(*) Fotografia do blog Ponte da Saudade.
Para o dia 02:
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E no primeiro dia fez-se a luz. O verbo se fez carne antes.
E na Criação com as 22 letras do alfabeto hebraico D’us criou o Universo
Antes mesmo da primeira escola ser criada. Assim penso eu em respeito aos Judeus.
Já que D’us veio antes de todos nós.
E como ele pensa em tudo, então posso pensar que todos nós já existíamos. Muito antes de sabermos.
Antes de passarmos pelo túnel que nos trouxe a esta vida.
Este milagre diário de acordar, reencontrar-se, aos seus amores, aos seus temores.
E neste túnel apertado, sufocado, belo, arejado, comprido, rápido, estreito e largo.
Paradoxal até pelo nome: túnel.
Vamos nos rolando sem criar limo. Vamos prosseguindo. Combatendo.
Tudo no gerúndio? Viver é um ato de gerundismo?
Não sei, mas acredito que as nossas histórias não se encontraram e nem terminam por aqui.
Depois de mais uma noite semi-acordado e semi-morto e com sonhos e olhares bem abertos juro que ouvi o seguinte diálogo:
- Berto como estão os meninos lá na Terra?
- Minha véia estão bem. Estão todos bem. Nenhuma novidade.
- E o nosso caçula? E os filhos dele?
- Melhor do que ele acha que merece.
- Deu tanto trabalho lembra?
- É , mas era quem mais se chegava para uma conversa. Contestava…
- Admirava o danado. Teimoso…
- As arengas dele com os amigos ainda continuam…
- É se não fosse assim não era neto de quem ele é.
- Mas o bom é que os amigos dele sabem perdoar. Já seu pai …
- Os meninos sentem muita saudade dele. O jogo de gamão. O time de futebol…
- O primogênito saiu a você. Músico nato.
- Lindo. O pai está pensando que herdou dele. Deixa estar. É justo.
- E as meninas? Parecem as gêmeas. Tão parecidas e tão diferentes.
- Puxaram a mãe e a avó. Acho que do pai e do bisavô a contestação, os temperamentos fortes.
- São lindas. Gostaria de ter ficado um pouquinho com elas. Colocado prá dormir. Enfeitado, levado para passear nos carrinhos. Pentear seus cabelos..
- É mesmo minha véia. Mas a gente fez tudo isso por aqui mesmo não foi?
- Lembrei da minha aldeia. Meu pai tocando guitarra e cantando os fados. O vinho. Minha mãe no alpendre…
- Caruaru está uma capital. Não reconheço mais aquela gente. Mas tá bonito assim mesmo…
- Você tem saudades dos netos que não conheceu?
PS – Não sei porque nessa hora não escutei mais nada.
Os olhos não deixaram eu escutar a ligação…
PS I - Eita por que as mães tem de levitar? Por que não posso escutar mais o piano e os conselhos que eu teimava eu não seguir mas a vida terminava mostrando que o pai estava certo. Nâo sei, mas esta pausa, esta quarta-feira, deixam a gente um bocado estropiado. É a semana de Drummond. É o dia 02. Eu sei. Nâo inventamos algumas regras. Não podemos escolher nem a entrada nem a saída. Na “programação divina” o software vem com arquitetura fechada. Estamos nas mãos D’ELE. SEMPRE. ETERNAMENTE. AMÉM.
PS II – Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
” Clarice Lispector”
