Arquivo de 01/05/2010

Ficará para a posteridade…

Publicado: 01/05/2010 em Poesia

 

…O brilho dos teus olhos nos olhos do teu filho.

O abraço na tua esposa grávida pela primeira vez.

Por todas as outras vezes. Um sabor sempre único. Raro.

A tua mão estendida a um estranho.

O teu sorriso para um céu azul sem nenhum sentido.

A tua lágrima que ninguém terá visto.

O teu silêncio em comunhão com o teu desespero nas noites de solidão.

O teu medo de ter medo.

A tua colheita depois de tanto trabalho.  Pode não haver mais tempo.

A tua paz no meio do caos.

A tua voz no meio da multidão.

O teu gesto honesto que ninguém percebeu.

O teu amor pela humanidade. Que alguns sabem. Outros jamais te saberão.

As tuas certezas. Todas findas nas incertezas da partida.

Os amigos que fizestes. Os amigos que cultivastes. Os inimigos que não quisestes.

Os sonhos que eram tão reais. A realidade que era tão crua, que doía só de olhar.

 

 

Ficará para a posteridade:

O mistério da Eternidade.

 

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É muito difícil esconder o amor
A poesia sopra onde quer

O poeta no meio da revolução
Pára, aponta uma mulher branca,
E diz alguma coisa sobre o Grande enigma

Os sábios sonham
Que estão mudando Deus de lugar.

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Somos Todos Poetas

Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

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O Poeta Futuro

O poeta futuro já se encontra no meio de vós,
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.

O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que logo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários
.

A marvada…

Publicado: 01/05/2010 em Poesia

João Carlos enterprise…

Publicado: 01/05/2010 em Poesia

Auden de novo.

Publicado: 01/05/2010 em Poesia

Ler

W. H. Auden


O livro é um espelho: se um asno o contempla,
não se pode esperar que reflita um apóstolo.

C. G. Lichtenberg

Só se lê bem aquilo que é lido com algum propósito pessoal.
Pode ser até com a intenção de adquirir poder.
Pode ser até mesmo com ódio do autor.

Paul Valéry


Os interesses do escritor e do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso.

No que tange ao desempenho do escritor, a maioria dos leitores adota critérios diferenciados: o leitor pode trair o escritor quanto desejar, mas o escritor não pode jamais, em hipótese alguma, trair o leitor.

Ler é traduzir, pois a experiência de cada pessoa com o texto é exclusiva. Um mau leitor é como um mau tradutor: interpreta literalmente quando deveria parafrasear, e adota a paráfrase quando deveria interpretar literalmente. Para aprendermos a ler de uma forma mais crítica, a erudição, embora bastante útil é menos importante que o instinto; há grandes eruditos que, como tradutores, mostram-se fracos.

Com freqüência enriquecemos com a leitura de um livro percorrendo caminhos diferentes daqueles que o autor previu, mas (uma vez ultrapassada a infância) tal enriquecimento ocorrerá apenas se tomarmos consciência desta discrepância.

Enquanto leitores, a maioria de nós, até certo ponto, é como aqueles moleques que desenham bigodes nos rostos das modelos fotografadas em anúncios.

Um sinal de que um livro tem valor literário é que o mesmo aceita diversas leituras. Em contrapartida, a prova de que a pornografia não tem valor literário é que, se tentarmos uma leitura por um ângulo que não seja o de estímulo sexual, por exemplo, se tentarmos abordar o texto como veículo de liberação psicológica das fantasias sexuais do autor, chegaremos a bocejar de tanto tédio.

Embora uma obra literária permita leituras diversas, o número de tais leituras é finito e pode ser organizado em ordem hierárquica; algumas leituras são obviamente mais “verdadeiras” que outras; algumas, duvidosas; algumas certamente falsas; e outras, como quem lê um romance de trás para frente, absurdas. É justamente por isso que, para uma ilha deserta, devemos levar um bom dicionário, em lugar da maior obra-prima literária que se possa imaginar, pois em relação ao leitor, o dicionário é totalmente passivo e pode legitimamente ser objeto de um número infinito de leituras possíveis.

Não podemos ler um escritor principiante da mesma forma que lemos o último livro de um autor já consagrado. Com relação a um escritor principiante, nossa tendência é perceber apenas as qualidades ou os defeitos e, mesmo que possamos enxergar a ambos, somos incapazes de perceber as devidas inter-relações. No caso de um autor consagrado, se é que ainda conseguimos ler sua obra, sabemos que não é possível apreciar as qualidades que nele admiramos sem tolerar-lhe os defeitos deploráveis. Além disso, nosso julgamento sobre um escritor renomado nunca é meramente estético. A despeito de qualquer mérito literário, um novo livro de tal escritor possui para nós um valor histórico, tratando-se de obra de autoria de um indivíduo pelo qual há muito nos interessamos. Tal autor não é apenas um poeta ou um romancista; é também um personagem em nossa biografia.

Um poeta não é capaz de ler a poesia de outro poeta, nem um romancista lê o trabalho de outro romancista, sem comparar a obra daquele com a sua. A avaliação que faz, à medida que lê a obra alheia, é expressada através de interjeições do tipo: “Meu Deus! Meu pai! Minha mãe!”

Em literatura, a vulgaridade é preferível à nulidade, assim como o vinho do porto é preferível à água destilada.

Bom gosto é mais uma questão de discriminação que de exclusão, e quando por razões de bom gosto somos levados a excluir, isso é feito com pesar, não com prazer.

No processo de seleção do que se lê, o prazer não constitui absolutamente um valor crítico infalível; contudo, é menos falível.

