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Arquivo da categoria: Poesia

Vinicius.

Chico Anysio eterno.Direto do Releituras.

É proibido falar ao motorneiro

Chico Anysio



Era muito grande a surpresa do velhote que, ao receber alta após vinte e dois anos acamado (reuma­tismo infeccioso), pela primeira vez saía à rua.

Andava pelo Rio como se estivesse fazendo turismo numa cidade a que nunca fora. Tudo mudado, tudo tão lindo e tão diferente. O aterro, os gramados em volta de postes que mais pareciam perna de ema (quando queimar uma luz como é que mudam?), o monumento ao soldado desconhecido, tudo era novidade. Trocaram a roupa da cidade durante sua enfer­midade.

Quis ir à Galeria Cruzeiro tomar um chope no Bar Nacional e lá encontrou uma cidade em pé, de mil andares, e se contentou com uma laranjada no Bob’s. O Tabuleiro da Baiana, os bondes, por onde andavam? Estaria perdido? Poderia perder-se numa cidade que era sua apenas por ter ficado tão pouco tempo (vinte e dois anos) com aquele reumatismo idiota? A Rua das Marrecas tinha o nome de um po­lítico e havia um prédio encimando o Cine Metro onde ele assistira, quinze vezes seguidas, a Greer Garson em Rosa de esperança. E a Lapa, meu Deus! O que fizeram com a minha Lapa? Pelo menos a igreja está de pé, mas aquilo é novo, aquilo lá não existia, no meu tempo não tinha aquilo, roubaram os trilhos? O que fizeram dos trilhos?

O homem andava, na sua caminhada de reconhecimento, sem saber se devia aplaudir ou vaiar o progresso, já que em nome do progresso tudo tinha sido feito e modificado. Saí de casa a caminho da casa do amigo Vergara, com quem jogava xadrez nos tempos idos. De sua casa, na rua Taylor, até a casa do Vegara, na Santo Amaro, costumava ir de bonde (qualquer um servia, porque todos passavam no Largo do Machado), mas hoje estava disposto a ir a pé. Sabe lá se não acabaram também com a Praça Paris!

E o homem ia andando, sempre com o olhar circular pelos cantos da cidade. O passeio Público cercado. Se está cercado deixa de ser público!

Sem menos esperar, quase caiu num buraco.Dentro do buraco um homem, com um capacete prateado na cabeça, usava uma pá com a qual aumentava o buraco, jogando no asfalto a terra que dele tirava.

— Alô — disse o convalescente.

— Alô  resmungou, sem muita vontade, o trabalhador.

— O que é que o senhor está fazendo aí? perguntou o reumático ao homem que cavava.

— Cavando — disse o homem ao velho.

Vejam só. Além dos muitos buracos que há na cidade, em vez de fechá-los, o governo trata de abrir outros. Então era isso. Os buracos eram feitos com a concordância do governo. Ou talvez por determinação governamental.

— Fazendo um buraco, não é? — quis certificar-se o reumático.

— É, um buraco — precisou o cara de capacete metálico.

Exatamente o que ele pensara. Uma barbaridade. Onde estão as ForçasArmadas, que permitem este descalabro? Tiram-se os bondes e dão-se buracos. Bela política, essa!

— E pra que fazer um buraco, moço?

— Progresso, né? — rezingou o homem que cavava e cavava, jogando terra, algumas vezes, sobre os sapatos do velho que o aborrecia, olhando-o do alto do buraco.

Que progresso mais idiota. Depois, aposto que nem põem placas avisando que ali há um buraco, vem uma criança.

— Feche este buraco — ordenou valendo-se do seu título de cidadão.

— Não chateia! — repeliu o operário.

— Este buraco é um perigo. É um atentado à segurança pública. Como cidadão, eu ordeno: jogue no buraco esta terra — completou, enquanto empur­rava com o pé número 35 um punhado de terra que se espalhou pelo metálico capacete do trabalhador.

— Pára de jogar terra aqui, cara. Este buraco é para as obras do metrô.

Foi como se falasse latim ao Lampião. Metrô? Não teria ele querido dizer Metro? Não seria a insta­lação de mais um cinema?

— Metrô — interrogou o velho que saía à rua após vinte e dois anos de leito. — Não será Metro?

— Metrô, cara. Um trem.

Era o que faltava. Botar um trem ali, em pleno Jardim da Glória. Bolas ao progresso, que tira os bondes, tão fresquinhos e baratos, e, no seu lugar, coloca vastíssimos trens, de ruído insuportável. Agora é que ninguém dorme, da Conde Lage até nem se sabe onde.

— Que trem é esse? — questionou o homem contra o progresso.

— Será possível? — sofreu o operário que cavava às duas da tarde, sob um sol de meio-dia (era janeiro).

— Diga. Que trem é esse? Na qualidade de cidadão, eu exijo uma explicação — insistiu, zangado, o homem.

— Olhe, meu amigo. Metrô é um trem que anda por baixo da terra. Faz-se um túnel debaixo do chão, botam-se os trilhos e o trem vai pelos trilhos — explanou o empregado das obras do metrô o melhor que pôde, para encerrar, de uma vez, o assunto.

— Por baixo da terra? E ninguém respira?

— Há ventiladores.

— E a gente entra no trem de que modo?

— Há entradas. Vai haver uma entrada ali (apontou longe), o senhor compra a passagem, desce as escadas, o trem vem, o senhor entra e vai.

— Muito bem. É o progresso, não é?

— É.

— E, sendo debaixo da terra, não suja a roupa, nem…?

— É um túnel! — irritou-se o operário. — O trem corre dentro do túnel.

— Maravilhoso — admitiu. — Maravilhoso!

— Agora dê licença — pediu o funcionário, voltando a jogar terra sobre o asfalto lá em cima.

Um trem por baixo da terra. O governo está trabalhando, mesmo. Estava até arrependido de ter pensado as coisas tão antigovernistas que pensara. Ainda bem que ninguém ouviu. Podia ser tomado como um sujeito anarquista.

— E quando fica pronto?

— Hein?

— Esse trem que o senhor falou. Demora para ficar pronto?

— Um pouco.

— Mais ou menos quanto tempo?

— Uns quatro anos.

— Ah, é muito, não posso esperar.

E dirigiu-se mesmo a pé para a casa do Vergara, na Rua Santo Amaro.

Texto belíssimo de Juliana Szabluk. Direto do Releituras.

Jean Arp e as estrelas artificiais

Juliana Szabluk

Meus trovões me despertaram do profundo sono como sempre.

Tateei o criado-mudo à esquerda até encontrar meus óculos. Ainda sonolenta, névoa sobre a realidade, fui colocá-lo no rosto e entrei em pânico – minha cabeça havia desaparecido. Corri ao espelho rapidamente e, do reflexo sem reflexão, surgiu a comprovação: eu não tinha mais uma cabeça. Meu corpo terminava no pescoço. Uma escultura de Jean Arp numa situação surrealista, ainda era inexplicavelmente detentora de todos os sentidos, contudo fisicamente mutilada.

— A presença dele seria minha razão agora… — senti. Perdida, sentei no sofá úmido pela constante chuva que lavava as poucas almas da região. O cheiro de mofo rescendia da vizinhança. Constantemente, passava a mão curiosa pelo toco acima de meu peito. Apesar do desconforto, estava calma, quase que feliz em liberdade inesperada.

