Arquivo de fevereiro, 2012

Leo Buscaglia. Simplesmente genial.

Publicado: 13/02/2012 em Poesia


Era uma vez uma folha, que crescera muito. 
A parte intermediária era larga e forte, as cinco pontas
eram firmes e afiladas.

Surgira na primavera, como um pequeno broto num galho 
grande, perto do topo de uma árvore alta.

A Folha estava cercada por centenas de outras folhas,
iguais a ela. Ou pelo menos assim parecia. Mas não demorou
muito para que descobrisse que não havia duas folhas iguais,
apesar de estarem na mesma árvore. Alfredo era a folha mais
próxima. Mário era a folha à sua direita. Clara era a linda folha
por cima. Todos haviam crescido juntos. Aprenderam a dançar à
brisa da primavera, esquentar indolentemente ao sol do verão,
a se lavar na chuva fresca.

Mas Daniel era seu melhor amigo. Era a folha maior no galho e
parecia que estava lá antes de qualquer outra. A Folha achava
que Daniel era também o mais sábio. Foi Daniel quem lhe contou
que eram parte de uma árvore. Foi Daniel quem explicou que
estavam crescendo num parque público. Foi Daniel quem revelou
que a árvore tinha raízes fortes, escondidas na terra lá embaixo.
Foi Daniel quem falou dos passarinhos que vinham pousar no
galho e cantar pela manhã. Foi Daniel quem contou sobre o sol,
a lua, as estrelas e as estações.

 

A primavera passou. E o verão também.

Fred adorava ser uma folha. Amava o seu galho, os amigos,
o seu lugar bem alto no céu, o vento que o sacudia, os raios do sol
que o esquentavam, a lua que o cobria de sombras suaves.

O verão fora excepcionalmente ameno. Os dias quentes e
compridos eram agradáveis, as noites suaves eram serenas
e povoadas por sonhos.

Muitas pessoas foram ao parque naquele verão. E sentavam sob
as árvores. Daniel contou à Folha que proporcionar sombra era
um dos propósitos das árvores.

– O que é um propósito? – perguntou a Folha.

– Um razão para existir – respondeu Daniel. – Tornar as coisas
mais agradáveis para os outros é uma razão para existir. Proporcionar sombra aos velhinhos que procuram escapar do
calor de suas casas é uma razão para existir.

A Folha tinha um encanto todo especial pelos velhinhos.
Sentavam em silêncio na relva fresca, mal se mexiam. E quando
conversavam eram aos sussurros, sobre os tempos passados.

As crianças também eram divertidas, embora às vezes abrissem
buracos na casa da árvore ou esculpissem seus nomes.
Mesmo assim, era divertido observar as crianças.

Mas o verão da Folha não demorou a passar.

E chegou ao fim numa noite de outubro. A Folha nunca sentira
tanto frio. Todas as outras folhas estremeceram com o frio.
Ficaram todas cobertas por uma camada fina de branco,
que num instante se derreteu e deixou-as encharcadas
de orvalho, faiscando ao sol..

Mais uma vez, foi Daniel quem explicou que haviam
experimentado a primeira geada, o sinal que era outono
e que o inverno viria em breve.

Quase que imediatamente, toda a árvore, mais do que isso, 
todo o parque, se transformou num esplendor de cores.
Quase não restava qualquer folha verde. Alfredo se tornou
um amarelo intenso. Mário adquiriu um laranja brilhante.
Clara virou um vermelho ardente. Daniel estava púrpura.
E a Folha ficou vermelha, dourada e azul. Todos estavam lindos.
A Folha e seus amigos converteram a árvore num arco-íris.

– Por que ficamos com cores diferentes, 
se estamos na mesma árvore? – perguntou a Folha.

– Cada um de nós é diferente. Tivemos experiências diferentes.
Recebemos o sol de maneira diferente. Projetamos a sombra de
maneira diferente. Por que não teríamos cores diferentes?

Foi Daniel, como sempre, quem falou. E Daniel contou ainda que aquela estação maravilhosa se chamava outono.

E um dia aconteceu uma coisa estranha. A mesma brisa que,
no passado, os fazia dançar começou a empurrar e puxar suas
hastes, quase como se estivesse zangada. Isso fez com que
algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela
brisa, reviradas pelo ar, antes de caírem suavemente ao solo.

Todas as folhas ficaram assustadas.

– O que está acontecendo? – perguntaram 
umas às outras, aos sussurros.

– É isso que acontece no outono – explicou Daniel – 
É o momento em que as folhas mudam de casa.
Algumas pessoas chamam isso de morrer.

– E todos nós vamos morrer? – perguntou Folha

– Vamos sim – respondeu Daniel – Tudo morre. 
Grande ou pequeno, fraco ou forte, tudo morre.
Primeiro cumprimos a nossa missão.
Experimentamos o sol e a lua, o vento e a chuva.
Aprendemos a dançar e a rir. E, depois morremos.

– Eu não vou morrer! – exclamou Folha, com determinação – 
Você vai, Daniel?

– Vou sim… Quando chegar meu momento.

– E quando será isso???

– Ninguém sabe com certeza. – respondeu Daniel

A Folha notou que as outras folhas continuavam a cair.
E pensou: “Deve ser o momento delas.” Ela viu que algumas
folhas reagiam ao vento, outras simplesmente se entregavam
e caíam suavemente

Não demorou muito para que a árvore estivesse quase despida.

– Tenho medo de morrer. – disse Folha a Daniel – 
Não sei o que tem lá embaixo.

– Todos temos medo do que não conhecemos. Isso é natural. 
– disse Daniel para animá-la – Mas você não teve medo quando a
primavera se transformou em verão. E também não teve medo
quando o verão se transformou em outono. Eram mudanças
naturais. Por que deveria estar com medo da estação da morte?

– A árvore também morre? – pergu

– Para onde vamos quando morrermos?

– Ninguém sabe com certeza… É o grande mistério.

– Voltaremos na primavera?

– Talvez não, mas a Vida voltará.

– Então qual é a razão para tudo isso? – insistiu a Folha – 
Por que viemos pra cá, se no fim teríamos de cair e morrer?

Daniel respondeu no seu jeito calmo de sempre:

– Pelo sol e pela lua. Pelos tempos felizes que passamos juntos.
Pela sombra, pelos velhinhos, pelas crianças. Pelas cores do
outono, pelas estações. Não é razão suficiente?

Ao final daquela tarde, na claridade dourada do crepúsculo,
Daniel se foi. E caiu a flutuar. Parecia sorrir enquanto caía.

– Adeus por enquanto. – disse ele à Folha.

E depois, Folha ficou sozinha, a única folha 
que restava no galho.

A primeira neve caiu na manhã seguinte. 
Era macia, branca e suave. Mas era muito fria.
Quase não houve sol naquele dia… E foi um dia muito curto.
A Folha se descobriu a perder a cor, a ficar cada vez mais frágil.
Havia sempre frio e a neve passava sobre ela.

