A democracia, os outros, o céu e o inferno…

Publicado: 18/03/2012 em Domingos - Crônicas

Definitivamente democracia não é para amadores.

E para ser chamado de profissional, uma existência apenas é muito pouco, quase nada, uma pálida sombra que se esvanece…

Cansei de brigar na internet e muito antes da internet, e nas épocas charmosas das máquinas de escrever e ainda com muita carta e selos dos correios, escritas noites a dentro, brigas intermináveis, reconciliações memoráveis, arranhões na pintura, esfoladuras na alma, esquartejamento do coração, amizades desfeitas, amores que se foram e a bile escorrendo aos litros.

Cansei de brigar no trabalho, sendo boi de piranha, ponta de lança, o cara que queria mudar o mundo e mal conseguiu mudar o seu mundinho, ajeitar o cantinho da alma, fazer uma limpeza meia boca, arranjar um polimento na alma, botar um cuspe nas feridas, lamber os restos mortais.

Muita briga. Muita paz. Tudo em excesso cansa.

Menos a democracia.

Que não sei o que é, mas a persigo em sonhos, sem ao menos saber o que significa “ser” democrático.

Pois não conheço ninguém assim.

Todos nós toleramos a maior parte das pessoas com quem convivemos.

E nos agarramos aos poucos amigos que conseguimos fazer, amigos que são tábua de salvação e que sofrem com o fogo amigo.

O filósofo francês assim definiu: ” O inferno são os outros…”.

A outridade. Nunca em nós, sempre no próximo, sempre o alvo, sempre terceiros, nunca a nossa culpa. O inferno são os outros.

O céu?

Também como face da mesma moeda, seria de bom tom que o Céu também fosse os Outros.

O mundo estaria em equilíbrio e até as guerras ditas santas escorreriam menos obuzes, almas, mísseis e corpos.

O mundo estaria em estado de reconciliação, uma vez que a arte de viver seria a arte de amar tanto quanto a arte da separação.

E assim cada dia mais perto, cada dia de menos, cada dia ao encontro da senhora da noite e da madrugada, nos faria menos covardes.

Porque se para se brigar é preciso coragem, para se viver em paz é preciso uma coragem IMENSA.

E como cultivar a plantinha da DEMO-CRACIA?

O terreno?

A água?

O sol?

Quais os elementos que esta enigmática representação precisa para se firmar e se fazer presente?

Confesso que não vi e não vivi Neruda. Confesso que sou réu.

Que de democracia eu só sei do grito, do punho, do peito enrijecido, da faca nos dentes.

Que de paz eu só entendo de brigas, embates, ranger de dentes e corações doendo.

Minha poesia lateja e eu me atrevo a poemas.

Não posso me dizer poeta pois seria a minha salvação.

Pegou mal, foi mal, agiu mal, mas é um poeta.

Os grandes, os Mahatmas podiam na época dos Jobins, Vinicius, Drummonds, João Cabrais e tais e Tins, como queriam os Caetanos e os novos Gilbertos Mutantes Buarques, podiam sim quebrar a vidraça, estilhaçar telhados, cortar no beiço e na gilete quem fosse desafeto, que no final a noite, a fumaça dos cigarros e do álcool e a poesia imensa geravam um perdão infinito.

Esses podem.

Esses passarinhos deixaram um mundo inesquecível.

Mas, a solitude quer me fazer pensar que eu não sou nada mais nada menos que um personagem de Vitor Hugo, um Jean Valjean,capengando de verso em verso, dia após dia, mastigando o tempo, cuspindo fogo e derramando a vida muitas vezes em vão.

A solitude em toda a sua beleza que revela toda a minha miséria que é de fato a minha única riqueza.

Sozinho, destino de todo vivente neste planeta azul e loucamente bipolar, não sei mais nada de Dom Quixote e seus moinhos de vento.

Não sei nada do que falam os Stones, os Beatles, os loucos, os que levitaram, os que pularam dos edifícios, os que beberam até morrer, os que cheiraram até sumir, os que fumaram até limar os olhos vermelhos, nada sei de nenhuma nova modinha, nenhuma música pode ser tema.

Não temas meu jovem navegante, meus filhos, meus amigos e minha mulher.

Não temas meus irmãos, meus inimigos, meus desafetos e quem eu nunca irei poder conhecer.