As memórias que restavam em locais refutados de mim me alertavam sobre as últimas discussões que tive com minha cabeça. Nos intimidamos, confrontamos, levantamos hipóteses de abandono mútuo. Estava claro que as ameaças tinham se concretizado. Onde poderia achar meu crânio desertor? Refleti sobre os lugares que ela gostava de ir e, sem hesitar, mais verdadeira e impulsiva do que achava ser possível, fui atrás.

Cheguei ofegante no planetário da cidade. A escuridão da sala seria um empecilho em minha jornada. Olhei por cima até perceber que uma cabeça solitária não tem altura suficiente para ser vista por detrás das poltronas. Vaguei fila por fila, em meio ao brilho das estrelas artificiais de um céu que pertencia a todos. Pensei ter visto algo semelhante a mim bem à frente, mas era apenas uma coruja relaxando com seu amargo charuto. Me olhou, piou, não entendi, parti.

Prossegui meu caminho em direção ao prédio dele. A cabeça sempre foi contra nosso amor, certamente a encontraria lá, o afrontando, exigindo explicações ao inexplicável, palavras ao indizível e imagens congeladas aos mais vivos sentimentos. Olhei para cima, curvei meu corpo dolorido até visualizar o décimo andar: a luz da sala estava acesa. Desviei das poças d’água e levantei com força a grade do antigo elevador, sentindo cada vértebra se romper, causando indescritível agonia. Subi.

O apartamento estava aberto… Estranhei. Atravessei a sala iluminada e ouvi gritos afobados, urros selvagens vindos de uma cabeça e de um homem que quase sempre negou qualquer outra parte de seu corpo. Ironias fantásticas, ambos se voltaram para mim, me analisaram de cima a baixo.

Fui esquecida velozmente em nome da discussão dos dois sobre o que deveria ser feito em relação aos três. Não compreendi o porquê do apego pela argumentação, mas me limitei a pegar o que era meu de volta. Precisava da cabeça mais por medo do que poderia causar aos outros do que por necessidade vital.

Fui até ela e me mordeu, a desgraçada. Larguei de uma só vez e foi rolando pela cama até parar no travesseiro, muda como eu. Os segundos de silêncio foram insuportáveis:

— Agora sabe onde estive sempre que sumia no meio da noite… — Disse ele com lágrimas nos olhos em doce amargura.

Ignorei o pranto, voltei à cabeça e a ergui, tentando desviar das mordidas, tapando-lhe a violenta boca. Parecia que queria me dizer algo, então lhe dei a chance de finalmente se pronunciar:

— A cabeça você encontrou, agora já podemos ir em busca do coração.

(2006)

Poemeterno de Roberto Freire.

 

Tradução livre de Roberto Freire (o psicanalista, poeta e inventor da Somaterapia) sobre poema de Edna St Vicente Millay:
 CANTO FÚNEBRE DA INSUBMISSÃO
=============================
Eu não concordo com a descida dos corações amantes à terra dura.
Assim é, será e foi desde tempos imemoriais: eles seguem pelas trevas, os sábios e os belos.
Coroados de lilases e de louros, eles partem; mas eu não me conformo.
Amantes e pensadores, contigo, dentro da terra, transformados na poeira morna e cega. Um fragmento do que tu sentias, daquilo que tu sabias, uma fórmula,uma frase apenas restou —  mas o melhor está perdido.
As respostas rápidas e vivas, o olhar honesto, o riso, o amor estes  partiram.
Partiram para alimentar as rosas. Os botões serão meigos, elegantes e perfumados.
Eu sei. Mas eu não aprovo. Mais preciosa era a luz em teus olhos que todas as rosas do mundo.
Fundo, fundo, fundo na escuridão da cova, docemente, os belos, os ternos, os bons, calmamente eles descem, os inteligentes,os espirituais,  os bravos.
Eu sei. Mas não estou de acordo. E eu não me conformo.
 
 

Esse coração bate muito longe de rosa e silva.

 

Bate em mais de 800.000 corações alvirrubros.

Pernambuco e Brasil afora.

Está longe do estelionato eleitoral, dos aproveitadores de plantão, dos políticos corneteiros, da tchurma do caixa 2, da tchurma no por fora que não consegue um patrocinador master, do marqueteiro ladrão.

Esse coração é de cada um que um dia já amou, ama e amará este clube com 111 anos de vida.

Poesia pura.

Amor incondicional.

Eles passarão rumo ao inferno.

Nós passarinhos, os inocentes do Rosarinho, Caxangá, Candeias, Boa Viagem, Recife, Pernambuco, Brasil, Terra.

 

AMÉM!!!

Sexta na ótima companhia de Raphael Rabello.

Give peace a chance…

 

Feliz Páscoa a todos os Fusconautas, Fuscopoetas e Fuscolouscos.

AMÉM!

SAÚDE.

HARMONIA.

LUZ.

PAZ.

TRANQUILIDADE.

TRÂNSITO LIVRE.

TRÂNSITO CALMO.

TRANSITANDO E VOLTANDO PRÁ CASA.

PORQUE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO MORREU NA CRUZ PARA NOS SALVAR.

HÁ QUEM ACREDITE.

HÁ QUEM NÃO.

COM SAÚDE.

SEM SAÚDE NO INSTANTE ACREDITAM.

BASTA SUBIR A RAMPA.

DA RESTAURAÇÃO.

O FUSCA VOLTA…

NO DIA 09 DE ABRIL.

ATÉ LÁ QUE O BOM DEUS LHES ABENÇÔE E LHES GUARDE.

OU ATÉ A ETERNIDADE.

SABE-SE LÁ.

A L I C E  NASCEU!

SOU TIVÔ DE NOVO.

ENTÃO VIVA.

GRANDE ABRAÇO.

Domingos

COMENTÁRIO DE JOHNNY G. GOOD  - POR EMAIL – PUXANDO AS ORELHAS , ETC PEI BUFE E COISA E TAL:

- O Fusca vai returbinar até segunda ? Então teremos um inédito SEGUNDA SOM (SS também KKKKKKK). Tudo bem.Você mais que merece. Só não invente esses “passeios” infernais. Não temos mais 20 an0s,nem o Tamarineira Village,nem o cine de arte Coliseu… estamos mais velhos. Temos de ter aprendido alguma coisa “after all these years”.FELIZ PÁSCOA PARA TODA FAMÍLIA! Peace and Love…SONGS!

Abraços do Johnny B. Goode!

PS: Depois da meia-noite do domingo já é dia 9. Portanto, não me faça chegar ao Fusca às 3 ou 4 da matina e não encontra- lo “frev endo”.

Chega de sal. Eu quero é mocotó!

Em homenagem ao broda Johnny B. Good, mas conhecido como João Carlos de Mendonça:
“você é incapaz de matar uma muriçoca/mas como tem capacidade de mexer meu coração”
 

 

Dois gênios da filosofia política. Por Mauro Santayana .

Santayana: homenagem
a Millor e a Chico Anysio

    Publicado em 29/03/2012

 

Se alguém achar o vento a favor contrário, entra com o que tem

 

O Conversa Afiada reproduz artigo de Mauro Santayana, extraído do JB online:

Dois gênios da filosofia política


por Mauro Santayana


A morte de Millor Fernandes e de Chico Anísio é mais do que a perda de dois grandes humoristas. Chico e Millor, cada um em seu espaço, foram importantes filósofos políticos, distanciados dos grilhões acadêmicos, e argutos observadores da realidade brasileira.


