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Arquivo da categoria: Coluna do Houldine

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

Irandhir Santos

 

Ele já é considerado um dos maiores nomes de sua geração no cinema. Em pouco tempo – e com muito empenho -, Irandhir Santos conseguiu alcançar esse status. Ator da terrinha, nasceu em Barreiros, em 22 de agosto de 1978. Entretanto, passou boa parte da vida em Limoeiro, cidade de origem dos pais.

 

Formado em artes cênicas pela UFPE, em 2003, Irandhir começou chamando a atenção do público na televisão, ao protagonizar a microssérie de Luiz Fernando Carvalho, “A Pedra do Reino”, que foi uma adaptação da obra de Ariano Suassuna “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”. Nela, demonstrou todo talento ao fazer Quaderna, uma espécie de Dom Quixote Armorial. Mas, como já dito, ele construiu sua carreira na sétima arte.

 

Em 2005, fez uma pequena aparição em “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes. Um longa-metragem bastante delicado, que traz uma amizade construída no Sertão, entre um alemão fugido da Segunda Guerra e um nordestino que tenta chegar ao Rio, em busca de melhores condições.

 

Um ano depois, consegue um papel de relevo em “Baixio das Bestas”, do caruaruense Cláudio Assis. Um filme forte e polêmico – o que são marcas do diretor -, tratando de exploração sexual na Zona da Mata pernambucana. Pelo desempenho no longa, foi premiado no Festival de Brasília, levando o troféu de melhor ator coadjuvante.

Irandhir seguiu em projetos interessantes, como “Olhos Azuis”, de Jose Joffily, no qual fazia um brasileiro confinado durante horas em um aeroporto dos EUA e sofrendo as piores pressões, e “Quincas Berro D’Água”, de Sérgio Machado, vindo do texto de Jorge Amado.

 

A grande chance veio com “Tropa de Elite 2″, em que interpretou o deputado Diogo Fraga. A princípio, um antagonista de Nascimento (Wagner Moura), mas com o decorrer da trama, a situação muda. O filme se tornou a obra mais vista em nossos cinemas, com mais de 11 milhões de espectadores, ultrapassando “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, que mantinha o recorde desde 1976 (10.735 mi). Sobre os bastidores, é interessante observar que José Padilha não havia pensado inicialmente em Irandhir para o papel. O diretor chegou a convidar o baiano João Miguel (o Ranulpho de “Cinema, Aspirinas…”, também de “Estômago” e visto recentemente em “Xingu”), que recusou por estar envolvido com outros projetos.

Outro trabalho notável foi o desenvolvido no incomum longa-metragem “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes, onde nunca aparece, apenas escutamos sua voz e vemos imagens filmadas pelo seu personagem.

 

Ainda este ano, Irandhir poderá ser visto em “A Febre do Rato”, segundo trabalho com Cláudio Assis, em que vive um poeta anarquista numa Recife vista em preto e branco. Pela grande entrega – ainda mais intensa que a habitual -, essa talvez seja sua maior interpretação nas telonas. Ele e o filme acabaram premiados no Festival de Paulínia em 2011. E mais adiante, em “O Som ao Redor”, primeiro longa de ficção do crítico e cineasta recifense Kleber Mendonça Filho.

Sobre esse filme, uma história interessante: em agosto de 2010, precisamente no dia 9, eu estava retornando para casa de ônibus. Nas imediações de Setúbal, próximo ao que hoje é o Parque Dona Lindu. Eis que Irandhir embarca no mesmo veículo. Quase não acreditei. O ônibus estava com grande parte das cadeiras ocupadas, contudo, só eu consegui reconhecê-lo, tanto que ele demonstrou surpresa. Irandhir queria conhecer o Shopping Guararapes. Conversamos um pouco, eu falei que era fã desde “A Pedra do Reino”, comentei o fato dele estar em “Tropa 2”, que estreou dois meses depois, em outubro do mesmo ano, e brinquei, dizendo estar surpreso por um artista andar de ônibus. Ele comentou que estava hospedado num flat perto da parada onde subiu e que estava rodando um filme para a Fundação daqui (creio que seja a Fundarpe), dirigido por Kleber. Aparentou ser uma figura bem simples e receptiva.

 

Enfim, tudo isso comprova que o êxito não subiu a cabeça e que ele já é uma realidade, faltando pouco, muito pouco para estar no mesmo nível de um Selton Mello ou do próprio Wagner.

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO

A Dama de Ferro **1/2

Drama biográfico, 104 min.

Margaret Thatcher foi a pessoa que mais permaneceu no cargo de Primeiro-Ministro no Reino Unido: 11 anos (seu governo foi de 1979 a 1990). E, sem dúvida, se trata de uma das figuras mais controversas da política mundial. Não é possível ficar indiferente a sua persona. Amada por muitos e odiada por tantos outros, é inegável a firmeza com que conduziu seu mandato. Pela forte oposição ao Comunismo, os soviéticos lhe deram a alcunha de “A Dama de Ferro”.

O que tinha tudo para ser uma cinebiografia de alto nível vira mediana sob a direção de Phyllida Lloyd (uma realizadora que veio do teatro). Ao invés de mostrar como deveria aquela mulher irredutível, que foi um dos alicerces para a vitória do Capitalismo na Guerra Fria, o filme traz uma Margaret senil, acometida pela doença de Alzheimer. À “Dama de Ferro”, restam as lembranças da época em que esteve no poder.

A história se concentra na luta de Thatcher para se livrar das alucinações que tem, potencializadas na figura do já falecido marido, o empresário Denis Thatcher (Jim Broadbent). E o resultado só não é pior graças ao excepcional desempenho de Meryl Streep (justificando, então, o segundo Oscar de melhor atriz). Ela encarna com muita competência o papel, conseguindo reproduzir os tiques e a voz da Baronesa Inglesa.

O filme não se furta de exibir os períodos de impopularidade que o seu governo passou, incluindo a grande hostilidade aos sindicatos e os atentados sofridos, além do início de sua vida, filha de um simples dono de mercearia (nesta fase é interpretada pela estreante Alexandra Roach). Acompanha-se passo a passo a trajetória de Thatcher na política, quando ingressa no Partido Conservador e fará parte da Câmara dos Comuns, o Parlamento Inglês. Tem o mérito de sugerir uma mulher ausente na criação dos filhos.

O grande momento do longa, naturalmente, é quando vemos a sua determinação durante a Guerra das Malvinas, empenhada em recuperar o arquipélago após invasão dos argentinos. Nesse sentido, é curioso observar como o cinema tem o poder de influenciar a realidade. Foi só o filme ganhar notoriedade para a discussão acerca das Ilhas ser reacendida. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, chegou a fazer um pronunciamento exigindo a posse do arquipélago.

Longe de ser extraordinário, A Dama de Ferro é um retrato decente da mais notável chefe de Estado que já houve (para o bem ou para o mal). Phyllida deve muito à Meryl (elas chegaram a trabalhar juntas no fraco musical “Mamma Mia!”), pois o sucesso do filme repousa sobre os ombros desta que é uma das atrizes mais fascinantes de todos os tempos.

 

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

Tom Hanks

 

Nascido em 9 de julho de 1956 em Concord, Califórnia, Thomas Jeffrey Hanks é o que se pode chamar de bom homem. Nunca esteve envolvido em escândalo, sendo querido por todos em Hollywood. É pai de quatro filhos: Colin (também ator) e Elizabeth (esses no primeiro casamento, com a desconhecida atriz Samantha Lewes); Chester e Truman (tidos com a também atriz Rita Wilson, com quem é casado desde 1988).

Tom iniciou sua carreira como ator em séries de TV, no começo dos anos 80, desempenhando pequenos papéis. Mas o primeiro sucesso ocorreu em 1984, quando estrelou ao lado de Daryl Hannah a comédia romântica Splash, do amigo Ron Howard. Isso fez com que ganhasse notoriedade, recebendo convites para mais filmes.

Quatro anos depois, protagonizou Quero ser grande (1988), pelo qual foi indicado ao Oscar. Aqui está presente uma das cenas mais graciosas e memoráveis da década. Hanks e Robert Loggia tocam em um piano gigante “Heart and Soul”.

Filadélfia (1993) foi a sua consagração. Neste filme, interpreta um advogado homossexual que, embora escondesse sua condição dos patrões, é demitido ao descobrirem que tem AIDS e luta na justiça por reparação. Uma atuação esplêndida, sem vícios, pontual e fez com que recebesse o Oscar de melhor ator.

A segunda estatueta veio logo no ano seguinte com Forrest Gump – o contador de histórias, de Robert Zemeckis. Nele, Hanks viveu um deficiente mental que tem papel fundamental na construção da sociedade americana nas últimas décadas. Esta fita é querida por muita gente.

Não há como esquecer as comédias românticas com Meg Ryan, Sintonia de Amor (1993) e Mens@gem para você (1998), ambas da diretora Nora Ephron. Ou então o Capitão John H. Miller em O Resgate do Soldado Ryan (1999), de Steven Spielberg. E o que dizer do carcereiro Paul no espiritualista À espera de um milagre (1999), de Frank Darabont? Ele também povoou a infância de várias pessoas ao dublar o caubói Woody na franquia animada Toy Story, da Pixar.

Nos anos 2000, executou vários trabalhos de destaque como Náufrago (2000), de Zemeckis; Prenda-me se for capaz (2002) e O terminal (2004), de Spielberg; Estrada para a perdição (2002), de Sam Mendes; O código Da Vinci (2006), de Howard; e tantos outros de uma belíssima carreira nas telonas.

Em 2009, Tom Hanks foi eleito vice-presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, responsável por distribuir os prêmios do Oscar. Recentemente, pôde ser visto em Larry Crowne, sua segunda incursão como realizadora (antes tinha se aventurado na direção de The Wonders, 1996), e Tão Forte e Tão Perto.

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

Cavalo de Guerra

War Horse (EUA, 2012). Cotação: ***

Aventura, 146 min. Direção: Steven Spielberg. Com Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, Niels Arestrup, Tom Hiddleston.

“Tubarão”, “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, “E.T.” e “A Lista de Schindler” são grandes filmes. Se Steven Spielberg tivesse realizado apenas estes quatro, isso já seria suficiente para alçá-lo à condição de um dos maiores cineastas do século XX. Mas, não satisfeito, Spielberg também dirigiu outras obras de valor como “A Cor Púrpura”, “Prenda-me se for capaz”, “Munique”, além de ter criado as sagas de Indiana Jones (junto com o amigo George Lucas) e do Parque dos Dinossauros. Não há dúvida de sua importância.

Como se sabe, sua nova empreitada é Cavalo de Guerra, história vinda de um livro infanto-juvenil de Michael Morpurgo, publicado em 1982. No entanto, o que despertou o interesse de Spielberg foi uma peça britânica de 2007, que se baseava na publicação e atingiu enorme sucesso. Vendo o caráter imagético da obra, tratou de adaptá-la.

Fundamentalmente, é sobre uma amizade entre Joey, um cavalo puro-sangue, e o jovem Albert (o estreante Jeremy Irvine), dias antes de a Primeira Guerra Mundial ter início, numa cidadela inglesa chamada Devon. Joey vai parar na fazenda de Albert depois que o seu pai, Ted (Peter Mullan), o comprou em um leilão após uma disputa com um senhorio. Isso preocupa a mãe (Emily Watson), pois com o alto preço pago pelo cavalo, a família encontra dificuldade para quitar o aluguel e se vê obrigada a realizar uma colheita. Mas como, se não há um animal especializado nisso?

Albert trata de treiná-lo para fazer o serviço. Não adianta muito e o cavalo acaba vendido para um oficial do exército britânico (o competente Tom Hiddleston). A partir disso, Joey passará a ser testemunha ocular de uma guerra. Transitando pelo campo de batalha alemão, conhecendo dois jovens desertores e até mesmo fazendo companhia a uma garotinha (a revelação Celine Buckens) e ao seu avô (o francês Niels Arestrup, de “O Profeta”). Os anos da Primeira Guerra são percorridos e o garoto não esquece o velho amigo. O amor é tanto que decide servir às forças armadas de seu país, na esperança de reencontrar Joey.

 

O velho Spielberg é conhecido pelo sentimentalismo exacerbado. E o que é uma de suas marcas, não fica ausente aqui. Ele carrega o filme de um tom melodramático e que se torna uma forma apelativa de envolver o espectador (é improvável não se comover na cena em que o cavalo fica preso por arames). O principal problema reside na maneira com que se conduz a história.

Não há como negar o preciosismo técnico. O visual de “Cavalo de Guerra” é espetacular, no que é a colaboração do fotógrafo habitual, Janusz Kaminski, e reverencia a era de ouro hollywoodiana. É preciso também reconhecer a competência de Steve na simulação das cenas de guerra, algo que havia mostrado muito bem em “O Resgate do Soldado Ryan”. Na hesitação dos combatentes ingleses nas trincheiras, ele executa uma homenagem a Stanley Kubrick, em particular a “Glória Feita de Sangue”.

Contudo, apesar dos artifícios de apelar à emoção e de sequências graciosas, o filme é um tanto disperso, não conseguindo prender como deveria a atenção. Talvez houvesse uma objetividade maior e fossem cortados vários minutos de gordura, ajudasse a criar maior empatia. E a escolha de Irvine para fazer esse jovem se faz precipitada pelo seu desempenho vacilante.

Indicado a seis Oscars (filme, trilha – John Williams -, edição sonora, direção de arte, fotografia e mixagem de som), “Cavalo de Guerra” não é uma nova obra-prima (e está longe de ser). Steven Spielberg merece respeito por tudo o que fez, mas não dá para dizer que este é um grande filme.

 

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

Pacific (2009), de Marcelo Pedroso

Documentário, 73 min.

 

O título “Pacific” foi extraído do navio de mesmo nome, onde as ações ocorrem, em que um grupo de pesquisadoras do filme esteve a bordo, participando de um cruzeiro. O processo de feitura do longa-metragem é esclarecido já nos primeiros minutos. A produção detectou que algumas pessoas executavam filmagens durante a viagem deste navio. Não houve uma abordagem inicial aos que realizavam estas imagens, por parte da equipe. Somente ao término delas, a produção se aproximou dessas pessoas. Possivelmente, isso conferiu uma espontaneidade maior aos que se apresentavam diante das câmeras.

