RSS

Arquivo da categoria: Coluna do Arsênio

Coluna do Arsênio. “Cazuza”.

AGENOR MIRANDA DE ARAÚJO NETO, O CAZUZA

Havia em Agenor Miranda de Araújo Neto, conhecido daqui até a eternidade como Cazuza (1958-1990), algo de vital e mortal que lembrava outros de seus antecessores artísticos e Boêmios, como Hélio Oiticica, Roniquito de Chevalier e Zequinha Estelita: a mesma doação do corpo à coragem cega, à franqueza irresponsável, ao excesso suicida, ao que desse-e-viesse.

Só que, comparados à quantidade industrial de cocaína, mandrix e álcool que Cazuza consumiu desde a adolescência, os outros três podiam ser considerados abstêmios. E, por viver muito mais depressa do que eles, Cazuza morreu muito mais cedo, aos 32 anos.

“Só as mães são felizes”, o dramático livro de Lucinha Araújo, sua mãe, mostra como essa atitude o marcou desde criança. Pegar o carro da família e sair dirigindo por Ipanema aos onze anos podia ser apenas um indício de rebeldia pré-adolescente – mas o problema é que a rebeldia de Cazuza estendeu-se até os seus anos finais, quando, ao saber que tinha aids, lutou simultaneamente contra e a favor da doença. A favor?! Sim. Pelas histórias de sua mãe, nunca houve um paciente tão rebelde a tratamentos. Ou tão superior à própria desgraça. Apegou-se à vida, mas com combustíveis impróprios: continuou bebendo e drogando-se como se fosse imortal.

A escola de Cazuza foi o Píer (ponto da praia localizado na cidade do Rio de Janeiro, também conhecido como as dunas da Gal, em referência à musa do tropicalismo Gal Costa.)

Porém, ao contrário de tantos ali, ele sabia que o mundo não tinha começado com Elvis Presley. Lia Nelson Rodrigues, citava Rimbaud e Maiakovski nas entrevistas, e era fã de Cartola (de quem gravou um ou dois sambas), Dalva de Oliveira e João Gilberto.

Desde as fraldas se habituara a conviver com os grandes nomes da BOSSA NOVA, que freqüentavam a casa do seu pai, João Araújo. João Araújo foi divulgador da “Elenco”, um selo especializado em Bossa Nova, e se tornara presidente da Gravadora Som Livre. Apesar desse background musical, Cazuza começou a cantar por acaso. Aluno de Perfeito Fortuna no grupo de teatro Asbrúbal Trouxe o Trombone, que revelou uma excelente geração de comediantes, atores, atrizes e cantores, foi um dos que ajudaram a tornar possível o mítico espaço que ficou conhecido como Circo Voador, e ali, apresentou-se com um grupo de garotos do bairro do Rio Comprido, que estavam formando uma banda que ficou conhecida como Barão Vermelho.

Nunca cantara na vida, mas foi escalado na base do “te vira”. Ao abrir a boca, descobriu-se que cantava como Ângela Ro Ro, com a mesma tintura bluseira na voz.

Os relatos sobre ele no Baixo Leblon falam de duas personalidades opostas: Cazuza era wild e incontrolável, mas capaz também de cativar e enternecer. Ele era  o que era e não adiantava protestos.

Amostras dessa sensibilidade aguda e dividida estão em letras como as de “Maior Abandonado”, “Solidão, Que Nada” e “Só as Mães São Felizes”.

O Rock não era unicamente a sua meta e Cazuza sempre buscou outros gêneros, como a música romântica (“Não amo Ninguém”), a Bossa Nova (“Faz Parte do Meu Show”), a balada (“Codinome Beija-Flor”) e o protesto político (“Ideologia” e “Brasil”).

Caetano Veloso elegeu-o “o melhor poeta de sua geração”. Acrescento o nome de Renato Manfredini Júnior ou Renato Russo, ao de Cazuza. Os dois foram os grandes Poetas do Rock Brasil dos anos 80.

Nunca saberemos os rumos que tomaria com a maturidade – se um dia chegasse a ela -, mas podia-se esperar dele um letrista à altura dos maiores da música popular brasileira.

Maiakovski. Por Arsênio Meira Júnior.

Vladimir Vladímirovitch Maiakovski

Estivesse vivo Vladímir Vladímirovitch Maiakovski estaria completando em julho último 121 anos.

Ao povo russo, ao menos ao longo de duas décadas após 1930, Maiakovski permaneceu vivo, ainda que para muitos do governo revolucionário russo sua genial poesia parecesse obscura e inatingível às massas populares do seu país.

Maiakovski nasceu em Bagdadi, ou Baghdati, segundo o Google, na Geórgia, em 7 de Julho de 1893, 19 de Julho pelo calendário ocidental. Naquela época a Geórgia era russa, e Maiakovski, teve seu início de envolvimento com a poesia e com a revolução quando foi preso, em 29 de Março de 1908, quando lutava contra as garras opressoras do Imperialismo.A tipografia onde habitualmente passava horas da sua juventude e que pregava os ideais revolucionários foi fechada e o bardo que se locomovia próximo ao local foi revistado pela polícia czarista, sendo com ele encontrada caderneta com importantes nomes de ativistas contrários ao regime imperial vigente.

Ficou preso por dois anos, aos 16 anos foi “libertado”. Falando do seu tempo de prisão deixou escrito:

“Eu, no entanto,

aprendi a amar no cárcere

…………………………………….

me enamorei da janelinha da cela 103

da “oficina de pompas fúnebres”

……………………………………..

então

por um raiozinho de sol amarelo

dançando em minha parede

teria dado todo um mundo.”

Na prisão escreveu poemas e textos diversos, e organizou um conjunto de poemas que pretendia ver transformado em livro, mas os originais foram apreendidos quando ganhou a “liberdade”.

A palavra liberdade foi aspeada mais uma vez porque ele saiu da prisão para cumprir um período de degredo, que somente não se materializou por influência de amigos e companheiros apaziguados pelo sistema.

Matriculou-se na Escola de Belas-Artes, conviveu com o Príncipe Lvov, que tentou mudar sua vontade de “crítica e agitação”.