E quando amanheceu veio vento que arrancou a Folha de seu
galho. Não doeu. Ela sentiu que flutuava no ar, muito serena.

E, enquanto caía, ela viu a árvore inteira pela primeira vez.

Como era forte e firme! Teve a certeza de que a árvore viveria por
muito tempo, compreendeu que fora parte de sua vida.
E isso deixou-a orgulhosa.

A Folha pousou num monte de neve. Estava macio, até mesmo
aconchegante. Naquela nova posição, Folha estava mais
confortável do que jamais se sentira. Ela fechou os olhos e
adormeceu. Não sabia que a primavera se seguiria ao inverno,
que a neve se derreteria e viraria água. Não sabia que a
folha que fora, seca e aparentemente inútil, se juntaria
com a água e serviria para tornar a árvore mais forte.
E, principalmente, não sabia que ali, na árvore e no solo,
já havia planos para novas folhas de primavera.

Léo Buscaglia

 

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Amadoristicamente não posso recomendar. Ou posso?

Mas só posso dizer se gosto ou não de um filme se for vê-lo.

E gostei muito. Fui com a reca toda. E todos gostaram.

Não entendo de roteiros, tomada de câmeras, estilos de cineastas, não não sou um especialista.

Fica para o broda Houldine.

Mas, parafraseando o caçula Edgar, entendo um pouco do bicho homem e suas misérias.

Do resto não entendo nada.

E vi Abileen ou sei lá como se escreve Abe  entrar no livro A Hora da Estrela de Clarice Lispector e virar Macabéa.

Vi todo aquele Mississipi ser o Nordeste e juro que vi Gilberto Freyre e os milhares de nordestinos que construíram São Paulo.

Porque o racismo é o mesmo em todos os lugares deste mundo belo e doente.

Mudam-se as placas, as línguas, as formas, mas o conteúdo e a dor fedem da mesma forma.

A cena de Constantine, velhinha, depois de doar a vida a uma família e ser despedida por receber a filha pela porta da frente, quando as madames de cor branca não permitiam… a sua mãe no vidro da porta… vidas secas. Graciliano Ramos redivivo.

Many ou mani ou sei lá. A mulher de fibra que faz uma bela torta e presenteia uma das KKK do filme com uma bela torta recheada de merda e a faz comer é impagável. E deixa o marido e salva-se e aos filhos. Nordestemor puro.

O racismo como explicado anos depois por Danilo Gentili , alguns posts atrás é isso aí mesmo. O politicamente correto que não faz outra coisa senão encobrir a ferida da humanidade.

E a solução que não há.

A não ser com palavras brandas que conseguem destroir até ossos.

Sim, eu vi poesia no filme.

E disse eu talvez entenda um pedacinho de nada.

E quando eu vejo poesia com toda a minha família reunida e alguns amigos eu ganhei meu domingo.

E continuo acreditando na humanidade.

Mesmo que tenha rir de uma torta recheada do antídoto contra a heresia branca.

Que pode ser de qualquer cor também.

Porque no final.

Não há santos.

Nem vencidos.

Nem heróis.

Se eu recomendo o filme?

Vá para poder opinar.

E mais não digo.

O Oscar?

Tem uma Dama de Ferro favoritíssima.

E a Academia? Sabe tudo…

Sindicalista compara concessão de aeroportos ao sistema elétrico: “Tá cheirando mal”

O presidente do Sindicato Nacional dos Aeroportuários (SINA), Francisco Luiz Xavier de Lemos, está convidando a mídia brasileira a visitar o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, para descobrir quanto a empresa concessionária, a Corporação América, investiu de dinheiro próprio na melhoria da infraestrutura. A empresa é a mesma que venceu recente leilão para administrar o aeroporto de Brasília. Lemos comparou a concessão dos três principais aeroportos brasileiros à privatização do sistema elétrico. Segundo ele, o dinheiro investido foi do BNDES, o que permitiu aos empresários lucrar sem arriscar capital. Ele diz que, ao retirar do controle da Infraero os três aeroportos mais lucrativos, o governo Dilma colocou em jogo o futuro de todo o sistema, no qual os aeroportos lucrativos bancavam os deficitários.

Nós entendemos que a palavra não muda o sentido da coisa. O governo chama de concessão, mas nós entendemos que concessão é uma privatização disfarçada.

Viomundo: Então, a semântica para você não importa…

Não. De forma alguma. Acho que concessão, privatização… quando você entrega ou a responsabilidade ou o patrimônio do estado você está privatizando algo que deveria estar na mão e sob responsabilidade do estado brasileiro.

Viomundo: O estado brasileiro precisa tocar aeroporto, você considera estratégico?

Considero, sim. Eu acredito que 85% dos aeroportos do mundo é o estado que administra, por diversos fatores. Apenas 15% está nas mãos da iniciativa privada. Destes 15% que está na mão da iniciativa privada diversos exemplos são negativos. Há realmente alguns aspectos localizados positivos, eu não nego. Mas há principalmente a falta de investimento. Para você ter uma ideia o aeroporto de Ezeiza, aqui do lado, em Buenos Aires, quando foi privatizado… grandes aeronaves como o 747-777 e o 767-400, que pousavam em Guarulhos e seguiam de manhã para Buenos Aires para terminar o vôo, as próprias companhias de seguro das aeronaves começaram a cobrar mais caro, porque fez uma avaliação do aeroporto de Buenos Aires. Depois de privatizado ele não teve os investimentos necessários e consequentemente aumentou o risco até de acidente aéreo.

Viomundo: O estado não deveria se concentrar em saúde, educação, segurança pública e deixar os aeroportos para a iniciativa privada?

Você está falando na questão de saúde e segurança. O setor elétrico foi privatizado com a essa pretensão de que a iniciativa privada melhoraria, iria investir, enfim. O que está acontecendo? Os transformadores do Rio de Janeiro, transformadores de subsolo que deveriam ser de superfície… não fizeram os investimentos necessários, precarizaram demais a mão de obra, ou seja, terceirização, quarteirização, descaso com a legislação trabalhista. E acabou criando problemas terríveis. De vez em quando cai um disjuntor no setor elétrico e deixa a gente no escuro. Pergunto eu a vocês: no setor aéreo, o que é que cai? Não é disjuntor, cai avião. Até mesmo porque 95% dos acidentes aéreos no mundo, até hoje na história da aviação, ocorrem no processo de pouso ou decolagem e a infraestrutura aeroportuária, seja em equipamento, em pessoal, em condições de pista, em sinalização tem muito a ver com todas as investigações desses acidentes que ocorreram no mundo. Apenas 5% dos acidentes aéreos no mundo ocorrem em vôo de cruzeiro, como o caso da Air France, a não ser nisso todos têm a ver com as condições da infraestrutura aeroportuária.

