Arquivo de 26/04/2011

Assistindo um Clássico dos Clássicos de 1992, em pleno Arruda, vi o quanto a nossa torcida comparecia aos jogos.

De igual para igual.

O Arruda meio a meio: vermelho e branco e vermelho e preto.

Sem torcidas organizadas criminosas.

Sem cordões de isolamento.

Sem grades.

Quase pacificamente, pois a rivalidade por mais que saudável, deixa os nervos à flor da pele.

Mas, quase não se falava em mortos.

Não porque não os contássemos, mas simplesmente porque eles não existiam.

No caminho da violência urbana, que transbordou do isolamento da periferia e estuprou nossos lares, o futebol ainda guardava um romantismo exemplar.

Nossa torcida encolheu nas lágrimas da arquibancada. Tecido frágil. Quase purulento.

Cresceu nos bares e nas televisões dos lares.

Conjugação do medo + vergonha.

Porque o cidadão tem vergonha dos vexames.

O cidadão tem vergonha dos amarelões e apagões.

Ele quer raça e isso em Rosa e Silva mingua igual a chuva no semi-árido.

Cresce a desonra. Os dirigentes pútridos e fétidos.

Crescem como crescem as pragas e parasitas nas lavouras.

Não colocaram os defensivos adequados. As rameiras tiram nosso viço, nossa seiva.

Não atingem o nosso amor e os nossos corações. Estes são impenetráveis.

São a nossa defesa mais sólida. Quem dera nossa zaga jogasse assim.

Vamos em frente isto posto o nosso Timbú agoniza mais não morre. Visto aí embaixo. Com direito a samba enredo e tudo.

A esperança morre primeiro. Nós morremos por último.

Gostaria de poder ter dado ao meu filho Daniel mais vitórias, mais glórias, mais taças.

Mais ele é a vitória que todo Pai aguarda ansioso pelo seu Filho. Que ele se transforme em um homem de valores, de princípio, de caráter.

E nesse quesito, embora pequena a minha contribuição, ele faz valer o que realmente vale a pena. E as meninas Gabriela e Izabella , independente do time que torçam ou venha a torcer, também estão de pé na vida.

E no final dessa História é isso que importa.

O amor pelo Clube não morre nunca.

Nós é que vamos despeçando o nosso coração pelo caminho.

Até um dia em que jogaremos todos por um só time.

E será em outro gramado.

A longa peleja da Eternidade.

Até breve meus amigos.

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Peladas

Armando Nogueira

 

 

Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto

E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe.” Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.

Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.

Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.

Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.

Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA – Especial.” Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.

No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.

Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.

Nova saída.

Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.

O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.

Em cada gomo o coração de uma criança.