Conselho não seguido, evidentemente, dado seu espírito irrequieto e ideais fortemente arraigados, cujos reflexos explodiriam pouco depois em sua poesia de forte tensão hiperbólica, com metáforas únicas e versos inesquecíveis (Neste vida/ morrer não é difícil/ o difícil é a vida/e seu ofício.) ou o famosa boutade: é melhor morrer de vodka do que de tédio.

Ao seguir nos estudos, combateu a linguagem acadêmica de muitos professores, aos quais apontava como decadentes e simbolistas. Costumava dizer sobre os conservadores e seguidores dos clássicos na literatura da sua época: eles “continuam a atirar ananases ao céu”.

Chegou a afirmar:

“…Que posso opor às estéticas antiquadas que me rodeiam? Por acaso a revolução não exigirá de mim que passe por uma escola séria? Fui visitar um camarada, Medvédev, que era então para mim um camarada do Partido. “Quero fazer uma arte socialista”. Meu amigo se pôs a rir às gargalhadas: “Tens os olhos maiores que a barriga”. Interrompi o trabalho de militante e me pus a estudar.”

Procurou depois completar sua instrução, de forma independente, com outros mestres, tendo se tornado amigo íntimo de Gorki. Logo funda o grupo futurista e busca, através de publicações regulares colocar suas posições e a de companheiros sobre a arte, a literatura e as ideias partidárias, sempre atacando a literatura conservadora.

Vale dizer, entretanto, que nenhum antes dele, e mesmo depois, levou a poesia engajada às lutas operárias e à vontade de melhores dias dos cidadãos simples do povo e do campesinato. Esta sua ação aguda não tem paralelo na história cultural da humanidade.

A Edi­to­ra Re­cord lan­çou em 2009 (salvo engano), de­pois de lon­ga de­mo­ra,  Mai­akóvski — O Po­e­ta da Re­vo­lu­ção (559 pá­gi­nas), do rus­so Aleksandr Mikhai­lov, com pre­fá­cio de Ale­xei Bu­e­no e tra­du­ção esmerada de Zoia Prestes.

No pre­fá­cio, Bu­e­no no­ta “a ri­que­za me­ta­fó­ri­ca e rít­mi­ca da po­e­sia de Vla­dí­mir Mai­akóvski, sua mes­tria no uso de hi­pér­bo­les, seu hu­mor cáus­ti­co, seu vir­tu­o­sis­mo no jo­go de pa­la­vras”.

Àque­le lei­tor que não quer ape­nas sa­ber os fa­tos da vi­da do po­e­ta, re­co­men­do três li­vros: Po­e­mas, de Mai­akovski, com tra­du­ções de Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to e Ha­rol­do de Cam­pos, Po­e­sia Rus­sa Mo­der­na, com tra­du­ções do mes­mo trio, e An­to­lo­gia Po­é­ti­ca, de Maiakovski, com tra­du­ção de E. Car­re­ra Guer­ra.

Maiakovski, além da poesia, dos textos para teatro e artigos voltados à propaganda do partido da revolução, realizou inúmeras palestras e conferências. Sarcástico, não poupava os alienados.

Tinha mania de colecionar bilhetes e perguntas escritas por pessoas das platéias que lotavam para assisti-lo, nas diversas cidades em que visitava. Mas muitas vezes respondia as perguntas após a conferência, onde os poemas declamados sempre ficavam para o final. Foi um grande declamador, com uma capacidade de improviso na resposta sem igual.

Certa feita, foi questionado por alguém na platéia que lhe disse:

“__ Maiakovski, suas piadas não atingem meu entendimento.

__ É que você é uma girafa! – exclamou o poeta. – Somente uma girafa pode molhar os pés na segunda-feira e só ficar resfriada no domingo.”

Na mesma sessão um jovem mais atrevido o desafiou:

“__ Maiakovski, você nos toma a todos como idiotas, não?

__ Bem, bem… – responde Maiakovski – Por que a todos? Por enquanto só vejo um diante de mim.”

Mai­akovski ma­tou-se aos 36 anos, em 1930, quan­do Stá­lin, O se­nhor do po­der, ha­via ex­pur­ga­do ad­ver­sá­rios de pe­so co­mo Li­ev Trotski e en­qua­dra­va aque­les que pen­sa­vam di­fe­ren­te­men­te da or­to­do­xia do par­ti­do.

Por que Mai­akóvski se ma­tou, com um ti­ro no pei­to, se ha­via con­de­na­do o su­i­cí­dio do poeta Sier­guéi Ies­siê­nin, em 1925?

Mikhai­lov es­cre­ve, com per­ti­nên­cia: “A pes­soa que dei­xa vo­lun­ta­ria­men­te a vi­da le­va con­si­go o mis­té­rio de sua de­ci­são. Ne­nhu­ma ex­pli­ca­ção (in­clu­si­ve as de Mai­akóvski) pe­ne­tra na es­sên­cia re­al da ati­tu­de to­ma­da. Elas so­men­te en­tre­a­brem a cor­ti­na so­bre o se­gre­do, mas o pró­prio se­gre­do per­ma­ne­ce es­con­di­do atrás do fi­nal tris­te da vi­da. (…) En­con­tra­mos os mo­ti­vos, mas o se­gre­do per­ma­ne­ce em se­gre­do”.

Há dois pon­tos cen­tra­is. Pri­mei­ro, a Re­vo­lu­ção que Mai­akóvski ha­via co­la­bo­ra­do pa­ra cri­ar e for­mu­lar saía dos ei­xos e tra­ba­lha­va pa­ra en­qua­drar, cer­car e subordinar a li­te­ra­tu­ra, su­ge­rin­do que só a li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria era li­te­ra­tu­ra.

O po­e­ta ten­tou se en­qua­drar, cometeu algumas tentativas de po­e­mas en­ga­ja­dos-proletários, pro­du­ziu car­ta­zes re­vo­lu­ci­o­ná­rios, mas sua cri­a­ti­vi­da­de, ti­da co­mo ex­ces­si­va e con­ta­gi­an­te, cho­ca­va os co­mu­nis­tas re­tró­gra­dos e não era en­ten­di­da pe­las mas­sas.

