causa

aparente.

Mas chegou, bateu, ficou e com ela não tem conversa.

O laranjinha já era. Foi embora. Prescreveu.

Não houve acordo que prorrogasse a sua manutenção e a sua existência circulando no meu pobre sangue plebeu.

No seu lugar, florais, chás, água morna e muita, mas muita insônia.

AInda bem que não há uma Remington ou Olivetti, como nos tempos de Garanhuns.

Mas a esta hora , nesta madrugada, o teclado parece uma escola de samba.

Já ouvi resmungos no quarto. O teclado estronda.

Paciência , eu peço.

Sempre que o relógio anuncia 04:00 eu entro no desespero final. Sempre faço uma súplica, uma oração.

E peço uma hora, no máximo 90 minutos. Tempo de uma partida de futebol.

Tempo que restaura num sono brevis esta vita brevis e me permite uma recomposição mínima.

E me lembro com toda a esperança do mundo de Helder Câmara, o dom da Paz:

– quanto mais negra a noite, mas próxima se anuncia a madrugada –

E Leminski fecha a madrugada, como num boteco lá do Hubble, informando que a casa já fechou: bar e a cozinha. Hora de ir prá casa:

tudo claro
ainda não era o dia
era apenas o raio

Razão de Ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

A noite me pinga
uma estrela no olho
e passa.

Paulo Leminski )

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Na titela Domingão! Como diria o craque DIRRAN (lembra ?), sou amigo da insônia! Acordo as 3 ou às 4 numa boa. E em vez de combate-la tomo café e escuto o Pepper só prá ela não me deixar. Penso logo: mais um SS. A insônia divina do GM Edgar, é um presente de Deus, aliás um pacote de brindes divino: a insônia vem com as idéias, e a tranquilidade “madrugal” gera livros! VIVA A INSÔNIA DO EDGAR!

    PS: O Zé aqui mandou um e-mail achando ter descoberto a novidade!

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