Viomundo: Foi dito que a Infraero vai continuar cuidando de tudo. Basicamente o que os concessionários vão fazer é cuidar das lojinhas. É verdade?

A gente criou uma cláusula de barreira no edital para que não ocorresse o que aconteceu com o setor de telecomunicações ou com o setor elétrico, deles terceirizarem ou quarteirizarem o serviço final com qualquer empresa, o que colocaria em risco muito grande a operação de vôo e de transporte aéreo desse país. Para evitar isso, nós conseguimos negociar com o governo e colocar no edital que para o serviço básico do aeroporto tem de ser funcionário direto da concessionária, ou seja, vai ter de contratar mão-de-obra direta, treinar essa mão-de-obra e administrar. Com uma exceção: a concessionária poderá contratar a Infraero, que é sócia e já tem experiência na questão operacional para cuidar dessas atividades fins, e aí a Infraero seria remunerada à parte da lucratividade, porque ela é sócia. Há uma possibilidade de que a Infraero continue tocando as atividades-fim, ou seja, operações, segurança, carga áerea, isso ficaria na mão do estado e evidentemente a área comercial a gente encara como operação secundária. A área comercial poderia ficar até com a administração da concessionária, desde que o funcionário seja contratado diretamente da concessionária.

Viomundo: Por que somente os três principais aeroportos, justamente os mais lucrativos? E os outros?

Pois é. A questão dessas privatizações é que toda a rede Infraero que é composta por 67 aeroportos, 83 grupamentos de navegação aérea, diversos terminais de carga, tudo isso é garantido sem aporte nenhum do governo, é tudo com recurso próprio, da própria Infraero. E só 12 aeroportos brasileiros são lucrativos. Até mesmo por conta de que a Infraero utiliza o modelo da federação brasileira. Nem todos os estados da federação são superavitários. Estados dessa federação são subsidiados por estados como São Paulo, que deve subsidiar um monte de repasses para outros estados que não tem renda. A Infraero funciona desse jeito. Essa pergunta deve ser feita à presidente Dilma. Ela que tem que dar conta de como ela tira os três grandes, lucrativos, do sistema… e os outros aeroportos, vai entregar o que, a municipalização, a estadualização? Ou o governo vai ter de deslocar recursos da educação, da saúde? Não podem negar… que Teresina, no Piauí, fique sem aeroporto ou com aeroporto precário. Teresina faz parte da federação brasileira, do estado brasileiro e tem de ser subsidiado por alguém.

Viomundo: Mas o argumento é de que com a bolada de dinheiro que vai entrar agora o Brasil enfim terá dinheiro para investir nos aeroportos deficitários…

De forma alguma, de forma alguma. Primeiro que o estado não é banco, não é corretora, não tem de ficar comemorando ágio nenhum, lucro nenhum. Estado, na minha concepção do que é estado, tem de comemorar o resultado de satisfação em bem estar da sociedade que ele representa. Eu acho que é balela dizer que esse dinheiro vai para aeroporto. Ainda não está muito claro nessa negociata toda como é que entram os 80% de dinheiro do BNDES, que é dinheiro do estado, para financiar em condições extremamente paternais esse tipo de negócio que foi feito com aeroportos. Tá feia a coisa, na minha opinião a coisa tá muito feia e cheirando mal.

Viomundo: O BNDES financia a concessão a grupos privados dos aeroportos lucrativos…

É o que está acontecendo no setor elétrico. É só vocês investigarem. O investimento dos próprios grupos, dos próprios recursos, esse não tá vindo, não. A hora que acabou o dinheiro do BNDES eles estão abandonando tudo. Eles só lucraram. Dinheiro do próprio bolso, do bolso do empresariado, para investimento, esse não está vindo nem aqui e nem na Argentina. Inclusive é o mesmo empresário que privatizou o aeroporto de Brasília. O principal do consórcio. É só vocês darem um pulinho aqui do lado em Ezeiza, dá uma olhada no investimento que foi feito no aeroporto de Buenos Aires. Não foi feito investimento nenhum, nem vai ser feito.

Viomundo: É o mesmo grupo que ganhou a concessão em Brasília.

Exatamente. Interessante fazer uma viagem a Buenos Aires, escutar um tango e ver as condições do aeroporto, como é que tá. É do lado, é pertinho, é um convite que a gente faz à nossa mídia, à mídia investigativa. Evidentemente que vocês vão deparar com uma situação que deve preocupar a sociedade brasileira. O grupo é o mesmo que está assumindo o aeroporto de Brasília. O governo deixou praticamente oito procuradores de plantão na AGU [Advocacia Geral da União] para combater nossos questionamentos judiciais e acredito que a gente deve provocar uma discussão principalmente no Congresso Federal para que seja avaliado mais profundamente o que tem de realmente concreto, de positivo e de negativo nessa história. Nós, do sindicato e da Central Única dos Trabalhadores, nós fizemos… durante quase dois anos a gente encaminhou diversos questionamentos para a opinião pública, a mídia e o governo e muitos desses questionamentos não tiveram resposta até agora, em relação ao que melhora, o que piora, que risco corremos. O sindicato vai continuar mobilizando, alertando a sociedade e fiscalizando muito de perto, mais do que nunca, a segurança da atividade aérea no país.

Viomundo: Outro argumento em favor da concessão é de que a Infraero é uma estatal ineficiente.

Não encaro como estatal ineficiente, não. Eu acho que é uma estatal que tem quase 40 anos de existência, nunca precisou de um centavo do governo para atingir seus objetivos e mantém um padrão de aeroportos, sendo a sua grande maioria deficitária, não acho ineficiência. Ineficiência existe na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), como todas as agências que foram criadas, em seus objetivos, não funcionam. Boa parte, talvez a maior parte dos problemas que temos nos aeroportos é de fiscalização e regulamentação e não é o papel da Infraero, que não tem poder de fiscalizar. Eu acho que só vai melhorar a operacionalidade dos aeroportos quando mudar o procedimento operacional e a agência funcionar. Aliás, nenhuma delas funciona. Nem ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), nem ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações), nem ANAC, eu não vejo eficiência em agência regulamentadora deste país, nenhuma. A gente passaria muito bem sem essas agências.

Histórias Cruzadas (The Help) Cotação: **1/2

Drama, 147 min.

 

Lançado em fevereiro de 2009, “The Help” (“A Resposta”, no Brasil) foi um grande sucesso de vendas. O livro de Kathryn Stockett aborda as relações entre mulheres brancas e negras em sua cidade natal, Jackson, capital do Mississipi, no começo dos anos 60, durante a luta pelos Direitos Civis. Como uma forma de homenagear uma empregada negra responsável por sua criação, ela decidiu escrevê-lo.

Não demorou muito tempo para que fosse adaptado ao cinema. E o responsável por tudo isso é seu amigo de infância, Tate Taylor, até então desconhecido do grande público (desempenhou pequenos papéis em alguns filmes, o mais recente deles foi “Inverno da Alma”). Tate dirigiu e elaborou o roteiro (conta-se que foi uma exigência de Kathryn para vender os direitos da obra).