Em dezembro de 2008, um cruzeiro de “sete dias e seis noites” (conforme esclarece uma passageira) partiu de Recife com destino ao paradisíaco arquipélago de Fernando de Noronha. Diante do que é exposto, o espectador tem acesso à intimidade/vida privada de vários passageiros de Pacific. Naturalmente, estes fazem parte de uma camada privilegiada da sociedade. Pessoas que aparentam viver o sonho de suas respectivas vidas.

Torna-se inevitável compará-lo a “Um Lugar ao Sol” (2009), de Gabriel Mascaro. Diferentemente do que é executado neste filme, Pacific mostra aqui um lado mais humanista das classes dominantes com o qual o outro bolo da sociedade talvez não esteja familiarizado. Eles são apresentados como se vêem, sem um preparo, sem uma mise-en-scène demasiada para aparecer nas imagens.

Este é o segundo documentário em longa-metragem de Marcelo Pedroso (que realizou, no ano anterior e em conjunto com Mascaro, “KFZ-1348″). Da nova safra de cineastas de Pernambuco, o diretor preferiu não se envolver com as pessoas retratadas nas imagens, tanto que ele nem esteve neste navio. Quando entrevistado para o blog “Cine Esquema Novo”, Marcelo revelou que essa escolha lhe possibilitou maior liberdade na montagem.

Pacific é o que se poderia chamar de “filme-dispositivo”, no qual o diretor não sabe bem o que encontrará nas imagens. Há ainda o risco de não haver material plausível para a preparação de um filme, o que, felizmente, não foi o caso. No entanto, o filme faz jus ao seu nome: é “pacífico”, praticamente não há conflito, um clímax ou “momento-chave”, ou seja, aquilo que se espera de um documentário. De qualquer maneira, é uma obra diferenciada e que possui certas qualidades.

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Pina (ALE/FRA, 2011) Cotação: *****

O prestigiado cineasta alemão Wim Wenders (Paris, Texas, O Amigo Americano, Asas do Desejo) iniciou, em 2008, a preparação de um documentário sobre a vida e a obra da coreógrafa Pina Bausch, uma das norteadoras da dança contemporânea. No ano seguinte, aos 68 anos (1940-2009), ela viria a falecer, e isso representou um tremendo baque para o diretor, não só pela perda desta que foi uma grande amiga, mas também pelo que havia planejado para o longa-metragem. Wenders chegou a cancelar o projeto, mas foi persuadido pelos demais membros da Tanztheater Wuppertal, companhia gerenciada por Pina durante 35 anos, a continuar fazendo esta obra.

Sendo assim, teve de promover modificações. Além da inédita roupagem em 3D, não há o enfoque que se espera de um documentário (conta-se que o diretor planejava fazer um filme de estrada sobre o processo de criação de Pina Bausch): “Decidimos que queríamos fazer outro filme. Não um filme sobre Pina, mas um filme para Pina. Para todos nós, foi um jeito de superar o choque e aprender a lidar com o fato de que ninguém pôde se despedir dela. O filme se tornou uma maneira de todos dizerem adeus”, revelou Wim, em entrevista.

O que se vê são trechos das peças criadas pela coreógrafa alemã, desta vez interpretados sem ela (as coreografias são retratadas na cidade de Wuppertal, em que o balé se situa). E um breve depoimento de cada dançarino que esteve com ela durante sua trajetória. Pessoas de várias nacionalidades, incluindo uma brasileira, chamada Regina Advento. Tudo funciona realmente como uma homenagem. A música está presente quase todo tempo, associada a esta arte fascinante que Pina ajudou a revolucionar ao adicionar elementos teatrais.

O mundo pôde conhecer um pouco mais dela há alguns anos, em “Fale com Ela”, de Pedro Almodóvar, no qual executava dois números.

É importante atentar para o uso (bem contundente) do 3D que grandes realizadores vêm fazendo. Além de Wim, outro alemão e também para um documentário, Werner Herzog (“A Caverna dos Sonhos Perdidos”); e Martin Scorsese, em “A Invenção de Hugo Cabret”. Em Recife, Pina se encontra em cartaz no Cinema da Fundação, onde é projetado em 2D. Mesmo sendo idealizado para terceira dimensão, o filme resiste bem quando exibido no formato tradicional, mantendo a força, o que prova sua qualidade (aqui, chegou a ter sessões de pré-estréia no UCI Shopping Recife, em 3D, mas não pude ir, infelizmente). Lançado no Festival de Berlim, em 2011, foi o escolhido pela Alemanha para representar o país no Oscar 2012 (acabou nomeado à categoria de documentário).

O fato é que a dança com Pina transcende, alcança a alma, nos leva a um outro nível. Em suas palavras: “O que interessa não é como as pessoas se movem, mas sim o que as move”. Wenders conseguiu mostrar isso ao espectador. Esse documentário mexeu muito comigo, com o meu interior. E encerra de uma forma muito edificante, com um pensamento/convocação desta grande bailarina: “Dance, dance, caso contrário, estamos perdidos”.

 

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

 

Muito Além do Jardim: contexto histórico e análise da obra

Por Houldine Nascimento

No final dos anos 50 e durante quase toda a década de 60, Hollywood esteve mergulhada em uma grande crise. Boa parte dos filmes possuía enorme orçamento e, no fundo, nada mais eram que repetições de temas. Isso fez com que vários estúdios amargassem prejuízo financeiro. Altos e baixos sempre povoaram a indústria cinematográfica estadunidense, mas, desta vez, a situação aparentava ser irreversível.

A necessidade de mudanças no sistema era urgente. De acordo com o que vigorava, os produtores eram a parte mais importante do processo de execução de um filme. Os diretores estavam relegados a obedecer ordens, no máximo orientar atores, e só! Em 1967, obras como “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas”, de Arthur Penn, e “A Primeira Noite de Um Homem”, de Mike Nichols, davam mostras da transformação que aconteceria alguns anos depois. Aparecia uma “Nova Hollywood” nos anos 70, como o período ficou conhecido. Uma época em que uma geração de diretores americanos, influenciados por cineastas como Michelangelo Antonioni, Jean-Luc Godard, Akira Kurosawa e François Truffaut, assumira o controle artístico das obras. Teve início, então, a “Era dos Diretores” (para mais detalhes, sugiro o livro de Peter Biskind, traduzido pela crítica Ana Maria Bahiana, “Easer Riders, Raging Bulls: Como a geração sexo-drogas-e-rock‘n’roll salvou Hollywood”, que ganhei do grande amigo Arsênio Meira).

Desse período, nomes como Martin Scorsese (“Taxi Driver”), Stanley Kubrick (“2001”, “Laranja Mecânica”, “Barry Lyndon”), Steven Spielberg (“Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”), Peter Bogdanovich (“A Última Sessão de Cinema”, “Lua de Papel”), Francis Ford Copolla (“O Poderoso Chefão 1 e 2”, “Apocalypse Now”), Robert Altman (“M*A*S*H”, “Nashville”), Warren Beatty (“O Céu Pode Esperar”), Woody Allen (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Manhattan”), entre outros, despontaram para o “estrelato”. Entre estes realizadores, se encontrava Hal Ashby.

Nascido no estado de Utah, William Hal Ashby (1929-88) começou a carreira como montador de alguns dos filmes de Norman Jewison (“A Mesa do Diabo”, “Os russos estão chegando! Os russos estão chegando!”, “No Calor da Noite” e “Crown, o magnífico”), dando mostras de seu talento. Numa forma de reconhecimento, foi agraciado com o Oscar de montagem por “No Calor da Noite” (1968).

Ashby almejava coisas maiores. Não tardou para que estreasse na direção.  Em um período de dezesseis anos (1970-86), realizou 12 longas, dos quais se destacaram: a comédia de humor negro “Ensina-me a Viver” (1971); “Esta Terra é Minha Terra” (1976), cinebiografia sobre o músico folk Woody Guthrie; “Amargo Regresso” (1978), um painel sobre as consequências da Guerra do Vietnã e pelo qual recebeu nomeação ao Oscar de direção; e, finalmente, Muito Além do Jardim (Being There, 1979).

Este filme se baseia na publicação homônima datada de 1970, do escritor polonês Jerzy Kosinski (aqui no Brasil, o livro foi lançado um ano depois e recebeu o nome de “O Videota”), que também foi responsável pelo roteiro. Na trama, Chance (interpretado pelo inglês Peter Sellers) é um homem que viveu quase toda a vida trabalhando como jardineiro, numa mansão. O conhecimento adquirido durante esse tempo provém apenas de sua experiência com o jardim da casa e do uso da televisão. Sem saber ler e escrever, Chance tem a trajetória alterada quando o dono do lugar morre. Obrigado a deixar o local, o herói parte numa jornada pela cidade de Washington, sem a mínima noção do que encontrar.

É interessante observar essa transição do personagem para o “mundo exterior”. O diretor faz questão de demarcá-la com a poesia musical “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, notabilizada através do já citado “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Chance corre alguns perigos e acaba sofrendo um acidente ao ser prensado por uma limusine, que pertence a um magnata. A partir disso, ele se torna amigo do empresário em questão, Benjamin Rand (Melvyn Douglas), e da esposa, Elizabeth Eve (Shirley MacLaine). Rand comanda uma instituição financeira e, por sua importância, o presidente dos EUA (Jack Warden), vez ou outra, solicita seus conselhos.

Eve se equivoca acerca do nome de Chance. De “Chance, the gardner” (o jardineiro, em inglês) para Chauncey Gardiner. As simples declarações do personagem central sobre jardim e televisão passam a ser interpretadas pelos demais como geniais metáforas sobre economia, política, entre outros assuntos. Por esse motivo, é convidado a diversos programas de TV, chamado para dar entrevistas a jornais, etc. Até mesmo o presidente o cita nos discursos. É cogitado inclusive para o cargo máximo do país. A certa altura, ele diz “Não leio”, no que é prontamente respondido por um chefe de uma editora “E quem lê?”. No filme, talvez o único que tenha noção de quem realmente seja Chance é o médico do magnata (vivido por Richard Dysart).

“Muito Além do Jardim” pode ser visto como uma grande sátira aos meios de comunicação de massa. Na obra, é feita uma crítica à alienação por vezes proporcionada pela TV e ao sempre perverso mundo da política, seja qual for o lugar. É uma obra à frente de seu tempo. Possivelmente, é a melhor atuação do genial Peter Sellers, um artista multifacetado, capaz de fazer várias vozes e composições, que veio a falecer no ano seguinte ao lançamento. Comparado a trabalhos anteriores, como a série de filmes da “Pantera Cor de Rosa”, em que fazia o inspetor Clouseau, ou então “Dr. Fantástico”, no qual interpretava três personagens, se vê uma entrega total do ator. Ele se deixa levar por Chance. Indo de encontro a sua carreira quase toda de papéis cômicos, é visivelmente um papel dramático, em que se contém bastante. E o resultado é bem delicado.

O filme recebeu prêmios. Foi indicado a dois Oscars: melhor ator – para Peter – e melhor ator coadjuvante (Melvyn Douglas), tendo vencido esta categoria. Também concorreu no Festival de Cannes, em 1980, ao Globo de Ouro e ao BAFTA. Há quem afirme que Sellers não levou o Oscar (acabou perdendo para Dustin Hoffman em “Kramer versus Kramer”) por conta dos outtakes que aparecem durante os créditos finais. Esse foi o motivo pelo qual Peter teria brigado com os produtores e o diretor, pois, segundo ele, a colocação dessas tomadas “tirou toda a magia do resultado”.

O autor Jerzy Kosinski (que se suicidou em 91) promoveu algumas modificações na adaptação de seu texto ao cinema. A personagem Louise, empregada da mansão onde Chance morou grande parte da vida, se muda antes da morte do patrão, e não depois, inclusive chegando a morrer. Não há aquele encontro entre o herói e jovens gângsteres.  No livro, não fica claro se Benjamin Rand falece ou não, apenas se tem ciência de que está muito doente. As cenas de contato de Chance com o sexo são bem mais ousadas que as apresentadas na telona. A resolução também difere nas duas modalidades artísticas.

Outra curiosidade: o papel de Benjamin Rand foi antes oferecido a Laurence Olivier, mas este o teria recusado quando da leitura do roteiro, ao ver que havia uma cena de masturbação para a personagem de Shirley MacLaine. E como informa o site IMDB, o final previsto para o filme era outro. Ao conversar com um diretor sobre a produção, durante as filmagens, Hal falou que “Era como andar no ar”. Por isso do encerramento tão bonito, em que o personagem de Sellers caminha sobre as águas, uma clara analogia com Jesus Cristo.

*Dedicado à Magna Santos

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

 

O Guarda

Cotação: ****. Comédia, 93 min. Direção e roteiro: John Michael McDonagh. Com: Brendan Gleeson, Don Cheadle, Mark Strong, Rory Keenan, Fionnula Flanagan.

Numa época em que se discute muito a questão do politicamente correto no Brasil e no mundo, surge em DVD essa comédia irlandesa de humor negro chamada O Guarda (The Guard, 2011). Dirigido pelo estreante John Michael McDonagh (irmão de Martin McDonagh, de quem você deve se lembrar por ter realizado “Na mira do chefe”, outra comédia nessa linha), é um filme bastante divertido, no qual praticamente tudo e todos são satirizados.

O grande responsável por todo esse escárnio é o Sargento Gerry Boyle (Brendan Gleeson, de “Harry Potter”), uma figura bem peculiar, muito boca suja, sem receio algum em dizer o que pensa. Ele é responsável por garantir a segurança de uma pequena cidade do litoral da Irlanda. Com o surgimento de um assassinato misterioso, receberá a ajuda de Aidan McBride (Rony Keenan), um agente oriundo de Dublin. E isso, naturalmente, dará margem para várias situações cômicas.

Paralelo a esse crime, há uma investigação do FBI sobre um navio com cerca de 500 milhões de dólares em cocaína prestes a desembarcar na região. O representante da polícia americana é o agente Wendell Everett (Don Cheadle, também um dos produtores), que espera contar com a cooperação dos policiais irlandeses para prender a quadrilha envolvida. O que ele não imagina é que quase toda a polícia de lá é subornada pelos criminosos, exceto um, justamente o nosso personagem central.

