Torpedaço de Edgar Mattos.

Publicado: 28/12/2011 em Poesia

AGRURAS DE UM ACADÊMICO

PorEDGAR MATTOS

 

Não, não se trata de eventuais incômodos eventualmente sofridos por um eventual imortal – apelido dado àqueles que, logrando o feito admirável de conseguir ingressar numa confraria dita literária, teimam em não morrer para dar vaga aos que, ansiosos e pretensiosos, aspiram a nela também ingressar…

É que outra, e bem mais democrática,  é a Academia a que há um ano pertenço, mediante simples pagamento de matrícula e mensalidades. Ao contrário daquelas onde se estagnam as mentes, nesta se exercitam os músculos.

Já conformados à monotonia das caminhadas, eis que, de repente, contemplados por uma dessas incessantes e surpreendentes descobertas da Medicina, os velhinhos se viram admitidos ao espelhado templo dos jovens narcisos. Ei-los pois – e eu dentre eles – a dividir, com a atlética turma das barriguinhas “tanquinho”, ferros, pesos, esteiras e máquinas com direito até a, disfarçadamente, conferir na balança e no espelho algum efeito dos seus esforços.                        Confesso que para chegar lá, tive que vencer resistências. Sou – vocês já sabem – muito orgulhoso e muito competitivo, e temia enfrentar comparações e disputas que, setentão, jamais poderia vencer. Cedo descobri não haver razão alguma para tais temores. É que, naquele espaço, as pessoas se acham tão concentradas e embevecidas na autocontemplação dos seus corpos que não enxergam mais ninguém. Então, pra sorte minha, salvo para algum instrutor mais atencioso, na Academia eu me sinto um homem invisível. O que me dá, mesmo em horas de maior frequência, uma ótima sensação de privacidade. Para vocês perceberem que não exagero, raramente troco, com algum rosto, mesmo os já bem conhecidos, após meses de convivência, algum cumprimento. Nem mesmo um lacônico “oi”*. Claro que não pretenderia manter com ninguém qualquer bate-papo prática incompatível com a execução de exercícios.  Mas aqui começa a discriminação. É que, entre eles, os componentes da mesma tribo juvenil, há sempre instantes de confraternização às vezes até ruidosamente incômoda. Não tanto quanto os estridentes sons da insuportável música ( ? ) “bate-estaca” que, embora favoreça o ritmo dos exercícios, estupra os meus pobres tímpanos contribuindo, decerto, para agravar minha incipiente surdez.

Tudo isso, porém,  se faz suportável na vantajosa compensação do enorme bem estar físico e psíquico que o exercício me traz. Apenas um detalhe me faz sentir velho, ultrapassado, demodé – a incivilidade reinante que, certamente, não é característica da juventude atual, mas apenas uma atitude conjuntural da “cultura acadêmica”. Não se pense pretenda eu, naquele contexto, gozar das prerrogativas da chamada terceira idade. Até me faz bem ser tratado como uma pessoa “normal”. O que me torna deslocado, um ser alienígena, é o descumprimento das mais corriqueiras regras de convivência. Não me refiro – e seria exigir demais – à falta de gestos de cortesia. Mas ao completo desuso de expressões da mais elementar educação, tipo “por favor”, “com licença” e “muito obrigado”. Para não falar na conduta egoística e irritante de monopolizar a um só tempo dois aparelhos, usando-os alternadamente; também na  desobediência à recomendação de, após o exercício, colocar os pesos nos seus lugares; ainda na forma “espaçosa” de se comportar, sem respeito ao “território” alheio; enfim, no flagrante e total desrespeito ao outro. E, note-se, que o meu horário, já escolhido exatamente por isso, é o menos frequentado, com o que esses problemas são bastante minimizados.

Outro dia, porém,  fui agradavelmente surpreendido pela forma cortês e até prestimosa com que fui tratado por um jovem, ajudando-me na regulagem de uma máquina, sorridente e gentil. Cheguei até a supor tratar-se de um novo instrutor. Nada disso, era um cliente assim como eu. Sua “diferença” não era também aquela que você, leitor preconceituoso, pode  estar pensando. O rapaz, que ao terminar seus exercícios, se despediu de mim com um aperto de mão, era realmente uma figura estranha, inusitada, destoante naquele ambiente de incivilizados robôs. Esse “cara”, de quem não sei ainda o nome e que continuou, nos dias seguintes, a me cumprimentar com a simpatia de um velho amigo, era realmente um espécime raro naquele árido ambiente “acadêmico”. Era tão somente um ser humano, uma pessoa, ou resumindo tudo, apenas um jovem educado…

 

* Claro que se trata de um exagero literário; há, realmente, gente ( poucos ) que até, de vez em quando, diz “oi” pra mim…

 

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Nessas academias já há a cultura do clube da esquina.Os sarados formam grupos que extrapolam o ambiente. Frequentam cinemas e casas noturnas,consumem Red Bull com Ecstasy e dançam (mais exercícios) nas raves.
    Geralmente são pessoas de formação intelectual no mesmo patamar do prefeito da Gravidade.

  2. francisco aurélio disse:

    Mestre Edgar:A gentileza é um produto cada vez mais escasso na nossa sociedade.No meu prédio as pessoas na maioria,não dá bom-dia,fecham a porta do elevador para ficarem isoladas,numa firme atitude de mau humor.Ainda bem que existem as excessões,como o rapaz citado pelo mestre no final da crônica.A gentileza está fora de moda,ficou demodé.

  3. Magna disse:

    Edgar, repetindo o que já te disse sobre esta crônica: você é mais corajoso do que eu pensava. Eu ainda chego lá…literalmente, na coragem e na academia.

    Porém, preciso abrir um parêntese para uma notícia muito feliz e que não tive oportunidade de dizer, pois fiquei sem internet durante todo o dia: hoje (28) é o aniversário de casamento de nossos amigos Domingos e Ana Luiza. Portanto, parabéns aos dois.
    Que Jesus abençoe cada vez mais esta família que nasceu há 21 anos atrás!
    FELICIDADES CONTÍNUAS E SERENAS! Muita união, paz e amor!
    Abraços!
    Magna

  4. EDGAR MATTOS disse:

    Vamos por partes. Magna, sou um ex-atleta, e, já não podendo praticar o futebol, não consigo deixar de praticar algum exercício. Resisti o quanto pude à academia Mas, hoje, não passo sem ela. Mesmo com todas aquelas incivilidades que, de resto, estão em toda parte, ela me dá a motivação que não tenho para me exercitar sozinho, em casa.
    Quanto ao aniversário de casamento de Domingos será mais uma razãoi para comemorarmos amanã.. E, por falar nisso, não vamos admitir a sua falta.

  5. dom mingao disse:

    Eu ja comecei os trabalhos hoje e amanha estou ja la.

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