Murilo Mendes. Para o amigo Arsênio.

Publicado: 30/01/2012 em Murilo Mendes

Da Web:

Murilo Monteiro Mendes nasceu em 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Fez as primeiras letras na terra natal e no Colégio Salesiano, em Niterói. Foi dentista, telegrafista, auxiliar de guarda-livros, notário e Inspetor Federal de Ensino. Sua estréia na literatura se deu em revistas do Modernismo, Terra Roxa e Outras Terras e Antropofagia. Em 1934, converteu-se ao Catolicismo e com Jorge de Lima dedicou-se à “restauração da poesia em Cristo”. De 1953 a 1955 percorreu diversos países da Europa, divulgando, em conferências, a cultura brasileira. Em 1957, se estabeleceu em Roma, onde lecionou Literatura Brasileira. Participou do movimento Antropofágico, revelando-se um conhecedor da vanguarda artística européia. Ao mesmo tempo, manteve-se fiel às imagens mineiras, mesclando-as às da Sicília, Espanha, carregadas de história. Faleceu, em Portugal, em 1975.

 

 

A velocidade se opõe

À nudez essencial.

Para merecer o rompimento dos selos

É preciso trabalhar a coroa de espinhos.

Senão te abandonam por aí,

Sozinho, com os cadáveres de teus livros.”

(Murilo Mendes)

O EXILADO

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.

Os sentidos em alarme gritam:

O demônio tem mais poder que Deus.

Preciso vomitar a vida em sangue

Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.

Passam ao largo os navios celestes

E os lírios do campo têm veneno.

Nem Job na sua desgraça

Estava despido como eu.

Eu vi a criança negar a graça divina

Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos

E a multidão me apontando como o falso profeta.

Espero a tempestade de fogo

Mais do que um sinal de vida.

o anjo pousa de leve
no quarto onde a moça pura
remenda a roupa dos pobres

Murilo Mendes

SOLIDARIEDADE

Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
Ao mártir, ao assassino, ao anarquista.
Sou ligado
Aos casais na terra e no ar,
Ao vendeiro da esquina,
Ao padre, ao mendigo, à mulher da vida,
Ao mecânico, ao poeta, ao soldado,
Ao santo e ao demônio,
Construídos à minha imagem e semelhança

Murilo Mendes

É necessário conhecer seu próprio abismo . E polir sempre o candelabro que o esclarece.

Murilo Mendes

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comentários
  1. Arsenio Meira Junior disse:

    Valeu Broda. Cem mil vezes o infinito. E , OBRIGADO PELO TELEFONE DE HOJE.
    Foi um momento mais do que bacana (ri demais), num dia meio mareado.
    Tu és tu, e o resto é clone.

    Segue um Murilo, um velho Murilo, remontando ao íncio do blog e do nosso apreço.

    Big abraço do amigo
    Arsenio

    “Mapa

    Me colaram no tempo, me puseram
    uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
    limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
    a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

    Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
    depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
    me pregam numa cruz, numa única vida.
    Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.

    Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
    Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
    gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
    alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
    nem o mal.

    Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
    tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
    não acredito em nenhuma técnica.

    Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
    é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
    depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
    na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.

    Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
    Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.

    Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
    Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
    presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
    o mundo vai mudar a cara,
    a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.Andarei no ar.

    Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
    me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
    na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

    Tudo transparecerá:
    vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
    o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
    dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
    vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
    me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

    Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
    Detesto os que se tapeiam,
    os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
    Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
    os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
    as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
    Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
    viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.

    Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
    dos amores raros que tive,
    vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
    tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
    estou no ar,
    na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
    no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
    no pensamento dos homens que movem o mundo,
    nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
    sempre em transformação.”

    Murilo Mendes

  2. Magna disse:

    Maravilha de Murilo, Domingos e Arsênio! Forte, intenso. Sem nada a acrescentar a esta hora, com este céu nublado e um cansaço nos olhos. Que dizer? Mais não digo.

    Só digo, meu irmão Arsênio, que lembrei de ti hoje. Acabei de chegar do lançamento da 2ª edição do livro Viagem ao Crepúsculo. Encontrei Inácio e tantos outros. Faltou você.
    Abração!
    Magna

  3. João Carlos disse:

    Gostaria muito de conhecer o Arsênio.Se vocês falam muito,então deve ser uma figura ímpar.Quando é que ele vai aparecer por aqui ?

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