Com o desaparecimento de McBride logo no primeiro dia de trabalho, aparece a esposa (Katarina Cas) em busca de seu paradeiro. Não tarda para Boyle se tornar parceiro de Wendell, único aparentemente confiável nessa seara de desonestos. É bem óbvio que Gerry Boyle continua a fazer piadas, inclusive com o próprio Everett.

Mas, com o decorrer do filme, percebemos que o Sargento é um sujeito honesto e o tipo feito é apenas uma forma de encarar a vida. Mesmo quando ele tira folga para se divertir com duas prostitutas, num momento em que se faz uma brincadeira com “O Poderoso Chefão”. Vemos um lado bem humano do protagonista na divertida, encantadora e, no fim das contas, triste relação com a mãe (Fionnula Flanagan, tocante), que tem uma doença terminal, embora ela não perca jamais a alegria.

O filme é bem talentoso e brinca com os chavões de diversos gêneros. Não custa dizer que Brendan Gleeson dá um verdadeiro show. A indicação recebida no Globo de Ouro de melhor ator em comédia é bastante justa. Muito do sucesso do longa se deve a sua composição. Portanto, se você gosta de uma comédia não-convencional, “O Guarda” é uma ótima pedida.

 

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Um Método Perigoso

A Dangerous Method (ING/CAN/ALE/SUI, 2012) Cotação: 8/10
Drama biográfico, 99 min.


Se pararmos para observar os dois últimos trabalhos de David Cronenberg (“Marcas da Violência” e “Senhores do Crime”), constataremos uma notável mudança na trajetória de seu cinema. O canadense é célebre por filmes de terror como “A Mosca” e “A Hora da Zona Morta”, e ficções científicas a exemplo de “eXistenZ”, que o tornaram um diretor “cult”. Agora, ele realiza sua obra mais palatável ao espectador comum.

Por isso mesmo, podemos dizer que Um Método Perigoso não é nada daquilo feito anteriormente. O longa parte da peça “The Talking Kure”, de Chistopher Hampton (também encarregado pelo roteiro), que por sua vez se baseava no livro de John Kerr, “A Most Dangerous Method”. No centro do trama, está a conturbada relação entre o pai da psicanálise, Sigmund Freud (Viggo Mortensen, no terceiro projeto com o diretor), e o discípulo Carl Jung (Michael Fassbender).

Tomando como ponto de partida uma paciente em estado de histeria, Sabina Spielrein (a inglesa Keira Knightley, aqui insegura), Jung começa a desenvolver a “cura pela fala”, uma espécie de tratamento defendido pelo Mestre. A princípio, seria esse o método a que o título se refere. Inicialmente, os doutores se correspondem através de cartas (conta a história que foram 359): Freud de sua residência em Viena e Jung da mansão em Zurique, para depois haver o tão esperado encontro. É também a pedido de Freud que Carl Jung tratou o psiquiatra Otto Gross (vivido por Vincent Cassel).

Curiosamente, essa mesma mulher, pivô do fim da amizade entre os dois maiores nomes da psicologia, era russa, tornou-se médica e introduziu as ideias de Sigmund Freud na extinta União Soviética. O filme mostra, ainda, que as aparentes discordâncias de ordem científica tinham bastante a ver com o âmbito pessoal. Freud passou a não acreditar em Jung como seu sucessor no momento em que soube de uma atitude anti-ética do médico suíço.

Rodado em locações (Viena, Bavaria, Renânia do Norte), em suma, Um Método Perigoso traz uma direção de arte muito competente quando tenta reproduzir o início do século XX, época em que o enredo se passa, uma história bem interessante (embora já contada de outra forma no italiano “Jornada da Alma”, de 2002) e, o principal, um diretor versátil, comprovando todo seu talento ao deixar de lado o que melhor sabe fazer para embarcar em um drama de tal dimensão.

 

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

 

Lavoura Arcaica

 

Drama, 171 min. Direção e roteiro: Luiz Fernando Carvalho. Com: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Leonardo Medeiros, Simone Spoladore e Caio Blat.

 

 

 

 

Trata-se de uma versão ao avesso da parábola do filho pródigo. Baseado no romance homônimo de Raduan Nassar, conta a vida de André (Selton Mello), que abandona a família em busca de liberdade. Incumbido pela mãe (Juliana Carneiro) de trazê-lo de volta ao lar, o filho mais velho de um clã libanês, Pedro (Leonardo Medeiros), parte atrás do irmão, encontrando-o em uma pensão interiorana.

 

A partir daí, em uma narrativa bastante lenta, descobrimos os motivos que o levaram a sair de casa: o relacionamento proibido com a irmã Ana (Simone Spoladore) e, sobretudo, o autoritarismo do pai (Raul Cortez). Há uma bela passagem pela infância do personagem central, imbuída de grandes momentos visuais proporcionados pelo melhor diretor de fotografia que temos, Walter Carvalho (sem parentesco com Luiz). A trilha de Marco Antônio Guimarães alterna entre a discrição e o vigor.

 

As filmagens aconteceram em São José das Três Ilhas, zona da mata mineira. Lavoura é o primeiro e até então único longa de Luiz Fernando Carvalho (que planeja levar ao cinema a obra literária “A Paixão Segundo GH”, de Clarice Lispector). Ele chegou a viajar ao Líbano para pesquisar sobre a cultura do país e adicionar elementos característicos à trama. Já tinha comprovado ser um diretor talentoso ao realizar produções não-convencionais na televisão.

 

É louvável a maneira como conduziu a fita, com respeito ao texto de Nassar e ao mesmo tempo enorme originalidade. Impregnou o filme de lirismo e os diálogos são bastante rebuscados, o que deu um caráter teatral às interpretações. Luiz foi responsável também pelo roteiro por vezes improvisado, montagem e narração.

 

Faz-se necessário comentar sobre as atuações. Selton Mello é realmente um grande ator e este é o trabalho mais desafiador que teve no cinema. Seu personagem simboliza uma espécie de ovelha desgarrada. O resto do elenco consegue dar um suporte para a atuação dele. Raul Cortez se sai bem como o patriarca, assim como Juliana Carneiro, pouco conhecida naquele momento pelo público brasileiro (fez carreira na França), Simone Spoladore (que fazia uma bela estreia no cinema) e Leonardo Medeiros. Caio Blat faz uma pequena e importante aparição como o irmão mais novo.

 

Lavoura Arcaica recebeu vários prêmios no Brasil e no mundo (cerca de 50). É verdadeiramente uma obra-prima e que, portanto, merece ser vista. Pela longa duração e ritmo, não obteve sucesso comercial, mas certamente tem um lugar garantido entre os grandes filmes nacionais. A edição em DVD duplo traz making off, entrevistas com o elenco e o diretor, além da opinião de dois críticos estrangeiros.

 

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

O Enigma de Kaspar Hauser

 

Embora não se considerasse um membro, Werner Herzog costuma ser posicionado entre os principais nomes do “Novo Cinema Alemão”, corrente cinematográfica surgida nos anos 60 e que teve como maior influência a Nouvelle Vague. Junto com Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder, contribuiu para a realização, em seu país, de um cinema mais preocupado com questões político-sociais.

Não por acaso, tornou-se um diretor de grande prestígio ao realizar filmes como “Aguirre – a cólera dos deuses” (1972), “Nosferatu – o vampiro da noite” (79) e “Fitzcarraldo” (1982). Outra obra responsável por lhe garantir notoriedade é O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle, 1974), cujo título original foi retirado de uma passagem do longa brasileiro “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade. Numa tradução literal, significaria “Cada homem por si e Deus contra todos”.

O personagem central de fato existiu. Conforme o prólogo, Kaspar apareceu repentinamente numa praça de Nuremberg, por volta de 1828, tendo somente uma carta em mão, endereçada a uma autoridade. Por ter um comportamento diferente das convenções, despertou a atenção de toda a cidade. Criado boa parte de sua vida em uma torre e isolado do mundo, a certa altura, Kaspar tem de se deparar com a realidade (pela indumentária, houve quem suspeitasse que ele fora renegado de uma família nobre). Ao contrário do que se esperava, Kaspar Hauser era uma figura pacífica, inofensiva. Um atrativo para a monotonia do local.

Inicialmente, fica sob os cuidados de um oficial, para depois receber o amparo de um educador. À medida que entra tem contato com a comunidade, Hauser tenta adquirir os hábitos de um ser integrado à sociedade, apesar da aparente dificuldade. Vemos algumas dúvidas que brotam na mente do herói. Como um bom questionador, Kaspar não aceita as imposições da religião e da ciência, além de questionar a submissão das mulheres no século 19. Sua trajetória se confunde com o Mito da Caverna, de Platão.

O diretor sabia muito bem o que queria ao escalar para o papel principal o estreante Bruno S., que passou boa parte da juventude em sanatórios por não superar os abusos e o abandono da mãe, uma prostituta. De maneira muito tocante, Bruno encarna essa figura misteriosa e que veio a ser um objeto de estudo. Ele foi chamado por Werner Herzog ao ser visto em um documentário. Ao roteirizar “O Enigma…”, Herzog se baseou no romance do escritor alemão Jakob Wassermann, “Caspar Hauser ou a inércia do Coração”, de 1908.

O filme mantém um ponto de contato com outra produção dos anos setenta: “O Garoto Selvagem” (70), de François Truffaut. A proposta é parecida e alguns conceitos filosófico-sociais em comum são trabalhados nelas, como a exclusão social. Discute-se, ainda, a noção de normalidade.

O Enigma de Kaspar Hauser esteve concorrendo à Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1975 e recebeu três prêmios naquele mesmo festival, incluindo o prêmio do Júri. A direção de arte consegue fazer uma excelente reconstrução da época. Assim como o cineasta americano Terrence Malick, Werner Herzog é conhecido por contemplar a natureza em suas obras (e é o que novamente se vê aqui). O resultado é muito comovente e talvez seja o trabalho mais sensível do realizador.

A Vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Drive (EUA, 2011)

 

Ação, 100 min. Cotação: 8/10.

 

Na semana passada (e com muito atraso), entrou em cartaz nos cinemas do Brasil este filme vencedor do prêmio de direção no Festival de Cannes 2011 e por lá bastante elogiado (o lançamento estava previsto para 6/1, mas trataram de mudar, visando o Oscar). Como o título revela, envolve carro e, naturalmente, ação. Mas não pense que é só adrenalina por adrenalina, a exemplo de um “Velozes e Furiosos” da vida. Diferentemente da maioria dos filmes banais nessa toada, tudo que é feito aqui tem um propósito.

 

Com uma pegada neo-noir, Drive nos conta a história de um motorista (vivido por Ryan Gosling) super talentoso, que trabalha durante o dia numa oficina e também como dublê. À noite, pilota para criminosos em assaltos. Em momento algum conhecemos o seu nome. Sabemos apenas que ele é mecânico dessa oficina há mais de 5 anos. Figura de poucas palavras, ao se mudar para um prédio, acaba conhecendo Irene (Carey Mulligan), sua vizinha, e fica interessado nela. Também devenvolve uma amizade com o filho, um garotinho de 10, 11 anos.

 

Aparece um entrave nessa relação quando o marido de Irene, Standard (Oscar Isaac), sai da cadeia e volta para casa. Ele corre risco de vida por dever uma grana a criminosos. Contrariando as expectativas, o protagonista se torna amigo dele e decide ajudá-lo a se livrar disso. É a partir daí que o personagem central entra numa arapuca, tendo a vida ameaçada. Ainda tem espaço para Albert Brooks brilhar, no melhor momento de sua carreira, como um ex-produtor de filmes B nos anos 80, que decide patrocinar o nosso condutor, mas vai muito além, colocando fogo na história.

 

Drive me fez lembrar David Cronenberg pela violência gráfica, os vários banhos de sangue. E a aparente solidão do herói remete a Travis Bickle, de “Taxi Driver” (que contava com Brooks no elenco). Mas o personagem de Gosling é ainda mais introspectivo que o interpretado por Robert De Niro. Não dá para imaginar que a calma do rapaz pode, em questão de segundos, se tornar ira. E isso fica evidenciado em duas cenas: uma no bar e a última do elevador. Já no escorpião presente em sua indumentária, se nota um pouco de sua astúcia.

 

Há, ainda, esplêndidas tomadas aéreas de Los Angeles, seus prédios e as tantas highways da cidade. Tudo aliado à poderosíssima trilha de Cliff Martinez, ex-baterista do Red Hot Chili Peppers.

 

Carey Mulligan parece mesmo ser uma atriz que veio para ficar. É charmosa, encantadora e, acima de tudo, de grande talento. E não canso de tecer elogios ao ator do momento, Ryan Gosling. O diretor é o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que começou a realizar longas em meados dos anos 90, porém nunca distribuídos no Brasil. Entretanto, esta é a sua primeira grande chance em Hollywood e revela um diretor com bastante estilo.

 

O projeto inicial era orçado em 60 milhões de dólares e seria estrelado por Hugh Jackman, mas acabou engavetado. De acordo com Nicolas, a escolha para que dirigisse o filme partiu do próprio Ryan. O roteiro é de Hossein Amini e se baseia no livro homônimo de James Sallis, escritor americano conhecido por romances policiais, publicado em 2005 (o autor já anunciou uma nova obra com este mesmo personagem, “Driven”. Com isso, o filme deve ter uma sequência).

 

Preterido no Oscar 2012, quando foi indicado apenas ao prêmio de edição de som, Drive promete ser um dos melhores longas do ano. Fiquem de olho!

Uma análise sobre Hitchcock. Para o mestre Houldine.

