Arquivo de 05/02/2012

Para o amigo João Carlos de Mendonça e para mim.

Dois alvos e rubros sofredores.

Para quem anda de carro, moto ou táxi.

Que não sabe o que é a Borborema, a Transcol, a Metropolitana,  a Globo (eita febe tife essa), a Pedrosa, a Vera Cruz e outro mói de roelas empresariais mamantes das tetas do Consórcio Grande Recife, este post não vale nada.

Mas para quem sofre como sofremos eu e o Broda JC , vai uma estorinha bela, bonita e bisonha, vivida por mim na quinta-feira passada:

Faz um mês marromenos que minha vida mudou abruptamente.

De uma saída do paraíso que é o Recife Antigo para a Imbiribeira. Inferno total.

Da Imbiribeira para a Sudene.

Sem comentários.

Tenho uma opção para quem precisa chegar as 07:30 da matina e abrir o posto do banco dentro do TRT.

Uma opção apenas.

A linha Macaxeira-Parnamirim. Descer aí na foto nesse inferno e pegar o Barro-Macaxeira.

Pense numa macaxeira no hoskofi da gente.

Tem um outro alienígena chamado CDU-CASA AMARELA-TRT.

Pensei que Yellow House ainda tinha respeito e um ônibus com o seu nome triunfasse nessas ruas sujas, esburacadas e entupidas de carros da nossa amada cidade Mauricéia.

Que nada.

Mas que nada…

Passa o primeiro ônibus às 06:10, depois outro entre 06:30 e 06:40 e outro depois da sete quando a cidade já parou. Engasgou enfumaçada.

Então este zé aqui, está pontualmente as 06 de la madruga na frente da Tamarineira, como bom doido, esperando seu busão chegar.

E ele chega pontualmente e consigo chegar na hora certa no banco.

Isso saindo de casa cheiroso e já chegando as sete e meia fedendo. Que esse aperto todo aí dura a viagem inteira.

É toitiço.

Pois bem. Com o aumento das passagens, mesmo sem ser o que queriam os abutres donos das empresas de ônibus, retiraram as placas indicativas do destino de muitas linhas.

Aí este mané aqui, mui ingenuamente, velho e burro, pega o ônibus CDU-CASA AMARELA-TRT as 06:20, pois havia perdido a macaxeira.

Piscava o luminoso indicando que aquele busão fidirapariga iria para o TRT/SUDENE.

Qual o quê?

Depois de fazer um belo city-tour pela Av.Norte, Alto José do Pinho, chega no Mercado de Casa Amarela, para e fica.

Todo mundo desce. O motorista, educado, olha para mim, para a cobradora e diz: – pegou o ônibus errado !

Esse agora só sai as 07 horas. E aí vai para o destino certo!

Eu disse , mas onde dizia que ele vinha prá cá para o terminal e não para o destino?

Ele justificou-se, argumentando que os empresários haviam retirado as placas indicativas, por causa do aumento das passagens.

E me chamou para tomarmos um café gostoso no Mercado, com munguzá, cuscuz, um café quente e um leitinho.

Recusei e pacientemente fui ler dentro do ônibus, esperando e contando que saindo as sete eu chegasse lá por volta das sete e quarenta.

Aí meus amigos, começa a quengagem.

O mesmo city-tour anarriê depois do anavantú.

As 07 : 40 eu estava na Rui Barbosa bem próximo do ponto onde havia pegando o mesmo ônibus as 06:20.

UMA HORA E VINTE MINUTOS PERDIDOS!

Desci, liguei prá cumadre, que por sorte estava em casa e pedi arrego.

Cheguei, com muito custo depois das oito e meia na Sudene. De carro.

ÔNIBUS?

SIM.

Mas só na MACAXEIRA.

PS – Gabi, me manda este Torpedaço, do seu livro da sua autora preferida. Vem bem a calhar, à guiza de:

Perder a viagem

Você pede ao patrão para sair mais cedo do trabalho, pega um ônibus lotado, vai para um consultório médico que fica no centro da cidade, gasta seus trocados, seu tempo e seu humor, e, ao chegar, esbaforido e atrasado, descobre através da secretária que sua hora, na verdade, está marcada para semana que vem. Sinto muito, você perdeu a viagem.

Todo mundo já passou por uma situação assim, de estar no lugar errado e na hora errada por pura distração. Acontecendo só de vez em quando, tudo bem, vai pra conta dos vacilos comuns a qualquer mortal. O problema é quando você se sente perdendo a viagem todos os dias. Todinhos. É o caso daqueles que ainda não entenderam o que estão fazendo aqui.

