Sábado Som. Por João Carlos de Mendonça.

Publicado: 10/03/2012 em Poesia



                                           

                               P A U L O    D I N I Z

Eu sei que pouca gente lembra dele, assim como sei que muitos conhecem, ao menos uma, de suas canções. Tenho certeza que quase ninguém sabe que ele é pernambucano e que, dos anos 60 prá cá, foi o primeiro artista de seu Estado a estourar nacionalmente.

Pois é ! Nascido em 1940 em Pesqueira-PE, logo viu-se órfão de pai, e mais adiante teve de largar o “grupo escolar” aos 12 anos para trabalhar naquela famosa fábrica de doces de sua cidade, onde permaneceu até completar 16. Mas o menino PAULO DINIZ, se deixou a escola, nunca abandonou os livros. Autoditada, tanto na poesia como no violão, foi pro Recife se virar como engraxate. Depois trabalhou como locutor de casas comerciais até conseguir um emprego na Rádio Jornal do Comércio. Pronunciar um nome errado, no ar, lhe custou o emprego de radialista na empresa. Não desistiu.Virou-se como “crooner” e baterista na noite recifense antes de seguir para Caruaru, onde continuou trabalhando em rádio. Dali foi para o Ceará e finalmente chegou ao Rio de Janeiro, contratado pela Rádio Globo (alguns afirmam que foi a Rádio Tupi). Durante todo esse processo, não parou de compor,até que finalmente conseguiu lançar um compacto simples em 1966 com as músicas QUEM DESDENHA QUER COMPRAR com O CHORÃO no Lado B. Para sua surpresa (e da gravadora) foi O CHORÃO que agradou em cheio aos programadores e aquela musiquinha despretenciosa,boba até,virou sucesso nacional. Bastava ir virando o “dial” do aparelho e já se ouvia a letra “outro dia vinha pela rua/quase morri de rir/pois um cara que passou por mim/chorava fazendo assim…“, a modesta canção virou mania. Era mote para gozação nas escolas, nas peladas, nos estádios, no trabalho… enfim, onde houvesse brasileiros.

Certamente há um equívoco entre os que afirmam que DINIZ frequentou o Programa Jovem Guarda. Pelo contrário, o artista foi imediatamente escanteado.Não acredito que ele tenha se mudado para Salvador naquele período, sem uma razão convincente.Pelo pouco que conheço do ramo, certamente a gravadora queria que ele mantivesse o clima,repetindo a fórmula,aproveitando a “onda iê-iê-iê” da época, mas o artista não topou. Ficou na geladeira por quatro anos.

Na Bahia, PAULO DINIZ conheceu seu parceiro, ODIBAR (nome quase estranho para um baiano) mas ao mesmo tempo continuou “musicando” os versos de seus poetas favoritos. Voltou para o Rio com uma significativa coleção de canções em 1970,e com a Jovem Guarda já esquecida , a recepção foi outra.Ao apresentar sua ode à Caetano Veloso (então exilado em Londres), QUERO VOLTAR PRÁ BAHIA (com Odibar), a gravadora imediatamente “captou a mensagem” e PAULO DINIZ voltou com tudo.Virou o “cara da hora”, na ocasião. Vale ressaltar que a letra continha um erro gramatical (?) de “inglês”: “I don’t want to stay here/I WANNA TO go back to Bahia”. No caso ou se usa “I WANT TO ou o coloquial, I WANNA.O certo seria “I WANT TO GO BACK TO BAHIA ou I WANNA GO BACK TO BAHIA (aqui,sem o TO). Mas quem ligou ? E ainda hoje,ninguém liga! Afinal,a canção estourou mundo afora e é lembrada sempre. Com erro ou não.

Quase em seguida, outro sucesso instantâneo; UM CHOPP PRÁ DISTRAIR, seria cantada pelo Brasil inteiro tanto o quanto E AGORA,JOSÉ ? (poesia de Drummund) e a clássica PINGOS DE AMOR. Mais tarde viriamO MEU AMOR CHOROU, com sua levada meio bossa, e a sacolejante PONHA UM ARCO-ÍRIS NA SUA MORINGA.PAULO DINIZ ainda musicou os poemas DEFINIÇÃO DO AMOR (Gregório de Matos), VERSOS ÍNTIMOS (Augusto dos Anjos),ESSA NEGA FULÔ (Jorge de Lima)  VOU-ME EMBORA PRÁ PASÁRGADA (Manuel Bandeira). Nenhuma tão bem sucedida quanto “E AGORA,JOSÉ ?

PAULO DINIZ fazia uma MPB competente, próxima do “pop”. Músicas agradáveis de melodias e letras bem amarradas. Se não era genial ou nada espetacular, era um trabalho de qualidade, longe da vulgaridade e com marca pessoal. Tanto que intérpretes como Clara Nunes,Emílio Santiago,Simone,Kid Abelha e muitos outros,gravaram e regravaram suas criações.

Acometido por uma “estranha” doença,que paralizou seus membros inferiores, obrigando-o à “cadeira-de- rodas”, PAULO DINIZ voltou à residir em Recife e continua na ativa. Ainda outro dia,no Centro Santos Dumont, após terminar seus exercícios na piscina,confessou que o fato de se apresentar em cadeira-de-rodas, dificultava sua mobilidade, razão pela qual era pouco requisitado para shows. Mas ele não desiste. Que eu lembre,em 2009 PAULO DINIZ esteve no Festival de Inverno de Garanhuns. Botou o público nas mãos e a concorrência no chinelo.

