Nelson Rodrigues…

Publicado: 12/03/2012 em Poesia

Muita pretensão minha.

Falar de um monstro sagrado.

O Deus pernambucano, ou deus como queiram. Pernambucarioca da gema se tornou e perturba até hoje o inconsciente coletivo feminino.

Palhares… ah Palhares

Este final de semana me viestes em sonho aterrorizar-me. Sem descanso.

Logo eu que cumpri quase um Sábado à moda judaica/adventista.

Com umas escapudidelas no feissibuki.

De resto , nem álcool, nem libações diversas, nem pensamentos impuros.

Apenas Nelson, na semana internacional da mulher. E que semana.

Vejamos algumas frases famosas de Nelson Rodrigues:

– O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade.

– Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.

– Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de “ilustre”, de “insigne”, de “formidável”, qualquer borra-botas.

– A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.

– O brasileiro não está preparado para ser “o maior do mundo” em coisa nenhuma. Ser “o maior do mundo” em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

– Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar.

– Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

– O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.

– Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria.

– Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

– O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

– A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.

– Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — “Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!”. Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão!

– Em nosso século, o “grande homem” pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta. 

– O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.

– Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.

– Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.

– Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

 Agora em contraponto a estas frases e tantas outras que estão em nossas memórias, falemos de Palhares, ou melhor leiamos Millor:

 

MILLOR FERNANDES

===============

Há alguns anos recebi esta carta comovida, procurando desfazer “equívoco” sobre conhecido personagem de Nelson Rodrigues: “Palhares, o cunhado canalha” (como se todos não fossem). Não publiquei a carta achando que podia ser apócrifa. Mas hoje, quando a internet consagrou a apocrifidade (Houaiss), botando nosso nome em artigos alheios e textos alheios com nosso nome, aqui vai a carta.

Rio de Janeiro, 20 de outubro de 1999. Caríssimo amigo,

 

Ao vê-lo, participando de almoço com José Lino Grünewald e Pedro do Couto, vieram lembranças de meu passado, quando ia com minha mãe ao seu estúdio. E voltou a culpa, por fato ignorado por todos, não fosse a versão feita pela pena mágica de Nelson Rodrigues.

A repercussão dessa versão causou o martírio de um inocente, admirável criatura que, devido a ocorrência da qual participei, foi lançada à execração pública, pecha da qual, por cavalheirismo, jamais se defendeu.

Agora pretendo revelar o que ocorreu na tarde fatídica, a partir da qual um homem de caráter sem jaça virou paradigma da abjeção, canalha que não respeitava nem as cunhadas.

Se não lembra: sou Nanete, filha de Isaura Nogueira Sande, que o conheceu quando era rapaz, mas já conhecido jornalista. Eu era uma figura juvenil, tipo “mignon”, corpo de curvas tentadoras, o que atraía o olhar de gula dos homens.

“Bem-feita”, para os respeitosos, “gostosa”, quando passava na rua. Clara, alourada, era em meu olhar que as pessoas identificavam minha sensualidade.

Minha mãe percebeu logo meu poder de atração e me mantinha reclusa, me escondendo em vestidos enormes, que escondiam meu corpo. Roupa justa, nem pensar. Mas foram esses cuidados que ativaram em mim a arte da sedução que passei a exercitar sempre, excitando o interesse masculino, onde quer que estivesse. E eu estava no auge quando Ofélia, minha irmã, e Palhares se casaram.

Do meu cunhado recordo sempre o carinho fraternal mas também o distanciamento respeitoso. Sempre se esquivava de beijos e abraços. Era desligado de tudo que não fosse sua devoção a Ofélia. Isso, claro, excitava minha vaidade.

Depois os dois foram morar em nossa casa, no quarto antes de meus pais, ao fundo do corredor do andar superior. Os quartos tinham porta de comunicação, mantida fechada, mas com bandeiras, com vidros nunca colocados. Em conseqüência, toda noite os sons da faina amorosa emprenhavam meus ouvidos. Minha imaginação tirava Ofélia dos braços de Palhares e punha-me, sôfrega, em seu lugar.

Então cruzamos no estreito corredor que dava acesso aos quartos. O espaço de passagem estreitava, no meio, por uma velha arca. Se duas pessoas saíssem das extremidades do corredor, uma devia esperar a outra ultrapassar a arca. Interagiram então a distração dele e o meu oportunismo.

Logo escorregávamos um sobre o outro. O rápido contato ateou em mim o incêndio. Palhares, no entanto, sem mostrar emoção, só pedia desculpas por me atrapalhar. Inocente Palhares!