Millor não dispunha dos atributos do ator de Maranguape, capaz de usar duzentas máscaras diferentes, para expor os sentimentos e o ridículo da condição humana. Nele havia  a profundidade de reflexão, ancorada em uma erudição tanto mais ampla quanto menos pomposa. Ambos fustigaram a mediocridade e fizeram o povo pensar.


E me permitam defender uma categoria de pessoas a que também pertenço: aquelas que encontraram o seu caminho fora das escolas formais. Millor e Chico foram dispensados da moldagem do ensino tradicional, mas compensaram essa aparente dificuldade na formação dialética – e ética – do trabalho. Millor um pouco antes, no início da adolescência, ao entrar para a equipe de O Cruzeiro, e Chico, poucos anos depois, ao se tornar locutor de uma emissora de rádio.


Sendo um homem do espetáculo, e vivendo tantos e tão diferentes personagens, Chico Anísio teve a vida exposta, como um eterno caçador de experiências amorosas e pai  incansável. Uma psicanálise de botequim poderia explicar a sua afetuosidade insaciável, que o fez marido de tantas e tão belas mulheres, como resultado do mundo de ficção em que vivia. Os atores sempre adicionam à alma, ainda que não desejem, parcelas de seus personagens, como transplantes da emoção dos autores. Millor não era ator, mas, sim, um excepcional pensador. Essa foi a essencial diferença  entre os dois.


Ambos foram ácidos críticos da sociedade e aplicados defensores da verdadeira razão política. Chico exercia a sua cáustica vigilância no aparente desprezo pelas personalidades públicas. Ninguém soube caricaturar com tanta acuidade o parlamentar corrupto, do que ele, ao encarnar o deputado Justo Veríssimo. Já na fase final do regime militar, os telefonemas de Salomé, de Passo Fundo, ao Presidente João Batista Figueiredo, serviram, ao mesmo tempo, de crítica ao governo e de estímulo ao movimento de redemocratização em marcha. Millor ia muito mais fundo. Sua crítica não se limitava à política em senso estrito, aos governos e às instituições do Estado, mas atingia, em seu âmago, a sociedade contemporânea, com seus desavisos e submissão ao efêmero. Para isso, ele sempre se abasteceu dos clássicos gregos aos autores contemporâneos, passando, naturalmente, por Shakespeare, Goethe, Schiller, Molière, Racine e tantos outros. Ele era capaz de ir adiante das reflexões desses grandes autores, ao trabalhá-las em sua fulgurante inteligência. Ele usava a  erudição para resumir a sua visão do mundo em frases curtas, certeiras, surpreendentes, definitivas.


Não conheci pessoalmente Chico Anísio. Meu universo era outro. Não morando no Rio, fui privado de  convívio maior com Millor. Fazíamos parte, como tantos outros de nossos contemporâneos, do Círculo de Conceição de Mato Dentro que se reunia eventualmente no apartamento de José Aparecido, em Copacabana. Ambos fomos agraciados com o título de cidadãos de Conceição o que, para os que não conheceram Aparecido, nem a cidade na Serra do Espinhaço, pode não ter qualquer importância. A cidade de Aparecido, tão forte na história e no caráter de Minas, hoje, mais do que a Itabira de Drummond, não passa de uma foto esmaecida: mineradores estrangeiros a conspurcaram, ao dilacerar as  serras que a cercam e esvaziar a cidade de sua identidade e de seu caráter ancestral.


Entre as minhas memórias de Millor, há a de um encontro na terra de Aparecido, em que ele, Gerardo de Mello Mourão, Newton Rodrigues e eu mesmo – não me lembro se houve outros colaboradores – redigimos longo poema sobre o aniversário de José, naquele mesmo dia, e que se iniciava com a evocação da morte de Giordano Bruno na fogueira, em 17 de fevereiro de 1600. Os versos de Millor foram os mais fortes, mais limpos e mais significativos, naquele  “abc” em louvor do aniversariante.


As sucessivas  gerações  de homens brilhantes, que atravessaram o século 19 e fizeram a primeira metade do século 20, de Machado e Bilac, de Lima Barreto, de Belmonte e de J. Carlos; de Graciliano, José Lins, de Getúlio Vargas e de tantos homens de gênio foi sucedida por personalidades fortes da segunda metade do século passado, algumas das quais cruzaram o milênio. Chico e Millor, gênios vindos do povo,  em sua forma de ver o mundo e nele se integrar, foram figuras emblemáticas dessa geração singular na história do país.


Uma frase de Millor, inscrita na escultura que adorna a porta do apartamento de José Aparecido no Rio, pode resumir a sua atitude diante da vida: Se alguém achar o vento a favor contrário, entra com o que tem.


 

 

Poemito atrevido…

Para Ana Luiza,

OLHOS BEM ABERTOS

 quando a noite

enfim chegar,

que teus olhos me vejam

e possam

me assistir

assim por inteiro

dentro de ti…

Taser não mamãe. Covardia suprema!

Do Blog Vi o Mundo (www.viomundo.com.br):

Dr. Arnaldo Lichtenstein: “Pistola de choque pode causar arritmia cardíaca e matar, sim”

por Conceição Lemes

O taser é uma pistola cujos “disparos” dão eletrochoque. O objetivo é paralisar possível infrator.

Atualmente existem 700 mil no mundo. No Brasil, chegam a 15 mil. Aqui, está em uso pelas polícias de vários municípios e estados, como Rio de Janeiro, Acre, Bahia e Rio Grande do Sul. Deverá ser utilizada pelas forças de segurança do Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Tanto que governo federal, estados e cidades-sede já confirmaram que vão priorizar o uso desse tipo de armamento em instalações esportivas, estádios e seus arredores.

É a mesma arma que no último domingo, 18 de março, matou o estudante brasileiro Roberto Laudisio Curti, 21 anos, em Sydney, na Austrália.

“Embora seja considerada uma arma não letal, a pistola taser pode matar, sim”, adverte o clínico geral Arnaldo Lichtenstein, do Hospital das Clínicas de São Paulo, professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. “Evidentemente uma pessoa com doença cardíaca atingida tem mais risco. Se usa marcapasso, o aparelho pode desregular. Porém, uma pessoa saudável, hígida, não está totalmente livre de risco.”

Carlos Alberto Lungarzo, membro da Anistia Internacional e professor titular aposentado da Unicamp, reforça: “O taser representa um grande perigo, pois a polícia ilude a população com o fato de que ele não é letal. Só que essa ideia embute falácias”.

DA ‘FAMÍLIA” DE BALA DE BORRACHA, GÁS LACRIMÔNEO E SPRAY PIMENTA

O taser integra a categoria das chamadas armas não letais, da fazem parte também o bastão de choque, as balas de borracha, o gás lacrimogêneo e o spray de pimenta.

Parece pistola comum, mas tem uma “bala” diferente. O gatilho aciona um sistema de ar comprimido, que impulsiona o lançamento de dois dardos. Conectados à pistola por fios metálicos, os dardos podem atingir um alvo a quase 11 metros de distância. Os dardos penetram 2,5 cm na pele e transmitem descargas elétricas de até 50 mil volts, porém com baixa corrente. Essas ondas eletromagnéticas atuam no sistema nervoso central e interrompem os sinais que o cérebro emite para o corpo. A pessoa atingida fica, então, paralisada durante alguns segundos. Seus músculos se contraem, ela treme e cai.