Produzido pela Dreamworks, Histórias Cruzadas é quase um conto de fadas às avessas. O filme traz a (sempre) complicada questão racial nos Estados Unidos exatamente através de uma atmosfera idílica. Na trama, Skeeter (Emma Stone) é uma jovem jornalista que difere das demais de sua terra não só por ser solteira e nunca ter namorado, mas especialmente por decidir em segredo escrever um livro que trouxesse o ponto de vista das empregadas domésticas negras acerca das patroas brancas. Algo de extrema ousadia para o local e época.

É a partir disso que conheceremos o drama de algumas das personagens, boa parte delas são tipos. Aibileen Clark (Viola Davis), que trabalha há anos para uma família tradicional; Minny (Octavia Spencer), também doméstica, figura excêntrica e bem-humorada; Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), a líder da alta sociedade, cheia de falsidade e preconceito; Celia Foote (Jessica Chastain), mulher tola e bem intencionada. Fazendo jus ao título recebido por aqui, essas histórias vão se entrelaçar, de um jeito ou de outro.

O filme tem vários momentos constrangedores, sobretudo no que confere às atuações, um festival de caricaturas, ficando difícil dizer qual delas é a mais exagerada. A começar por Chastain, boa atriz, mas aqui se resume a “miados”. Outro absurdo é Octavia Spencer, que nem precisa fazer tanto esforço para tornar sua composição caricata (é tão over que pode se tornar divertido). A mais contida delas é justamente Viola Davis.

De forma contraditória, as três atrizes citadas estão nomeadas ao Oscar, duas delas (Viola e Octavia) favoritas a vencer. Mas pelo visto, só Miss Davis fez por merecer a indicação. Ela vai além e garante a sua personagem uma humanidade que parece faltar nas demais. Em “Histórias Cruzadas”, ainda estão presentes nomes como o de Sissy Spacek, Mary Steenburgen, Allison Janney e a veteraníssima Cicely Tyson, que não comprometem.

Embora acabe funcionando, o maior maior erro é tratar de forma tão rasa o tema de discriminação. Um fato a se considerar é o acolhimento do povo americano ao filme, que estreou por lá em agosto do ano passado e até agora se encontra em cartaz, mesmo tendo sido lançado em DVD (provavelmente pela importância e força da temática na história daquele país).

Para fazer com que o espectador se envolva, Tate Taylor usa e abusa dos clichês num trabalho claramente direcionado às mulheres, para sensibilizar e com alguns momentos de bom cinema. É uma pena que uma obra com um elenco feminino tão forte seja desperdiçada dessa maneira.

Levitou… aos 48.

Publicado: 11/02/2012 em SAUDADE, Saudade da Porra

Cantora Whitney Houston morre aos 48 anos

Do Portal UOL.
  • Whitney Houston se apresenta em pré-festa de gala do Grammy 2011, em Beverly Hills (12/02/2011)Whitney Houston se apresenta em pré-festa de gala do Grammy 2011, em Beverly Hills (12/02/2011)

A cantora Whitney Houston morreu aos 48 anos neste sábado (11), segundo informações da agência de notícias Associated Press. De acordo com a empresária da cantora, Kristen Foster, as causas da morte e o local em que a artista foi encontrada ainda são desconhecidos.

Ela era considerada a rainha da música pop até que sua voz e imagem foram destruídas pelo uso de drogas e a vida pessoal tumultuada com seu último marido, o cantor Bobby Brown.

No auge, Whitney foi considerada a “garota de ouro” da indústria fonográfica. Entre o meio dos anos 80 e o fim dos anos 90 , ela foi uma das artistas que teve o maior número de vendagens de discos. Ela maravilhava as pessoas com sua voz poderosa, criada na Igreja Batista, mas ao mesmo tempo palatável para o gosto do grande público.

O sucesso a levou da música para o cinema, onde atuou em sucessos como “O Guarda-Costas” e “Falando de Amor”. A cantora influenciou uma geração de cantoras tais como Christina Aguilera e Mariah Carey.

No final de sua carreira, Houston tornou-se célebre por abusar das drogas. As vendas de seus álbuns diminuíram, e sua imagem serena foi abalada por um comportamento violento e aparições públicas bizarras. Ela confessou ter abusado de maconha, cocaína e comprimidos, e sua voz foi ficando cada vez mais rouca, fazendo com que ela não conseguisse atingir as altas notas que a tornaram famosa.

Ela deixa uma filha, Bobbi Kristina, fruto de seu casamento com Bobby Brown. Eles ficaram juntos entre 1992 e 2007.

O humorista Danilo Gentili postou a seguinte piada no seu twitter:

“King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”

A ONG Afrobras se posicionou contra: “Nos próximos dias devemos fazer uma carta de repúdio. Estamos avaliando ainda uma representação criminal”, diz José Vicente, presidente da ONG. “Isso foi indevido, inoportuno, de mau gosto e desrespeitoso. Desrespeitou todos os negros brasileiros e também a democracia. Democracia é você agir com responsabilidade” , avalia Vicente.

Alguns minutos após escrever seu primeiro “twitter” sobre King Kong, Gentili tentou se justificar no microblog:

“Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?” (GENIAL) “Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês é que têm preconceito.”

Mas, calma! Essa não foi a tal resposta genial que está no título, e sim ESTA:

“Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista, pois, assim como os criadores de cachorros, acredita que somos separados por raças. E se acredita nisso vai ter que confessar que uma raça é melhor ou pior que a outra, pois, se todas as raças são iguais, então a divisão por raça é estúpida e desnecessária. Pra que perder tempo separando algo se no fundo dá tudo no mesmo?

Quem propagou a ideia que “negro” é uma raça foram os escravagistas. Eles usaram isso como desculpa para vender os pretos como escravos: “Podemos tratá-los como animais, afinal eles são de uma outra raça que não é a nossa. Eles são da raça negra”.

Então quando vejo um cara dizendo que tem orgulho de ser da raça negra, eu juro que nem me passa pela cabeça chamá-lo de macaco, MAS SIM DE BURRO.

Falando em burro, cresci ouvindo que eu sou uma girafa. E também cresci chamando um dos meus melhores amigos de elefante. Já ouvi muita gente chamar loira caucasiana de burra, gay de v***** e ruivo de salsicha, que nada mais é do que ser chamado de restos de porco e boi misturados.

Mas se alguém chama um preto de macaco é crucificado. E isso pra mim não faz sentido. Qual o preconceito com o macaco? Imagina no zoológico como o macaco não deve se sentir triste quando ouve os outros animais comentando:

– O macaco é o pior de todos. Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos. Ser macaco é uma coisa terrível. Graças a Deus não somos macacos.

Prefiro ser chamado de macaco a ser chamado de girafa. Peça a um cientista que faça um teste de Q.I. com uma girafa e com um macaco. Veja quem tira a maior nota.

