Para os que levitaram e nada puderam fazer…

Publicado: 26/01/2012 em Brasil mostra a tua cara!

Em memória de Gilberto Maymone, Francisco Neto & Cia Ltda. Foram muitos, tantos. Contra a homofobia que ataca os artistas, bancários, gente de todas as classes, pelas suas escolhas sexuais. Como se isso definisse se podemos ou não viver mais um pouco, um pouquinho só nesse mundão de Riobaldo…

Amor de poeta

Marcelino Freire


O poeta?

Conheci o poeta, sim, na rua.

É, na rua.

Lembro como se fosse hoje, agorinha. Existia uma praça e a gente ficava até a noite. Encostado, vendo o povo passar. Os caras para lá, lálálá. A gente às vezes assobiava sujo.

Eu trabalhava perto da São Bento. Perto da São Bento, não lembro.

Nasci em Araxá.

Sou mineiro de Araxá.

O poeta?

Ele estava de óculos, como sempre. E eu pisquei, eu pisquei assim.

Assim, ó: assim, para conquistar.

Não, não sabia.

Importante era presidente da república, governador. Nem sabia o que um poeta fazia da vida.

Não sabia.

Eu gostava de música.

De samba.

Samba de roda.

Ele me levou para sua casa, sim. Tocou piano, uma marchinha.

A gente ficou ali.

Ficou ali, só. Não tinha essa afobação no primeiro dia.

Dava para ver que era gente educada, letrada. Perguntou se eu estudava. Estudei nada. Escola era para quem tinha uma boa família.

E para quem não tinha preguiça. Eu não queria nada com a vida.

Morava na Barra Funda, Santa Cecília.

18 anos, acho.

O meu sorriso era bonito, ele dizia. E o meu corpo era bonito. Eu gostava de correr, montar, fazer exercícios.

E nadar no Rio Pinheiros.

No Rio Pinheiros, para você ver.

Ele deu um livro para mim. Eu aceitei.

O livro assinado. Se eu soubesse que valia alguma coisa não tinha jogado o livro na rua.

Jogado na chuva. Pisado em cima. Eu tinha roubado era a biblioteca toda.

Era uma biblioteca muito bonita.

Muito bonita.

Poesia nunca encheu barriga.

Até hoje é assim, não é?

A gente se encontrou outras vezes, na mesma esquina. Na mesma praça. Hoje nem sei o que foi feito daquela praça.

Você sabe o que foi feito daquela praça?

No terceiro dia, não sei. Ele veio me tocar. Eu cheio de saúde, deixei. Lálálá.

Eu não era bobo.

Ele me dava dinheiro, me dava camisa, comprava sapato. Mas foi ficando meio pegajoso. Pegajoso.

Agüentei por causa das facilidades, entende? Eu queria um terno, sei lá, uma casa.

Sim, uma casa para morar.

Ganhei um terno e um chapéu novo.

Ele conheceu meu pai, minha mãe. Conheceu minha irmã pequena.

Minha irmã pequena era doente. Morreu de repente.

Ele pagou o enterro todo.

Foi osso quando eu arranjei uma namorada. Foi osso. A coisa engrossou para o meu lado.

Queria compromisso, pode?

No meu pensamento, não era assim tão sério.

Ele inventou uma viagem só para me tirar de perto da Bebel.

Bebel era o nome dela.

Maria Isabel.

Pagou tudo e eu fui com ele. Conheci Pernambuco. Bebi muita água de coco. A gente viajou pelo Nordeste do Brasil.

Como é lindo o meu Brasil, ele dizia. Demorou cinco anos, não sei.

Que a gente ficou junto.

Ele falava sempre que tinha um livro novo. Me mostrava o jornal. Queria que eu entendesse o que ele lia, como podia? Eu, burro desse jeito.

Burro, burro.

Coisa comprida, de dá sono. Mas eu ficava ali, no maior interesse. Me dava de tudo, não queria que eu voltasse para a praça. Queria que eu ficasse com ele, a vida inteirinha.

Coisa chata. Não ia dar certo.

Fui ficando nervoso. Dei para beber. Ele ganhava uns vinhos importados. Era comigo mesmo.

O quê?

Eu também fumava. Depois que a coisa foi me cansando, aumentei o número do cigarro.

Comecei a beber cachaça.

Muita cachaça.

Ele detestava. Vivia querendo salvar o mundo com a sua poesia. Até hoje não sei para que servia tanto verso, tanto verso.

O Tietê tá aí, não deixou de morrer. São Paulo, dá dó de ver.

De quando em quando, eu lembro dele. Não dá pra esquecer, não é?

Era homem muito bom o poeta.

O que mais você quer saber? Mais o quê?

Descobriram o amante do poeta.

É. Todo mundo só fala nisso. O senhor é que foi o amante do poeta? Onde conheceu o poeta? Na rua?

A fofoca tá em tudo que é jornal.

Pode perguntar para o pessoal, ninguém daqui acredita. Ninguém acredita.

Faz tempo que eu não recebo assim tanta visita.

PS – Você vê aquela gorda?Ela sofre da obesidade,
Você vê aquele gay? Ele sofre da homofobia,
Você vê aquele “viciado” na rua? Ele sofre da desigualdade social,
Você se olha no espelho e descobre que sofre de sua propria ignorância.

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Maymone era meu amigo! Amigo da minha família,amigo dos meus filhos e dos meus amigos.Era amigo dos amigos.Violamos juntos muitas vezes. Numa sexta-feira peguei seu violão emprestado.Na segunda Dina me acorda.Geraldo Maia ligou. E… A família pensava que o criminoso covarde tinha roubado seu violão. E eu o devolvi para sua filha (tinha 2 ou 3 anos). Espero que ela ainda o tenha.Como todos os seus amigos o tem do lado esquerdo do peito,dentro do coração.

  2. Com certeza João. Também recebi na época a notícia através de Geraldo, que era também Broda dele. Francisco Neto era colega de banco. Covardemente assassinado (como se todo assassinato não fosse um ato de covardia) dentro de casa. Conselhos para quê? Almocei com ele na véspera do assassinato. Não apareceu no banco e somente no domingo de manhã a polícia encontrou o corpo dele dentro de casa. Gilberto Maymone foi uma comoção só em Recife. Os bandidos? Estão por aí soltos ou já foram mortos pela polícia nas suas faxinas usuais. Fica a memória dessas pessoas do bem. Pessoas do bem. Pessoas de bem. Saudade da porra.

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