Es­cri­to­res ge­ni­ais co­mo Mai­akóvski têm seu es­to­que de in­ge­nui­da­de po­lí­ti­ca e acre­di­tavam que po­deriam in­flu­en­ciar as re­vo­lu­ções e os po­lí­ti­cos… Só que revoluções com inclinações genocidas tendem a de­vo­rar seus pró­prios fi­lhos.

Stá­lin de­vas­tou milhares de es­cri­to­res, operários, protéticos, enfim, quem porventura fizesse oposição à sua obsessão pelo poeder, ma­tan­do-os, en­vi­an­do-os pa­ra mor­rer no Gu­lag ou exi­lan­do-os. Mai­akóvski ava­liou  er­ra­do que po­de­ria se adap­tar. Aca­bou re­jei­ta­do pe­la po­lí­ti­ca da li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria, mais pro­le­tá­ria, em ter­mos de qua­li­da­de, do que li­te­ra­tu­ra.

Che­ga­ram a boi­co­tar a en­ce­na­ção de sua pe­ça te­a­tral Os Ba­nhos.

O bi­ó­gra­fo Mikhai­lov diz: “…as cir­cun­stân­cias de sua vi­da pes­so­al eram-lhe in­con­tor­ná­veis. Vi­via em pro­fun­do es­ta­do de de­pres­são e pas­sa­va por uma cri­se de cri­a­ção em fa­ce de con­fron­to com o po­der so­vi­é­ti­co, mes­mo sem ain­da ter a con­sci­ên­cia do que se­ria no fu­tu­ro, mas sen­tin­do uma enor­me pres­são que pri­va­va a li­te­ra­tu­ra do ar de li­ber­da­de”.

Ima­gi­ne, pa­ra um cri­a­dor do por­te de Mai­akóvski, ter de pro­du­zir uma po­e­sia de bai­xa qua­li­da­de, pa­ra ser com­pre­en­di­do pe­las mai­o­ri­as e acei­to pe­la bu­ro­cra­cia, que ele abo­mi­na­va. Es­sa bu­ro­cra­cia me­dí­o­cre não acei­ta­va a sua sá­ti­ra, seu espírito iconoclasta, mo­der­no e sem fronteiras.   

Pro­va­vel­men­te, ao sen­tir que a Re­vo­lu­ção não era o pa­ra­í­so li­ber­tá­rio que ima­gi­na­ra e in­fe­liz no amor, roí­do pe­la de­pres­são, Mai­akovski op­tou por ma­tar-se. Ti­nha cer­ta con­sci­ên­cia de que o fu­tu­ro o aguar­da­va… pa­ra en­ten­dê-lo.

Mas eis que de­pois de sua mor­te, quan­do não mais in­co­mo­da­va, Stá­lin – em mais um dos seus crimes – o trans­for­mou no po­e­ta da re­vo­lu­ção e, nu­ma car­ta a Ie­jov, es­cre­veu:

“Pe­ço que dê aten­ção à car­ta de Lí­lia Brik. Mai­akóvski foi e con­ti­nua sen­do o me­lhor e mais ta­len­to­so po­e­ta da épo­ca so­vi­é­ti­ca. A in­di­fe­ren­ça com a sua obra é um crime.”           

Trágico cinismo, na mais caridosa das hipóteses: Stálin, um autêntico genocida, “indignado” com um crime.

Mas com busto ou sem busto, entre lunáticos e homicidas, Maiakovski sobreviveu e redimiu uma boa parte dessa gente com a força dos seus poemas, e a força de um lirismo poucas vezes lido.

Um exemplo, ou uma lição? Eis o que o Poeta decretou para o deleite da eternidade.

“DEDUÇÃO

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme,
fiel e verdadeiramente.”

Eis um breve retrato do mítico poeta Vladimir Vladímirovitch Maiakovski.

 

ARSENIO MEIRA JÚNIOR

Parabéns Arsênio Meira de Vasconcellos Filho.

Homi seu mininu se eu soubesse eu cegue. O cabra faz aniversário hoje é?
E apois.
Então, ainda que atrasado e meio vai minha humilde homenagem.
E mais não digo:

Vamos também, os daqui do Fusca, dar um abraço virtual em nosso irmão caçula:

E vamos de Pessoa:

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Nelson Rodrigues. Por ele mesmo e por Arsênio Meira Filho.

NELSON RODRIGUES E A MENINA SEM ESTRELA
 
 
Mando pra vocês e para o  FUSCA - logo abaixo – uma crônica autobiográfica de Nelson Rodrigues. Podem pular até a introdução que escrevi. Basta ler a crônica autobiográfica do Nelson: é uma das coisas mais bonitas que há.
 
Esse texto faz parte do primeiro volume de memórias de Nelson Rodrigues,e o título da crônica é o título do Livro. Ah, as memórias do velho Nelson. Com uma vida sujeita a trovoadas e tufões, foi um privilégio para a espécie humana que ele tenha existido e…resistido.
 
Tanto é que foram – salvo engano – uns cinco livros só com suas memórias.
 
Em todos, o sentido humano desponta aos olhos, ao lado de uma prosa imersa numa fluência narrativa que captura a alma do leitor. A vida dele não foi, digamos, um céu azul, pois sempre vulnerável a irascíveis relâmpagos e trovoadas do destino…
 
Ruy Castro imortalizou-se ao escrever a biografia dele (um livraço que meus pais me deram e que me ensinou coisas que são impagáveis), e foi Ruy o principal responsável a resgatar a obra de Nelson nos anos 90. Não tem preço.
 
Todos os volumes são em forma de crônicas. Deliciosas, tristes, ferinas, arrebatodoras, hilárias, com histórias dentro das histórias, as obsessões dele, a vida no país, a vida dele, a vida dos personagens que habitaram o universo dele; enfim, como a vida era naqueles idos dos anos 40, 50 e 60, a vida como ela é, ainda hoje..
 