Estava lendo um livro sobre estratégias corporativas. Muito bom sinal e ainda estou em pleno exercício da sua leitura. Mas ao chegar às páginas 54 e 55 , o autor analisa como era o trabalho de Alfred Hitchcock. Na hora me lembrei de Houldine e transcrevo aqui este trecho do livro em sua homenagem , aos seus belos comentários e a todos os amantes do cinema:

Observar o diretor de cinema Alfred Hitchcock (1899-1980) trabalhando em um set de filmagem  era quase sempre uma surpresa e tanto para quem via isso pela primeira vez. A maioria dos cineastas é novelo de energia retesada, gritando com a equipe, vociferando ordens, mas Hitchcock ficava sentado na sua cadeira, às vezes cochilando, ou pelo menos com os olhos semicerrados. No set de Pacto Sinistro, produzido em 1951, o ator Farley Granger achou que o comportamento de Hitchcock significava que ele estava zangado ou aborrecido e lhe perguntou se alguma coisa estava errada. “Oh”, Hitchcock  respondeu sonolento , “estou tão entediado.” As queixas da equipe , as explosões de mau humor de um ator – nada o perturbava; ele apenas dava um bocejo, mudava de posição na cadeira e ignorava o problema. “Hitchcock… não parecia estar nos dirigindo”, disse a atriz Margaret Lockwwod. “Ele era um Buda sonolento, balançando a cabeça com um sorriso enigmático no rosto”.

Era difícil para os colegas de Hitchcock compreenderem como um homem fazendo um trabalho tão estressante podia permanecer tão calmo e desapegado. Alguns pensavam que era parte de seu caráter – que havia nele uma espécie de sangue-frio. Outros achavam que era um recurso para chamar atenção, que ele estava fingindo. Poucos suspeitavam da verdade: antes mesmo de começar a filmagem, Hitchcock teria se preparado para ela com tanta atenção aos detalhes que nada podia dar errado. Ele estava totalmente no controle; nenhuma atriz temperamental, nenhum diretor de arte em pânico, nenhum produtor metido poderia perturbá-lo ou interferir em seus planos. Com absoluta segurança no que havia montado, ele podia dar-se ao luxo de se recostar na cadeira e pegar no sono.

O processo de Hitchcock começava com um storyline , fosse o de um romance ou uma ideia sua. Como se tivesse um projetor na cabeça, ele começava a visualizar o filme. Em seguida, começava a se reunir com um escritor, que logo perceberia que seu trabalho era diferente de qualquer outro. Em vez de pegar a ideia incompleta de algum produtor e transformá-la em um roteiro de cinema,o escritor estava ali simplesmente para colocar no papel o sonho capturado na mente de Hitchcock. Ele ou ela acrescentaria carne e osso aos personagens e escreveriam, é claro, os diálogos, mas quase nada além disso. Quando Hitchcock se sentou com o escritor Samuel Taylor na primeira reunião para o roteiro do filme Um corpo que cai (1958) , suas descrições de várias cenas eram tão vívidas, tão intensas, que as experiências pareciam quase terem sido reais ou talvez algo com que ele havia sonhado. Esta totalidade de visão excluía o conflito criativo. Como Taylor logo observou, embora fosse o escritor do roteiro, ele continuaria sendo uma criação de Hitchcock.

Uma vez terminado o roteiro, Hitchcock o transformaria em um elaborado plano de filmagem. Blocos, posições de câmera, iluminação e dimensões do set eram explicados em notas detalhadas. A maioria dos diretores se permite certa liberdade de ação, filmando cenas de vários ângulos, por exemplo, para dar ao editor opções para trabalhar mais tarde. Hitchcock, não: ele editava essencialmente o filme inteiro no plano de filmagem. Ele sabia exatamente o que queria e anotava. Se um produtor ou ator tentasse acrescentar ou mudar uma cena, Hitchcock se mostrava cordial – podia dar-se o luxo de fingir que estava escutando – mas por dentro não arredava pé.

Nada era deixado ao acaso. Para a construção dos sets (bastante elaborados em um filme como Janela indiscreta) , Hitchcock apresentava ao diretor de produção cópias heliográficas precisas, plantas baixas, listas incrivelmente detalhadas de figurantes. Ele supervisionava todos os aspectos da construção dos sets. Era particularmente atento às roupas de suas atrizes principais: segundo Edith Head, figurinista de muitos filmes de Hitchcock, entre Disque M para matar, em 1954 , “Havia uma razão para cada cor, cada estilo, e ele tinha certeza absoluta de tudo que decidia. Para uma cena ele viu [ Grace Kelly ] de verde-claro, para outra de chiffon branco, em outra ainda, de dourado. Ele estava realmente realizando um sonho no estúdio”. Quando a atriz Kim Novak se recusou a usar um tailleur cinza em Um corpo que cai , achando que ia ficar com uma aparência desbotada, Hitchcock lhe disse que queria que ela parecesse uma mulher misteriosa, recém-saída da névoa de San Francisco. O que ela poderia dizer diante disso? Ela usou o tailleur.

Os atores de Hitchcock estranhavam mas gostavam de trabalhar com ele. Alguns dos melhores de Hollywood – Joseph Cotten, Grace Kelly, Cary Grant, Ingrid Bergman – diziam que ele era o diretor mais fácil de trabalhar: sua despreocupação era contagiante, e visto que seus filmes eram cuidadosamente encenados de modo a não dependerem da performance do ator em nenhuma cena em particular, eles podiam relaxar. Tudo funcionava como um relógio. Como James Stewart disse ao elenco de O homem que sabia demais (1956), “Estamos nas mãos de um especialista, aqui. Vocês podem confiar nele. É só fazer tudo que ele manda e sai tudo bem.”

Enquanto Hitchcock sentava-se calmamente no set , parecendo cochilar, o elenco e a equipe podiam ver apenas a pequena parte que cada um representava. Não tinham ideia de como tudo se encaixaria na visão dele. Quando Taylor viu Um corpo que cai pela primeira vez, foi como ver o sonho de outro homem. O filme reproduzia exatamente a visão que Hitchcock havia lhe expressado muitos meses antes.

Roberto Greene- in 33 Estratégias de Guerra – pgs 54 e 55 – Editora Rocco.

 

 

A Vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

O Homem que Virou Suco

 

Por Houldine Nascimento

 

Premiado no Brasil e no mundo (incluindo a Medalha de Ouro no Festival de Moscou e prêmios de melhor ator para José Dumont em Brasília, Gramado e Huelva), O homem que virou suco (1981) foi restaurado pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, entre 2005 e 2006, sob aprovação do diretor João Batista de Andrade e do fotógrafo Aloysio Raulino.

 

De narrativa bem intensa, apresenta uma história interessante. O filme já inicia mostrando o assassinato de um empresário americano por um de seus funcionários, José Severino (Dumont), eleito como operário do ano. Mas não é a história deste homem a ser contada, e sim a de Deraldo (também interpretado por José Dumont), um poeta paraibano que chegou há pouco tempo em São Paulo. Ele tenta ganhar a vida através dos seus escritos, mas é impedido pela fiscalização do governo de vender os folhetos de cordel na rua.

 

Por ser muito parecido com José Severino, é confundido com este e passa a ser perseguido pela polícia. Deraldo não tem documento para comprovar quem é e acaba fugindo. A partir daí, começa a perambular pela capital paulista, transitando por vários empregos: carrega cebola na feira, vira pedreiro numa construção de prédio e vai trabalhar na casa de uma dondoca (a cena do “cachorro veado” é impagável). Essa primeira parte é conduzida com bom humor.

 

Posteriormente, a situação fica mais séria. Seguindo a sugestão de um ex-colega de trabalho, tenta arrumar emprego no metrô. Continua atormentado por sua condição de forasteiro, pela opressão e os diversos preconceitos sofridos, apesar de jamais se curvas às pressões. É levado para um abrigo de mendigos mantido por uma socialite (Ruth Escobar). Mantém a curiosidade pelo sósia e parte ao seu encontro. Nos minutos finais, é explicado o porquê de Severino ter cometido aquele crime.

 

“O homem que virou suco” é das melhores fitas realizadas no Brasil. José Dumont conduz de forma magistral os dois papéis. Tudo isso não seria possível sem a direção extremamente original e competente de João Batista de Andrade, sempre preocupado com questões político-sociais. O filme ainda abre espaço para as participações dos músicos Vital Farias (responsável pela trilha) e Dominguinhos.

 

 

 

 

A Vida em 24 FPS. Por Houldine Nascimento. Especial Oscar 2012.

Comentário sobre o Oscar 2012

Neste domingo (26) acontece o Oscar 2012. Organizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (AMPAS), a premiação é a mais prestigiada do cinema e está na 84ª edição. A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, é o filme que concorre ao maior número de categorias (11), entre elas direção, roteiro adaptado e melhor filme. Logo em seguida, com 10 indicações, segue a co-produção França e Bélgica muda e em preto e branco O Artista, favorita aos principais prêmios.

Várias surpresas marcaram as nomeações deste ano (talvez mais para o mal que para o bem). A começar pela redução do número de indicados ao Oscar de melhor filme: 9, um a menos que 2011. As regras para o prêmio principal foram mudadas novamente, desta vez podiam ser indicados entre 5 e 10 filmes e, para estar nessa lista, um longa tinha de ser a 1ª escolha de no mínimo 5% dos votantes (prova de que cada vez mais complicadas ficam as regras da AMPAS). Em contrapartida, mais duas animações foram nomeadas, aumentando para cinco em relação ao ano anterior.

A Academia foi ousada ao indicar o mexicano Demián Bichir ao prêmio de melhor ator por “Uma Vida Melhor”, embora ele já tivesse aparecido entre os indicados do SAG (Sindicato dos Atores). Na categoria em que concorre, o prêmio deve ficar para o vencedor do Screen Actors Guild, Jean Dujardin (“O artista”), que desbancou George Clooney (“Os descendentes”) e Brad Pitt (“O homem que mudou o jogo”). Correndo por fora está o inglês Gary Oldman (“O espião que sabia demais”), cujo papel não tem fôlego para ser premiado. Estão ausentes o maior ator do ano, Ryan Gosling (“Tudo pelo poder” e “Drive”), Michael Shannon (“O abrigo”) e o teuto-irlandês Michael Fassbender (“Shame”).

Surpresa ainda maior ficou por conta da indicação de ator coadjuvante para o veterano Max von Sydow (“Tão forte e tão perto”). Conhecido pelos trabalhos com o diretor Ingmar Bergman, Max foi nomeado em 1989 a melhor ator por “Pelle – o conquistador”, e este ano não tinha sido lembrado em outras premiações. Esperava-se que Albert Brooks (“Drive”) aparecesse na categoria, o que não aconteceu. Sydow disputa com o favorito Christopher Plummer (“Toda forma de amor”), Kenneth Branagh (“Sete dias com Marilyn”), Jonah Hill (“O homem que mudou o jogo”) e Nick Nolte (“Guerreiro”).

Por falar em Drive, a sensação que se tem é que este filme foi um dos subestimados do Oscar (poderia concorrer ao menos em roteiro adaptado, ator, trilha, atriz coadjuvante – Carey Mulligan – e ator coadjuvante, além da categoria a que foi indicado, edição de som). O outro esnobado seria a produção independente Ganhar ou Ganhar – a vida é um jogo (disponível em DVD no Brasil), dirigida por Thomas McCarthy e com Paul Giamatti, Amy Ryan e Burt Young no elenco (este por roteiro original, atriz coadjuvante – Amy – e canção, “Think you can wait”, do grupo The National).

O iraniano A Separação – também nomeado a roteiro original – é o provável ganhador do prêmio de filme estrangeiro. Depois da frustração que o Brasil teve com a saída de “Tropa de Elite 2” do processo de seleção da categoria citada, chegou a notícia de que dois conterrâneos, Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, concorrem em canção original com “Real in Rio”, pela animação Rio. Eles disputam com apenas outra música, do longa “Os Muppets”, ao contrário do ano passado, quando três canções ao todo foram indicadas (eles estão fazendo de tudo para acabar com essa categoria).

Mas o que mais foi questionado é a ausência do filme vencedor do Globo de Ouro, As aventuras de Tintim, de Steven Spielberg, em animação. Diante disso, Rango tornou-se o favorito. Woody Allen por “Meia-noite em Paris” e Terrence Malick (será que eles vão aparecer?) por “A árvore da vida” concorrem em direção com Alexander Payne (“Os descendentes”), o agora favorito por ganhar o Sindicato dos Diretores, Michel Hazanavicius (“O artista”), e, naturalmente, Scorsese.

Uma das poucas categorias que não causaram espanto foi a de melhor atriz. Há uma forte disputa entre Meryl Streep (premiada com o Globo de atriz-drama em “A Dama de Ferro”) e Viola Davis (que venceu o SAG por “Histórias cruzadas”). Nessa corrida, Glenn Close (“Albert Nobbs”) ficou para trás. Completam o time Michelle Williams no papel de Marilyn Monroe (“Sete dias com Marylin”) e Rooney Mara (“Millennium”). Ficaram fora Tilda Swinton (“Precisamos falar sobre o Kevin”) e Kirsten Dunst, de “Melancolia” (esta pagou pela língua solta de Lars von Trier).

O Oscar será mais uma vez apresentado pelo comediante Billy Crystal, após conturbada demissão de Eddie Murphy. No Brasil, o evento terá a transmissão na íntegra a partir das 19h30 (horário de Recife) pelo canal pago TNT, com a opinião do crítico Rubens Ewald Filho. Na TV aberta, os direitos pertencem à Rede Globo, que exibirá metade da festa graças ao Big Brother, com os comentários de José Wilker.

A Vida em 24 FPS. Por Houldine Nascimento.

 

Tão forte e tão perto (EUA, 2012) Cotação: 5/10

 

Por Houldine Nascimento

 

Os atentados de 11 de Setembro de 2001 ainda repercutem na vida dos americanos. Tanto que, por motivos questionáveis, uma guerra foi movida usando essa desculpa. Uma década depois, o cineasta inglês Stephen Daldry decide rodar um longa que tem como pano de fundo aquele acontecimento que mudou o curso da história da humanidade. Baseado no livro de Jonathan Safran Foer (que aqui se chamou “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”) publicado em 2005, Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close, EUA, 2012) conta a história de um garoto que não consegue superar a perda do pai, morto numa das Torres do World Trade Center.