O choque pode afetar o corpo de duas maneiras:

* O coração se contrai pelo estímulo elétrico. Se uma carga elétrica cai num determinado ponto desse ciclo cardíaco, ela pode desencadear uma parada cardíaca. É por isso que, numa reversão de arritmia com choque, o desfibrilador tem de estar sincronizado com esse ritmo.

“Daí por que até um choque de tomada pode causar parada cardíaca, independentemente da amperagem ou corrente elétrica”, afirma o doutor Lichtenstein.

* Um choque intenso, como um raio, paralisa os músculos, inclusive o  diafragma, e pode causar parada respiratória. “Lógico que o choque do taser é  mais fraco do que um raio, mas vários disparos seguidos numa mesma pessoa podem, potencialmente, ter esse efeito”, expõe o médico.

“Mas não dá mesmo para garantir a inocuidade do taser?”, alguém talvez cobre.

A resposta é não.

Como no meio de uma briga de torcidas, por exemplo, dá para saber se o alvo tem ou não uma doença cardíaca grave? Impossível!

E se essa pessoa, na queda, bate a cabeça no chão? Ela pode não morrer do choque, mas do tombo.

“Além disso, abusando da idéia de que não é mortal, a polícia nos Estados Unidos, por exemplo, usa o taser com extrema frequencia, sem necessidade e com intensidade maior para atravessar a roupa”, alerta Lungarzo.

FACILIDADE DE TRANSPORTE E USO, SEM DEIXAR MARCAS EVIDENTES, FAVORECE MUITO O ABUSO

Nos EUA, segundo estudo da Anistia Internacional, de 2001 a agosto de 2008, 334 pessoas morreram após serem atingidas por taser.

“Ao contrário do que são retratados, os tasers não são armas ‘não letais’”, diz Angela Wright, pesquisadora da Anistia Internacional lá. “Como são fáceis de transportar e usar, sem deixar marcas significativas, facilitam muito os abusos.”

Um outro estudo da Anistia ns EUA, que inclui informações de 98 autópsias, descobriu que 90% das pessoas que morreram depois atingidas por “tiros” de taser estavam desarmadas e muitas não representavam ameaça grave.

Entre elas, muitas foram submetidas a choques repetidos ou prolongados ou por mais de um policial de cada vez. Em pelo menos seis dos casos, os tasers foram usados em indivíduos com problemas de saúde, como convulsões, inclusive num médico que teve um acidente de carro após sofrer ataque epiléptico. Ainda meio tonto e confuso, começou a andar pelo acostamento. O policial mandou-o parar. Como não obedeceu, recebeu sucessivos “tiros”, por não obedecer a ordem. Policiais também têm usado os tasers em crianças, mulheres grávidas e até mesmo numa mulher com demência.

“As armas de eletrochoque, como os tasers, foram lançadas para o uso geral antes de testes rigorosos e independentes sobre os seus efeitos”, preocupa-se Angela Wright. “Estudos existentes – muitos deles financiados pela indústria – concluíram que o risco dessas armas é geralmente baixo em adultos saudáveis. No entanto, esses estudos são limitados e têm apontado para a necessidade de mais compreensão dos efeitos de tais dispositivos em pessoas vulneráveis, incluindo aquelas sob a influência de drogas estimulantes ou problemas de saúde.”

Não à toa a Anistia Internacional já pediu a todos os países que suspendam o uso dos tasers. Ou, pelo menos, reduzam drasticamente o seu uso.

“O taser deve ser usado apenas imobilizar ou desarmar o agressor, desde que ele esteja armado”, completa Lungarzo. “Não deve ser empregado para imobilizar alguém que foge, mas alguém que ataca.”

PS do Viomundo: Nesse domingo, 25, um homem de 33 anos morreu em Florianópolis (SC) após ser imobilizado pela pistola de choque.

A Nona…no toitiço desta segunda.

Amém.
Se Bach não tivesse nascido… a música erudita não poderia ser chamada de a única música eterna.

Leminski. Sexta-feira santa.

Setentinha. Jorge Benjor. Salve salve maravilha!

Ritalina não mamãe. Repeteco em homenagem a Poeta Magna.

A DROGA DA OBEDIÊNCIA ( publicado em 12/11/2010), com os comentários da Poeta Magna. De novo. E Amém.

Assisto estarrecido entrevista na globo news com a Dra. Maria Aparecida Moysés, do Depto de Pediatria da Unicamp – SP.

O Brasil já é o segundo país do mundo (só atrás do tio Sam) em prescrição da Ritalina.

A droga da obediência.

Nos ensina a referida Dra., que a Ritalina tem semelhanças em escalas diferentes, com as anfetaminas, a codeína e a cocaína.

E nos relata que a maioria dos jovens que foram medicados a vida inteira com essa droga , vão em seguida,  dar os seus saltos para o crack, a cocaína e outras drogas semelhantes. Porque tudo é uma questão de hábito e de dependência.

Estimulantes procuram seus iguais.

Em 2004, após ler o excelente livro Mentes Inquietas, me considerei um velho com TDAH – Transtorno do Déficit da Atenção e Hiperatividade.

Não conseguia me concentrar, estudar.

Meti Ritalina no quengo durante um mês. Se sofrimento tivesse medidas e pudesse ser pesado, eu diria que levei um tiro de doze na caixa do peito. Nem completei os 30 dias. Foda-se Ritalin.

Fui curtir a Rita Lee.

Os quatro Cavaleiros de Liverpool.

A MBB – Música Brasileira da BOA.

E quanto escuto qualquer pai falar que quer medicar seu filho porque ele não está se concentrando, está com notas baixas etc e tal eu às vezes pergunto, outras me calo, outras até choro, de dó daquele coitado.

Minha pergunta sempre é: tú tivestes infância?

Que infância teu filho tem ou teve?

Brincou bastante? Sujou os pés, as mãos, subiu em árvores, passou o dia fora na rua batendo bola num campinho? Não?

Então você pelo menos esteve ao lado dele o escutando? Afeto, respeito, carinho. Inclusive com a mãe deles. Fundamental !!!

Normalmente não  há prosseguimento neste tipo de conversa.

Ninguém quer escutar conselhos. Conselhos não servem prá nada.

Mas se alguém me escutar neste grito solitário, por favor:

RITALINA NÃO MAMÃE. RITA LEE E MUITO AMOR E UMA ESCUTA ATIVA. MUITO ROCK AND ROLL, MBB, PRAIA, TEATRO, PARQUES, CAMINHADAS, APERTO DE MÃO, ABRAÇOS, BEIJOS. SUFOQUE SEUS FILHOS COM BEIJOS E ABRAÇOS. TEM UM PODER DE CURA EXTRAORDINÁRIO.

Substituem qualquer droga, mas qualquer droga mesmo.

Mesmo nos casos de diagnóstico preciso, exato, de algum transtorno de hiperatividade, a médica em questão diz que nunca prescreveria Ritalina. Em nenhuma hipótese.

Fica aqui a minha prece.