A leitura de uma criança é comandada pelo prazer, embora seu gosto não tenha capacidade discriminadora. A criança não consegue distinguir, por exemplo, entre o prazer estético e o prazer de aprender ou de sonhar acordada. Na adolescência damo-nos conta de que há diversos tipos de prazer, alguns dos quais não podem ser sentidos simultaneamente, e precisamos do auxílio de outras pessoas no processo de definição desses prazeres. No que tange a questões de gosto relativas à comida e à literatura, por exemplo, o adolescente busca um preceptor em cuja autoridade possa confiar. O jovem passa a comer ou a ler aquilo que o preceptor recomenda e inevitavelmente há ocasiões em que tem de enganar a si próprio; finge, por exemplo, que gosta de azeitonas ou de Guerra e Paz mais do que de fato gosta. Entre os 20 e os 40 anos vivemos o processo da descoberta do que somos, processo esse que envolve a percepção da diferença entre as limitações acidentais, as quais temos o dever de superar, e as limitações necessárias da nossa própria natureza, as quais não podemos superar impunemente. Poucos de nós chegam a tal percepção sem cometerem erros, sem tentar nos tornar mais universais do que nos é permissível. É exatamente durante esse período que um escritor pode facilmente ser desviado por outro escritor ou por alguma ideologia. Quando alguém na faixa dos 20 aos 40 anos diz com respeito a uma obra de arte: “Eu sei do que gosto”; está na verdade dizendo: “Não tenho um gosto pessoal mas aceito o gosto do meu meio cultural”; isto porque entre os 20 e os 40 anos a indicação mais precisa de que um indivíduo possui um gosto autêntico e pessoal é a própria incerteza a respeito do assunto. Após os 40 anos, caso não tenhamos perdido totalmente a autenticidade, o prazer pode voltar a funcionar como funcionava quando éramos crianças: como valor crítico que determina o que devemos ler.

Embora o prazer que obtemos da apreciação de obras-de-arte não deva ser confundido com outros tipos de prazer, ele está relacionado com todos os tipos pelo simples fato de constituir um prazer nosso e não de outra pessoa. Todas as avaliações estéticas e morais que fazemos, não importa quanto nos empenhemos em ser objetivos, são por um lado uma racionalização e por outro uma ação disciplinar imposta sobre nossas aspirações subjetivas. Enquanto um indivíduo escreve poesia ou ficção, seu sonho do que constitui o Éden é assunto que somente diz respeito a si próprio mas, no momento em que o mesmo passa a escrever crítica literária, por questões de honestidade deve descrever seu Éden para os leitores, de maneira que os mesmos tenham condições de julgar as avaliações do crítico. Com efeito, passo a responder um questionário, por mim mesmo elaborado, que fornece as informações que eu mesmo gostaria de ter antes de ler o trabalho de outros críticos

 

Blues Fúnebres

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Quando moleque, recordo-me de uma das sacanagens que fazíamos e que nos divertíamos bastante com ela. Velha, muito velha a brincadeira. Amarrava-se a uma carteira uma linha de nylon, com uma cédula de x cruzeiros, que lembro que era Cruzeiro a moeda, mas não me recordo o valor.E ficávamos a espreita da vítima.

O segredo era a logística da coisa. Estar bem malocado, a carteira displicentemente a espera do seu “dono” dormindo na calçada. E nós, com linha suficiente para dar a puxada e salvar aquela nossa preciosa cédula.

E o objetivo simples, até besta, era ver o dito cidadão sair se agachando, gatinhando atrás da carteira. E bem escondidos, normalmente dentro dos muros das nossas casas, disparar para o refúgio do sacrossanto lar.

Brincadeiras à parte, à guiza de, joaocarlosdianamente falando, me vejo quase sempre, nos blogues da vida, frente a frente com os anônimos.

Essas entidades que muitas vezes podem estar apenas em tom de brincadeira repetindo o que a minha geração inocentemente fazia. Ou outros, destilando ódio, rancores, recalques, frustrações, atrás de um nick-name, apelido, codinome, fake. Grandes sacanas que são.

Dificilmente vejo alguém anônimo comentar algo que preste. É a forma mais fácil de se enlamear o outro sem o risco do processo civil, criminal. Enfim sem arcar com o ônus de se ser um covarde.

Existem exércitos contratados até por partidos ,para detonarem os blogs de grande visitação para esse mal uso da palavra.

Digo mal uso da palavra outra vez. Se alguém discorda, concorda, porque não fazê-lo usando seu nome de verdade?

Tem um excelente artigo do Ricardo Kotscho em que ele aborda esse assunto, com sua autoridade de jornalista respeitável e citando inclusive legislação específica que enquadra essa gente.

Mas eu pergunto aos meu fiéis 33 leitores?

Como fazê-lo?

O JC obriga você, caso queira fazer um comentário, a se cadastrar e colocar o número de seu CPF. Será que dá certo?

Os camelôs na 25 de Março vendem DVDs com banco de dados com milhares de números de CPFs, assim com fazem com endereços eletrônicos.

Eu, piamente, acredito ser abominável, alguém se esconder atrás de um codinome. Aí fica fácil. Todo mundo é valente. Se tem algo a dizer, porque não dizê-lo toitiçamente. Mesmo que depois ou venha a arrepender-se, ou sustente sua palavra, ou enfrente os Tribunais. É pau , cipó e peia.

Do jeito que vai, a Internet um território completamente desguarnecido, frágil, sem controle (a não ser na China, no Irã, Cuba), nós cidadãos de bem, teremos vergonha de comentar nos sites e blogues da vida.

E o Fusca vai pra lua na companhia do Gabriel e do Lulu.

AMÉM.

 

PS – Um covarde é incapaz de demonstrar amor. Isso é privilégio dos corajosos.

Mahatma Gandhi

Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.

William Shakespeare

Covarde, realmente covarde é apenas quem teme as próprias lembranças.

Elias Canetti