Gosto bastante de um outro volume intitulado “O REACIONÁRIO”: nele estão as memórias-crônicas mais desmisitificadoras, as mais contestantes, desafiadoras, ferinas e polêmicas. Tem um outro livro dele, “A CABRA VADIA” (kkkkkkkk) que até hoje faz ressoar a gargalhada espontânea, só de lembrar algumas passagens. Vou reler, por falar nisso.
 
Ele amava uma polêmica e praticava um cabotinismo até hilário… Mas era corajoso, autêntico e um verdadeiro terror para os “eleitos”… No entanto, esse texto que envio pra vocês é demais.
 
De todos os livros de Nelson, “A MENINA SEM ESTRELA” é o mais genial, o maior, na acepção literária; a opinião é quase unânime (o próprio Nelson não reclamava: afinal foi ele o autor da famosa frase, hoje incorporada ao nosso linguajar cotidiano: “toda a unâmidade é burra”…)
 
Nesse texto, Nelson narra um dos seus grandes dramas pessoais. A crônica-memória foi batizada por Otto Lara Resende como “uma das mais belas páginas da língua portuguesa”.

 
Gullar, que viveu essa época, depois de ler o texto (saía primeiro no jornal, depois é que organizava-se em livro), nunca mais conseguiu enxergar Nelson da forma como enxergava antes, com os olhos da animosidade por questões políticas: Gullar era esquerda mesmo, e Nelson era um autêntico reaça.
 
Naquela época era assim. Um acirramento total. Ou você era esquerda ou não valia uma migalha.
 
E Nelson, vivendo entre jornalistas, dramaturgos, poetas, boemios, cantores, reporteres, atrizes, atores, diretores de teatro e etc, enfim, entre a fina flor da esquerda festiva e da mais combativa, permaneceu sempre fiel a suas convicções até o dia de sua morte; ele pouco se importava com as agressões da esquerda ou o fato de ser o patinho feio, a despeito da admiração que todos sentiam por ele, pela obra dele.
 
Ele não queria nem saber… Odiava o comunismo, era a opinião dele, e ele era incapaz de agredir alguém, mas se provocado (não raro, era o aque ele queria) arrasava definitivamente com finura, saracasmo e exatidão o provocador, no artigo do dia subsequente. Uma prova viva de inteligência. Jornais nunca lhe faltaram. E hoje, sobram Jornais, e não existem mais Nelsons Rodrigues.
 
Ele gostava mesmo de aparecer e de suscitar polêmicas, mas nem por isso, vinha com conversa mole. Ele jogava limpo (de quando em quando passava dos limites, mas sem maldade).
 
Até Drummond, que não simpatizava em nada com ele (a recíproca era mútua), emocionou-se com esse texto. Mas logo passou, e a antipatia perdurou, pois Nelson – às vezes – enchia mesmo a paciência, e Drummond certa vez perdeu a paciência, pois não via sentido algum em escrever um artigo laudatório a pedido do próprio Nelson, sobre uma obra do próprio Nelson, quando ele, Nelson, já estava bem cotado com todos… Era o lado cabotino dele. Depois disso, toda vez que Nelson referia-se a Drummond, dizia que o poeta tinha uma aridez de três desertos… (kkkkk). Mas aí eu nunca concordei. Drummond é intocável.
 
Vinicius de Moraes, que com Nelson pouco conviveu (eram universos diametralmente opostos, distintos e distantes) ao ler a crônica, foi pessoalmente dar-lhe um abraço, mas Nelson já tinha dado o expediente no Correio da Manhã por encerrado. O poeta não perdeu tempo: aproveitou para tomar um porre no boteco mais próximo. Resultado: uma sucessão interminável de brindes imaginários para o autor da crônica abaixo, que era abstêmio de carteirinha (o que o tornava também um peixe fora d’água, pois o pessoal tinha por regra esvaziar o estoque dos bares.)
 
Em restaurantes, Nelson chamava o garçom e pedia água, mas com uma condição: só serviria se fosse água de bica, pura, cristalina; equanto isso, fumava seu trigésimo caporal amarelinho, um tradicional estoura pulmões da época. O equivalente a um hollywood duplicado.
 
Nelson tinha a saúde bastante frágil. Ele não bebia em função de uma úlcera que lhe torturava a alma… já bastavam os caporais tragados com sofreguidão. Mesmo sem a garapa, ele tornava-se o centro das atenções, tamanha sua sedução para contar histórias. São pequenas notícias que nos enchem a alma.
 
Segue a história real escrita por Nelson, e com ela, o abraço fraterno do amigo de vocês Arsenio Meira
 
 
***************************** 
 
(capítulo 10)
 
“Volto aos meus quatro anos. E, de repente, os cegos apareceram. Ou por outra: — antes dos cegos, vi uma menina, de pé no chão. A menina corre, atravessa a rua e vai beijar a mão de um padre. Durante toda a minha infância, na rua Ale gre, havia sempre um padre e sempre uma menina para lhe beijar a mão. Mas como ia dizendo: — a pequena, dos seus sete anos, voltou para a calçada de cá. A batina continuou e sumiu, lá adiante, na primeira esquina.
 
A menina sumiu também, como se jamais tivesse existido. Anos depois, mudamos para a Tijuca, Rua Antônio dos Santos (depois seria Clóvis Bevilacqua). Perto de nós, morava o juiz Eurico Cruz e, ao lado, o senador Benjamin Barroso. Eis o que quero dizer: — nos dois ou três anos de Tijuca, não vi um único e escasso padre. Havia uma igreja — e ainda há — na esquina de Barã o de Mesquita com Major Ávila. Lembro-me da igreja, dos santos e não dos padres.
 
Fiz o parêntese e volto à rua Alegre. Depois que o padre dobrou a esquina, os cegos apareceram. Eram quatro e um guia. Estavam de chapéu, roupa escura, colarinho, gravata, colete, botinas. Juntaram-se na esquina da farmácia e tocaram violino. Não acordeão, não sanfona, mas violino. Saí da janela, fiz a volta e fui ver, de perto, os ceguinhos. Eram portugueses. E o curioso e que, por muitos anos, só conheci cegos portugueses. Brasileiro, nenhum.
 