E O ENRIQUECIMENTO POÉTICO COM AS SEMENTES DE AMOR DE MAGNA, A POETA:

“Domingos, muito bom trazer o assunto à pauta. Deixo indicação de um livro que reflete um pouco mais: “Somos todos desatentos? – O TDAH e a construção de bioidentidades” de Rossano Cabral Lima. Não assisti à matéria que você falou, mas há um ano vi uma no JN, a qual trouxe a informação de um aumento de 600% de prescrição da droga(pode?). Logo após, recebi por email uma manifestação da ABDA(Associação Brasileira de Deficit de Atenção) totalmente contra a matéria e “apedrejando” uma pediatra(veja, só foi uma) que falou contra a medicação. Disse o Dr. Marco A. Arruda sobre a médica: “Ignora ela o impacto que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade causa aos portadores, seus familiares e a sociedade como um todo, ignora ela que menos de 1% dos portadores são diagnosticados e tratados em nosso país”. E aí eu fiquei me perguntando: se menos de 1% são diagnosticados e o aumento da prescrição foi de 600%, como seria se 100% fosse diagnosticado? O fato, meu amigo, é que fanatismo não existe apenas na religião.
Não é negar a existência do TDAH, mas enquadrá-lo realisticamente.
Enfim, como vê, acabo me envolvendo com o tema. Questão profissional. O livro, no entanto, traz mais e melhores considerações. Não é à toa que, atualmente, buscamos explicações no nosso corpo para o que antes entendíamos como subjetivo.
Vamos em frente cuidando de nossas crianças.
Abraços”.
Magna

PS – Magna depois nos avisa que, não foram 600% e sim de 1.000% o aumento na prescrição da droga.

Série Tabelas Eternas e Impensáveis. Clarice Lispector & Yo Yo Ma.

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Clarice Lispector

 

 

Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas… continuarei a escrever
Clarice Lispector

 

Lima Barreto. Para uma segunda-feira.

Queixa de defunto

Lima Barreto

Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, a Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tornar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.

Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.

Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte um sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensa mento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais.

Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos “bíblias”, nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.

Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda eloqüência em galego ou vasconço.

Segui–as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. E bom, meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.

Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.

Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanha mento tiveram que atravessar em toda a extensão a Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.

Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.

Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranha duras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo:

— Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado — como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?

Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.

Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc. Posso garantir a fidelidade da cópia a aguardar com paciência as providências da municipalidade.

Manoel de Barros.

Soberania

 

Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bem-te-vi.

 

Da casa de Rubem Alves. O Panelaço.

“Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.”
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho…
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres…
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?” (Walt Whitmann)


 

Hoje é o dia dedicado…

Espaço em branco compartilhado com Drummond, Pessoa, Clarice, Leminski, Quintana, Bandeira, Edgar, Tadeu, Arsênio, Magna, João Carlos, André, Oswaldo, Vinicius, Cora, Alice, João Cabral, Erickson Luna,Fátima Viganó e todos os que estão aqui e no Hubble, porque:

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

É preciso ler Baudelaire, é preciso estar sempre bêbado, é preciso ter mãos pálidas para anunciar o fim do mundo…

Cada um dá o que tem.

Tempos duros. Tempos difíceis. Apertos. Insônias. Batalhas.

Quem nesta vidagangorra nunca passou por fases em que a maré está seca e tudo parece dar errado?

E nessas horas , quem nunca guardou um gesto de generosidade de alguém?

Às vezes da própria família, outras vezes de um completo estranho.

E após passada a tempestade a vida segue mais leve. Nós? Muito  mais experiente e calejados.

Com certeza uma existência um livro, um dicionário, uma enciclopédia.

Já legava o broda das antigas: cada um dá o que tem.

Não se pode cobrar mais de quem não tem prá dar.

Aliás, se no exercício da prudência estivermos sempre e vigilantes, não cobraríamos de ninguém.

Mas se surpreende o antagonismo dos humanos.

Trago no peito lembrança de um grande amigo e ex-colega de trabalho que, sabendo eu no maior liseu da minha vida, dividia sua humilde marmita comigo. A magreza da sua figura se contrapunha a grandeza da sua alma.

E , muitas vezes, o amigo ao dividir comigo o rango nosso de cada dia dava o que de melhor tinha: a compreensão e a tolerância.

Não julgava, não perguntava porque eu estava passando por aquilo.

Passados mais de uma década, mais ou menos, me vejo em posição inversa e na possibilidade de ajudar o nobre colega.

E feliz, sei que o pouco que fiz, foi de coração. E o amigo entendeu e agradeceu em sorriso tímido, em larga esperança.

Está se recuperando e assim caminhamos. Ele vai conseguir.

Por isso, ao tomar conhecimento de uma vida conjugal de uma pessoa tão querida minha, embora more em outro estado, fiquei perplexo.

Justamente na hora em que preparava o almoço com os filhos (Ana Luiza no plantão), recebo a ligação com estória já descrita tristemente em códigos lá no feissibuki.

O amigo(a) havia sido desconvidado pela sogra(o) assim na lata. No toitiço. Na titela da requenguela.

O Cônjugue? Havia comunicado secamente: Mamãe (papai) chamou para almoçar com ele. O amigo(a) : oba !!!

O Cônjugue? Mas ele (a) falou que não tem comida para você e os meninos não, só para mim.

E partiu.

Comentando com a cumadre, ela disse de pronto.

Como diriam todas as esposas dos Brodas e Brodas aqui presentes.

Eu não ia nem vivo, quanto mais morto assim de vergonha?

Ficaria com a minha família.

E ponto final.

Aliás , deixa estar…

Ana Cristina César e esta lua cheia e este Poema.

A dor se foi…

 

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

 um filete de sangue nas gengivas

Polêmico e humanista: Fernando de Mota Lima.

O último humanista

Fernando da Mota Lima

Fui mordido por um cachorro quando tinha três anos de idade. É uma das mais remotas e traumáticas memórias de minha vida. Talvez por isso costume lembrar com prazer a definição do uísque proposta por Vinícius de Moraes, uma das maiores autoridades no assunto: o uísque é o cachorro engarrafado. Traduzindo-a a meu modo, não gosto de cachorro, não confio em cachorro. O único cachorro que tenho como amigo é o uísque. Indo adiante, sou um humanista impenitente. Olhando à minha volta, todos os dias, começo a desconfiar de que sou o último. Meus semelhantes, decerto desiludidos do convívio humano, preferem cada vez mais a companhia dos cachorros.

Quem lembra ainda uma canção de Waldick Soriano, o rei do brega, num tempo em que a classe média letrada tinha o pudor de ser confundida com esse tipo de música, e antes de tudo padrão de comportamento, na qual ele orgulhosamente se distinguia do cachorro? “Eu não sou cachorro não”, gemia o cantor magoado com o sofrimento que a amada cruel lhe impunha. Hoje uma canção dessas seria inconcebível. Não por ser brega. Bem pelo contrário, a julgar pela qualidade corrente do que se ouve, a canção de Waldick seria hoje louvada como um clássico da canção popular. A canção seria inconcebível porque o cachorro foi elevado a uma condição de privilégio amoroso invejável. Falando por mim (por quem mais poderia falar?) passei a invejar caninamente os cachorros. Todas as tardes saio para caminhar no calçadão da praia e assisto sempre, de coração cortado, a esse espetáculo invariável: meus semelhantes, sobretudo mulheres, passeiam exibindo orgulhosamente seus cachorros. Muitos saem enfeitados com coleiras coloridas, penteados caprichosos, todos talvez zombando da indiferença com que nós humanos nos tratamos.

Outro dia fui visitar um amigo internado na UTI (U Teu Inferno, segundo minha tradução). Diluído num círculo de parentes e amigos do enfermo, fiquei sem assunto durante mais de uma hora. Afinal, fui sem cachorro na coleira, sem cachorro no coração, sem misantropia na ponta da língua. Todos os presentes falavam amorosamente dos seus cachorros: de salão de beleza para cachorro, comida para cachorro, clínica idem, toda uma rede de serviços para cachorro. Ninguém mencionou sequer (juro!) o nome do meu amigo enfermo, que aliás morreu poucos dias mais tarde.