 

Oskar Schell (o estreante Thomas Horn, em missão ingrata) é daquelas crianças prodígios que só os Estados Unidos é capaz de ter. Com nove anos, o menino possui um nível intelectual difícil de encontrar até mesmo em certos adultos. Inventor amador como se descreve, ele tem uma grande admiração pelo pai, o joalheiro Thomas Schell (Tom Hanks). Quando “o pior dia de todos” chega, Oskar se comporta de uma maneira natural à situação, sem aceitar o ocorrido. Contraditoriamente, busca uma explicação racional para isso.

 

Se apegando a uma chave localizada dentro de um envelope, no antigo armário do pai, com o nome “Black”, o garoto parte com todos seus medos numa jornada pelos distritos nova-iorquinos para achar a pessoa em questão e a fechadura correta para esse mistério. A certa altura, Oskar diz: “não acredito em milagres”, no que é rapidamente respondido por uma das centenas de pessoas que possuem esse sobrenome: “se você encontrar o dono dessa chave, isso será um verdadeiro milagre”.

 

Até então fora das grandes premiações, Tão Forte e Tão Perto foi nomeado para dois Oscars (ator coadjuvante – para Max von Sydow – e filme). Sydow vive um homem mudo que é inquilino da avó de Oskar e se propõe a ajudá-lo. Os melhores momentos são proporcionados exatamente quando o veterano ator sueco (célebre pelos trabalhos com Ingmar Bergman) está em cena, de tal forma que torcemos para ele permanecer, um contraponto à chatice do menino. Além de Max von Sydow, o filme tem de melhor a fotografia, assinada por Chris Menges, e a trilha de Alexandre Desplat.

 

Embora haja o pretexto de que o comportamento dele se dá pela ausência de um ente querido, é difícil de aturar uma história em que o personagem central faz tudo para ser desagradável durante quase toda a projeção. Entre uma das tantas atitudes insuportáveis do garoto, está a que ele confronta a mãe (interpretada por Sandra Bullock), ainda frágil, dizendo desejar que fosse ela no lugar do marido. No elenco, ainda há Viola Davis e Jeffrey Wright como dois dos Black e  John Goodman fazendo o porteiro do prédio onde os Schell moram.

 

Stephen Daldry mostrou ser um diretor interessante quando fez a sua estreia com outro filme que trazia uma criança como protagonista, “Billy Elliot” (2000). Dois anos mais tarde veio sua obra maior, “As Horas”, no qual Nicole Kidman se entregou por completo na figura da escritora Virginia Woolf. Em 2008, ele realizou “O Leitor”. Pelos três trabalhos, foi nomeado ao Oscar de direção. A Academia de Hollywood gosta bastante dele, prova disso é ter indicado este último trabalho (sem dúvida o mais fraco) à principal categoria. Em vários momentos dos mais de 120 minutos, custa entender qual a finalidade de Tão Forte e Tão Perto. A trama parece “andar em círculos”. É difícil de acreditar que Daldry se dispôs a fazer um filme que, no final das contas, não chega a lugar algum.

A VIDA EM 24 FPS. Por Houldine Nascimento.

Histórias Cruzadas (The Help) Cotação: **1/2

Drama, 147 min.

 

Lançado em fevereiro de 2009, “The Help” (“A Resposta”, no Brasil) foi um grande sucesso de vendas. O livro de Kathryn Stockett aborda as relações entre mulheres brancas e negras em sua cidade natal, Jackson, capital do Mississipi, no começo dos anos 60, durante a luta pelos Direitos Civis. Como uma forma de homenagear uma empregada negra responsável por sua criação, ela decidiu escrevê-lo.

Não demorou muito tempo para que fosse adaptado ao cinema. E o responsável por tudo isso é seu amigo de infância, Tate Taylor, até então desconhecido do grande público (desempenhou pequenos papéis em alguns filmes, o mais recente deles foi “Inverno da Alma”). Tate dirigiu e elaborou o roteiro (conta-se que foi uma exigência de Kathryn para vender os direitos da obra).

Produzido pela Dreamworks, Histórias Cruzadas é quase um conto de fadas às avessas. O filme traz a (sempre) complicada questão racial nos Estados Unidos exatamente através de uma atmosfera idílica. Na trama, Skeeter (Emma Stone) é uma jovem jornalista que difere das demais de sua terra não só por ser solteira e nunca ter namorado, mas especialmente por decidir em segredo escrever um livro que trouxesse o ponto de vista das empregadas domésticas negras acerca das patroas brancas. Algo de extrema ousadia para o local e época.

É a partir disso que conheceremos o drama de algumas das personagens, boa parte delas são tipos. Aibileen Clark (Viola Davis), que trabalha há anos para uma família tradicional; Minny (Octavia Spencer), também doméstica, figura excêntrica e bem-humorada; Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), a líder da alta sociedade, cheia de falsidade e preconceito; Celia Foote (Jessica Chastain), mulher tola e bem intencionada. Fazendo jus ao título recebido por aqui, essas histórias vão se entrelaçar, de um jeito ou de outro.

O filme tem vários momentos constrangedores, sobretudo no que confere às atuações, um festival de caricaturas, ficando difícil dizer qual delas é a mais exagerada. A começar por Chastain, boa atriz, mas aqui se resume a “miados”. Outro absurdo é Octavia Spencer, que nem precisa fazer tanto esforço para tornar sua composição caricata (é tão over que pode se tornar divertido). A mais contida delas é justamente Viola Davis.

De forma contraditória, as três atrizes citadas estão nomeadas ao Oscar, duas delas (Viola e Octavia) favoritas a vencer. Mas pelo visto, só Miss Davis fez por merecer a indicação. Ela vai além e garante a sua personagem uma humanidade que parece faltar nas demais. Em “Histórias Cruzadas”, ainda estão presentes nomes como o de Sissy Spacek, Mary Steenburgen, Allison Janney e a veteraníssima Cicely Tyson, que não comprometem.

Embora acabe funcionando, o maior maior erro é tratar de forma tão rasa o tema de discriminação. Um fato a se considerar é o acolhimento do povo americano ao filme, que estreou por lá em agosto do ano passado e até agora se encontra em cartaz, mesmo tendo sido lançado em DVD (provavelmente pela importância e força da temática na história daquele país).

Para fazer com que o espectador se envolva, Tate Taylor usa e abusa dos clichês num trabalho claramente direcionado às mulheres, para sensibilizar e com alguns momentos de bom cinema. É uma pena que uma obra com um elenco feminino tão forte seja desperdiçada dessa maneira.

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento(*)

 

 

Gainsbourg – o homem que amava as mulheres (França, 2010) Cotação: ***1/2

Drama biográfico, 130 min.

 

Serge Gainsbourg foi um mito da música pop francesa surgido nos anos 60 e que trafegou por diversos gêneros, compondo canções ousadas para a época, muitas delas com conotação erótica como é o caso de “Je t’aime… moi non plus”, a mais célebre de todas. Mas também teve incursões em outras artes, entre elas plásticas, onde iniciou, e até mesmo cinema. Era bem feio, fumava e bebia bastante, mas ainda assim tinha charme e fazia sucesso com as mulheres.

E não é que resolveram fazer um filme sobre a sua mais que intensa vida? Gainsbourg – o homem que amava as mulheres (Gainsbourg – vie héroïque) realiza uma passagem por duas fases dela: a infantil, que é bem interessante, pois era judeu e cresceu numa França ocupada pelos Nazistas; e a adulta, em que se passa a maior parte da história. Vemos os relacionamentos que teve com figuras conhecidas daquela época, como Juliette Grecó (Anna Mouglalis), Brigitte Bardot (Laetitia Casta) e a britânica Jane Birkin, que surgiu para o mundo aparecendo diversas vezes nua em Blow Up, de Michelangelo Antonioni, e veio a se tornar mulher de Serge. Nesses dois momentos, ele é acompanhado por uma criatura estranha, fruto de sua mente caótica.

Algumas encrencas em que esteve metido não são deixadas de lado, como quando fez uma versão em reggae da Marselhesa, despertando a ira de muitos. De maneira bem consistente, Eric Elmosnino é quem dá vida a Gainsbourg. É intrigante a semelhança entre ambos. Por esse papel, venceu o César de ator. O diretor tinha chegado a preparar a filha de Serge, a boa atriz Charlotte Gainsbourg durante seis meses, mas ela desistiu do projeto.

Quem é encarregada de fazer Birkin é a também inglesa Lucy Gordon. O caso dessa moça é trágico. Ela cometeu suicídio num apartamento que havia alugado em Paris por fazer carreira na França. Esse foi o último filme dela (antes, chegou a aparecer em “Homem-aranha 3”). O renomado diretor Claude Chabrol, um dos pais da Nouvelle Vague e que veio a falecer em 2010, faz uma divertida ponta como o produtor musical de Gainsbourg.

O filme é escrito e dirigido pelo estreante Joann Sfar, que é artista de graphic novel (o que justifica a inventividade desse longa) e parte de uma HQ criada por ele. A trilha é muito boa, até porque é feita em cima das músicas de Serge. Destaque para um instrumental de “Initials BB”, feito pela Orquestra Sinfônica da Bulgária.

Embora seja uma biografia não-convencional, faltou mais ousadia. Houve uma blindagem, uma tentativa de protegê-lo. A fase infantil pareceu mais instigante por ser apresentada uma criança precoce, sem pudores, o que em alguns momentos acontece com o Gainsbourg adulto.

De qualquer forma, é um filme que não deixa de ser criativo (ainda mais quando comparado a outras biografias) e bem realizado. Fica a recomendação para que se conheça melhor esse grande artista por vezes excêntrico.

 

(*) Houldine Nascimento é jornalista e autor do excelente Blog do Dine (http:blogdodine.wordpress.com).

 

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

 

 

Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with The Dragon Tattoo)

Suspense, 158 min. Cotação: **1/2

Qual é o sentido de refazer algo lançado não faz muito tempo e ainda por cima bem-sucedido? Essa é uma das tantas manias controversas que Hollywood tem. A indústria cinematográfica estadunidense costuma usar a justificativa de que o público de lá não tem o hábito de acompanhar histórias sem serem retratadas na sua língua, o que, a meu ver, é vergonhoso. Na esperança de pegar carona no êxito da versão sueca (Män som hatar kvinnor), levada ao cinema em 2009, a Columbia tratou de (re) adaptar o best-seller do escritor Stieg Larsson (falecido em 2004), “Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres”, primeira parte de uma trilogia, publicado no ano seguinte a sua morte.

Em linhas gerais, o longa-metragem de David Fincher (“Seven”, “Clube da Luta”, “O Curioso caso de Benjamin Button”, “A Rede Social”) traz a mesma trama, embora tente dar uma cara diferente. A história de um jornalista, Mikael Blomkvist (o 007 Daniel Craig, que até vai bem), que, após ser condenado pela justiça por acusar sem provas um empresário numa matéria feita para a revista onde trabalha – a Millennium, recebe convite do magnata Henrik Vanger (Christopher Plummer) para investigar um suposto assassinato de uma sobrinha, cometido há quase 40 anos. Mikael contará com a ajuda de uma hacker, Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma figura dark, perturbada, considerada insana pelo Estado e que passou por momentos de extrema dureza até chegar ali. Juntos, enfrentarão empecilhos até solucionarem o caso.

Sempre que aniversaria, Henrik recebe uma flor emoldurada de um anônimo, quem acredita ser o criminoso. Isso reavivou o desejo em esclarecer o desaparecimento de sua sobrinha. Ele suspeita que alguém de sua família a tenha assassinado para impedi-la de herdar o império. Outro fator importante é que alguns dos membros do clã tiveram ligação com o nazismo. Somam-se a isso algumas pistas, incluindo assassinatos contra mulheres e citações que envolvem a Bíblia.

As comparações são pertinentes e inevitáveis. Por mais que Fincher tente deixar sua marca, adicionando elementos que diferem do filme de 2009 (o final foi alterado, e isso talvez provoque mais raiva dos fãs do livro), a essência é a mesma, com várias sequências emuladas do antecessor. A diferença reside no fato de Fincher não ter o tato de aliviar no momento necessário, algo que Niels Oplev soube executar muito bem. Um exemplo disso está na figura do tutor de Lisbeth, que no longa sueco era irônico, debochado, e aqui parece um andróide, sem expressividade alguma.

O que faz repetir o questionamento do começo: qual o sentido de refilmar o que deu certo? E por que raios um cineasta como David Fincher aceitou entrar numa furada dessa? Não dá para entender… Com um orçamento de 90 milhões de dólares (até agora arrecadou pouco mais de U$$ 94 mi nos Estados Unidos – foi lançado por lá faz mais de um mês –, distante de se pagar) e cinco indicações ao Oscar 2012 (atriz – para Rooney, o que muitos questionam –, montagem, fotografia, edição de som e mixagem de som), talvez funcione para quem não tenha visto o original.

 

Houldine Nascimento é Jornalista. Autor do Blog do Dine. http://blogdodine.wordpress.com

PARABÉNS HOULDINE !!! 20 ANOS. SAÚDE, PAZ, SUCESSO, VIDA LONGA.

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, Inglaterra, 2012).  Suspense, 122 min. Cotação: ***1/2

Há alguns anos, “O Jardineiro Fiel” (2005), de Fernando Meirelles, havia dado uma lição de como uma obra de John Le Carré deve ser levada ao cinema. O filme era um thriller muito intrigante, que trazia o lado sujo da indústria farmacêutica, e não à toa é considerado a melhor adaptação de um livro dele. Entretanto, foi com romances de espionagem passados na Guerra Fria que Le Carré se fez notar. Um conhecimento que adquiriu enquanto diplomata no início dos anos 60. E o que é a sua especialidade, é trazido mais uma vez em “O Espião que Sabia Demais”, saído da publicação homônima de 1974.

Logo nos primeiros minutos, ficamos sabendo do que se trata: há um agente duplo no Circus, alto comando do serviço secreto britânico (o MI-6). E a missão de George Smiley, interpretado por Gary Oldman, é justamente descobrir quem é que envia as informações sigilosas para os soviéticos. Essa desconfiança partiu de Control (John Hurt), chefe dessa divisão de elite do MI-6 e que não tem condições de continuar a investigação.

