Uma análise sobre Hitchcock. Para o mestre Houldine.

Publicado: 04/03/2012 em Poesia

Estava lendo um livro sobre estratégias corporativas. Muito bom sinal e ainda estou em pleno exercício da sua leitura. Mas ao chegar às páginas 54 e 55 , o autor analisa como era o trabalho de Alfred Hitchcock. Na hora me lembrei de Houldine e transcrevo aqui este trecho do livro em sua homenagem , aos seus belos comentários e a todos os amantes do cinema:

Observar o diretor de cinema Alfred Hitchcock (1899-1980) trabalhando em um set de filmagem  era quase sempre uma surpresa e tanto para quem via isso pela primeira vez. A maioria dos cineastas é novelo de energia retesada, gritando com a equipe, vociferando ordens, mas Hitchcock ficava sentado na sua cadeira, às vezes cochilando, ou pelo menos com os olhos semicerrados. No set de Pacto Sinistro, produzido em 1951, o ator Farley Granger achou que o comportamento de Hitchcock significava que ele estava zangado ou aborrecido e lhe perguntou se alguma coisa estava errada. “Oh”, Hitchcock  respondeu sonolento , “estou tão entediado.” As queixas da equipe , as explosões de mau humor de um ator – nada o perturbava; ele apenas dava um bocejo, mudava de posição na cadeira e ignorava o problema. “Hitchcock… não parecia estar nos dirigindo”, disse a atriz Margaret Lockwwod. “Ele era um Buda sonolento, balançando a cabeça com um sorriso enigmático no rosto”.

Era difícil para os colegas de Hitchcock compreenderem como um homem fazendo um trabalho tão estressante podia permanecer tão calmo e desapegado. Alguns pensavam que era parte de seu caráter – que havia nele uma espécie de sangue-frio. Outros achavam que era um recurso para chamar atenção, que ele estava fingindo. Poucos suspeitavam da verdade: antes mesmo de começar a filmagem, Hitchcock teria se preparado para ela com tanta atenção aos detalhes que nada podia dar errado. Ele estava totalmente no controle; nenhuma atriz temperamental, nenhum diretor de arte em pânico, nenhum produtor metido poderia perturbá-lo ou interferir em seus planos. Com absoluta segurança no que havia montado, ele podia dar-se ao luxo de se recostar na cadeira e pegar no sono.

O processo de Hitchcock começava com um storyline , fosse o de um romance ou uma ideia sua. Como se tivesse um projetor na cabeça, ele começava a visualizar o filme. Em seguida, começava a se reunir com um escritor, que logo perceberia que seu trabalho era diferente de qualquer outro. Em vez de pegar a ideia incompleta de algum produtor e transformá-la em um roteiro de cinema,o escritor estava ali simplesmente para colocar no papel o sonho capturado na mente de Hitchcock. Ele ou ela acrescentaria carne e osso aos personagens e escreveriam, é claro, os diálogos, mas quase nada além disso. Quando Hitchcock se sentou com o escritor Samuel Taylor na primeira reunião para o roteiro do filme Um corpo que cai (1958) , suas descrições de várias cenas eram tão vívidas, tão intensas, que as experiências pareciam quase terem sido reais ou talvez algo com que ele havia sonhado. Esta totalidade de visão excluía o conflito criativo. Como Taylor logo observou, embora fosse o escritor do roteiro, ele continuaria sendo uma criação de Hitchcock.

Uma vez terminado o roteiro, Hitchcock o transformaria em um elaborado plano de filmagem. Blocos, posições de câmera, iluminação e dimensões do set eram explicados em notas detalhadas. A maioria dos diretores se permite certa liberdade de ação, filmando cenas de vários ângulos, por exemplo, para dar ao editor opções para trabalhar mais tarde. Hitchcock, não: ele editava essencialmente o filme inteiro no plano de filmagem. Ele sabia exatamente o que queria e anotava. Se um produtor ou ator tentasse acrescentar ou mudar uma cena, Hitchcock se mostrava cordial – podia dar-se o luxo de fingir que estava escutando – mas por dentro não arredava pé.

Nada era deixado ao acaso. Para a construção dos sets (bastante elaborados em um filme como Janela indiscreta) , Hitchcock apresentava ao diretor de produção cópias heliográficas precisas, plantas baixas, listas incrivelmente detalhadas de figurantes. Ele supervisionava todos os aspectos da construção dos sets. Era particularmente atento às roupas de suas atrizes principais: segundo Edith Head, figurinista de muitos filmes de Hitchcock, entre Disque M para matar, em 1954 , “Havia uma razão para cada cor, cada estilo, e ele tinha certeza absoluta de tudo que decidia. Para uma cena ele viu [ Grace Kelly ] de verde-claro, para outra de chiffon branco, em outra ainda, de dourado. Ele estava realmente realizando um sonho no estúdio”. Quando a atriz Kim Novak se recusou a usar um tailleur cinza em Um corpo que cai , achando que ia ficar com uma aparência desbotada, Hitchcock lhe disse que queria que ela parecesse uma mulher misteriosa, recém-saída da névoa de San Francisco. O que ela poderia dizer diante disso? Ela usou o tailleur.

Os atores de Hitchcock estranhavam mas gostavam de trabalhar com ele. Alguns dos melhores de Hollywood – Joseph Cotten, Grace Kelly, Cary Grant, Ingrid Bergman – diziam que ele era o diretor mais fácil de trabalhar: sua despreocupação era contagiante, e visto que seus filmes eram cuidadosamente encenados de modo a não dependerem da performance do ator em nenhuma cena em particular, eles podiam relaxar. Tudo funcionava como um relógio. Como James Stewart disse ao elenco de O homem que sabia demais (1956), “Estamos nas mãos de um especialista, aqui. Vocês podem confiar nele. É só fazer tudo que ele manda e sai tudo bem.”

Enquanto Hitchcock sentava-se calmamente no set , parecendo cochilar, o elenco e a equipe podiam ver apenas a pequena parte que cada um representava. Não tinham ideia de como tudo se encaixaria na visão dele. Quando Taylor viu Um corpo que cai pela primeira vez, foi como ver o sonho de outro homem. O filme reproduzia exatamente a visão que Hitchcock havia lhe expressado muitos meses antes.

Roberto Greene- in 33 Estratégias de Guerra – pgs 54 e 55 – Editora Rocco.

 

 

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comentários
  1. Houldine disse:

    Muito bacana, Domingos. Não à toa, o homem é reverenciado até hoje. Hitchcock mostrava que planejamento é tudo. Era um grande gênio, um visionário.

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