Mudo de cenário. O condomínio onde moro. Quase ninguém se cumprimenta, quase ninguém se conhece ou manifesta interesse em conhecer o vizinho, literalmente o próximo. Descobri, no entanto, um meio infalível de me darem atenção. Entro no elevador e esbarro na vizinha atada à coleira do seu cão. Observo casualmente: como é lindo o seu cão… Ela muda automaticamente. Graças ao cão amado (por ela, claro) recolho dois grãos de atenção ou dois dedos de conversa de alguém que me ignorava e continuaria a fazê-lo, não fosse a dissimulada atenção que concedi a seu objeto de amor.

Não há dúvida de que está em processo uma experiência de deslocamento afetivo na cultura hiperindividualista em que vivemos. A isso se soma uma noção generalizada de hedonismo que agrava ainda mais relações humanas já por si difíceis. Embora não duvide do amor que meus semelhantes devotam a seus cães, acredito antes de tudo que a devoção é sintoma de indiferença pelo próximo, sintoma de uma crescente dificuldade de convívio com o outro humano. Longe de mim idealizar esse outro humano no qual me reconheço. Sei dos horrores de que somos capazes. Mas sei também da grandeza, de uma gama de expressões humanas que nos salvam ou atenuam o avesso cruel da nossa condição. Bem ou mal, é com meu semelhante que me entendo e desentendo, já que compartilhamos uma língua comum, um código de sentido opaco e instável, mas sempre reconhecível. Além disso, já não tenho idade para aprender a latir e sujar de cocô as calçadas da cidade. Não bastasse tanto, sinto ainda na orelha os dentes do cão que me mordeu quando eu não passava de uma inofensiva criança de três anos. Em suma, fico com o cão engarrafado de Vinícius de Moraes.


E-MAIL: ffmota48@yahoo.com.br

BLOG: http://flima.blogspot.com

 

 

Amar é mudar a alma de casa (Mário Quintana).

Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
Com janelas de aurora e árvores no quintal -
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
E ao crepúsculo fiquem cinzentas
como a roupa dos pescadores.

O que desejo é apenas uma casa.
Em verdade, Não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.

Sem nome, porém honrada, Senhor.
Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que
nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir
os ventos pelos caminhos, e ver o sol

Dourando os cabelos negros
e os olhos de minha amada.

Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.
Em verdade ele é a parte mais importante deste poema.
Em verdade vos digo, e bastante constrangido,
Que sem ela a casa também eu não queria,
e voltava pra pensão.

Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos
E a dona é sempre uma senhora
do interior que tem uma filha alegre.
Eu adoro menina alegre,
e daí podeis muito bem deduzir

Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.

Nas minhas solidões de amor e
nas minhas solidões do pecado
Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis
Como amarga a vida de um
homem o carinho das prostitutas!

Vós sabeis como tudo amarga
naquelas vestes amassadas
Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.

Permiti que eu sonhe com
a minha amada também, porque:
- De que me vale ter casa sem ter
mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame
andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o
como se vê nos cinemas…

O ideal seria uma que amasse fazer comparações
de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno,
gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas…

O ideal seria uma menina boba:
que gostasse de ver folha cair de tarde…
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas …
O ideal seria uma criança sem dono,
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome -
senão que um sorriso triste
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto
das crianças que não têm rumo…

Manoel de Barros

Em minha casa reuni brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não poderia viver. O menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que vivia nele e que lhe fará muita falta.

Pablo Neruda

Meu lar é sempre onde estou, meu lar está na minha mente, meu lar são meus pensamentos, meu lar é pensar as coisas que eu penso. Esse é meu lar. Meu lar não é um lugar material por ai… meu lar está na minha mente.

Bob Marley

Nasci no lar que precisava.
Visto o corpo físico que mereço.
Moro onde melhor Deus me proporcionou de acordo com meu adiantamento.
Possuo os recursos financeiros coerentes com as minhas necessidades, nem mais, nem menos, mas o justo para as minhas lutas terrenas.
Meu ambiente de trabalho é o que elegi espontaneamente para a minha realização.
Meus parentes, amigos são as almas que atraí, com minha própria afinidade.
Portanto, meu destino está constantemente sob meu controle.
Eu escolho, recolho, elejo, atraio, busco, expulso, modifico tudo aquilo que me rodeia a existência.

Ignorado

Solano Trindade (Recife – 1908 – Eternidade).

 

SOU NEGRO

A Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh’alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação…

 

CANTO À AMADA

Eu tenho uns versos bonitos
pra cantar pra minha amada
sempre sempre desdobrada
em beleza e formosura

Ontem minha amada estava
dentro da cara da Lua
numa garota da rua
no palhaço da folia

Um dia vi minha amada
nas águas do grande mar
outra vez a encontrei
num belo maracatu

Numa canção ela estava
num samba estava também
estava numa boa pinga
sempre está no meu amor

Eu tenho uns versos bonitos
pra cantar pra minha amada
sempre sempre desdobrada
em beleza e formosura

 

 

Canta América


Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…

 

 

CONVERSA

 

- Eita negro!
quem foi que disse
que a gente não é gente?
quem foi esse demente,
se tem olhos não vê…

 

- Que foi que fizeste mano
pra tanto falar assim?
- Plantei os canaviais do nordeste

 

- E tu, mano, o que fizeste?
Eu plantei algodão
nos campos do sul
pros homens de sangue azul
que pagavam o meu trabalho
com surra de cipó-pau.

- Basta, mano,
pra eu não chorar,
E tu, Ana,
Conta-me tua vida,
Na senzala, no terreiro

 

- Eu…
cantei embolada,
pra sinhá dormir,
fiz tranças nela,
pra sinhá sair,

tomando cachaça,
servi de amor,
dancei no terreiro,
pra sinhozinho,
apanhei surras grandes,
sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa
tu tens pra contar…
não conta mais nada,
pra eu não chorar -

 

E tu, Manoel,
que andaste a fazer
- Eu sempre fui malandro
Ó tia Maria,
gostava de terreiro,
como ninguém,
subi para o morro,
fiz sambas bonitos,
conquistei as mulatas
bonitas de lá…

 

Eita negro!
- Quem foi que disse
que a gente não é gente?
Quem foi esse demente,
se tem olhos não vê.

 

 

Eu gosto de ler gostando

 

Eu gosto de ler gostando,
gozando a poesia,
como se ela fosse
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
gostando de ser beijada.

 

Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
como se ele fosse
boca de mulher pura
simples boa libertada
boca de mulher que pensa…
dessas que a gente gosta
gostando de ser gostada.

 

 

Olorum ÈKE

 

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

 

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

 

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê

 

 

 

 

 

 

Um poema bissexto. Quem dera…

Poemaço quem dera…

Afinal de contas eu … poemitos.

E soluçando vou respirando.

Acabando de vir da roda de choro e samba de raíz lá do Neno.

Pode parecer impossível. Mas foi lá. No Neno.

Samba de raiz.

Choro da melhor qualidade.

Sax, voz, violão de sete e cantor de prima.

E aí?

É um poema bissexto que sai ou não sai nesta terça-feira modorrenta?