Ex-membro do Circus, Smiley foi forçado a se aposentar há pouco depois de uma operação em Budapeste, na qual não estava envolvido, dar errado e tem de sair de seu descanso para averiguar essa suspeita de que uma das quatro pessoas com quem trabalhou na alta cúpula é o espião. Para isso, solicita a ajuda de Peter (Benedict Cumberbatch), que ainda continua a trabalhar no serviço secreto. Será preciso muita paciência para desvendar o caso, tal qual a analogia que se faz com as peças de um tabuleiro de xadrez.

Apresentado em uma narrativa não-linear, causa confusão na cabeça do espectador pelas inúmeras informações que surgem a cada minuto. Apesar de ritmo lento, o mais que denso roteiro exige muita concentração para que se captem as nuances. O diretor sueco Tomas Alfredson (aquele do terror vampiresco “Deixe Ela Entrar”) elaborou o filme contando bastante com a inteligência do público. De qualquer forma, é bem provável que uma única visualização não seja suficiente, o que configura um grande problema.

A história resulta datada e a sensação tida é de que os roteiristas despejaram além do que puderam dela (e só corrobora a tese de que não é fácil adaptar John Le Carré). Há mais de três décadas, precisamente em 1979, o mesmo texto originou uma minissérie na BBC com Alec Guinness no papel principal e fazia todo sentido naquele momento.

A seu favor, pode-se destacar o elenco de primeira classe (poucas vezes nos últimos anos se viu atuações tão pontuais). Encabeçado por Gary Oldman, que tem um desempenho extremamente analítico, calculista, diferente do que nos habituamos a ver (pouco lembrado em premiações, ele desta vez pode receber sua primeira indicação ao Oscar), também traz figuras conhecidas do grande público como o já citado John Hurt, o recém oscarizado Colin Firth, Mark Strong, Toby Jones e Tom Hardy.

Ao contrário do que se possa pensar, este é um filme sério e quase não tem relação com os tantos longas que se fazem nessa linha, tentando dar uma abordagem mais realista e com bem menos glamour (soa até irônico dividir espaço com “Missão Impossível 4”, ainda em cartaz no Brasil). Consegue fazer uma boa reconstrução da época, auxiliada por uma discreta fotografia que alterna entre o marrom e tons pastel.

Esquecido no Globo de Ouro, “O Espião que Sabia Demais” foi nomeado a 11 categorias do BAFTA, a maior premiação do cinema inglês. Conduzido com frieza, é um genuíno suspense, em que se acompanha passo a passo o seu delinear. Não é para qualquer um.

Tropa de Elite 2 fora do Oscar 2012

 

Na última quarta-feira (18), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, responsável por distribuir os prêmios do Oscar, divulgou a lista dos nove filmes semifinalistas à categoria de filme em língua estrangeira. E o brasileiro “Tropa de Elite 2” foi um dos 54 eliminados.

 

Continuam na disputa: o iraniano “A Separação”, que é o favorito;

“Bullhead”, da Bélgica;

“Monsieur Lazhar”, do Canadá;

“Superclásico”, da Dinamarca;

O documentário alemão e em 3D “Pina”, de Wim Wenders;

“Footnote”, de Israel;

“Omar Killed Me”, do Marrocos;

“In Darkness”, da Polônia;

E por fim “Warriors of the Rainbow: Seediq Bale”, de Taiwan.

 

Os cinco nomeados serão anunciados na próxima terça (24).

 

Opinião: Já joguei a toalha. Francamente, quando fazemos um filme de grande qualidade e reconhecido pela própria crítica americana, eles tratam de rejeitar… A mesma coisa fizeram com “Cidade de Deus”. Não sei o que se passa na cabeça dessa turma…

 

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.(*)

O Cinema em 2011

Pode-se dizer que o ano foi positivo para o cinema, apesar dos tantos desastres (que nunca deixaram de aparecer qualquer época fosse). 2011 foi marcado pelo retorno de um importante cineasta: Terrence Malick. Conhecido por sua introspecção, entregou “A Árvore da Vida”, obra que busca desvendar a origem de tudo e pela qual venceu a Palma de Ouro em Cannes.
Na contramão disso, o dinamarquês Lars Von Trier trouxe um filme apocalíptico (“Melancolia”) e que ficou ofuscado por sua piada de mau gosto sobre nazismo, no mesmo festival, embora tenha dado o prêmio de atriz à Kirsten Dunst.
Não é bem uma volta, mas é bacana constatar que o bom e velho Woody Allen está com a criatividade dos tempos áureos aflorada. Desta vez, realizou um filme num universo semelhante à “Rosa Púrpura do Cairo”. De maneira encantadora, “Meia-noite em Paris” mostrou a relação existente entre as culturas da França e dos EUA através da fantasia de um roteirista (Owen Wilson), no que talvez seja o melhor alter ego de Woody.
E o que dizer de Pedro Almodóvar? Quando se pensava que os esquemas de melodrama eram sua especialidade, ele resolve fazer com muita competência um suspense com ares de terror e ficção científica. “A Pele que Habito” marcou também o retorno de uma descoberta sua, o astro Antonio Banderas, a um de seus trabalhos.
No Brasil, o filme do ano sem dúvida é “O Palhaço”, do versátil Selton Mello. Uma fita maravilhosa e que nos deu uma sensação de nostalgia. Ainda merecem menção:
“Cópia Fiel”, primeiro trabalho do iraniano (e perseguido no seu país) Abbas Kiarostami na Europa;
“Namorados para sempre”, de Derek Cianfrance;
“Tudo pelo poder”, drama político de George Clooney;
“Super 8”, de J.J. Abrams;
“Planeta dos Macacos – a origem”, de Rupert Wyatt;
“Reencontrando a felicidade”, de John Mitchell;
“X-men: primeira classe”, de Matthew Vaughn;
“Harry Potter e as relíquias da morte 2”, de David Yates, encerrando o ciclo da série;
O ganhador do Oscar “O Discurso do Rei”, de Tom Hooper;
“O Garoto de Bicicleta”, dos irmãos Dardenne;
“Biutiful”, de Alejandro Inárritu;
“A Árvore”, de Julie Bertuccelli;
“Homens e Deuses”, de Xavier Beauvois;
“Bravura Indômita”, dos irmãos Coen;
“Medianeras”, de Gustavo Taretto;
“Reino Animal”, de David Michôd;
“Somewhere”, de Sofia Coppola;
“Um Sonho de Amor”, de Luca Guadagnino;
“Missão impossível: protocolo fantasma, de Brad Bird;
“Em um mundo melhor”, de Suzanne Bier;
“Incêndios”, de Denis Villeneuve;
“127 Horas”, de Danny Boyle;
“Inverno da Alma”, de Debra Granik;
“O Guarda”, de John Michael McDonagh;
“Poesia”, de Chang-dong Lee;
“A Chave de Sarah”, de Gilles Paquet-Brenner;
“Os nomes do amor”, de Michel Leclerc;
“O Homem do Futuro”, de Claudio Torres.
Alguns diretamente em DVD:

“A Minha versão do amor”, de Richard Lewis;
“Hanna”, de Joe Wright;
“Toda forma de amor”, de Mike Mills;
“Ganhar ou Ganhar: a vida é um jogo”, de Tom McCarthy;
“A Grande Virada”, de John Wells;
As animações também tiveram um bom ano com “O Mágico”, “Enrolados”, “Rango”, “Rio”, “Operação Presente”, “Gato de Botas”.
Apesar de tantas obras a se destacar, “Cisne Negro” é o melhor lançamento feito em nosso país. O longa do brilhante Darren Aronofsky (“Réquiem para um sonho”, “O Lutador”) contava a vida de uma bailarina, Nina Sayers (Oscar de atriz para Natalie Portman), entregue à busca pela perfeição, numa fascinante mescla de suspense e terror.

(*) Houldine Nascimento é Jornalista e autor do Excelente blog do Dine blogdodine.wordpress.com
E faz aniversário esta semana.
Vamos lá Houldine qual é o dia mesmo?

A VIDA EM 24 FPS. POR HOULDINE NASCIMENTO.

The Ides of March (EUA, 2011). Cotação: ****1/2
Drama, 101 min. Direção e roteiro: George Clooney. Com: Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei e Jeffrey Wright.

“A política é mesmo um jogo sórdido”. Um pensamento quase enraizado no inconsciente coletivo. É partindo dessa ideia que George Clooney fez “Tudo pelo Poder”, título que não tem a ver em absoluto com o original: The Ides of March (numa tradução literal “Os Idos de março”, passagem vinda da obra Júlio César, de Shakespeare). Conseguiram tirar toda a poesia do nome, mas (ainda bem) não o potencial do filme.

Baseado em “Farragut North”, peça de Beau Willimon que tomava livremente como referência a campanha de Howard Dean nas primárias do Democrata em 2004, o filme mostra exatamente os bastidores de uma disputa pela vaga de representante do partido à presidência. Durante cerca de 94 minutos, acompanhamos a trajetória de Stephen Meyers (Ryan Gosling), um jovem assessor de um dos candidatos em questão, o Governador Morris (George Clooney).

A trama custa um pouquinho a começar. O estado de Ohio é onde a história se concentra. Morris tem uma leve vantagem sobre o adversário, Pullman. Há um impasse pelo fato de os Republicanos pretenderem participar da votação e ameaçarem intervir na escolha em prol de Pullman e, assim, tirar da disputa o candidato mais difícil de ser batido.

Com a ameaça de uma derrota, se faz necessário ter o apoio de um senador (Jeffrey Wright), embora Morris relute. O chefe de campanha Paul (Philip Seymour Hoffman) tenta convencê-lo a aceitar. No lado do adversário, Tom Duffy (Paul Giamatti) alicia o promissor Stephen e é a partir disso que os problemas começam a surgir e os ideias de ética do rapaz a desmoronar na mesma proporção em que se dão os acontecimentos. A peça-chave de tudo é uma estagiária (Evan Rachel Wood), figura já marcada por colocar em risco a política norte-americana (vide o escândalo envolvendo o ex-presidente Bill Clinton e Monica Lewinsky).

Perdemos a conta de quantas vezes a política foi abordada no cinema. “Z” e “Todos os Homens do Presidente” são alguns dos tantos que tratam disso. Dos bastidores, cuidam “A Grande Ilusão”, “Segredos do Poder” e “O Candidato”. Felizmente, Clooney não deixa seu filme cair na banalidade ao entregar uma envolvente trama, que prende as atenções não por trazer algo novo (o que aqui não acontece), mas pelo grande teor de verossimilhança.

Este é o quarto filme comandado por ele. Sempre conhecido pela atuação em trabalhos que o alçaram à condição de galã, Clooney vem nos últimos anos desconstruindo essa imagem ao buscar obras mais desafiadoras (“Syriana”, “Conduta de Risco”). A estreia como diretor aconteceu em 2002 com “Confissões de uma mente perigosa”, pelo qual foi elogiado. Três anos depois, realizou “Boa Noite e Boa Sorte”, um passo adiante e que o fez ser considerado um dos melhores cineastas de 2005. “O Amor não tem regras” (2008) foi o seu deslize, agora consertado.

Ryan Gosling entrega uma atuação precisa, uma de suas características. Não por acaso é tido como o maior de sua geração (não deixem de vê-lo em “Drive”). O comportamento de seu personagem por vezes causa inquietude no espectador, em particular a partir do momento em que ele descobre algo que pode comprometer seriamente a campanha. Para criar uma empatia, tenta-se desenvolver o lado pessoal de Stephen.

Os atores de suporte também desempenham bem seus papéis, destaque para o sereno Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti (excelente na figura de um assessor disposto a tudo) e a solar e belíssima Evan Rachel Wood. A veterana Marisa Tomei aparece como uma jornalista ávida por furos.

É um período difícil para ir ao cinema por conta das festividades de Natal e ano novo. Mas quem se propor a assistir a “Tudo pelo Poder” será levado a reconhecer as diversas situações a que está habituado na política. Clooney também promove um jogo conosco graças às tantas reviravoltas que há e, pelo que pude perceber, o público gosta quando é desafiado dessa forma.

*Aproveito para desejar a todos os amigos do Fusca um ótimo Natal e um feliz 2012. J

 

Houldine Nascimento.

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Os indicados ao Globo de Ouro 2012

Por Houldine Nascimento

Como se sabe, o Globo de Ouro é uma premiação destinada a pessoas ligadas ao cinema e à TV. E já que essa coluna trata de sétima arte, o texto se aterá a ela.

Pois bem. Na manhã da última quinta-feira (15), a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), responsável por distribuir os prêmios do Globo de Ouro, anunciou os indicados desta que é a 69ª edição. O evento é considerado o principal termômetro para o Oscar.

“O Artista” desponta como favorito, já que recebeu o maior número de indicações (6) e vem sendo muito bem avaliado desde maio, quando do lançamento no Festival de Cannes. O filme aborda a transição do cinema mudo para o falado através do declínio de um astro das telonas. Mudo e em preto-e-branco, o longa-metragem do francês Michel Hazanaviciuz promove o resgate do cinema clássico (daí o motivo de tantos elogios).

Logo em seguida estão “Os Descendentes” e “Histórias Cruzadas”, ambos com 5 nomeações. Chama atenção o duelo na categoria atriz drama, entre Meryl Streep (“A Dama de Ferro”), Glenn Close (“Albert Nobbs”) e Viola Davis (“Histórias Cruzadas”). Outro destaque fica por conta de George Clooney, que concorrerá nas categorias de ator (“Os Descendentes), direção e roteiro (ambas por “Tudo pelo Poder”).

Muitos filmes notáveis foram esquecidos e devem aparecer posteriormente no Oscar, casos de “Árvore da Vida” e “O Espião que Sabia Demais”, além de outros com grande potencial em categorias inexistentes no Globo de Ouro: “Planeta dos Macacos – a origem”, “X-Men – Primeira Classe”, “Harry Potter e as relíquias da morte – parte 2”, etc. Seria interessante que ao menos houvesse uma categoria destinada a documentários, mas isto nunca pareceu ser um interesse da premiação.

Houve uma tentativa de “Tropa de Elite 2” em disputar o prêmio de filme estrangeiro. Uma cabine para os membros da HFPA foi marcada, inclusive, mas eles alegaram que o filme de José Padilha estava inapto para a premiação porque foi lançado em 2010 e só poderia concorrer neste ano. Uma surpresa é a indicação do longa de estreia de Angelina Jolie, “In the Land of Blood and Honey”, nesta categoria. O iraniano “A separação” é o favorito.

