Arquivo de 15/05/2010

A segunda grande alegria do sábado é escutar um bom som que não foi possível fazê-lo durante a semana. É o dia mais produtivo que tenho. Onde normalmente faço quase nada. E isso é uma grande benção. Escutar “Friday Night In San Francisco” numa manhã de sábado parece um sacrilégio, ou a viagem do cara que varou a noite e ainda está destilando o restinho do aguardel. Como as noites em claro que passei já nem me lembro quando foi, a hipótese correta, a la Ortega Y Gassét, é que estou envelhecendo com um quantum mínimo de sabedoria. Apenas isso.

Todos aprendemos alguma coisa.Ensinar que é bom eu creio que ensinei o errado e  na metáfora dos espelhos ,quem esteve ao meu lado possa ter aprendido com os meus erros. Digo isso aos “fio” aqui em casa.

É que me lembro de um sábado perdido  nos anos 90 .Almoçando com um grande sujeito, que não me recordo o nome( mas amigo do meu melhor amigo e primo da minha cunhada que era tia da irmã dele por parte de pai… porra) eu declinei essa frase: “o sábado é o único dia em que eu sou eterno.” O cara parou olhou para o seu ateísmo nietzchniano e falou: isso dá um poema! Que pena que eu não guardei nem o título. Por isso agora vou fazer um protesto aos restaurantes, botecos, pega-bebos, cantinas, lanchonetes, quiosques, bancas e similares que se encontram na nossa fedida Recife ,que deixem sempre um taco de papel para que os candidatos a poeta, quando devidamente embriagados de inspiração possam escrever e levar para casa(pode ser até junto com a conta) aquele ato atrevido e não vê-lo derreter aos poucos como os guardanapos que guardam nossa gordura mas deixam a poesia ir embora.

E por falar em ir embora, agora é hora de preparar as chuteiras para entrar em campo. Dar uma chegadinha no Jabá, aqui pertinho, na beirada do canal do arruda. Comer aquele feijão preto, aquela charque maciça, aquela pimenta e farinha toitiçantes e agradecer pela eternidade deste dia. Antes é claro, tomar aquele caldinho de feijão estalando ao lado de uma ceva gelada.

PS – Para um sábado com ares de superioridade achando-se eterno , vem Murilo Mendes, lá do Hubble, dizer que o buraco é mais embaixo:

ANTI-ELEGIA Nº 1

O dia e a noite são ligados pelo prazer

E pelas ondas do ar

A vida e a morte são ligadas pelas flores

E pelos túneis futuros

Deus e o demônio são ligados pelo homem.

Murilo Mendes. 

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