Magna Santos. Quatro Escritos. Salvando o Fusca.

Publicado: 14/12/2011 em Magna Santos

ENLUARAR

Peguei o meu carro e saí por aí
Por aí não
Destino certo:
Descanso

Afoguei meu cansaço no mar
Engoli meus anseios
Com peixe
Deliciando-os um a um

Plantação de gotas
Em dias de verão
Derramou-se sobre mim
Uma chuva prateada
Junto com a lua cheia

São Jorge não apareceu
Mas mandou mensageiro:
Não adianta pisar o meu chão
Enquanto não estiveres leve
Não adianta mirares em mim
Enquanto não te enxergares
Não adianta te encantares por mim
Enquanto não te namorares
Não adianta pular de fases
Enquanto não me assistires minguando

Escutei tudo aquilo em fase cheia
Agora sou nova
A enluarar

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BUSCA

 

Sim, ele estava nu ao amanhecer
Rasgou-se das sedas que vestia seu corpo
E quase como louco
Estava a vagar.
Onde estava a lua que refletia o dia na escuridão?
Onde estava a estrela que pairava no ar?
Onde estava?
Neste momento ele olhou para si
E surpreso percebeu…
Seus pés tinham raízes
Seus braços eram de sol

Então ele chorou
E sorriu.

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A BÊNÇÃO, RECIFE

 

Imagens de suas pontes correm o mundo. De Veneza Brasileira foi batizada, mas o que não se sabe é quantos caminhos existemem Recife. Aconchegodos poetas, que repousam nas suas praças, se embriagam com sua beleza, encostam-se nos baobás em plena tarde para acordarem por algum guarda desavisado, à procura de manter a ordem pública.

Sim, Recife, tuas alas, tuas ruas que tantos já andaram, que pousaram os pés de Manuel Bandeira, de Antônio Maria, que agitam tantos outros no vai e vem do frevo, ou do “frevo” do cotidiano, do frenesi do teu trânsito que nos tira o sossego.

 

Perdemos as horas encontrando caminhos mais curtos e esquecemos da Avenida Caxangá, cortando bairros, da Avenida Norte, atravessando a sorte, rebatizada com um segundo nome para lembrar mais um cearense que te adotou. Lembramos apenas do Coque das páginas policiais, esquecendo que a história, há tempos, toma outro rumo nas mãos dos meninos que folheiam as páginas dos livros da Biblioteca Popular do Coque ou, simplesmente, afinam os ouvidos, escutanto histórias carinhosamente contadas por bocas abençoadas.

 

Sim, Recife, nos acostumamos com tua agonia e com tuas surpresas, constantemente nos fazendo olhar para o céu em plena segunda-feira. Bênçãos, Recife, para teus habitantes que são privilegiados com tuas árvores centenárias a fazerem túneis por tuas ruas. Bênçãos, Recife, tu jorras em forma de pontes, como a lembrar que não precisamos de muros. Bênçãos, Recife, nas encostas dos teus morros que desassossegados esperam o inverno e tuas chuvas calamitosas. Dignidade, Recife, para teus filhos pequeninos que estacionam nos sinais à espera do que eles nem sabem ainda, mas, certamente, suas mães – nas calçadas – têm certeza. Quanta dor, Recife, ao mirarmos olhos tão tristes, por já pedirem! Misericórdia, Recife, para que as balas se percam para sempre no espaço de ninguém, sem atingir ninguém, sem fazer sofrer mães, pais, famílias inteiras.

Ah, bênçãos, bênçãos…bênçãos é também poder andar por ruas que carregam palavras benfazejas: amizade, harmonia, aurora, concórdia…bairros que nos desejam: boa viagem, boa vista.

Sim, Recife, teus problemas não são apenas teus. Infelizmente, tens muitas outras companheiras espalhadas neste país, capitais que carregam infelicidades, mas tuas virtudes são singulares e sentidas por quem te vive como os teus rios. A água passa, o tempo passa, mas sempre terá uma ponte para atravessar, para ligar, unir…és ponte, Recife!

 

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TERRA A VISTA

 

Ah, e eu nem lembro mais de ti, Robinson Crusoé
Nesta terra que agora vivo
Meus índios são sexta, segunda, terça, quarta e quinta-feira
Aí volto a bobina e começo tudo outra vez
Esqueci do sábado e do domingo
Na última vez que fui viajar
Arrisquei-me nas encostas da noite
E só voltei no clarão do dia
Salva pelo segunda-feira

Tenho respirado na minha ilha
Com pulmões astrais
O ar às vezes é denso demais
Pasmo
Engasgo
Passo mal

É então que me lembro do jasmim
E respiro normal outra vez
Jasmim perfumado
De mãos perfumadas, antigas…
Espalhou-se por minha terra inteira

Por isto te grito, Crusoé:
_ Terra a vista!
MAGNA SANTOS

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comentários
  1. EDGAR MATTOS disse:

    Quem se preparava para tempos de abstinência de repente inebria-se com uma overdose de Poesia. Quatro manifestações da enluarada sensibilidade de Magna, na busca de um Recife, agônico e belo que, com os eflúvios miraculosos do Coque, abençoa essa filha do Cariri proclamando com esperança de dias melhores: Magna à vista !

  2. Magna disse:

    Meu querido amigo, eu me nutro com tuas palavras. Ganhei um poema de presente, meu Pai do céu. Realmente Deus é muito generoso por me conceder a graça de encontrar tanta gente boa no caminho.
    Queixei-me do exagero de Domingos pela publicação de todos de uma vez. Ô criatura exagerada(estou sem ponto de exclamação e aspas). Mas ao motorista do Fusca só nos cabe agradecer. E seguir andando de carona no velho e bom, muito bom Fusca.
    Abração.
    Magna
    Obs.:Edgar, o Enluarar escrevi depois de ir aquele lugar abençoado que ambos gostamos. Espero que tenhas recebido a resposta daquele email. Desculpe, mais uma vez, pela demora.

  3. João Carlos disse:

    5 poesias. 4 pérolas de Magna e 1 comentário do Edgar. Que bela sobremesa nesta hora do almoço.Queria mais palavras,ternas e emocionadas mas elas me faltam justo agora.Então,como diria o nosso Domingão broda, “mais não digo!”

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