Sai, mais ou menos assim:

Amor, quem dera,

promessas te alimentassem,

você não faz de conta,

a dura realidade é o teu concluso resultado,

rimas, versos, síncopes

que nada…

Eu quero é saber com quantos algoritimos se faz

um nerd…

Eu?

Sou da raiz dos irmãos;

Então lá vai:

Vivia esperando,

como se não pertencessse

a lugar nenhum,

Vivia? Quase nada…

Pois viver é antever o que o braço

estende até alcançar a morte…

Vivia,

mas vegetava,

não sabia

que o sono é sagrado

que as manhãs são afônicas,

que as luas são embriaguez,

que o violão é orfão.

Sabe, talvez pressinta,

os passos da vida além da morte.

Não faz poemas,

faz presságios,

olha a sílaba da dor

e se adianta

impedido,

como um atacante fora do seu tempo…

É cedo, 

mais do que o tempo pode predizer,

não foi ontem,

não será por hoje,

encontro velhos vultos,

na emboscada do bar,

eles se agigantam,

pois entesouraram metais,

que enferrujam..

Mas eu insisto..

É um poema longo,

cheio de decassílabos,

os entendidos dirão:

não presta…

o poema tem ritmo, tem luz, tem griffe,

o poema tem dono,

sobrenome,

e acima de tudo

o poema tem um céu.

Qual o céu do meu poema?

Ele não tem nem varanda,

nem balaustrada,

nem alpendre,

o meu poema é velho,

como uma vila de comerciários,

como uma casa amarela,

com0 um alto josé do pinho.

Mas ele existe,

e insiste.

E quem quiser…

Me diga como o poema nasce

de um parto prematuro…

HAI KAI de Edgar Mattos. Poema/ço.




QUISERA TER VOCÊ

AMANHÃ,

DEPOIS,

E SEMPRE

MAS,

SE NÃO FOR POSSÍVEL,

QUE SEJA APENAS HOJE,

PLENAMENTE !

 

Sexta de luxo com Erico Veríssimo.

As mãos de meu filho

Erico Verissimo

Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros.
Beethoven.

Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.

Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria.

Adágio. O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda.

Num dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao sol… A melodia, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente.

Quando o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater. Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a platéia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos.

Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico.

Suggestion Diabolique.

D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os pés, machucando os calos.

Não faz mal. Estou no camarote. Ninguém vê.

Mexe os dedos do pé com delícia. Agora sim, pode ouvir melhor o que ele está tocando, ele, o seu Gilberto. Parece um sonho… Um teatro deste tamanho. Centenas de pessoas finas, bem vestidas, perfumadas, os homens de preto, as mulheres com vestidos decotados — todos parados, mal respirando, dominados pelo seu filho, pelo Betinho!

D. Margarida olha com o rabo dos olhos para o marido. Ali está ele a seu lado, pequeno, encurvado, a calva a reluzir foscamente na sombra, a boca entreaberta, o ar pateta. Como fica ridículo nesse smoking! O pescoço descarnado, dançando dentro do colarinho alto e duro, lembra um palhaço de circo.

D. Margarida esquece o marido e torna a olhar para o filho. Admira-lhe as mãos, aquelas mãos brancas, esguias e ágeis. E como a música que o seu Gilberto toca é difícil demais para ela compreender, sua atenção borboleteia, pousa no teto do teatro, nos camarotes, na cabeça duma senhora lá embaixo (aquele diadema será de brilhantes legítimos?) e depois torna a deter-se no filho. E nos seus pensamentos as mãos compridas do rapaz diminuem, encolhem, e de novo Betinho é um bebê de quatro meses que acaba de fazer uma descoberta maravilhosa: as suas mãos… Deitado no berço, com os dedinhos meio murchos diante dos olhos parados, ele contempla aquela coisa misteriosa, solta gluglus de espanto, mexe os dedos dos pés, com os olhos sempre fitos nas mãos…

De novo D. Margarida volta ao triste passado. Lembra-se daquele horrível quarto que ocupavam no inverno de 1915. Foi naquele ano que o Inocêncio começou a beber. O frio foi a desculpa. Depois, o coitado estava desempregado… Tinha perdido o lugar na fábrica. Andava caminhando à toa o dia inteiro. Más companhias. “Ó Inocêncio, vamos tomar um traguinho?” Lá se iam, entravam no primeiro boteco. E vá cachaça! Ele voltava para casa fazendo um esforço desesperado para não cambalear. Mas mal abria a boca, a gente sentia logo o cheiro de caninha. “Com efeito, Inocêncio! Você andou bebendo outra vez!” Ah, mas ela não se abatia. Tratava o marido como se ele tivesse dez anos e não trinta. Metia-o na cama. Dava-lhe café bem forte sem açúcar, voltava apara a Singer, e ficava pedalando horas e horas. Os galos já estavam cantando quando ela ia deitar, com os rins doloridos, os olhos ardendo. Um dia…

De súbito os sons do piano morrem. A luz se acende. Aplausos. D. Margarida volta ao presente. Ao seu lado Inocêncio bate palmas, sempre de boca aberta, os olhos cheios de lágrimas, pescoço vermelho e pregueado, o ar humilde… Gilberto faz curvaturas para o público, sorri, alisa os cabelos. (“Que lindos cabelos tem o meu filho, queria que a senhora visse, comadre, crespinhos, vai ser um rapagão bonito.)

A escuridão torna a submergir a platéia. A luz fantástica envolve pianista e piano. Algumas notas saltam, como projéteis sonoros.
Navarra.

Embalada pela música (esta sim, a gente entende um pouco), D. Margarida volta ao passado.

Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocêncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo…

— Inocêncio, quando é que tu crias juízo?

O pior era que ela não sabia fazer cenas. Achava até graça naquele homenzinho encurvado, magro, desanimado, que tinha crescido sem jamais deixar de ser criança. No fundo o que ela tinha era pena do marido. Aceitava a sua sina. Trabalhava para sustentar a casa, pensando sempre no futuro de Gilberto. Era por isso que a Singer funcionava dia e noite. Graças a Deus nunca lhe faltava trabalho.
Um dia Inocêncio fez uma proposta:

— Escuta aqui, Margarida. Eu podia te ajudar nas costuras…

— Minha Nossa! Será que tu queres fazer casas ou pregar botões?

— Olha, mulher. (Como ele estava engraçado, com sua cara de fuinha, procurando falar a sério!) Eu podia cobrar as contas e fazer a tua escrita.

Ela desatou a rir. Mas a verdade é que Inocêncio passou a ser o seu cobrador. No primeiro mês a cobrança saiu direitinho. No segundo mês o homem relaxou… No terceiro, bebeu o dinheiro da única conta que conseguira cobrar.

Mas D. Margarida esquece o passado. Tão bonita a música que Gilberto está tocando agora… E como ele se entusiasma! O cabelo lhe cai sobre a testa, os ombros dançam, as mãos dançam… Quem diria que aquele moço ali, pianista famoso, que recebe os aplausos de toda esta gente, doutores, oficiais, capitalistas, políticos… o diabo! — é o mesmo menino da rua da Olaria que andava descalço brincando na água da sarjeta, correndo atrás da banda de música da Brigada Militar…

De novo a luz. As palmas. Gilberto levanta os olhos para o camarote da mãe e lhe faz um sinal breve com a mão, ao passo que seu sorriso se alarga, ganhando um brilho particular. D. Margarida sente-se sufocada de felicidade. Mexe alvoroçadamente com os dedos do pé, puro contentamento. Tem ímpetos de erguer-se no camarote e gritar para o povo: “Vejam, é o meu filho! O Gilberto. O Betinho! Fui eu que lhe dei de mamar! Fui eu que trabalhei na Singer para sustentar a casa, pagar o colégio para ele! Com estas mãos, minha gente. Vejam! Vejam!”