Quando queremos muito ofender e atacar alguém, por motivos desconhecidos, não xingamos diretamente a pessoa, e sim a mãe dela. Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?

Mas o que quero dizer é que na verdade não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é? Eu sou um ser humano da cor branca. O japonês da cor amarela. O índio da cor vermelha. O africano da cor preta. Se querem igualdade deveriam assumir o termo “preto” pois esse é o nome da cor. Não fica destoante isso: “Branco, Amarelo, Vermelho, Negro”?. O Darth Vader pra mim é negro. Mas o Bill Cosby, Richard Pryor e Eddie Murphy que inspiram meu trabalho, não. Mas se gostam tanto assim do termo negro, ok, eu uso, não vejo problemas. No fim das contas, é só uma palavra. E embora o dicionário seja um dos livros mais vendidos do mundo, penso que palavras não definem muitas coisas e sim atitudes.

Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: “E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!”. Porém, se eu usar o tom correto e a postura certa ao dizer “Desculpe meu querido, mas já que é um afrodescendente, é melhor evitar sentar aqui. Mas eu arrumo uma outra mesa muito mais bonita pra você!” Sei que receberei elogios dessas mesmas pessoas; afinal eu usei os termos politicamente corretos e não a palavra “preto” ou “macaco”, que são palavras tão horríveis.

Os politicamente corretos acham que são como o Superman, o cara dotado de dons superiores, que vai defender os fracos, oprimidos e impotentes. E acredite: isso é racismo, pois transmite a ideia de superioridade que essas pessoas sentem de si em relação aos seus “defendidos”

Agora peço que não sejam racistas comigo, por favor. Não é só porque eu sou branco que eu escravizei um preto. Eu juro que nunca fiz nada parecido com isso, nem mesmo em pensamento. Não tenham esse preconceito comigo. Na verdade, SOU ÍTALO-DESCENDENTE. ITALIANOS NÃO ESCRAVIZARAM AFRICANOS NO BRASIL. VIERAM PRA CÁ E, ASSIM COMO OS PRETOS, TRABALHARAM NA LAVOURA. A DIFERENÇA É QUE ESCRAVA ISAURA FEZ MAIS SUCESSO QUE TERRA NOSTRA.

Ok. O que acabei de dizer foi uma piada de mau gosto porque eu não disse nela como os pretos sofreram mais que os italianos. Ok. Eu sei que os negros sofreram mais que qualquer raça no Brasil. Foram chicoteados. Torturados. Foi algo tão desumano que só um ser humano seria capaz de fazer igual. Brancos caçaram negros como animais. Mas também os compraram de outros negros. Sim. Ser dono de escravo nunca foi privilégio caucasiano, e sim da sociedade dominante. Na África, uma tribo vencedora escravizava a outra e as vendia para os brancos sujos.

Lembra que eu disse que era ítalo-descendente? Então. Os italianos podem nunca ter escravizados os pretos, mas os romanos escravizaram os judeus. E eles já se vingaram de mim com juros e correção monetária, pois já fui escravo durante anos de um carnê das Casas Bahia.

Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto? Porque foram escravos no passado hoje são café com leite no mundo do humor? É isso? Eu posso fazer a piada com gay só porque seus ancestrais nunca foram escravos? Pense bem, talvez o gay na infância também tenha sofrido abusos de alguém mais velho com o chicote.

Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo “negro” ou “afrodescendente” , tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar. Na minha cabeça, você será apenas preto e eu, branco, da mesma raça – a raça humana. E você nunca me verá por aí com uma camiseta escrita “100% humano”, pois não tenho orgulho nenhum de ser dessa raça que discute coisas idiotas de uma forma superficial e discrimina o próprio irmão.”

D I R E    S T R A I T S

Já comentei que não sou chegado à eleições do tipo “Melhor Isso ou Aquilo”, até porque em música o que mais me agrada é a originalidade, a criatividade. Como apontar o melhor guitarrista ? Hendrix, Santana, Clapton, Harrison, Pepeu, Robertinho, Andy Summers… ? Há tantos e tão bons e “diferentes”.  Isso só no rock. E no jazz, blues, MPB ?  Os fãs de “heavy metal” adoram guitarristas velozes, mil notas por segundo. E daí ? Prá que tanta velocidade e tão pouco “feeling” ? Como são “iguais” os metaleiros ! Um grande guitarrista, além de sua técnica original, toca com o coração mais que com a paleta (ou os dedos). Faz uma canção brilhar intensamente, às vezes com comovente discrição. Abusa de sutilezas mas quando ataca o faz na hora e da maneira certa. O Sr.MARK KNOPFLER é um desses.

DIRE STRAITS, uma das melhores bandas dos anos 80, embora formada por músicos competentes e habilidosos, era na verdade, o grupo de apoio de KNOPFLER. Ele além de fundar e liderar o conjunto, escrevia, arranjava, cantava e tocava suas guitarras em todas as canções do DIRE STRAITS. Todas. E para confirmar isto, basta saber que fora o “baixista”, os demais membros variavam (entrava um saia o outro) quase a cada disco. Pouca gente é capaz de citar o nome de um deles.

Em 1977 Mark Knopfler fundou o grupo, e em meio ao movimento punk e ao ainda vigoroso “rock progressivo”, Sultans od Swing foi acaloradamente recebida como uma ousada novidade. A canção misturava as referências favoritas do músico: uma levada de country rock alicerdada em guitarras límpidas e tonitruantes . Canção que apesar de econômica instrumentalmente não disfarçava o virtuosismo de Knopfler como guitarrista, cantor e compositor. Uma estréia elegantíssima. Vale lembrar que nesse início o DIRE STRAITS era um quarteto com a formação básica do pop: bateria,baixo e duas guitarras (uma delas pilotada pelo irmão de Mark, David Knopfler), portanto,os arranjos eram desenvolvidos com vistas à essa instrumentação reduzida. Apesar de canhoto, o escocês Knopfler tocava como destro e sua técnica baseava-se em seu dedilhado nas cordas, já que não usava “palheta” (ou paleta), proporcionando uma sonoridade peculiar e única que logo chamou a atenção da crítica. O album seguinte, COMMUNIQUÉ mantinha o estilo “menos é mais” da banda mas já em MAKING MOVIES os primeiros sinais da característica sofisticação do grupo começariam à aparecer, especialmente no belo hit Romeu And Juliet com seus violões espanholados e o piano do tecladista recém contratado.Esse disco marcaria a saída do irmão DAVID do conjunto.

LOVE OVER GOLD, disco de 1982, definiria o novo som do DIRE STRAITS. Teclados elegantes (piano,órgão,sintetizadores,xilofones etc) eram realçados pela guitarras e os sublimes violões do artista. A canção título e a balada Private Investigations esbanjavam beleza e magníficos detalhes sonoros. Nessa fase, o DIRE STRAITS já lotava estádios na Europa,América e Japão, shows registrados no album  ALCHEMY, que continha a balançada Twisting By The Pool, lançada antes como “single”.