Não dá para entender a nomeação de Ryan Gosling em ator de comédia por “Amor a Toda Prova”, pois Steve Carell é claramente o protagonista. Em contrapartida, é muito justo Gosling disputar o prêmio de ator drama por “Tudo pelo Poder”, em que está ótimo. Há quem diga que ele deveria ser lembrado também por “Drive”, o que não aconteceu. Preteriram, ainda, a animação “Rio” em detrimento do rejeitado “Carros 2”, um pequeno erro da quase infalível Pixar.

Os vencedores serão anunciados no dia 15 de janeiro. Pela terceira vez consecutiva, Ricky Gervais será encarregado de conduzir a premiação, sem deixar de lado as costumeiras piadas (no mínimo) fortes sobre as diversas celebridades de Hollywood. O ator Morgan Freeman é o homenageado da vez com o Cecil B. DeMille

Confira todos os indicados em cinema:

Filme – Drama
Os Descendentes
Histórias Cruzadas
A Invenção de Hugo Cabret
Tudo pelo Poder
O Homem Que Mudou o Jogo
War Horse

Filme – Musical ou Comédia
O Artista
Missão Madrinha de Casamento
50%
Meia-Noite em Paris
My Week with Marilyn

Ator – Drama
George Clooney por “Os Descendentes”
Leonardo DiCaprio por “J. Edgar”
Michael Fassbender por “Shame”
Ryan Gosling por “Tudo pelo Poder”
Brad Pitt por “O Homem Que Mudou o Jogo”

Atriz – Drama
Glenn Close por “Albert Nobbs”
Viola Davis por “Histórias Cruzadas”
Rooney Mara por “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
Meryl Streep por “A Dama de Ferro”
Tilda Swinton por “We Need to Talk About Kevin”

Ator – Comédia
Jean Dujardin por “O Artista”
Brendan Gleeson por “O Guarda”
Joseph Gordon-Levitt por “50%”
Ryan Gosling por “Amor a Toda Prova”
Owen Wilson por “Meia-Noite em Paris”

Atriz – Comédia
Jodie Foster por “Carnage”
Charlize Theron por “Jovens Adultos”
Kristen Wiig por “Missão Madrinha de Casamento”
Michelle Williams por “My Week with Marilyn”
Kate Winslet por “Carnage”

Ator coadjuvante
Kenneth Branagh por “My Week with Marilyn”
Albert Brooks por “Drive”
Jonah Hill por “O Homem Que Mudou o Jogo”
Viggo Mortensen por “Um Método Perigoso”
Christopher Plummer por “Toda Forma de Amor”

Atriz coadjuvante
Bérénice Bejo por “O Artista”
Jessica Chastain por “Histórias Cruzadas”
Janet McTeer por “Albert Nobbs”
Octavia Spencer por “Histórias Cruzadas”
Shailene Woodley por “Os Descendentes”

Diretor
Woody Allen por “Meia-Noite em Paris”
George Clooney por “Tudo pelo Poder”
Michel Hazanavicius por “O Artista”
Alexander Payne por “Os Descendentes”
Martin Scorsese por “A Invenção de Hugo Cabret”

Roteiro
O Artista
Os Descendentes
Tudo pelo Poder
Meia-Noite em Paris
O Homem Que Mudou o Jogo

Canção original
“Lay Your Head Down” de “Albert Nobbs”
“Hello Hello” de “Gnomeu e Julieta”
“The Living Proof” de “Histórias Cruzadas”
“The Keeper” de “Redenção”
“Masterpiece” de “W.E. – O Romance do Século”

Trilha sonora original
Ludovic Bource por “O Artista”
Trent Reznor, Atticus Ross por “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”
Howard Shore por “A Invenção de Hugo Cabret”
John Williams por “War Horse”
Abel Korzeniowski por “W.E. – O Romance do Século”

Animação
As Aventuras de Tintim
Operação Presente
Carros 2
Gato de Botas
Rango

Filme em língua estrangeira
Jin líng shí san chai (China)
In the Land of Blood and Honey (EUA)
O Garoto de Bicicleta (Bélgica)
A Separação (Irã)
A Pele que Habito (Espanha)

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Melancolia (Cotação: ****1/2)

(Melancholia, Dinamarca, 2011) Drama, 136 min. Direção e roteiro: Lars von Trier. Idioma: Inglês. Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgard, Cameron Spurr, Stellan Skarsgard, John Hurt e Charlotte Rampling.

Não sou propriamente um fã de Lars von Trier, mas tenho de reconhecer que sua filmografia é uma das mais originais e poderosas dos últimos tempos. O criador do Dogma 95, polêmico manifesto que busca realizar filmes de baixo recurso, mais simples e menos comerciais, caso de “Os Idiotas” (único que segue todas as regras do movimento), sempre foi conhecido como um “poeta da tristeza”.

Em Melancolia, ele desta vez nos oferece uma obra apocalíptica. Numa espécie de prólogo de cerca de 8 minutos em que não é dito nada, vemos uma Justine (Kirsten Dunst) presa às forças da natureza e o planeta Melancolia praticamente “engolindo” a Terra, já dando uma previsão do que viria a acontecer. Nessa sequência, são apresentadas imagens em slow-motion, quase fotografias em movimento, plasticamente impecável. Tudo ao som de Tristão e Isolda, de Richard Wagner. Uma grande experiência sensorial e que, queira ou não, remete a 2001 – Uma odisséia no espaço.

O filme se divide em duas partes. A primeira é focada em Justine, que está casando com Michael (Alexander Skarsgard). Ela aparentemente está feliz, mas vai perdendo a alegria, como se pudesse prever que algo de errado estava por vir. Enquanto isso, vamos conhecendo os demais personagens aos poucos. O abastado cunhado John (Kiefer Sutherland, em uma das composições mais convincentes de sua carreira), o pai galanteador (John Hurt), a mãe egoísta (Charlotte Rampling), o patrão obcecado pelo trabalho (Stellan Skarsgard), o sobrinho Leo (Cameron Spurr, boa revelação) e a responsável irmã Claire (Charlotte Gainsbourg), em quem é centrada a segunda parte.

Neste outro segmento, Melancolia ganha destaque, aparecendo inúmeras vezes. Chama atenção a abissal diferença de comportamento entre as irmãs. Enquanto Claire se desespera com a aproximação do astro azul, Justine aguarda com tranqüilidade a chegada dele. Com um encerramento grandioso, em que Justine, Claire e Leo se dão as mãos e rezam, na esperança de impedir o inevitável.

O longa-metragem esteve em competição no Festival de Cannes deste ano. Na entrevista coletiva, Lars von Trier fez comentários desnecessários em tom de humor sobre o Nazismo, o que ocasionou sua expulsão do Festival. Posteriormente, pediu desculpas, mas já era tarde. Agora é considerado persona non grata pelos franceses. Ainda assim, Dunst foi agraciada com prêmio de melhor atriz. Curiosamente, o diretor havia convidado Penélope Cruz para esse papel, mas ela declinou para fazer Piratas do Caribe 4.

Pode-se observar esta fita como uma alegoria, uma metáfora para descrever a depressão, mal que o diretor sofreu até. Como se o planeta desconhecido fosse o sentimento em si, nos consumindo. Também há uma crítica à instituição casamento. Melancolia se configura como um dos melhores lançamentos do ano, talvez o melhor até agora. O Sr. Von Trier ainda tem muito que oferecer ao cinema. Só é preciso que fale menos.

PS – Quem não viu no cinema agora terá a oportunidade de ver em casa, pois, a partir da próxima semana (13/12), o DVD de Melancolia estará nas melhores locadoras.

 

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

A realidade como não queremos enxergar

 

 

 

Quando da passagem de “Babel” pelo Festival de Cannes, em 2006, tanto Alejandro González Iñárritu quanto Guillermo Arriaga reivindicaram a idealização do projeto. Eles brigaram e ao que parece quem levou a pior foi o roteirista, porque, dois anos depois, Arriaga dirigiu e escreveu um filme ignorado tanto pelo público quanto pela crítica: “Vidas Que Se Cruzam”.

 

Biutiful é o primeiro longa que Iñárritu realizou sem a colaboração habitual do antigo parceiro. Seus filmes têm a marca de mergulhar fundo no sofrimento das personagens. Este aqui vai além do que estávamos acostumados a ver, deixando de lado as tramas cruzadas. Passado no submundo de Barcelona, conta a história de Uxbal (Javier Bardem), um sujeito que vive de negócios ilícitos, tem o dom de falar com os mortos e tira proveito financeiro disto.

 

Ele descobre que sofre de um tipo de câncer terminal, restando-lhe apenas dois meses de vida. Isso se torna um dilema, pois Uxbal tem um casal de filhos com uma mulher instável chamada Marambra (Maricel Álvarez), prostituta viciada em drogas e que não detém a guarda das crianças. É um bom pai e fica preocupado por não tê-los com quem deixar.

 

O drama discorre sobre uma realidade desagradável ao ser humano: a morte. Não há como escapar dela. Com a câmera na mão, Iñárritu faz questão de destacar isto. Morte de diversas maneiras: acidente, assassinato, doença. Tudo isso mostrado através de uma narrativa lenta, o que talvez seja a grande sacada. E assim como o personagem central, poucos têm a oportunidade de saber quando ela acontecerá.

 

Encontramos também, embora não seja o objetivo principal, denúncia no que diz respeito à situação dos imigrantes ilegais na Espanha, um fato que pouco se atentou. Neste caso, representados por senegaleses e chineses.

 

Apesar de acreditar que o diretor tenha, de certa forma, se perdido no roteiro (que é assinado por ele, Armando Bo e Nicolás Giacobone), é um trabalho interessante. O título constitui uma espécie de ironia, pois não há nada ou quase nada bonito. Os cenários são feios, a começar pela casa onde vivem o protagonista e as crianças: suja e acabada (o porquê do título se justifica em uma bela cena entre Uxbal e sua filha, Ana). Ou então o frio porão onde vivem os chineses. O ambiente obscuro parece exercer uma influência no comportamento de Uxbal, levando-o a tomar atitudes impensadas, o que configuraria a cidade como vício.

 

A música de Gustavo Santaolalla chega a ser incômoda em alguns momentos, o que é proposital, evidente, para dar o tom do que é o filme, pesado do início ao fim. A fotografia do sempre excelente Rodrigo Prieto também exerce papel importante na trama. Mas o maior atrativo da fita é mesmo a presença de Bardem, um dos atores mais interessantes do momento e que carrega o fardo de um herói trágico com maestria. Este é o seu personagem mais realista, humano e com grande poder de empatia junto ao público. Por esse motivo, recebeu indicações ao Oscar e Bafta de melhor ator, além de ter vencido Cannes e Goya.

 

Biutiful é o filme mais delicado de Iñárritu. Aqui, o diretor nos apresenta um lado obscuro da vida e que muitas vezes fazemos questão de ignorar. E assim como a de Uxbal, somos devastados aos poucos, tal qual uma droga acomete seu dependente.

 

 

Ficha técnica: Biutiful (Cotação: ***1/2)

México, 2010. Drama, 147 min. Direção: Alejandro González Iñárritu. Elenco: Javier Bardem, Maricel Alvarez, Hanaa Bouchaib, Guillermo Estrella, Eduard Fernández, Ana Wagener, Rubén Ochandiano.

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento (*)

Stanley Kubrick                                           

Perfeccionista, gênio, excêntrico, misterioso, tirano, recluso. Esses são alguns dos tantos adjetivos destinados a um dos maiores cineastas da história. Estou falando de Stanley Kubrick.

O menino do Bronx nasceu em 26 de julho de 1928, era avesso aos estudos, mas, desde cedo, já imaginava o que iria fazer. Ainda adolescente, começou a trabalhar na revista Look como fotógrafo. Poucos anos depois, se envolveu com aquilo que o faz ser lembrado até hoje: o cinema.

Na sétima arte, dirigiu 16 filmes, 13 deles longas de ficção. Em 46 anos de carreira, deixou praticamente uma referência em cada gênero. Do épico ao terror, passando pelo drama, romance, comédia, ficção científica, entre outros.

A primeira superprodução foi Spartacus (1960), um divisor de águas em sua trajetória. Convidado por Kirk Douglas, com quem trabalhou no bem-sucedido Glória Feita de Sangue (1957), para substituir o diretor Anthony Mann após uma conturbada demissão. Enquanto concluía o épico, Kubrick teve divergências com Kirk, impedindo de pôr algumas de suas idéias no projeto. Desde então, Stanley decidiu que não iria mais realizar filmes em que não tivesse o controle.

Isso o fez mudar de país. A Inglaterra foi o seu destino. Lá, adaptou para as telonas um ousado romance do escritor russo Vladimir Nabokov: Lolita (1962). Na história, um professor de francês se apaixona por uma menor. Dois anos depois, fez uma brilhante sátira à Guerra Fria com Dr. Fantástico. Gostou tanto de Peter Sellers (“Lolita”) que decidiu chamá-lo novamente. E, desta vez, o comediante se desdobra em três personagens.

Em 1968, veio aquela que talvez seja a sua maior obra e também a mais enigmática: 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Com imagens bem poderosas, Stanley consegue criar o espaço e a superfície lunar bem próximos da realidade, um ano antes de o homem chegar à Lua, o que ainda impressiona. Tudo isso ao som de “Assim Falou Zaratustra” e “Danúbio Azul”. Sem dúvida, um marco da ficção científica.

Outro filme maior, Laranja Mecânica (1971) causou muita polêmica quando de seu lançamento. Inspirado no livro homônimo de Anthony Burgess, o longa se passa numa Inglaterra do futuro e narra a vida de Alex (atuação memorável de Malcolm McDowell), um jovem gângster que nutria grande apreço pela música de Beethoven e ao mesmo tempo promovia diversos tipos de crime. Kubrick foi acusado por gente da época de incitar a violência.

Após tantas fitas não convencionais, surge Barry Lyndon (1975), da obra de William Makepeace Thackeray. Aqui, faz um delicado estudo de ascensão e queda de um pobre irlandês do século XVIII, Redmond Barry (Ryan O’Neal). Um trabalho artesanal, com o uso de uma lente que pegou emprestado da NASA para captar as imagens com iluminação natural e à luz de velas.