Fiquei ali, na esquina, em adoração. E os cegos — todos de chapéu — tocaram uns vinte minutos. Lembro-me bem: — um deles tinha, atravessando o colete de um bolso a outro bolso, uma corrente de ouro. No fim o guia passou o pires. Cada um pingou seu níquel. E, então, voltei correndo para casa. Não falei com ninguém, meti-me na cama. Minha vontade era morrer. Fechei os olhos, entrelacei as mãos, juntei os pés. Morrer. Minha mãe entrou no quarto; pousou a mão na minha testa: — “O que é que você comeu?”. Comecei a chorar, perdido, perdido.
 
E, de repente, uma certeza se cravou em mim: — eu ia ficar cego. Deus queria que eu ficasse cego. Era vontade de Deus. Mas falei em quatro anos. Engano, engano. Eu tinha seis anos e não quatro. Nasci em 1912 e isso aconteceu em 1918, na espanhola e antes da espanhola. Tenho certeza: — seis anos. Nunca mais me esqueci dos cegos e posso repetir, sem medo da ênfase: — nunca mais. Mas por que, meu Deus, por que pensava neles, dia e noite? Pode parecer uma fantasia de menino triste. E se disser que, já adulto, homem feito, a obsessão continuava intacta? Obsessões, sempre as tive. Mas essa nunca me abandonou. Aos trinta anos, 35, quarenta, eu sonhava com os cegos; e os via escorrendo do alto da treva.
 
Quando minha família já ia sair de Aldeia Campista para a Tijuca, aconteceu o seguinte: — um menino, que brincava muito comigo, apanhou um canário e picou com o alfinete os olhos do passarinho. Eu me senti, eu, aquele canário de olhos furados. E me imaginei cego, em casa, vagando por entre mesas e cadeiras. Meninas, senhoras, visitas teriam pena de mim, amor por mim. Na rua, diriam: — “Naquela casa, mora um menino cego”.
 
Mas quando mudamos para a Tijuca, já não estava tão certo se seria mesmo eu o cego. Podia ser minha mãe, ou um dos meus irmãos. Talvez Roberto. Milton, não, nem Mário. Sempre imaginei que meu pai, jornalista de fúrias tremendas, morresse, um dia, assassinado. Já minha mãe tinha um problema de visão. Mas fosse eu, minha mãe, meu irmão, alguém ficaria cego, alguém. Eis a verdade: — ano após ano, me convencia de que os cegos do violino insinuavam um vaticínio. Meu Deus, não fora por acaso que, um dia, quatro cegos tocaram embaixo de minha janela, ou pertinho de minha janela. Tocavam para mim, não para os outros, não para ninguém, tocavam para um menino de seis anos.
 
Até os dez anos, doze, não tive medo da treva. Houve um momento em que teria a vaidade de ser o único menino cego da rua Mas o tempo foi passando. E o pavor veio com a idade. Adulto, eu não fazia mistério: — “Se eu ficar cego, meto uma bala na cabeça”. Não “uma bala na cabeça”; daria um tiro no peito como Getúlio. Ah, Getúlio estourou o coração mas preservou sabi amente a cara para a História e para a lenda. Pelo vidro do caixão, o povo espiou o rosto, o perfil intactos. Kennedy, não. A bala arrancou-lhe o queixo forte, crispado, vital. Tiveram que fechar o caixão. O povo precisa ver o seu líder morto. Nada, nem medalha, nem estátua, nem cédula, nem selo substitui o último rosto, o rosto morto.
 
Muitos anos depois, conheci Lúcia. Lembro-me de que, numa de nossas conversas, falei-lhe assim: — “Desde criança, tenho medo de ficar cego. Mas se isso acontecesse, eu…”. Fiz a pausa e completei: — “…eu meteria uma bala na cabeça”. Isso era e não era uma agressão sentimental, uma espécie de terrorismo. Afinal, o amoroso é sincero até quando mente. No fundo, no fundo, as minhas palavras queriam dizer outra coisa, ou seja: — “Mesmo cego, eu viveria se você me amasse”. Por outro lado, sei que não é normal essa fixação numa fantasia infantil. Mas não tenho medo de confessar a minha morbidez, nem ela me envergonha. Eu a compreendo e a recebo como uma graça de Deus.
 
Mas estas notas não estariam completas, se eu não lhes acrescentasse uma explicação. Quero dizer que o medo de uma cegueira utópica, apenas sonhada, me tornou humanamente melhor. Ou, se não me tornou melhor, me deu a vontade obsessi va de ser bom. Mas, como ia dizendo, continuou o meu romance com Lúcia. Pouco a pouco, fui dizendo as coisas que são tudo para mim: — “Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor”. E dizia: — “Quem nunca desejou morrer com o ser amado não amou, nem sabe o que é amar”. As nossas conversas eram tristes, porque o amor nada tem a ver com a alegria e nada tem a ver com a felicidade. Quando nos casamos, eu lhe disse: — “Nem a morte é a separação”. Ela concordou que nada é a separação.
 
Depois, a gravidez. Ah, quando eu soube que ela só podia ter filho com cesariana. Não me falem em fio de navalha. O fio da navalha é um título de romance ou de filme. Mil vezes mais frio, e diáfano, e macio, e ímpio, é o fio do bisturi da cesariana. O marido, cuja mulher só pode ter filho com cesariana, terá de amá-la até a última lágrima.
 
“Se for menina, o nome é Daniela”, disse Lúcia. Achei um nome doce e triste (gosto dos nomes tristes) de personagem de Emily Brontë. Uma noite, Lúcia foi internada, às pressas, na Casa de Saúde São José. Parto prematuro. Minha mulher chega com Dr. Cruz Lima e d. Lidinha. Dr. Marcelo Garcia e Dr. Silva já estavam lá. Foi uma correria de médicos, enfermeiras, irmãs. Dr . Waldyr Tostes ia fazer o parto.
 