Por uma série de detalhes significativos, o disco de 1985, BROTHERS IN ARMS já é um capítulo à parte na história da música pop.Foi o disco mais vendido no Reino Unido nos anos 80. Foi o primeiro album lançado no novíssimo formato CD, permanecendo por mais tempo como número 1 nos Estados Unidos. As canções Walk Of Life,Money For Nothing, So Far Away, Your Latest Trick, Why Worry e claro, Brothers In Arms chegaram, cada uma, sucessivamente, aos primeiros lugares nas paradas. E a banda acrescentou mais um tecladista e um saxofonista. Um deleite. Obra prima do conjunto, o album figura entre os melhores da música internacional. BROTHERS IN ARMS foi tão aclamado que ofuscou o disco seguinte, ON EVERY STREET, uma pérola pouco notada que continha a deliciosa Calling Elvis, uma das mais competentes e instigantes execuções que já ouvi. Os quase 6 anos que separaram este disco do anterior foram preenchidos pelas excursões mundiais na esteira do Brothers In Arms.

Sem muito estardalhaço o DIRE STRAITS chegou ao fim em 1994. MARK KNOPFLER que,paralelo ao trabalho com o grupo vinha produzindo trilhas sonoras para o cinema (entre estas as lindíssimas canções do filme LOCAL HERO), continuou e continua na ativa com seus trabalhos solos,a maioria de excelente qualidade. Mas entenda-se um mundo desses ? O que é uma marca,um nome ? Eu comecei este post afirmando que o Dire Straits era Mark Knopfler. E é verdade. Só que, para os fãs, Mark Knopfler não conseguiu ser o DIRE STRAITS. E como a letra daquele samba-erudito, dos fãs, “só ficaram eu!”. Será ?



É toitiço essa ZAZ. O cara do celo , ou será baixo, ou violoncelo , que danado é isso João Carlos de Mendonça?
Não conhecia a moça , mas lembrou o começo de Chico Science.
Cantadores e tocadores de rua me fascinam.
Será este o meu fim?
Em plena ponte Duarte Coelho?
AMÉM !!!!!!!!!!!!!!!!!!

A pedidos:

Torpedaço de Magna Santos.

Publicado: 10/02/2012 em Magna Santos

PROBLEMA OU SOLUÇÃO

 

Era 1933. Eu havia sido demitido de meu emprego de meio expediente e não podia mais contribuir para a despesa familiar. Nossa única renda era o que mamãe conseguiu ganhar fazendo roupas para os outros.

Então mamãe ficou doente durante algumas semanas e incapaz de trabalhar. A companhia elétrica veio e cortou a força quando não conseguimos pagar a conta. Depois foi a companhia de água. Mas o Departamento de Saúde os fez religar a água por motivos sanitários. A despensa ficou quase vazia. Felizmente, tínhamos uma pequena horta e podíamos cozinhar os legumes numa fogueira no quintal.

Um dia minha irmã mais nova veio saltitante da escola para casa dizendo:

– Amanhã temos que levar para a escola alguma coisa para dar aos pobres.

Mamãe começou a esbravejar dizendo:

– Não conheço ninguém mais pobre do que nós!

Mas a mãe dela, que estava morando conosco na época, a fez calar, franzindo as sobrancelhas e tocando-lhe o braço:

– Eva – disse -, se você passar para uma criança a idéia de que ela é “pobre” com essa idade, ela será “pobre” para o resto da vida. Sobrou um pote daquela geléia caseira. Ela pode levar aquilo.

Vovô achou um pedaço de papel de seda e um pedacinho de fita cor-de-rosa com os quais embrulhou nosso último pote de geléia e minha irmã foi saltitando para a escola no dia seguinte levando orgulhosamente seu “presente para os pobres”.

E, para sempre depois disso, se havia um problema na comunidade, minha irmã naturalmente presumia que ela deveria ser parte da solução.

 

Edgar Bledsoe

Poemaço de Cora Coralina.

Publicado: 10/02/2012 em Poesia

 

“Humildade”

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.”

Cora Coralina

Poemaço de Carlos Pena Filho.

Publicado: 10/02/2012 em Poesia

Soneto oco

Carlos Pena Filho

Neste papel levanta-se um soneto,
de lembranças antigas sustentado,
pássaro de museu, bicho empalhado,
madeira apodrecida de coreto.

De tempo e tempo e tempo alimentado,
sendo em fraco metal, agora é preto.
E talvez seja apenas um soneto
de si mesmo nascido e organizado.

Mas ninguém o verá? Ninguém. Nem eu,
pois não sei como foi arquitetado
e nem me lembro quando apareceu.

Lembranças são lembranças, mesmo pobres,
olha pois este jogo de exilado
e vê se entre as lembranças te descobres.

… que lá do Hubble agradece. Moço aos 66 anos levitado. Eita a moça ficou por aqui… também envelheceu:

Tá com essa cara por quê?


Artur de Carvalho

Cientistas ingleses afirmaram que já é possível fazer transplantes de rosto.

É isso mesmo. Eu li a notícia numa dessas revistas de ciências, no consultório do meu médico A ideia dos cientistas é retirar a pele do semblante de um doador e reimplantá-la em outra pessoa. Afinal, eles dizem, a pele é apenas mais um órgão humano e, se já é possível fazer transplantes seguros até do coração, que é muito mais complicado, por que não da pele?

Eu fiquei abismado. Primeiro que eu nem sabia que a pele era considerada um órgão.Segundo que essa operação oferece possibilidades que beiram a ficção científica.

É, porque, embora os tais cientistas ingleses afirmem que a intenção deles é apenas recuperar pessoas desfiguradas por queimaduras, eu duvido muito que a coisa vá ficar por aí.

Você agora pode mudar de cara, entende? Quem sabe se, daqui alguns anos, a gente não vai poder escolher novas feições numa clínica ou até mesmo num supermercado ou num shopping?

A maioria das pessoas com quem comentei a notícia ficou entusiasmada. Afinal, quase ninguém é muito feliz com a cara que tem. Um reclama do nariz mais protuberante. A outra, de suas orelhas de abano. Um terceiro que tem muitas espinhas. Todo mundo quer mudar de cara.

Apenas um dos meus amigos não gostou muito da ideia. E com uma certa dose de razão.

— Eu é que não troco a minha cara. Apesar de feia, com essa pelo menos eu já estou acostumado.E, mesmo se fosse para trocar, eu ia querer a cara de quem? É uma pergunta interessante. A cara de quem você gostaria de ter? Do Silvester Stallone? Não. Acho que eu prefiro alguma coisa um pouco mais intelectual, Talvez do Woody Alien. Não, também não. Eu nunca fiquei bem de óculos. Do Tom Cruise? Não. As fãs não iam me deixar em paz. Do BilI Gates? Bem, só se, junto com a cara, viesse também seu saldo bancário. A verdade é que é muito difícil escolher uma nova cara.

