Arquivo de 08/04/2011

TODA POESIA DE FERREIRA GULLAR
 
Gullar é para poesia o que Nílton Santos representa para o futebol.
Para quem não conhece Nilton Santos, trata-se de um lendário lateral esquerdo, que jogou no Botafogo nos anos 50 e 60 e na seleção Brasileira Campeã do mundo em 1958 e 1962.
  
Nilton, hoje doente, sofrendo de graves transtornos mentais, atendia também pelo apelido de “a Enciclopédia”.
 
Gullar continua na aptidão das suas faculdades mentais, e hoje carrega nos ombros a responsabilidade de ser o maior poeta Brasileiro vivo, e um dos grandes de todos os tempos. Estas notas representam uma breve resenha sobre a nona edição de Toda Poesia, e claro sobre o poeta.
  
Toda Poesia é um volume que reúne a obra poética de Ferreira Gullar. Foi lançado em 1980 e, em janeiro de 2008, chegou à décima sexta edição.
Em dezembro de 2008, a Nova Aguilar lançou Poesia Completa, Teatro e Prosa.
 
 
Gullar tem vastíssima cultura poética, manja escultura e pintura, e tem uma formação política que não foi tirada somente dos livros, do lero-lero acadêmico ou mesmo de orelha de livro.
 
Ele nunca mendigou cargo comissionado em rodinhas babacas de pseudos- revolucionários. Ele era um cara – efetivamente – de esquerda. No exílio e depois dele, viu a família literalmente desintegrar-se. Perdeu um filho. O outro sofre as seqüelas doridas de uma vida com transtornos psiquiátricos. Quanto renúncia e coragem. A esposa Tereza Aragão,  atriz, também ativa militante política, morreu jovem, em 1993 (infarto fulminante).
 
Então, ele não é dessas figuras falsas, decorativas, que só conseguem apregoar uma melhor distribuição de renda, com a  indefectível dose de Johnny Walker na mão. Que as pessoas hoje queiram patrulhá-lo como artista tão-somente por suas opinões é sintoma de desarranjo mental.
 
Foi o poeta que redimiu toda uma geração, a partir da publicação do seu primeiro livro A Luta Corporal, lançado em 1954. Um cara que pertenceu à avant-gard, e foi da arte útil ao ceticismo humanista sem perder o prumo. Raros os poetas que tem a vivência e o currículo cultural que ele ostenta.
 
Em seu início experimental, escreveu sobre “a inutilidade do canto”; definiu o galo como um “mero complemento de auroras” e o ser humano como “um ser grave, que não canta senão para morrer”.
 

 
Tem mais.
 
De se reconhecer – é minha opinião – que uma pequena parte de sua poesia-panfleto ou manifesto está datada. Digo que datou em parte, porque mesmo em seus momentos mais secundários, ele fez inúmeros golaços e, generoso, escreveu que “a crase não foi feita para humilhar ninguém”.
 
Em Dentro da noite Veloz, já angustiado e premido pelos milicos de 64, tratou logo de avisar que “do salário injusto/ da punição injusta/ da humilhação/da tortura e do terror/retiramos algo/ e com ele construímos um artefato/ um poema, uma bandeira”.
 
Após ter passado por privações – inerentes aos que devotam efetivamente a vida por uma causa – no fim dos anos 80 Gullar admitiu finalmente que o principal objetivo do artista é, em suma, produzir boa arte.
Ele, que experimentou as escaramuças do concretismo.  Rompeu com os irmãos Campos, e em seguida propôs o neoconcretismo.
 
Seu projeto consistia em “explodir” a linguagem, transformá-la em espelho do seu inconformismo, objeto de sua contemplação bélica, pois o mundo, conforme sua visão, é um mapa cheio de furos, e as pessoas, guiadas por homicidas, caminham  – sem reação – em sentido oposto à paz.
 
O livro Toda Poesia abrange: (A luta corporal, 1954; Poemas, 1958 ; João Boa-Morte, cabra marcado para morrer (cordel), 1962; Quem matou Aparecida? (cordel), 1962; A luta corporal e novos poemas, 1966; História de um valente, (cordel, na clandestinidade, como João Salgueiro), 1966; Por você por mim, 1968; Dentro da noite veloz, 1975; Poema sujo, 1976; Na vertigem do dia, 1980; Crime na flora ou Ordem e progresso, 1986; Barulhos, 1987; O formigueiro, 1991; Muitas vozes, 1999).
 
O Poeta não fugiu do convencional. Começou com os sonetos (por sinal, belos sonetos – vide os Sete Poemas portugueses); porém, logo alcançou ritmos distantes da poesia praticada pela geração de 45, entoando dicções variadas com um feixe de luz própria.
 
Para chegar nesse ponto, não precisou falsificar sua sensibilidade. Lemos em sua Obra Reunida, o verso livre, rimado, a poesia em prosa, cordel, poesia espacial, concreta, política, lírica, enfim, uma saraivada de petardos, que termina por assombrar o leitor.
 
E assim ele seguiu e segue, produzindo poemas que resistirão ao tempo, um dos pais da razão. Como este. Um poema simples, coloquial. Feito a partir de uma lingusgem sem estardalhaços. Sem metáforas. Ou aliterações. Escrito no final do anos 70, infelizmente esse poema não datou. Seria injusto desconhecer ou negar que o Brasil avançou nesses últimos anos.
 
Mas há, decerto, muito açucar a ser distribuído igualitariamente.
 
ARSENIO MEIRA DE VASCONCELLOS JÚNIOR
 
O AÇÚCAR
 
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema,
Não foi produzido por mim,
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
Como beijo de moça, água
na pele,  flor que se dissolve na boca.
 
Mas este açúcar
Não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira
dono da mercearia.
 
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da Usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
 
Em lugares distantes,
onde não há hospital  ,
nem escola,  homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos,
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
 
Em usinas escuras, homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café
esta manhã em Ipanema.
 
FERREIRA GULLAR 

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Aviso Importante.

Publicado: 08/04/2011 em Poesia

Todo Sábado continuaremos com a COLUNA SÁBADO SOM  de João Carlos de Mendonça.

O Fusca passará a circular apenas e tão somente neste dia, em função da temporária impossibilidade deste aprendiz de blogueiro e atrevido a poeta continuar cuidando de tão precioso Bosque/Arvoredo.

Conto com a compreensão de todos.

Um beijo no coração.

 

 

PS – Como as plantas a amizade não deve ser muito nem pouco regada.

Carlos Drummond de Andrade

PS II – Viva a canção da Serenidade. Amém.

PS III – Ano de Peixes. Será que acredito em Horóscopos? Ano de Mudanças. Corda esticada. Limites superados. Reinvenção diária. Melhor não poderia ficar. Nem pior. Amém.