Naquela noite, pensei muito no staretz Zózimo. Sim, na bondade absurda, senil e terrível do personagem dostoievskiano. Há um momento em que somos o staretz Zózimo. Dr. Marcelo Garcia era o staretz, e o Dr. Silva Borges, e o dr. Waldyr Tostes. Dr. Cruz Lima também era o staretz Zózimo. Tudo aconteceu numa progressão implacável. Daniela nasceu e não queria respirar. Dr. Marcelo Garcia fazia tudo para salvar aquele sopro de vida. De manhã, quase, quase a perdemos. A irmã de Lúcia, desesperada, batizou minha filha no próprio berçário. Dr. Cruz Lima, dr. Marcelo, Silva Borges lutaram corpo a corpo com a morte. Mudaram o sangue da garotinha. E ela sobreviveu.
 
Lúcia quis ver a filha no dia seguinte. E veio numa cadeira de rodas, empurrada por sua mãe, D. Lidinha. Voltou chorando, e dilacerada de felicidade. Também fui espiar Daniela pelo vidro do berçário. Uma enfermeira aparece e me pergunta, risonhamente: — “O senhor é o avô?”. Respondi, vermelhíssimo: — “Mais ou menos”. Mais uma semana, Lúcia e Daniela vinham para casa. Tão miudinha a garota, meu Deus, que cabia numa caixa de sapatos.
Dois meses depois, dr. Abreu Fialho passa na minha casa. Viu minha filha, fez todos os exames. Meia hora depois, descemos juntos. Ele estava de carro e eu ia para a tv Rio; ofereceu-se para levar-me ao posto 6. No caminho, foi muito delicado, teve muito tato. Sua compaixão era quase imperceptível. Mas disse tudo. Minha filha era cega.”

Murilo Mendes. Por Arsênio Meira de Vasconcellos Júnior.

MURILO MENDES, O POETA TITULAR ABSOLUTO DA SELEÇÃO MODERNISTA 
 
Sobre Murilo Mendes, um grande amigo Inácio França tascou uma observação legítima, quando batíamos um breve papo (não tomei nota, mas foi mais ou menos assim): “é um poeta esquecido, sem a mesma atenção dos poetas eleitos pelo grande público, pela crítica.”
 
Nada mais perfeito e a carga de injustiça detectada por Inácio é bem pontual.
 
João Cabral, certo dia, escreveu sobre Murilo: “Sua poesia sempre me foi mestra, pela plasticidade e novidade da imagem. Sobretudo foi ela quem me ensinou a dar precedência à imagem sobre a mensagem, ao plástico sobre o discursivo. É, em minha vida, um poeta definitivo”.
 
O homem é titular absoluto entre os grandes poetas brasileiros do modernismo. João Cabral e Vinicius de Moraes, por exemplo, passaram a vida inteira reconhecendo a força do seu lirismo. Especialmente Vinicius, que confessou uma forte influência do Poeta em seus primeiros livros.
 
Murilo Monteiro Mendes nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1901. Partiu  em 1975, em Lisboa. No dia 13 de agosto.
 
Um poeta fascinante, à primeira vista pode parecer um poeta “difícil”. Mas não é. É que sua liberdade criadora nunca foi capaz de domar o seu feroz lirismo, de onde que se percebe em Murilo uma poesia instigante e perturbadora. Que irrigou em vários caminhos sementes da mais pura poesia. Do poema-piada aos experimentos dos seus grafitos.
 
A Canção do Exílio, uma sátira sua ao clássico poema de Gonçalves Dias, por exemplo, pertence ao primeiro momento dele como poeta; o modernismo ainda em chamas, o poema-piada (onde Oswald mandava tão bem) em voga, eis que o poeta não se esquivou ao movimento liderado por Mário de Andrade, ainda que tenhadeixado claro – por mais paradoxal que seja essa posição - que jamais participaria de escola ou movimento algum, pois não seria um numeral para premiar a cabeça de bagre de um algum crítico desavisado.
 
Mas era uma época de resistência para eles, e não é fácil estourar uma revolução. Foi justamente isso o que ele, Drummond, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Bandeira, Mennoti Del Picchia, Cassiano Ricardo e o próprio Oswald (dentre outros) fizeram.

Lutar  contra costumes já sedimentados (o parnasianismo, a literatura beletrista e etc) é trabalho para doze Hércules.
 
Drummond, ao escrever o Poema da Pedra em 1928, provocou uma confusão dos diabos. Foi taxado de débil mental e outras coisas. Oswald não perdoava ninguém, e em contrapartida teve papel também decisivo, e no final das contas quase entra para o limbo, mas isso já são outros quinhentos.
 
Mas Mário de Andrade e Manuel Bandeira – como verdadeiros desbravadores ou pioneiros, deram rumo ao século XX em nossa vida literária.
 
Murilo, após esse primeiro momento de afirmação transformou-se no poeta definitivo, tão bem descrito por João Cabral, Cabral que foi um dos principais legatários da obra próprio Murilo e da monumental poesia escrita por Carlos Drummond de Andrade.
 
E lá pelos idos dos anos 30, virou um católico militante. A conversão não o tornou mais otimista, nem lhe suprimiu a angústia típica daqueles que sentem tão a fundo os dissabores da humanidade, que chegam a escrever, como Murilo escreveu, o sintético e doloroso poema A Tentação (infelizmente, atualíssimo):
 
“Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
‘Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz’.”
 
Murilo era um poeta religioso, um espírito metafísico, mas nunca dispensava o senso de humor. Um poeta é capaz da proeza de ser dramático sem deixar de achar graça em certos episódios trágico-cômicos. Autor de uma História do Brasil (onde bateu forte em fatos pitorescos e personagens do nossa período colonial), Murilo foi também um profeta.
 
E um profeta bem-humorado, como está evidente nos versos brincalhões que escreveu a propósito de alguns eventos históricos, tratados quase sempre com excesso de retórica e escassez de documentos e de pesquisa.
 
Publicada em 1932, numa edição modesta, a História do Brasil tem, por exemplo, um Hino do Deputado, que começa assim:
 
“Chora, meu filho, chora. Ai quem não chora não mama, Quem não mama fica fraco”.
 
E vai por aí afora.
 
