Arquivo de 14/05/2010

 

Meninos de hoje, da cidade grande,
metidos em roupas e sapatos coloridos
de famosas marcas de consumo,
disputando com automóveis, ambulantes, transeuntes,
um pedaço de chão, de calçada, de fumo,
para expandir as energias da idade,
ou sentados com impropriedade, em sofás de espuma,
à frente da televisão, alimentando a imaginação
com produtos nem sempre recomendáveis
à vitalidade instintiva e à formação;
ou folgando com jogos que brincam sozinhos
e não deixam ninguém brincar.

Tudo contrasta com o espaço-tempo dos meus tempos,
dos quintais imensos ladeando igarapés,
terrenos sem cerca, muro, limite.

E o  mundo sem confins nem fronteiras
eu abarcava de uma vez: ora correndo, sem barreiras,
pelo areal das brancas dunas cearenses —­
da praia do Meireles, do Mucuripe, da Iracema —
ora vivendo os “Meus oito anos” de Casemiro
por doze ou treze, sei lá quantos, cem talvez.

Não havia cor que não reconhecesse,
som ou ruído que não identificasse:
cumprimentos de bem-te-vi, pipira ou bacurau,
lamentos de “fogo pagou”, arrulhos de bem-querer.

Tempos de liberdade incondicional:
estendia a palma das mãos contra o vento
sentindo-o esgarçar-se por entre os dedos
como assobio vivo rumo ao sem-fim dos mundos;
fazia duma canoa parte de mim mesmo
e deslizava pelas águas, remo a dentro,
a bombordo, estibordo,
comandando com garbo e poder (sem o saber)
o rumo, a corrente,
a vida,

muito além dos bordos convencionais;
abria um favo de ingá maduro
e sugava a doce neve das sementes
com a boca ávida, glutona, humana,
sem modos, estilo, educação,
língua entre dentes, incisivos a meio caminho,
degustação só comparável
à da costela do tambaqui moqueado
e na folha da bananeira servido.

Correr, pular, saltar,
à beira-mar, à beira-rio, à beira-beira,
sobre troncos, folhagens, palmas,
espumas, algas e conchas,
o peito nu,
calças curtas, longas idéias,
pés no chão, bichos no pé,
asas nos braços, solto, magrela,
lépido, feliz, pujante,
mais livre que a piçarra deixando a baladeira;
perseguia tijubinas nas capoeiras
e vaga-lumes nas tocas da noite;
ouvia seresta de grilos ao clarão do luar
e estórias da Mãe-Dágua, da Cobra-Grande,
da Matintaperera, do Padre Cícero,
de cangaceiros, Lampião e Maria Bonita,
ou ainda a sinfonia dos carapanãs
em torno do mosquiteiro
até que a boca do sono,
maior do que a boca da noite
engolisse as fantasias que desfilavam na cumeeira.

Garotava nos quintais perdidos,
futebolava nos terrenos baldios,
cochilava à sombra das mangueiras,
jogava bolinhas de gude, empinava papagaios…

De dia, colhia frutas no pé,
de noite, derribava estrelas no céu;
despertava todas as manhãs, muito cedinho,
com o punho da rede gemendo
e a voz de Deus sussurrando:
“Vai-te, és mais poderoso que a Liberdade!”
E eu ia.
E eu era.

 

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Con-vídeos para a TV Fusca.

Publicado: 14/05/2010 em Poesia

Sexta-feira. Dia do cachorro louco.

Publicado: 14/05/2010 em Poesia

 

Acupuntura:

Agulhas no lóbulo direito, presas por um esparadrapo. A fantasia do desesperado. A urgência urgentíssima em busca da saúde , na minha opinião leva a doença. Calma. Sempre. Respirar, andar, sorrir. Tentar estar mais próximo do lado direito do peito e o mais próximo da sua verdade. Andar de mãos dadas com a vida , pois o “lucro” é certo.

O sujeito nasce aqui neste planeta maluco, rodando em torno de um sol, pegando fogo por dentro (o planeta), guiando-se cego no escuro do universo, caminhando só Deus sabe em que direção. De quebra ainda acontece de cair nordestino, brasileiramente africano, misturadamente indigena, lusitano e outras etnias menos ou mais nobres a depender da hitleriana tendência do dna.

Calha de ser bancário, à guisa de qualquer coisa.

Nâo há de se reclamar, isto é uma afirmação hoskofiana.

A língua mãe, a nossa língua, de Quintana a Leminski, de Augusto a Cabral, do Pessoa a Drummond, de Bandeira a Vinicius, sempre Castros nunca castos, os poetas, via de regra, bebiam destilarias. Poesia e bebida são irmãos gêmeos univitelinos. Por isso todo poeta tem de ter um bom hepatologista a lhe cuidar dos amores e dos humores. Isto o bom Deus  também me deu.

Então , finalizando estes cortes na pele, penso logo mais na rua da Moeda. E não escuto o tilintar das tesourarias e sim o bater dos copos no brinde amigo de toda sexta-feira. Que não é santa nem nunca será. Mas que sem ela a vida perderia com certeza muito da sua beleza.

 

Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.

Nelson Rodrigues