Estão perdendo a viagem aqueles que não se comprometem com nada: nem com um ofício, nem com um relacionamento, nem com as próprias opiniões. Estão sempre flanando, flutuando, pousando em sentimento nenhum, brigando por idéia nenhuma, jamais se responsabilizando pelo que fazem, pois nada fazem. Respirar já lhes é tarefa árdua e suficiente. E os dias passam, e eles passam, e nada fica registrado, nada que valha a pena lembrar.

Estão perdendo a viagem aqueles que, em vez de tratarem de viver, ficam patrulhando a existência alheia, decretando o que é certo e errado para os outros, não tolerando formas de vida que não sejam padronizadas, gastando suas bocas com fofocas, seus olhos com voyeurismo, sem dedicar o mesmo empenho e tempo para si mesmo.

Estão perdendo a viagem aqueles preguiçosos que levam semanas até dar um telefonema, que levam meses até concluir a leitura de um livro, que levam anos até decidir procurar um amigo. Pessoas que acham tudo cansativo, que acreditam que tudo pode esperar, que todos lhe perdoarão a ausência e o descaso.

Estão perdendo a viagem aqueles que não sabem de onde vieram nem tentam descobrir. Que não sabem para onde ir e nem tentam encontrar um caminho. Aqueles para quem a televisão pode tranqüilamente substituir as emoções.

Estão perdendo a viagem aqueles que se entregam de mão beijada às garras do tédio.

Martha Medeiros

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Gainsbourg – o homem que amava as mulheres (França, 2010) Cotação: ***1/2

Drama biográfico, 130 min.

 

Serge Gainsbourg foi um mito da música pop francesa surgido nos anos 60 e que trafegou por diversos gêneros, compondo canções ousadas para a época, muitas delas com conotação erótica como é o caso de “Je t’aime… moi non plus”, a mais célebre de todas. Mas também teve incursões em outras artes, entre elas plásticas, onde iniciou, e até mesmo cinema. Era bem feio, fumava e bebia bastante, mas ainda assim tinha charme e fazia sucesso com as mulheres.

E não é que resolveram fazer um filme sobre a sua mais que intensa vida? Gainsbourg – o homem que amava as mulheres (Gainsbourg – vie héroïque) realiza uma passagem por duas fases dela: a infantil, que é bem interessante, pois era judeu e cresceu numa França ocupada pelos Nazistas; e a adulta, em que se passa a maior parte da história. Vemos os relacionamentos que teve com figuras conhecidas daquela época, como Juliette Grecó (Anna Mouglalis), Brigitte Bardot (Laetitia Casta) e a britânica Jane Birkin, que surgiu para o mundo aparecendo diversas vezes nua em Blow Up, de Michelangelo Antonioni, e veio a se tornar mulher de Serge. Nesses dois momentos, ele é acompanhado por uma criatura estranha, fruto de sua mente caótica.

Algumas encrencas em que esteve metido não são deixadas de lado, como quando fez uma versão em reggae da Marselhesa, despertando a ira de muitos. De maneira bem consistente, Eric Elmosnino é quem dá vida a Gainsbourg. É intrigante a semelhança entre ambos. Por esse papel, venceu o César de ator. O diretor tinha chegado a preparar a filha de Serge, a boa atriz Charlotte Gainsbourg durante seis meses, mas ela desistiu do projeto.

Quem é encarregada de fazer Birkin é a também inglesa Lucy Gordon. O caso dessa moça é trágico. Ela cometeu suicídio num apartamento que havia alugado em Paris por fazer carreira na França. Esse foi o último filme dela (antes, chegou a aparecer em “Homem-aranha 3”). O renomado diretor Claude Chabrol, um dos pais da Nouvelle Vague e que veio a falecer em 2010, faz uma divertida ponta como o produtor musical de Gainsbourg.

O filme é escrito e dirigido pelo estreante Joann Sfar, que é artista de graphic novel (o que justifica a inventividade desse longa) e parte de uma HQ criada por ele. A trilha é muito boa, até porque é feita em cima das músicas de Serge. Destaque para um instrumental de “Initials BB”, feito pela Orquestra Sinfônica da Bulgária.

Embora seja uma biografia não-convencional, faltou mais ousadia. Houve uma blindagem, uma tentativa de protegê-lo. A fase infantil pareceu mais instigante por ser apresentada uma criança precoce, sem pudores, o que em alguns momentos acontece com o Gainsbourg adulto.

De qualquer forma, é um filme que não deixa de ser criativo (ainda mais quando comparado a outras biografias) e bem realizado. Fica a recomendação para que se conheça melhor esse grande artista por vezes excêntrico.

 

(*) Houldine Nascimento é jornalista e autor do excelente Blog do Dine (http:blogdodine.wordpress.com).