Pode haver coisa mais atual? Como o José Dias do polivalente Machado de Assis, o Murilo tinha o gosto do superlativo. Fico imaginando onde é que o poeta iria hoje buscar superlativos superlativíssimos para falar do Brasil deste ano da graça de 2011. 
 
Lá está no Gênesis: assim que os homens começaram a famosa, multiplicação, o Senhor logo viu que a maldade deles era grande. Ferido de íntima dor, arrependeu-se de ter criado o homem.
 
E veio o dilúvio.
 
Pois ainda assim a bandalheira continuou de tal forma que foi preciso mandar uma chuva de enxofre e de fogo para destruir Sodoma e Gomorra. Quem acompanha hoje a vida pública brasileira deve achar uma injustiça o que o Todo Poderoso fez com Sodoma e Gomorra. 
 
Mas eu falava sobre o escritor. Não esqueçamos que Murilo Mendes, por exemplo, foi um dos poetas mais latejantes, honestos e inventivos do nosso modernismo. Ele levava a ferro e fogo o lema de Pound: é preciso inovar sempre. Vale destacar seu livro Poesia Liberdade, com suas inquietantes e fatais metáforas (“O Horizonte volta a galope/curvado sob um martelo de espinhos.”) 
 
Ao ler sua obra, acho até que, esporadicamente, o poeta exagerou um pouco, mas o leitor mais atento sentirá em sua poesia reunida (Murilo Mendes: Poesia Completa e Prosa, da Nova Aguilar, 1ª edição 1994) que ele travou uma luta íntima para transformar-se.
 
Inovar-se sem ferir a própria essência, não é uma tarefa tão simples como atravessar a rua para comprar um chicabon. Mas ele conseguiu.
 
Tenho a opinião que Murilo não caiu na esparrela do abstracionismo e da infertilidade de muitos escritores, que correm mundo afora. A destreza verbal de Murilo é acachapante.
 
Por muitos anos, li Murilo em Pé, deitado, no táxi, nas pausas das lides forenses.
 
A gente ama Murilo Mendes, como ama a poesia de T.S Eliot ou Carlos Drummond de Andrade.

Primeiro pela música, até mesmo antes que se entenda o que ele quer dizer.
 
É uma devoção ou paixão que dura para sempre, porque Murilo, quando relido, é sempre novo, de uma fertilidade verbal e espiritual inesgotáveis.
 
Titular Abosluto da seleção campeã do modernismo brasileiro.
 

Arsenio Meira de Vasconcellos Júnior

Maiakóvski . Por Arsênio Meira Júnior.

 

“Vladímir Vladímirovitch Maiakovski

 

Estivesse vivo Vladímir Vladímirovitch Maiakovski estaria completando em julho 120 anos.

Ao povo russo, ao menos ao longo de duas décadas após 1930, Maiakovski permaneceu vivo, ainda que para o governo revolucionário russo sua genial poesia parecesse obscura e inatingível às massas populares.

Maiakovski nasceu em Bagdadi, ou Baghdati, segundo o Google, na Geórgia, em 7 de Julho de 1893, 19 de Julho pelo calendário ocidental. Naquela época a Geórgia era russa, e Maiakovski, abraçou – literalmente a poesia com a poesia e a causa da revolução bolchevique quando foi preso, em 29 de Março de 1908.

Ele já lutava contra as garras opressoras do Imperialismo.

A tipografia onde habitualmente passava horas da sua juventude e que pregava os ideais revolucionários foi fechada e o poeta que se locomovia próximo ao local foi revistado, sendo com ele encontrada caderneta com importantes nomes de ativistas contrários ao regime imperial vigente.

Ficou preso por dois anos. Ele tinha apenas 14 anos. 

Aos 16 anos foi “libertado”. Falando do seu tempo de prisão deixou escrito:

 

“Eu, no entanto,

aprendi a amar no cárcere

…………………………………….

me enamorei da janelinha da cela 103

da “oficina de pompas fúnebres”

……………………………………..

então

por um raiozinho de sol amarelo

dançando em minha parede

teria dado todo um mundo.”

Na prisão escreveu poemas e textos diversos; organizou um conjunto de poemas que pretendia ver transformado em livro, mas os originais foram apreendidos quando ganhou a “liberdade”.

A palavra liberdade foi aspeada mais uma vez porque ele saiu da prisão para cumprir um período de degredo, que somente não se materializou por influência de amigos e companheiros apaziguados pelo sistema, que estava prestes a morrer pelas mãos de Lênnin e cia.

Matriculou-se na Escola de Belas-Artes, conviveu com o Príncipe Lvov, que tentou mudar sua vontade de “crítica e agitação”.

Conselho não seguido, evidentemente, dado seu espírito irrequieto e ideais fortemente arraigados, cujos reflexos explodiriam pouco depois em sua poesia de forte tensão hiperbólica, com metáforas únicas e versos inesquecíveis (Neste vida/ morrer não é difícil/ o difícil é a vida/e seu ofício.) ou o famosa boutade: é melhor morrer de vodka do que de tédio

Ao seguir nos estudos, combateu a linguagem acadêmica de muitos professores, aos quais apontava como decadentes e simbolistas. Costumava dizer sobre os conservadores e seguidores dos clássicos na literatura da sua época: eles “continuam a atirar ananases ao céu”.

Chegou a afirmar:

“…Que posso opor às estéticas antiquadas que me rodeiam? Por acaso a revolução não exigirá de mim que passe por uma escola séria? Fui visitar um camarada, Medvédev, que era então para mim um camarada do Partido. “Quero fazer uma arte socialista”. Meu amigo se pôs a rir às gargalhadas: “Tens os olhos maiores que a barriga”. Interrompi o trabalho de militante e me pus a estudar.”

Procurou depois completar sua instrução, de forma independente, com outros mestres, tendo se tornado amigo íntimo de Gorki. Fundou, nessa época, o grupo futurista e através de publicações regulares, lutou para sedimentar suas posições e a de companheiros sobre a arte, a literatura e as ideias partidárias, sempre, mas sempre atacando a literatura conservadora. O arcaísmo e a hipocrisia das panelinhas literárias.

