A Vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Publicado: 10/03/2012 em Poesia

Drive (EUA, 2011)

 

Ação, 100 min. Cotação: 8/10.

 

Na semana passada (e com muito atraso), entrou em cartaz nos cinemas do Brasil este filme vencedor do prêmio de direção no Festival de Cannes 2011 e por lá bastante elogiado (o lançamento estava previsto para 6/1, mas trataram de mudar, visando o Oscar). Como o título revela, envolve carro e, naturalmente, ação. Mas não pense que é só adrenalina por adrenalina, a exemplo de um “Velozes e Furiosos” da vida. Diferentemente da maioria dos filmes banais nessa toada, tudo que é feito aqui tem um propósito.

 

Com uma pegada neo-noir, Drive nos conta a história de um motorista (vivido por Ryan Gosling) super talentoso, que trabalha durante o dia numa oficina e também como dublê. À noite, pilota para criminosos em assaltos. Em momento algum conhecemos o seu nome. Sabemos apenas que ele é mecânico dessa oficina há mais de 5 anos. Figura de poucas palavras, ao se mudar para um prédio, acaba conhecendo Irene (Carey Mulligan), sua vizinha, e fica interessado nela. Também devenvolve uma amizade com o filho, um garotinho de 10, 11 anos.

 

Aparece um entrave nessa relação quando o marido de Irene, Standard (Oscar Isaac), sai da cadeia e volta para casa. Ele corre risco de vida por dever uma grana a criminosos. Contrariando as expectativas, o protagonista se torna amigo dele e decide ajudá-lo a se livrar disso. É a partir daí que o personagem central entra numa arapuca, tendo a vida ameaçada. Ainda tem espaço para Albert Brooks brilhar, no melhor momento de sua carreira, como um ex-produtor de filmes B nos anos 80, que decide patrocinar o nosso condutor, mas vai muito além, colocando fogo na história.

 

Drive me fez lembrar David Cronenberg pela violência gráfica, os vários banhos de sangue. E a aparente solidão do herói remete a Travis Bickle, de “Taxi Driver” (que contava com Brooks no elenco). Mas o personagem de Gosling é ainda mais introspectivo que o interpretado por Robert De Niro. Não dá para imaginar que a calma do rapaz pode, em questão de segundos, se tornar ira. E isso fica evidenciado em duas cenas: uma no bar e a última do elevador. Já no escorpião presente em sua indumentária, se nota um pouco de sua astúcia.

 

Há, ainda, esplêndidas tomadas aéreas de Los Angeles, seus prédios e as tantas highways da cidade. Tudo aliado à poderosíssima trilha de Cliff Martinez, ex-baterista do Red Hot Chili Peppers.

 

Carey Mulligan parece mesmo ser uma atriz que veio para ficar. É charmosa, encantadora e, acima de tudo, de grande talento. E não canso de tecer elogios ao ator do momento, Ryan Gosling. O diretor é o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que começou a realizar longas em meados dos anos 90, porém nunca distribuídos no Brasil. Entretanto, esta é a sua primeira grande chance em Hollywood e revela um diretor com bastante estilo.

 

O projeto inicial era orçado em 60 milhões de dólares e seria estrelado por Hugh Jackman, mas acabou engavetado. De acordo com Nicolas, a escolha para que dirigisse o filme partiu do próprio Ryan. O roteiro é de Hossein Amini e se baseia no livro homônimo de James Sallis, escritor americano conhecido por romances policiais, publicado em 2005 (o autor já anunciou uma nova obra com este mesmo personagem, “Driven”. Com isso, o filme deve ter uma sequência).

 

Preterido no Oscar 2012, quando foi indicado apenas ao prêmio de edição de som, Drive promete ser um dos melhores longas do ano. Fiquem de olho!

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Depois de ler o Houldini, como agora, dá uma vontade danada de sair correndo pro cinema!

  2. Magna disse:

    Taí um filme que não me mobilizaria, Houldine, para ir ao cinema. Você consegue com sua escrita, como disse João, dar vontade de assistir. Há pouco fui chamada ao cinema, iremos tentar hoje à tarde. As opções que me deram foram comédias, pela necessidade de rir dos meus acompanhantes. Vamos ver o que consigo.
    Agora, gostaria de saber sua opinião sobre o filme iraniano A Separação. Assisti semana passada na Fundação e ainda está em cartaz. Denso, forte mesmo, por isso dá pano pras mangas em termos de comentários. Um caleidoscópio de lições. Vale a pena ser referenciado.
    Abraços.
    Magna

  3. Houldine disse:

    João,

    “Drive” vale realmente a pena. Tem uma narrativa lenta, mas a tensão está sempre no ar.

    Magna,

    Ainda não vi “A separação”, mas pretendo vê-lo ainda nessa semana. E depois do teu comentário positivo, é mais um motivo para assistir.

    Abraços.

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