Cinco anos mais tarde, realizou O Iluminado, longa saído do livro de Stephen King e que se tornou uma influência no terror. Jack Nicholson encarnou o escritor Jack Torrance, encarregado de cuidar de um hotel nas férias, levando consigo mulher e filho, este um garoto sensitivo. Mas, com o isolamento, Torrance se vira contra a sua família, perseguindo-os.

No ano de 1987, expôs sua visão sobre a Guerra do Vietnã através de Nascido para Matar. E após um hiato de 12 anos, trouxe o último filme, De Olhos Bem Fechados, com o badalado casal hollywoodiano Tom Cruise e Nicole Kidman. Stanley Kubrick faleceu em 7 de março de 1999, vítima de um enfarte.

 

Houldine Nascimento é Estudante de Jornalismo e autor do excelente Blog do Dine (http://blogdodine.wordpress.com)

E autor da frase mais nobre e digna de fair-play no feicibuqui, depois de semanas escutando as gozações com porteiros e portarias:

“Náutico chama os seus torcedores para fazer recall das camisas com o seguinte texto: Ô rubro-negro o sonho acabou, prá serie A sou eu quem vou”. Devidamente parabenizado em dobro. Avis Rara na torcida do Sport. Junto com o irmão Arsênio. E mais não digo.

Saboreiem Kubrick pelas mãos do mestre Houldine.

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Macunaíma

 

Comédia, 110 min. Direção e roteiro: Joaquim Pedro de Andrade. Com: Paulo José, Grande Otelo, Milton Gonçalves, Jardel Filho, Dina Sfat.

 

                       

Grande Otelo na pele do anti-herói

 

Os anos 60 foram mesmo de ouro para o cinema nacional graças à efervescência do Cinema Novo e suas belas produções. Macunaíma se inclui nesse contexto. O filme de Joaquim Pedro de Andrade é uma adaptação da obra do consagrado escritor modernista Mario de Andrade. A saga, todos já sabem, é sobre um anti-herói (ou herói) que nasce preto e vira branco. Suas primeiras palavras são ditas apenas aos 6 anos de idade: “Ai, que preguiça!”. Junto com os irmãos, sai da selva em direção à cidade grande, aprontando todas.

A história sofreu uma espécie de atualização. A índia Ci, por quem Macunaíma é apaixonado, virou uma guerrilheira (Dina Sfat). Ela detém o muiraquitã, amuleto da sorte. Ao morrer, a pedra por acaso para nas mãos do industrial peruano Venceslau Pietro Pietra (Jardel Filho) e o herói tenta reavê-la de todas as formas.

Uma fita incomum dentro do Cinema Novo pelo tom bastante debochado e que chegou a influenciar o realizador alemão Werner Herzog em O Enigma de Kaspar Hauser (1974) quando da frase “Cada um por si e Deus contra todos”. Apesar das inovações, Joaquim Pedro de Andrade teve a preocupação de manter o espírito mario-andradino da coisa. Ele mesmo é quem faz a apresentação do filme, explicando durante 1 minuto a rapsódia brasileira.

Embora tenha enfrentado problemas com a censura da época, Macunaíma fez bastante sucesso. Grande Otelo encarna com maestria o herói de nossa gente na sua primeira fase, preta e infantil, assim como Paulo José na fase branca e adulta. Um clássico nacional, considerado o maior filme do diretor e que resistiu bem ao tempo.

 

Houldine Nascimento é estudante de Jornalismo e autor do excelente Blog do Dine (http://blogdodine.wordpress.com).

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento (*).

 

A Pele que Habito

La Piel que Habito

(Espanha, 2011). Cotação: ****

Suspense/Drama, 117 min. Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornat, Blanca Suárez, Roberto Álamo.

Em alguns de seus filmes, Almodóvar já flertava com o thriller (casos de “Volver” e “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, por exemplo). Em “A pele que habito” resolveu fazer uma mescla de suspense e drama, trafegando pelo terror e até mesmo pela ficção científica, num tom bastante obscuro. Ou seja, é uma fita única em sua carreira. E para viver o protagonista, chamou Antonio Bandeiras, com quem não trabalhava desde “Ata-me”, há mais de 20 anos (eles haviam se desentendido e passaram muito tempo afastados).

A trama se inspira vagamente no livro “Tarântula”, do francês Thierry Jonquet, e se passa em um futuro não tão distante, 2012. Robert Ledgard (Banderas, em plena sintonia com o diretor) é um cirurgião-plástico conceituado que não consegue superar a morte da esposa, ocasionada pelas sequelas das queimaduras sofridas num acidente. Isso se verifica nas inúmeras tentativas feitas para a criação de uma pele incapaz de sofrer danos, o que salvaria sua mulher. E para completar, mais uma catástrofe em sua vida (não cabe detalhar).

Na mansão de Ledgard, há Vera (a bela e ótima Elena Anaya), uma misteriosa mulher encarcerada e que serve de cobaia. A partir disso, o filme faz uma retomada de 6 anos para explicar os motivos pelos quais se chegou a essa situação, demarcando com letreiro, para depois retornar e dar solução ao entrave. Enquanto tudo não é esclarecido, o espectador fica na saudável dúvida se o médico é “vilão” ou “moço” (ou nenhum dos dois), se sua obsessão é justificável ou não.

De acordo com o próprio diretor, o filme choca pelo fato de os personagens terem uma cultura diferente, não baseada no castigo e no pecado (o que, para ele, são princípios da cultura de seu país). Aqui Pedro desenvolve a perversão em seus diversos níveis. “A Pele que Habito” concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, se tornando a quarta fita a representar o cineasta espanhol na competição. A fotografia é bastante escura, com várias cenas rodadas à noite e em ambientes com pouca iluminação, se diferenciando dos trabalhos anteriores, mas sem deixar de ter suas qualidades. A excelente trilha é de Alberto Iglesias, colaborador habitual de Almodóvar, e é tão intensa que parece saída de uma obra hitchcockiana.

O que chama atenção também é a forte ligação que o filme tem com o Brasil, até mesmo maior que “Fale com Ela”. A começar pelas raízes do personagem central, fincadas em nosso país (Almodóvar sempre se revelou um apaixonado pela cultura brasileira). Contraditoriamente, ele insere uma figura esquisita: Zeca (Roberto Álamo), filho da governanta (a veterana Marisa Paredes), criado no Brasil e falando algumas frases em português (macarrônico, diga-se). Traz imagens de uma favela, faz alusão ao carnaval, à Bahia e coloca uma menina cantando perfeitamente “Pelo amor de amar”, no que é um dos momentos mais singelos do longa.

A Pele que Habito é muito bem amarrado e impressiona pela capacidade de Almodóvar em se reinventar. Ele é verdadeiramente um autor.

(*) Houldine Nascimento é estudante de Jornalismo e autor do excelente BLOG DO DINE ( http://blogdodine.wordpress.com)

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

 
O Palhaço

Comédia/Drama, 90 min. Cotação: *****

Em 2008, após tantas experiências bem-sucedidas como ator (“Auto da Compadecida”, “Lavoura Arcaica”, “O Cheiro do Ralo”, entre outros), que o tornaram uma referência no cinema, Selton Mello resolveu saber qual era a sensação de estar por trás das câmeras. “Feliz Natal” nos brindava com
uma trama bastante pessimista, sombria, em que um homem retornava depois de muito tempo ao lar e tinha um “acerto de contas” com os familiares. Pela estreia promissora, recebeu elogios e prêmios.

Desta vez, quis diversificar, trazendo algo mais acessível – e mais alegre – ao grande público: a magia do universo circense com “O Palhaço”. Diferente do primeiro, ele se divide entre o comando e a atuação.
E de novo escreveu o roteiro com Marcelo Vindicato. Na história, Benjamin (Selton) é o palhaço Pangaré. Junto com o pai (Paulo José) – também palhaço, o Puro Sangue – e a trupe do Circo Esperança, garante a alegria de muitos pelo interior do Brasil. Mas, em certo momento, acredita não fazer mais graça.

Por não enxergar sentido no que faz, a tristeza se abate sobre ele, prova de que ninguém é feliz o tempo todo. Não tem identidade, CPF, muito menos comprovante de residência, o que o impede de adquirir um ventilador, e isso o atormenta. A Benjamin, resta uma certidão de nascimento surrada. Alguns percalços surgem no caminho e vão deixando o nosso herói ainda mais abatido. “Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir?”. A tônica é essa.

Diante disso, somando um interesse por uma bela moça, ele se direciona à cidade natal, Passos – que também é o lugar onde Selton nasceu, uma homenagem, portanto. Essa odisseia representa um encontro consigo mesmo. Benjamin aos poucos retoma a alegria e parte de volta, rumo às
pessoas que gosta. No encerramento, se vê que ele fez a tão sonhada compra, uma metáfora simbolizando a recuperação de sua dignidade.

A situação contada carrega um pouco da vida de Selton. Isso seria um próprio questionamento feito por ele há alguns anos, quando não conseguia ver razão no que fazia e até pensou em abandonar tudo. “Eu passei um ano achando que não era mais isso, que eu não tinha mais prazer nisso. E a vantagem da minha profissão é que você pode transformar isso em alguma coisa, pode sublimar e virar arte. E foi o que eu fiz”.

Ele já teria todos os méritos por realizar um filme que passa longe de favelas, temática recorrente em nosso cinema. Mas “O Palhaço” é muito bem cuidado, pensado nos pequenos detalhes, em que nada é gratuito. Selton Mello se desdobra bem nas tarefas de representar e dirigir. O elenco todo está no tom certo. Uma boa sacada é a ponta feita por seu irmão, Danton, no desfecho. Além disso, convidou alguns de seus ídolos do humor: Jorge
Loredo (o “Zé Bonitinho”, em ótima aparição), Ferrugem e Moacyr Franco, ovacionado pela plateia do Festival de Paulínia pelo desempenho como o
delegado. A garotinha do circo, Guilhermina (Larissa Manoela), é encantadora, mostrando que Selton possui tino para orientação de crianças.

“O Palhaço” infla o espectador de nostalgia e faz com que os grandes filmes, notáveis por sua simplicidade, sejam rememorados.
Remete a “Estrada da Vida”, de Fellini. É um filme para assistir sem ressalvas e, certamente, uma das melhores coisas feitas no ano.

 

PS – Houldine Nascimento é estudante de Jornalismo e autor do BLOG DO DINE ( http://blogdodine.wordpress.com) .

 

A vida em 24 fps. Por Houldine Nascimento.

Capitães da Areia

 

Aventura, 96 min. Cotação:
***

Direção: Cecília
Amado. Elenco: Jean Luís Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Paulo Abade,
Israel Gouvêa, Jordan Mateus.

Era de se esperar que uma das mais belas páginas  da literatura brasileira ganhasse uma versão para o cinema.* Capitães  da Areia, conhecida obra do escritor baiano Jorge Amado, conta a  história de um grupo de menores de rua abandonados na Salvador dos anos 30. E  ninguém melhor que sua neta, Cecília Amado, para realizar a adaptação.

O filme se encarrega de mostrar a célebre trama  do livro. Apelidada de “capitães da areia”, essa turma vivia num trapiche, era  liderada por Pedro Bala (Jean Luís Amorim) e mal vista pela sociedade por  praticar pequenos golpes. Todos estão presentes. Desde o sedutor Gato (Paulo  Abade) ao solitário Sem-Pernas (Israel Gouvêa), o simpático Boa Vida (Jordan  Mateus) e o sábio Professor (Robério Lima), além dos outros tantos.

Mas o que a  sociedade não percebia – ou não queria perceber – é que todos eles necessitavam  de afeto.

Depois de tantas aventuras, tantos perigos, Dora  (Ana Graciela, um talento) entra na vida dos garotos. Ela carrega a inocência  que eles perderam devido às adversidades. Quando de sua partida, uma grande  comoção, pois sua figura feminina simbolizava a mãe que todos sentiam falta,  desejavam ter.

Capitães da Areia inicia as comemorações  do centenário do escritor, nascido em 1912. Cecília começou a rodá-lo em 2008,  finalizando o projeto em 2009. Segurou por dois anos para que o filme ganhasse  força.

O livro foi lançado em 1937. É uma das primeiras  obras de Jorge Amado e foi feito quando o escritor trazia em seus textos forte  teor de denúncia social. Por isso, chegou a ser censurado naquela época pela  ditadura de Getúlio Vargas.

Cecília Amado se mantém fiel ao escrito, uma  forma de reverenciar o avô. Ela não deixa de lado a sensualidade, fé e malícia  características da Bahia e que permeavam a obra. Além disso, o potencial  conflito por Dora, entre Professor e Pedro Bala, é bem explorado. Mas se engana  quem pensa que o filme não tem inventividade. A montagem e os movimentos de  câmera são bastante ágeis e, nesse aspecto, fazem lembrar “Cidade de Deus”.

Não é perfeito. Em certas situações, tropeços.
Como na parte em que Pedro Bala é agredido pelo bando de Ezequiel e há um corte  brusco, não mostrando o desenrolar disso. E pela inexperiência da maioria do  elenco, as atuações (sobretudo em alguns momentos da primeira metade) são  vacilantes.

Talvez a trilha de Carlinhos Brown fosse o que  mais preocupava, mas até ela agrada por carregar a essência baiana, embora, vez  ou outra, “reivindique” maior destaque do que a trama.

Apesar dos eventuais problemas, é impossível não  se envolver com os personagens. Há pelo menos dois momentos de pura poesia: um  deles é a criação da antológica cena do carrossel que por décadas rondou o  imaginário dos fãs.

E a parte em que Dora flutua sobre a água, um simples e  notável ponto na imensidão.

Em seu primeiro filme, fica a sensação de dever  cumprido pelo bom resultado e pelo significado que a obra tem para a diretora.
E se Jorge estivesse vivo, certamente teria do que se orgulhar.

* Em 1971, houve o lançamento de um filme
pouco conhecido que se inspirava na obra: “The Sandpit Generals”, de Hal
Bartlett.

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