Patativa do Assaré.

Publicado: 30/04/2011 em Poesia

O alco e a gasolina Patativa do Assaré
(Antônio Gonçalves da Silva)


Neste mundo de pecado
Ninguém qué vivê sozinho
Quem viaja acompanhado
Incurta mais o caminho
Tudo que no mundo existe
Se achando sozinho e triste,
O alco vivia só
Sem ninguém lhe querê bem
E a gasolina também
Vivia no caritó.

O alco tanto sofreu
Sua dura e triste sina
Até que um dia ofreceu
Seu amô a gasolina
Perguntou se ela queria
Ele em sua companhia,
Pois andava aperriado
Era grande o padecê
Não podia mais vivê
Sem companhêra ao seu lado.

Disse ela: dou-lhe a resposta
Mas fazendo uma proposta
Sei que de mim você gosta
E eu não lhe acho tão feio
Porém eu sou moça fina,
Sou a prenda gasolina
Bem recatada, granfina
E gosto muito de asseio.

Se você não é nogento
É grande o contentamento
E tarvez meu sofrimento
Da solidão eu arranque,
Nós não vamo nem casá
Do jeito que o mundo tá
Nós dois vamo é se juntá
E morá dentro do tanque.

Se quisé me acompanhá
No tanque vamo morá
E os apusento zelá
Com carinho e com amô,
Porém lhe dou um conseio
Não vá fazê papé feio
Quero limpeza e asseio
Dentro do carboradô.

Se o meu amô armeja
E andá comigo deseja,
É necessaro que seja
Limpo, zeladô e esperto,
Precisa se controlá,
Veja que eu sou minerá
E você é vegetá,
Será que isto vai dá certo?

Disse o alco: meu benzinho
Eu não quero é tá sozinho
Pra gozá do teu carinho
Todo sacrifiço faço,
Na nossa nova aliança
Disponha de confiança
Com a minha substança
Eu subo até no espaço.

Quero é sê feliz agora
Morá onde você mora
Andá pelo mundo afora
E a minha vida gozá,
Entre nós não há desorde
Basta que você concorde
Nós se junta com as orde
Da senhora Petrobá.

Tudo o alco prometia.
Queria por que queriá
Na Petrobá neste dia
Houve uma festa danada
A Petrobá ordenou
Um ao outro se entregou
E o querozene chorou
Vendo a parenta amigada.

Porém depois de algum dia
Começou grande narquia,
O que o alco prometia
Sem sentimento negou,
Fez uma ação traiçoêra
Com a sua companhêra
Fazendo a maió sugêra
Dentro do carboradô.

Fez o alco uma ruína
Prometeu a gasolina
Que seguia a diciprina
Mas não quis lhe obedecê
Como o cabra embriagado
Descuidado e deslêxado
Dêxava tudo melado,
Agúia, bóia e giclê.

A gasolina falava
E a ele aconceiava,
Mas o alco não ligava,
Inxia o saco a zomba
Lhe respondendo, eu não ligo,
Se achá que vivê comigo
Tá sendo grande castigo
Se quêxe da Petrobá.

E assim ele permanece
No carro a tudo aborrece,
Se a gasolina padece
O chofé também se atrasa
Hoje o alco veve assim
Do jeito do cabra ruim
Que bebe no butiquim
E vai vomitá na casa.


(Mantida a grafia original)


Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu numa pequena propriedade rural de seus pais em Serra de Santana, município de Assaré, no sul do Ceará, em 05-03-1909. Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida trabalhando na enxada. O fato de ter passado somente seis meses na escola não impediu que sua veia poética florescesse e o transformasse em um inspirado cantor de sua região, de sua vida e da vida de sua gente. Em reconhecimento a seu trabalho, que é admirado internacionalmente, foi agraciado, no Brasil, com o título de doutor “honoris causa” por universidades locais. Casou-se com D. Belinha, e foi pai de nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956. Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Sua memória está preservada no centro da cidade de Assaré, num sobradão do século XIX que abriga o Memorial Patativa do Assaré. Em seu livro Cante lá que eu canto cá, Patativa afirma que o sertão enfrenta a fome, a dor e a miséria, e que “para ser poeta de vera é preciso ter sofrimento”.

O poeta faleceu no dia 08/07/2002, aos 93 anos.


O texto acima foi extraído do livro “Ispinho e Fulô”, editado pela Universidade Estadual do Ceará/Prefeitura Municipal de Assaré – 2001, pág. 264.

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comentários
  1. Arsenio Meira Júnior disse:

    Patativa foi mais poeta do que muito poeta famoso por aí. MUITO MAIS.
    No mínimo, genial.
    VIVA PATATIVA DO ASSARÉ!