A velha “inveja” característica da concorrência local, explica a pouca citação ao artista pernambucano em sua terra. Na época,criticava-se sua referência à Bahia (vide o sucesso da canção) e mesmo tendo que explicar-se várias vezes (era um tributo ao Caetano, algo circunstancial), parece que não convenceu, por aqui. O engraçado é que ninguém criticou-o por PONHA UM ARCO-ÍRIS… (citava Hugo Bidê,Ipanema,Simonal etc).

Numa fase em que acumulava sucessivos êxitos nacionais, era até imitado em programas de calouros, respeitado entre seus pares,viu-se brutalmente obrigado à se afastar do cenário, voltando anos depois já sem o mesmo reconhecimento de antes. Mas nada disso tira o humor, o sorriso do rosto de PAULO DINIZ. Nem a má vontade de seus conterrâneos… ao menos é o que se nota em seu semblante. Será mesmo ?

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comentários
  1. andre gustavo disse:

    Rapaz,ao ver esse SS eu fiquei lelé da cuca num dia de sol!Sou fã de PD,o cara era pra ser mais bem reconhecido no cenário da musica brasileira,pela qualidade de sua obra.Isso é lúcido é válido e inserido no contexto:

  2. andre gustavo disse:

    Se for no Neno,a conta sai cara:

  3. andre gustavo disse:

    Essa eu tenho certeza que Arsenio curte:

  4. andre gustavo disse:

    #showdebola:

  5. andre gustavo disse:

    Suingueira da febe:

  6. andre gustavo disse:

    Roberto Carlos fez uma canção para Caetano e PD também:

  7. andre gustavo disse:

    Ao vivo da vitrola!Muito bom:

  8. andre gustavo disse:

    Olha o Mestre aí no FIG.Falando em FIG,já fui um bocado de vezes lá.É muito bom:

  9. andre gustavo disse:

    Vou mimbora pro Feissibuqui.Lá sou amigo de Edgar,Domingão e John,KKKKKKKKK.Fui!:

  10. EDGAR MATTOS disse:

    Erguendo a mão, como fazem os bons alunos, peço ao Mestre maiores explicações para esse: “viu-se brutalmente afastado do cenário”. Quanto ao mais, duas reflexões: se no rádio pernambucano se continuasse a demitir quem pronuncia mal palavras ou comete grosseiros erros de português, quem restaria para apagar a luz ? Já o erro em inglês, resultou em sucesso !
    No mais, destacar o excelente texto. Seria muito bom que ele chegasse ao conhecimento do Paulo Diniz !

  11. EDGAR MATTOS disse:

    Em tempo: não posso deixar de comentar sobre o nome desse parceiro que, como diria o macado Simão, é uma piada pronta: ODIBAR não é nome, é atestado de residência !
    Quanto àquele “brutalmente arrancado do cenário”, duas suposições:
    a) estava participando de passeata de grevistas em frente ao Campo das Princesas:
    b) ou estava na social dos Aflitos vaiando o Náutico.

  12. João Carlos disse:

    Mestre, estou me referindo ao “acidente” que levou-o à cadeira-de -rodas. Ele estava bem,de repente teve um troço e pimba. Passou mal e não pode mais andar. Certamente ficou psicologicamente abalado e só voltou bem recentemente.

  13. EDGAR MATTOS disse:

    Então, você e ele, desculpem-me a brincdeira…

  14. JC, parabens, sou fã de Paulo Diniz, onde no carro sempre levo um cd dele. Acho que o mesmo nasceu em MIMOSO, aquele povoado que o trem passava la e fica na divisa de Arcoverde e Pesqueira, porem mimoso pertence a Pesqueira e tenho quase lembranças que um dos LPS do Paulo Diniz a capa é a famosa SERRA DE MIMOSO.
    Mestre, não sei se é pedir muito, mais espero que nos proximos encontros de sábados, venha um LUIZ GONZAGA, afinal, cem anos do nascimento do rei, merece uma bela homenagem.
    Parabens, por cada sábado superar-se.

  15. Arsenio Meira Junior disse:

    Johnny, lembro-me de que ouvia religiosamente Paulo Diniz. Quase todos os dias. O seu artigo e vídeos do nosso André trouxeram-me essa saboraosa lembrança. As músicas que ele fez para os clássicos poemas, por todos os motivos, fazem de Paulo Diniz um craque da MPB.
    Valeu, Johnny. Abraço para todos
    Arsenio

  16. João Carlos disse:

    Eita OSVALDO falar o que de Gonzagão que todo mundo não saiba ? A gente inventa ? KKKK.
    E Arsênio mais uma vez ensolarou o SS. THE MAN IS BACK! GM Edgar é presença garantida e inspiração sempre! E vamps nós com Domingão e o VJ Categoria André!

  17. JC, tem uma maneira diferente de escrever,tou falando de coração, de verdade, seu estilo
    é totalmente diferente, e nos cativa cada vez mais.

  18. Magna disse:

    Eita, João, curti demais Paulo Diniz. Aqui ainda repousam dois discos dele com as faixas por você citadas. Pena eu não ter mais um toca-discos decentes para pôr meus vinis para alegrar a casa.
    Foram músicas marcantes nas reuniões familiares. Casa cheia de primos, todos distante de Pasárgada, vindos lá de Piripiri, ou seja, tinham vindo de longe e estavam todos cansados…muito amor dentro do peito, pouca coisa na sacola…cantando no peito: I want to go back to ‘Ceará’.
    Enfim, mais um SS pra ficar no coração! Obrigada, maestro!
    Abração a todos!
    Magna

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