— E tem outra— continuou meu amigo—, já imaginou ter a cara de outro homem ali, o tempo todo, encostadinha em você? Cai fora, sô…

Mas é claro que, apesar das dificuldades, muitas pessoas iam acabar aderindo aos transplantes de rosto. Umas por vaidade. Outras só porque é moda. E muitas por razões que a gente menos imagina.

— Mãe? Mas que cara é essa???

— Eu troquei de cara, filho.

— Mas… é a senhora mesmo?

— É claro que sou eu, meu filho.

— Mas essa cara, mãe, essa é a cara da… da…

— Joana Prado, filho, eu sei.

— Mas logo da Feiticeira, mãe! Não tinha outra cara pra você colocar?

— Pois é, filho. É que eu quis fazer uma surpresa pro seu pai. Pro meu pai?!

— É. Ele sempre vivia falando dessa Feiticeira pra cá, Feiticeira pra lá. E eu quis fazer uma surpresa pra ele e coloquei a cara dela.

— Puxa vida, mãe… Mas… e o pai gostou?

— Gostou nada. Quem é que disse que era da cara da Feiticeira que seu pai gostava?


Artur de Carvalho
 colabora com o “Diário de Votuporanga”, interior de São Paulo, desde 1997. É autor dos livros “O Incrível Homem de Quatro Olhos”, edição do autor — Votuporanga, 2000, e “Pah!”, Vialettera Editora, 2003. Além de excelente escritor, Artur é um cartunista dos melhores, com um traço bem diferente, que você poderá ver em seu site, e lá comprar os livros.


www.arturdecarvalho.com.br

 

Lá vai mais uma que se não é da Luz Vermelha é prá rir bastante.

Em conformidade com o bloco Nós sofre mas nós goza, que de bloco virou refrão e todo dia em todo canto alguém diz algo assim.

E no banco, lidando com gente, dentro de um grande Tribunal, não seria diferente.

Dada a introdução vamos aos fatos:

Tenho um nobre amigo que é bancário, está bancário mas tem outra profissão.

Que lhe toma muito mais tempo que as seis horas famélicas de todo o dia.

Conceituado no mercado, sobra dentro da atividade bancária.

Porém, como todo pavão, muitas vezes quer continuar o consultor dentro do bancário e vice-versa.

Complicado prá caramba. Ou como diria o gaúcho Negão: o bagual não se vê nas quatro paredes do banco. Tudo para ele é consultoria.

E de vez em quando o belo bluetooth do amigo funciona.

E o amigo para de funcionar, o bancário voa e tome consultoria no expediente bancário.

E  calha de vim trabalhar comigo. Eu que uma década depois, resolvo retomar uma tímida ascensão no banco na reta final.

Ali, pertinho de me aposentar. Ou quase isso. Que cinco anos passam supersonicamente.

E, de fato o colega é constantemente rodiziado, até que veio parar onde o zé roela aqui está tentando fazer algo de bom no cafofo do Ozama.

Conversa ali, conversa aqui e o bluetooth deu uma pausa significativa. Afinal, contrato de trabalho é prá se trabalhar, ora pois, já dizia minha lusitana avó Amélia que escolheu o Timbú para torcer. Tá explicado…

E hoje de manhã aconteceu algo, que narro pelas palavras do Negão e vim andando da Jaqueira até em casa rindo sozinho. Vejam só:

– Seu Jacinto Ferro (nome histronicamente fictício) senta para o atendimento e entrega o Alvará para o consulcário(consultor bancário).

O diálogo é dantesco e cômico ao mesmo tempo:

Consultor Bancário: O senhor está certo, é assim que se age…

CLIENTE: É isso mesmo, patrão ruim da gota

Consultor Bancário: ????? cara de zé roela apontando para o bluetooth

Consultor Bancário: Você deve ensinar a quem quer aprender, desista de quem não quer nada. Insista com os que estão motivados.

CLIENTE: É isso mesmo, o senhor adivinhou meus pensamentos, olhe tenho uma caso…

Consultor Bancário: corta a conversa apontando para o famigerado aparelho.

CLIENTE: (sem entender nada ainda) eu tinha um pequeno negócio e tratava assim meus empregados…

Consultor Bancário: (já impaciente) … a tomada de decisão numa empresa é algo inevitável, só sobrevivem os corajosos, você é um homem de visão…

CLIENTE: eu sei disso (kkkkkk) , mas quebrei por causa de uns empregados miseráveis e tome conversa …

Consultor Bancário: ?????? vou desligar agora, depois a gente conversa… (visivelmente irritado).

Consultor Bancário: Aqui está o seu Alvará, procure o gerente para liberação e depois dirija-se ao caixa (carranca da morrinha, cara de maus amigos).

Dom Mingão: Bom dia. Liberação?

CLIENTE: Sim. Mas rapaz , que papo bom tem o seu colega. Parece até que adivinha os pensamentos da gente.

Dom Mingão: Ah, ele é de primeira. Um dos nossos melhores funcionários kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

CLIENTE: Depois venho aqui para abrir uma conta. Tenha um bom dia.

PANO RÁPIDO.

PS –

VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho…E não sou nada!…

Florbela Espanca

Quarta com Som. Por Edgar Mattos.

Publicado: 08/02/2012 em Gréa

Será que teremos nova coluna? Bissexta?
Então tá:

Santayana e a insurreição baiana.

Os limites da questão salarial

Conversa Afiada reproduz artigo de Mauro Santayana, publicado no Jornal do Brasil:

A insurreição na Bahia e a segurança dos cidadãos


por Mauro Santayana


O direito de greve é historicamente associado ao conflito entre o capital e o trabalho. Não é preciso retomar o pensamento clássico da esquerda para entender que o trabalhador deve ter o direito de cruzar os braços quando, em seu entendimento, as condições impostas pelos patrões se tornam insustentáveis. Na realidade, quem tem apenas a capacidade de seus braços; de sua  inteligência;  ou de sua habilidade em operar as máquinas, tem o inalienável direito de se recusar a continuar dentro das mesmas condições, e de exigir, mediante a interrupção do trabalho, novo trato. No ordenamento jurídico do Estado de Direito, a Justiça (em nosso caso, a do Trabalho) é chamada a intervir no conflito e buscar a conciliação entre as partes.


Os Estados modernos exercem o monopólio constitucional da violência, embora deleguem esse direito – que não poderia ser estendido a ninguém – a organizações privadas de segurança. Esta é mais uma deformação do Estado de Direito, que a  sociedade não deve admitir. Deixando de lado essa anomalia anti-republicana e antidemocrática, convém meditar o papel das forças de segurança.