Não sou uma ameaça a democracia mesmo não sendo um democrata.

A única coisa que eu posso mesmo, o único poder que me foi dado em vida, foi o de silenciar, calar-se, bater em retirada.

Este é de fato o único poder que conheço.

E de fato é o único poder que eu nunca utilizei e que levarei virginalmente embalado no lado esquerdo do peito para o descanso e para o esquecimento…

PS – NELSON RODRIGUES EM TRÊS ATOS SENDO ENTREVISTADO POR OTTO LARA RESENDE. ISTO É BENÇÃO DIVINA:


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comentários
  1. Arsenio Meira Junior disse:

    BRODA,

    ESSE TEXTO É UM DOS MAIORES POEMAS EM PROSA QUE JÁ EM MINHA VIDA. MODÉSTIA À PARTE, TENHO E TIVE E SE DEUS QUISER TEREI O PRIVILÉGIO, A PRIMAZIA, DE CONTINUAR SENDO UM LEITOR.
    APENAS UM LEITOR.
    O QUE ME SATISFAZ PLENAMENTE.
    PRINCIPALMENTE POR TER À MINHA DISPOSIÇÃO UMA ODE DESSA GRANDEZA.
    UM LEGADO POÉTICO.
    E ASSINO EMBAIXO, POR EXTENSO.
    ARSENIO MEIRA DE VASCONCELLOS JÚNIOR

  2. EDGAR MATTOS disse:

    Domingos: Não sei se esse texto-desabafo se deve a algum evento específico. Prefiro acreditar que se trata apenas de um daqueles suspíros de desalento que nos assaltam na hora sempre melancólica de um fim de domingo. De qualquer modo, me permita dizer-lhe, com o testemunho insuspeito de quem sabe, por experiência própria, que a sua ternura é muito maior do que suas eventuais irascibilidades. Quem é capaz de uma auto-análise assim tão rigorosa, tão excessivamente escrupulosa; quem é capaz de produzir um texto tão sublime em grandeza de caráter e em Poesia, está absolvido de quaisquer culpas. Os quixotes jamais deixarão de ser quixotes. Estão condenados a professar para sempre a loucura do seu idealismo. Quanto à Democracia não passa de um sistema legal de relacionamento de cidadãos. São insuficientes e insatisfatórias para pessoas da sua dimensão espiritual. Os princípios que regem a sua convivência com os outros – meu caro amigo – são de outra ordem. É a Caridade, em sua melhor acepção que inspira a sua forma de encarar os outros. É ela que o leva, vez por outra, ao gesto de inexcedível generosidade, de pedir perdão aos que o ofenderam. Os que não forem capazes de reconhecer essa sua qualidade são tão pobres de espírito que não merecem a sua indignação ainda que justa e santa. Desse testemunho, eu, Edgar Mattos, dou fé.

  3. João Carlos disse:

    Arsênio e Edgar disseram o que eu tentaria dizer (e não conseguiria). Vou no popular: texto foda!Antológico,poético,na titela,no gogó gugu! Um dos melhores textos que já li. Aqui e alhures!
    À guisa… a democracia é ruim mas é melhor, já o democratismo é uma merda!

  4. Magna disse:

    Domingos, não ando muito boa com as palavras, ultimamente. Tenho receado falar, pois quando falo, tenho deixado incompleto ou mesmo mal escrito, daí o receio de não fazer por merecer o que tenho recebido. Assim, ou me calo em respeito e gratidão ou falo demais…as duas opções, um “perigo” de não ser entendida.
    Então, para não correr este risco, desta vez, permita-me apenas assinar embaixo do que até agora foi escrito pelos mosqueteiros.
    Abração e que Deus te abençoe sempre!
    Magna

  5. Domingos Sávio disse:

    E eu conversando(teclando pela Tim ) com Arsênio lhe escrevi que não sabia encontrar as palavras. Assim meio como Magna escreveu. Bálsamo, presente, eternidades, amigos, coração, chuva, sol, alegria, bem-aventuranças, pôr-do-sol, lua cheia, vida, amor, perdão, infinito. Só não sei juntar e fazer um poema, pois vocês já fizeram. Edgar, Arsênio, João Carlos e Magna.
    E mais não digo.
    Do coração para os corações: obrigado.

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