A luz se apaga. E Gilberto passa a contar em terna surdina as mágoas de Chopin.

No fundo do camarote Inocêncio medita. O filho sorriu para a mãe. Só para a mãe. Ele viu… Mas não tem direito de se queixar… O rapaz não lhe deve nada. Como pai ele nada fez. Quando o público aplaude Gilberto, sem saber está aplaudindo também Margarida. Cinqüenta por cento das palmas devem vir para ela. Cinqüenta ou sessenta? Talvez sessenta. Se não fosse ela, era possível que o rapaz não desse para nada. Foi o pulso de Margarida, a energia de Margarida, a fé de Margarida que fizeram dele um grande pianista.

Na sombra do camarote, Inocêncio sente que ele não pode, não deve participar daquela glória. Foi um mau marido. Um péssimo pai. Viveu na vagabundagem, enquanto a mulher se matava no trabalho. Ah! Mas como ele queria bem ao rapaz, como ele respeitava a mulher! Às vezes, quando voltava para casa, via o filho dormindo. Tinha um ar tão confiado, tão tranqüilo, tão puro, que lhe vinha vontade de chorar. Jurava que nunca mais tornaria a beber, prometia a si mesmo emendar-se. Mas qual! Lá vinha um outro dia e ele começava a sentir aquela sede danada, aquela espécie de cócegas na garganta. Ficava com a impressão de que se não tomasse um traguinho era capaz de estourar. E depois havia também os maus companheiros. O Maneca. O José Pinto. O Bebe-Fogo. Convidavam, insistiam… No fim de contas ele não era nenhum santo.

Inocêncio contempla o filho. Gilberto não puxou por ele. A cara do rapaz é bonita, franca, aberta. Puxou pela Margarida. Graças a Deus. Que belas coisas lhe reservará o futuro? Daqui para diante é só subir. A porta da fama é tão difícil, mas uma vez que a gente consegue abri-la… adeus! Amanhã decerto o rapaz vai aos Estados Unidos… É capaz até de ficar por lá… esquecer os pais. Não. Gilberto nunca esquecerá a mãe. O pai, sim… E é bem-feito. O pai nunca teve vergonha. Foi um patife. Um vadio. Um bêbedo.

Lágrimas brotam nos olhos de Inocêncio. Diabo de música triste! O Betinho devia escolher um repertório mais alegre.

No atarantamento da comoção, Inocêncio sente necessidade de dizer alguma coisa. Inclina o corpo para a frente e murmura:

— Margarida…

A mulher volta para ele uma cara séria, de testa enrugada.

— Chit!

Inocêncio recua para a sua sombra. Volta aos seus pensamentos amargos. E torna a chorar de vergonha, lembrando-se do dia em que, já mocinho Gilberto lhe disse aquilo. Ele quer esquecer aquelas palavras, quer afugenta-las, mas elas lhe soam na memória, queimando como fogo, fazendo suas faces e suas orelhas arderem.

Ele tinha chegado bêbedo em casa. Gilberto olhou-o bem nos olhos e disse sem nenhuma piedade:

— Tenho vergonha de ser filho dum bêbedo!

Aquilo lhe doeu. Foi como uma facada, dessas que não só cortam as carnes como também rasgam a alma. Desde esse dia ele nunca mais bebeu.

No saguão do teatro, terminado o concerto, Gilberto recebe cumprimentos dos admiradores. Algumas moças o contemplam deslumbradas. Um senhor gordo e alto, muito bem vestido, diz-lhe com voz profunda:

— Estou impressionado, impressionadíssimo. Sim senhor! Gilberto enlaça a cintura da mãe:

— Reparto com minha mãe os aplausos que eu recebi esta noite… Tudo que sou, devo a ela.

— Não diga isso, Betinho!

D. Margarida cora. Há no grupo um silêncio comovido. Depois rompe de novo a conversa. Novos admiradores chegam.

Inocêncio, de longe, olha as pessoas que cercam o filho e a mulher. Um sentimento aniquilador de inferioridade o esmaga, toma-lhe conta do corpo e do espírito, dando-lhe uma vergonha tão grande como a que sentiria se estivesse nu, completamente nu ali no saguão.

Afasta-se na direção da porta, num desejo de fuga. Sai. Olha a noite, as estrelas, as luzes da praça, a grande estátua, as árvores paradas… Sente uma enorme tristeza. A tristeza desalentada de não poder voltar ao passado… Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misérias…

O porteiro do teatro, um mulato de uniforme cáqui, caminha dum lado para outro, sob a marquise.

— Linda noite! — diz Inocêncio, procurando puxar conversa. O outro olha o céu e sacode a cabeça, concordando.

— Linda mesmo.

Pausa curta.

— Não vê que sou o pai do moço do concerto…

— Pai? Do pianista?

O porteiro pára, contempla Inocêncio com um ar incrédulo e diz:

— O menino tem os pulsos no lugar. É um bicharedo.

Inocêncio sorri. Sua sensação de inferioridade vai-se evaporando aos poucos.

— Pois imagine como são as coisas — diz ele. — Não sei se o senhor sabe que nós fomos muito pobres… Pois é. Fomos. Roemos um osso duro. A vida tem coisas engraçadas. Um dia… o Betinho tinha seis meses… umas mãozinhas assim deste tamanho… nós botamos ele na nossa cama. Minha mulher dum lado, eu do outro, ele no meio. Fazia um frio de rachar. Pois o senhor sabe o que aconteceu? Eu senti nas minhas costas as mãozinhas do menino e passei a noite impressionado, com medo de quebrar aqueles dedinhos, de esmagar aquelas carninhas. O senhor sabe, quando a gente está nesse dorme-não-dorme, fica o mesmo que tonto, não pensa direito. Eu podia me levantar e ir dormir no sofá. Mas não. Fiquei ali no duro, de olho mal e mal aberto, preocupado com o menino. Passei a noite inteira em claro, com a metade do corpo para fora da cama. Amanheci todo dolorido, cansado, com a cabeça pesada. Veja como são as coisas… Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis… Não podia ser o artista que é.

Cala-se. Sente agora que pode reclamar para si uma partícula da glória do seu Gilberto. Satisfeito consigo mesmo e com o mundo, começa a assobiar baixinho. O porteiro contempla-o em silêncio. Arrebatado de repente por uma onda de ternura, Inocêncio tira do bolso das calças uma nota amarrotada de cinqüenta mil-réis e mete-a na mão do mulato.

— Para tomar um traguinho — cochicha.

E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas.
O texto acima foi publicado no livro “Contos“, Editora Globo — Rio de Janeiro, 1983 e, agora, selecionado por Ítalo Moriconi, incluído em “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século“, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 173.

 

Poemas de Carnaval… quem vem lá?

Custei a compreender que a fantasia
É um troço que o cara tira no carnaval
E usa nos outros dias por toda a vida.

Aldir Blanc e João Bosco

 

Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano.

Trecho do livro ‘Em Liberdade’ de Graciliano Ramos

 

 

“Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro…”

Adriana Falcão

 

 

Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Clarice Lispector

 

 

PS ESPECIAL DE LUXO. NO TOITIÇO E AMÉM:

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