As corporações policiais, dos Estados e da União, são instituições construídas a fim de exercer a coerção, em nome do Estado, para o cumprimento das leis e da  manutenção da ordem pública. Cabe-lhes prevenir e investigar os delitos, cumprir as ordens judiciais e assegurar a incolumidade dos cidadãos. Às Forças Armadas, além de garantir a inviolabilidade do território nacional, incumbe garantir a ordem interna, desde que convocadas por um dos três poderes republicanos. O Exército não pode substituir a polícia, mas tem o dever de reprimir os policiais amotinados.


Os policiais e militares, nas sociedades contemporâneas, não podem ser definidos como simples trabalhadores. É difícil aceitar que, como servidores públicos encarregados de garantir o pleno funcionamento dos estados, tenham o direito de ameaçar a administração e, mais do que ela, a República. Podem exercer o direito de reivindicar seus possíveis direitos junto às várias esferas do Estado, conforme garante o sistema democrático, mas não podem fugir ao cumprimento de seu dever para com o povo – o povo que, mediante os impostos, mantém os Estados e os seus funcionários.


Em razão disso, a Constituição é clara, quando nega aos militares – a todos os militares, subordinados funcionalmente à União ou aos Estados – o direito de sindicalização e de greve, no item IV do parágrafo terceiro de seu artigo 142.  Mas não apenas os policiais militares estão impedidos de paralisar as suas atividades: os policiais civis também estão sujeitos à norma, conforme assegurou o STF, pelo pronunciamento de seus ministros Eros Grau, sobre a greve de policiais civis de São Paulo (em 2008), e César Peluso, sobre greve idêntica no Distrito Federal, em novembro do ano passado.


A greve dos policiais militares da Bahia é um claro movimento de rebelião contra o Estado, e assim deve ser tratada. O governo federal agiu como deve agir, em qualquer situação semelhante. A solidariedade federativa, necessariamente exercida pela União, implica no emprego de toda a força possível, a fim de assegurar o cumprimento das normas constitucionais, como a que veda a militares – e, por analogia jurídica – a policiais civis, o recurso da greve.


Recorde-se a corajosa atitude tomada pelo presidente Itamar Franco, quando a Polícia Federal decidiu paralisar as suas atividades na capital da República. Ainda que Itamar, na análise dos fatos em seu gabinete, entendesse as razões dos grevistas, não titubeou em agir com firmeza, a partir da conclusão de que as corporações armadas não fazem greve, e, sim, se sublevam contra a República. O Presidente determinou ao Exército que dissolvesse a mobilização dos grevistas, na sede da Polícia Federal e, a fim de não alarmar a população, ordenou que a operação se fizesse à meia-noite.


Não cabe discutir se o governador Jacques Wagner agiu de uma forma, quando estava na oposição, ao apoiar movimento semelhante, e age de outra, agora. Um erro anterior, motivado pela conveniência partidária eventual, não pode impedi-lo de exigir agora o cumprimento da lei, em favor da ordem. A greve dos policiais trouxe o aumento da violência contra os cidadãos, conforme o registro dos atos delituosos dos últimos dias.


Os policiais militares baianos não se encontram em greve, mas em rebelião contra o Estado e, por extensão, contra a República, cuja Constituição os obriga a manter a lei e a ordem. Registre-se que o líder do movimento é um ex-militar e que, portanto, não tem legitimidade para chefia-lo. Como se encontram em rebelião, cabe ao Estado, no uso moderado de sua força e seu poder, exigir-lhes rendição imediata e usar dos dispositivos legais para punir os responsáveis pelo movimento.


Essa providência é absolutamente necessária, quando se sabe que movimentos semelhantes estão sendo articulados em outros Estados, a fim de obrigar à equiparação dos vencimentos dos policiais militares de todo o país aos dos seus colegas do Distrito Federal. Ora, cada estado fixa o vencimento de seus servidores conforme a sua receita tributária. Há informações de que se planeja uma greve de policiais militares e civis – incluindo o Corpo de Bombeiros – em São Paulo, para o dia 18 deste mês. Qualquer leniência na Bahia poderá significar  incentivo a uma gravíssima perturbação da tranqüilidade pública no resto do país.


Isso não impede que os policiais militares, usando dos meios legais, façam  reivindicações aos seus superiores, a fim de que estes, como delegados dos governos, as levem às autoridades. Reivindicar remuneração maior e melhores condições de trabalho, por meios legítimos, é um direito inalienável de todos, mas o direito de greve é constitucionalmente restrito.  Fora disso, qualquer movimento de greve, por servidores armados, como ocorre agora na Bahia, não passa de insurreição, que deve ser contida, sem hesitações.


 

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

 

A ambição é o último recurso do fracassado.

A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo.

Para ser popular é indispensável ser medíocre.

O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo.

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.

As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos.

Deus, ao criar o homem, superestimou a Sua capacidade.

Ser grande significa ser incompreendido.

A arte, felizmente, ainda não soube encobrir a verdade.

Muita gente estraga a vida com um doentio e exagerado altruísmo.

Oscar Wilde

 

 

A bruxa está solta…

Publicado: 07/02/2012 em Poesia



No palco faço amor com mais de 25.000 pessoas, e depois vou pra casa sózinha.
Janis joplin –

O ensino da gramática

 

Rubem Fonseca


Você está triste?

Não sei. Talvez.

Tristeza dá câncer, sabia?

Pensei que dava verruga no nariz.

Estou falando sério.

Ultimamente você vive falando sério.

Quando eu brincava você reclamava.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Você colocou vírgula depois de mar.

Estou falando, não estou escrevendo.

Mas na sua fala tinha uma vírgula depois de mar?

Não. Você está fazendo uma análise sintática e morfológica da frase?

Na frase há o uso da figura de sintaxe chamada elipse.

Chega. É por coisas assim que eu não quero mais viver com você.

Porque eu sei gramática e você não?

Entre outras coisas.

Não gosta mais de foder comigo?

Usarei uma elipse aqui. Ou melhor, uma zeugma.

Zeugma é um substantivo masculino.

Um zeugma, então.

Significando?

Que é fácil subentender.

Subentender por que você não gosta mais de foder comigo?

Precisamente. Pensa.

Estou pensando e não consigo.

Pensa em nós dois na cama.

Você sempre se manifesta pomposamente na hora do orgasmo.

Pomposamente? Explica.

Exibição de magnificência sensual. Mímica.

Mímica?

Mímica. Muito bem-feita.

Vou fazer as malas. Diga: já vai tarde.

Já vai tarde.

E esses olhos úmidos de lágrimas?

Mímica.

Acho que vou ficar mais um pouco.

Um pouco?

Uns dias.

Dias?

Pensando bem, uns meses. Mas você me ensina gramática durante esse tempo.

Então deixa de ficar triste.

Tenho uma razão. Já estou com câncer.

Jura?

Juro. Pulmão. O cigarro.

Meu amor, vou cuidar de você.

Mas antes me ensina gramática


Texto extraído de “Axilas e outras histórias indecorosas”, de Rubem Fonseca, Editora Nova Fronteira – 2011