  2. Magna disse:

    “Meus versos é como semente
    Que nasce em riba do chão;
    Não tenho estudo nem arte,
    A minha rima faz parte
    Das obras da criação.”

    Assim o poeta Patativa entendia de si mesmo e dos seus versos. Ele foi a prova de que a poesia independe de escolaridade. Patativa lia lia muito e possuia uma memória prodigiosa, capaz de recitar quantos poemas quisesse ou se pedisse. Poemas longos, só interrompidos por um engasgo ou um fôlego. Nos intervalos, uma tragada de cigarro bem dada, para deixar sua saliva no batente da porta.
    _ Patativa, agora eu fiquei viciada no senhor.
    _ Pra mim, a amizade é a maior riqueza.
    Seu amor por Belinha é algo comovente no documentário de Rosemberg Cariry de 2009, aliás, toda sua vida.
    Cego de um olho, enxergava mais que muita gente, embora tivesse se iludido com o Jereissati. Naturalmente socialista, sabia trazer nas palavras a dor do povo humilde, sofrido do seu torrão, na verdade, de todo o país. Enfim, Patativa é isto e muito mais.
    Mereceu o nome do passarinho, hoje voa alto, porque soube exercitar suas asas.
    Junto-me ao amigo Arsênio: VIVA PATATIVA DO ASSARÉ!
    Abaixo mais um poema:

    O BOI ZEBU E AS FORMIGAS

    Patativa do Assaré

    Um boi Zebu certa vez
    Moiadinho de suó,
    Querem sabê o que ele fez
    Temendo o calor do só?
    Entendeu de demorá
    E uns minuto cuchilá
    Na sombra de um juazêro
    Que havia dentro da mata
    E firmou as quatro pata
    Em riba de um formiguêro.
    Já se sabe que a formiga
    Cumpre a sua obrigação,
    Uma com outra não briga
    Veve em perfeita união
    Paciente trabaiando
    Suas foia carregando
    Um grande inzempro revela
    Naquele seu vai e vem
    E não mexe com mais ninguém
    Se ninguém mexe com ela.
    Por isso com a chegada
    Daquele grande animá
    Todas ficaro zangada,
    Começou a se assanhá
    E foro se reunindo
    Nas perna do boi subindo,
    Constantemente a subi,
    Mas tão devagá andava
    Que no começo não dava
    Pra de nada senti.
    Ma porém como a formiga
    Em todo canto se soca,
    Dos casco até a barriga
    Começou a frivioca
    E no corpo se espaiando
    O zebu foi se zangando
    E os casco no chão batia.
    Ma porém não miorava,
    Quanto mais coice ele dava
    Mais formiga aparecia.
    Com essa formigaria
    Tudo picando sem dó,
    O lombo do boi ardia
    Mais do que na luz do só
    E ele zangado as patada,
    Mais força incorporava,
    O zebu não tava bem,
    Quando ele matava cem,
    Chegava mais de quinhenta.
    Com a feição de guerrêra
    Uma formiga animada
    Gritou para as companhêra:
    -Vamo minhas camarada
    Acaba com os capricho
    Deste ignorante bicho
    Com a nossa força comum
    Defendendo o formiguêro
    Nos somo muito miore
    E este zebu é só um.
    Tanta formiga chegou
    Que a terra ali ficou cheia
    Formiga de toda cô
    Preta, amarela e vermêia
    No boi zebu se espaiando
    Cutucando e pinicando
    Aqui e ali tinha um moio
    E ele com grande fadiga
    Pruquê já tinha formiga
    Até por dentro dos óio.
    Com o lombo todo ardendo
    Daquele grande aperreio
    O zebu saiu correndo
    Fungando e berrando feio
    E as formiga inocente
    Mostraro pra toda gente
    Esta lição de morá
    Contra a farta de respeito
    Cada um tem seu direito
    Até nas leis da natura
    As formiga a defendê
    Sua casa, o formiguêro,
    Botando o boi pra corrê
    Da sombra do juazêro,
    Mostraro nessa lição
    Quanto pode a união;
    Neste meu poema novo
    O boi zebu qué dizê
    Que é os mandão do podê,
    E as formiga é o povo.

  3. Magna disse:

    O trailler oficial do documentário:

    Uma curiosidade: a música da introdução Sina é uma poema de Patativa musicado por Fagner e outro que não recordo. Patativa encontrava-se em casa, escutando rádio com Belinha, quando ouviu a música, sem referir seu nome. Foi direto pra rádio, dizer que o poema era dele. Fagner depois o procurou, se desculpando, quando ouviu do poeta que não abria mão da sua arte, não a vendendo, exigindo apenas que colocasse seu nome na autoria. Foi assim que se conheceram. Depois cresceu uma boa amizade, devido a qual o Patativa não gostava de contar este episódio.
    Abraços e bom domingo a todos!
    Magna

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