O Fusca continua (2)…

Publicado: 20/12/2011 em Domingos - Crônicas

Recesso breve.

Um suspiro.

A vida continua e muitas vezes a vida é tão teimosa quanto um bolero.

Um bolero monocórdio, um compasso cego, uma goteira.

A vida é ácida, dói e a gente termina mais teimoso do que a própria vida.

De ansiedade em ansiedade, de insônia em insônia a gente consegue entrar nos dias.

Viver no tempo. Se achar na correria e ficar de pé na vida.

Esse para mim é o grande milagre. O grande legado.

Quando perdemos alguém em vida essa dor é sem medida.

Desmedida.

A dor de alguém que levita é outra dor que não sei quem em que lugar, coloca algum remédio e a dor congela.

Ela não melhora. Ela congela. Para que a gente sobreviva.

Mas a dor em vida. A tal morte Severina de Cabral. O poema invencível e indestrutível da dor nordestina, dos homens caranguejos.

Ah João. Essa “morte em vida” é danada de difícil de se suportar.

O outro. A outra. Ali tão perto.

Quase como uma muralha de palavras separando e… uma unica mísera palavra, não se faz presente e ponte para romper essa perda.

Não há vencedores quando perdemos alguém em vida.

Nâo há alegria.

Talvez alívio.

Um pano rápido, tema de livros, refrão batido, mas, pano rápido.

Nâo podemos enxergar a dura realidade sempre o tempo inteiro.

Cega os olhos. Inebria a alma de cansaço.

Talvez por isso precisemos de repouso. Para aliviar as dores invisíveis, dos remédios que não existem nas farmácias.

Da cura que nunca foi pensada.

Não precisei ir aos Pirineus, nem fazer o Caminho de Santiago.

Se bem que em sonhos, distantes, os faria, viagens familiares e talvez aprazíveis.

Não precisei jejuar, orar, nem ajoelhar em verdade precisei.

Procurei uma forma de fazer o coração se acostumar a  um pedaço que se foi.

Ele de fato não vai voltar ao tamanho normal.

Diferente da aldeia das idéias. Da nossa cabeça. Que ao expandir-se de fato nos dá um olhar e a certeza de que daquele tamanho não seremos mais. Tão pequenos não. Menos um pouco.

Grandeza?

Não.

Prefiro a solidão de Clarice Lispector. O olhar de Drummond. A leveza imensa de Quintana. A genialidade de Leminski.

São pilares dentre outros quasares infinitos que me sustentam.

Os poetas me sustentam.

Os de lá e os de cá.

Os do Fusca. Os poetas do Fusca?

São a nossa Barcelona de Espanha.

Na tabela nossa de cada dia, mesmo longe.

Se vendo anualmente, olhe lá.

Vivemos bem.

Estão todos bem.

Nem brigo. Nem digo mais nada.

O Fusca continua.

E essa canção vai para os amigos que eu sei onde estão.

 

 

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comentários
  1. João Carlos disse:

    Pois é broda, entramos na idade das perdas.Das grandes perdas.

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