Passei a forçar o encontro. Na passagem, eu forçava a lentidão. Em Palhares havia, de início, apenas espanto. Mas logo ligeiro rubor coloria a morenice de seu rosto. Até aparecer a cumplicidade do pijama que se avolumava e escorregava por minhas coxas, e semipenetrava minhas costas, que lhe oferecia, sentindo-o percorrer as duas metades da topografia de minhas carnes implorando pela continuidade da ação.

Tudo sem diálogo. Apenas a respiração se apressava. A audição, entretanto, desaparecia. O que só percebemos na tarde sinistra. Não ouvimos os passos de Ofélia subindo a escada. E ela surgiu no corredor no exato instante em que, impulsionada pelo desejo incoercível, enlacei Palhares e pespeguei o beijo arquitetado na loucura da longa espera.

Mas o que Ofélia viu, naturalmente, foi a fúria do Palhares, estuprando a irmãzinha indefesa. Seus gritos mobilizaram toda a casa. Acorreram minha mãe, dois primos em visita e as duas empregadas, todos testemunhas da ação infame do cunhado canalha.

Mas Palhares permaneceu calado, não esboçou nenhuma defesa, o que fez dele, aos olhos de toda a família, um sátiro homérico (coisa do Nelson). Apenas minha mãe via a cena com outros olhos. Enquanto Palhares era escorraçado pela porta da rua, ela fixava em mim olhar inequivocamente reprovador. Mas nada disse. Ofegava como em suas piores crises. Meses depois morria.

Daí vivi o tormento de lidar com minha culpa. Minha mãe morta, sem ter-me dado perdão, Palhares, o inocente, enxovalhado, e eu, causa de toda a tragédia, protegida pela piedade de todos. Tanto se falou na família, na rua, no bairro, da abjeção de Palhares que a coisa chegou aos ouvidos de Nelson, que logo o consagrou como “Palhares, o canalha que não respeita nem as cunhadas”.

Hoje, prezado amigo, já fenecidos meus encantos, restrinjo minha vida ao lar e à família. Já sou avó, mas não encontro alívio para o peso em minha consciência. Por você suplico a todos que façam justiça, com a divulgação desta minha confissão.

Espero, caro, contar com a sua compreensão por esta minha ousadia. Antecipo minha gratidão pela recuperação do caráter e, quem sabe, da alma do Palhares. Que morreu em junho do ano passado. Fui ao enterro, disfarçada pela idade.

 

Nanete Nogueira Sande

 



A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.

Nelson Rodrigues

E o vídeo. Muito bom:

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comentários
  1. Aqui em Brasília temos o Bar dos Cunhados. Cunhados de todos os clientes frequentadores de lá que curtiam a irmã dos cunhadinhos. Sacaram?

  2. Mais Rodrigueano do que isso não existe kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  3. Arsenio Meira Junior disse:

    kkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkkkkk
    O comentário da Fátima, Dom Mingão, reverberou lá em Cima. Não sou espírita, mas acho que o nosso Nelson deve ter gostado. Não só do comentário. Mas do post. Ele, um confesso cabotino. Mas genial, e com direito a todas as loas do universo. Viva Nelson Rodrigues!

    Ps – Mudando de prosa: se o show do meu ídolo Chico tá custando mais R$ 350,00 mangos, sobressalto-me só de pensar no preço que cobrarão pelo LENDÁRIO SHOW DE MACCA…

  4. Eita Broda. Mas acho, que Macca (cujo show será no Arruda) sairá mais barato. Aguardemos e oremos, contritos, junto ao broda Johnny B Good e Andre Engenheiro de Som Gustavo. Ambos irão e já anunciaram a venda de um rim. Com farofa, molho vinagrete e um tubo de Germana kkkkk

  5. Arsenio Meira Junior disse:

    eita, irmão,
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    gargalhada pouco é bobagem…
    Muito boa…
    Há quem diga que o nosso Johnny botou até o “figo” à venda…

  6. João Carlos disse:

    Eita! esse post está sensacional. NR é sempre “mais melhor” e com Millor então…
    Arsênio advinhou mas o “figo” tá vencido.Ninguém pagou nadinha. Estou catando um 0800 (pode pintar KKKK) mas “alergia” de pobre dura bem: acho que vou pagar o ticket de Dina!

  7. João Carlos disse:

    Eita! E Arsênio vai ou não vai ao show PARAPOUCOS do Chico ?

  8. Arsenio Meira Junior disse:

    Johnny, vou nada… Com a chegada do rebente, não para de chover conta em minha mesa…
    E já fui a três shows do meu ídolo. Dessa vez, vou ouvir a vitrola.
    To rezando pra poder ir ao show de MACCA!
    ABRAÇOS

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