Vale dizer, entretanto, que nenhum antes dele, e mesmo depois, levou a poesia engajada às lutas operárias e à vontade de melhores dias dos cidadãos simples do povo e do campesinato. Não é fácil escrever  a denominada poesia – panfleto e ver, quase cem anos depois, que ela não datou. Só para gênios. 

Esta sua aguda cosmovisão poética, aliada a uma percepção inata sobre o conceito de justiça e liberdade não tem paralelo na história cultural da humanidade.

A Edi­to­ra Re­cord lan­çou em 2009 (salvo engano),   Mai­akóvski — O Po­e­ta da Re­vo­lu­ção (559 pá­gi­nas), do rus­so Aleksandr Mikhai­lov, com pre­fá­cio de Ale­xei Bu­e­no e tra­du­ção de Zoia Prestes (salvo engano, neta do homem. o Cavaleiro da Esperança).      

No pre­fá­cio, Bu­e­no no­ta “a ri­que­za me­ta­fó­ri­ca e rít­mi­ca da po­e­sia de Vla­dí­mir Mai­akóvski, sua mes­tria no uso de hi­pér­bo­les, seu hu­mor cáus­ti­co, seu vir­tu­o­sis­mo no jo­go de pa­la­vras”.

Àque­le lei­tor que não quer ape­nas sa­ber os fa­tos da vi­da do po­e­ta, re­co­men­do três li­vros: Po­e­mas, de Mai­akóvski, com tra­du­ções históricas de Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to e Ha­rol­do de Cam­pos, Po­e­sia Rus­sa Mo­der­na, com tra­du­ções do mes­mo trio, e An­to­lo­gia Po­é­ti­ca, de Mai­akóvski, com tra­du­ção de E. Car­re­ra Guer­ra.

Maiakovski além da poesia, dos textos para teatro e artigos voltados à propaganda do partido da revolução, realizou inúmeras palestras e conferências. Sarcástico, não poupava os alienados.

Tinha mania de colecionar bilhetes e perguntas escritas por pessoas das platéias que lotavam para assisti-lo, nas diversas cidades em que visitava. Muitas vezes respondia as perguntas após a conferência, onde os poemas declamados sempre ficavam para o final, com um sacarmos letal. Ele foi um grande declamador, com uma capacidade de improviso na resposta sem igual.

Certa feita, foi questionado por alguém na platéia que lhe disse:

“__ Maiakovski, suas piadas não atingem meu entendimento.

__ É que você é uma girafa! – exclamou o poeta. – Somente uma girafa pode molhar os pés na segunda-feira e só ficar resfriada no domingo.”

Na mesma sessão um jovem mais atrevido o desafiou:

“__ Maiakovski, você nos toma a todos como idiotas, não?

__ Bem, bem… deixe-me pensar meio segundo – respondeu Maiakovski – Por que a todos? Por enquanto só vejo um diante de mim.”

Mai­akóvski ma­tou-se, aos 36 anos, em 1930, quan­do Stá­lin, se­nhor do po­der, ha­via ex­pur­ga­do ad­ver­sá­rios de pe­so co­mo Li­ev Trotski; era o fim do sonho; da igualdade e da libderdade. O Genocida começou a en­qua­dra­r (exilar, matar, torturar) aque­les que pen­sa­vam di­fe­ren­te­men­te da or­to­do­xia do par­ti­do.

Por que Mai­akóvski se ma­tou, com um ti­ro no pei­to, se ha­via con­de­na­do o su­i­cí­dio do poeta Sier­guéi Ies­siê­nin, em 1925?

Mikhai­lov es­cre­ve, com per­ti­nên­cia: “A pes­soa que dei­xa vo­lun­ta­ria­men­te a vi­da le­va con­si­go o mis­té­rio de sua de­ci­são. Ne­nhu­ma ex­pli­ca­ção (in­clu­si­ve as de Mai­akóvski) pe­ne­tra na es­sên­cia re­al da ati­tu­de to­ma­da. Elas so­men­te en­tre­a­brem a cor­ti­na so­bre o se­gre­do, mas o pró­prio se­gre­do per­ma­ne­ce es­con­di­do atrás do fi­nal tris­te da vi­da. (…) En­con­tra­mos os mo­ti­vos, mas o se­gre­do per­ma­ne­ce em se­gre­do”.
Para este escrivinhador, há duas premissas cruciais sobre o trágico episódio.

Pri­mei­ro, a Re­vo­lu­ção que Mai­akóvski ha­via co­la­bo­ra­do pa­ra cri­ar e for­mu­lar saía dos ei­xos e, cada vez mais, mostrava sua face: intimidação total contra quem ousasse minimamente divergir; cer­car e subordinar a li­te­ra­tu­ra, su­ge­rin­do que só a li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria era li­te­ra­tu­ra.

O po­e­ta ten­tou se en­qua­drar, fez po­e­mas en­ga­ja­dos-proletários, pro­du­ziu car­ta­zes re­vo­lu­ci­o­ná­rios, mas sua cri­a­ti­vi­da­de, ti­da co­mo ex­ces­si­va e con­ta­gi­an­te, cho­ca­va os co­mu­nis­tas re­tró­gra­dos e não era en­ten­di­da pe­las mas­sas.

Es­cri­to­res ge­ni­ais co­mo Mai­akóvski – infelizmente – provaram que também tinham o seu es­to­que de in­ge­nui­da­de po­lí­ti­ca; o poeta acreditva piamente que po­deria in­flu­en­ciar as re­vo­lu­ções e os po­lí­ti­cos… Só que revoluções com inclinações genocidas tendem a de­vo­rar seus pró­prios fi­lhos.

Stá­lin de­vas­tou milhares de es­cri­to­res, operários, protéticos, enfim, quem porventura fizesse oposição à sua obsessão pelo poder, ma­tan­do-os, en­vi­an­do-os pa­ra mor­rer nos sinistros Gu­lags ou exi­lan­do-os. Mai­akóvski ava­liou er­ra­do que po­de­ria se adap­tar. Aca­bou re­jei­ta­do pe­la “po­lí­ti­ca” da li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria. Li­te­ra­tu­ra não combina com muros, cartilhas e orientações burocráticas de censores que mal sabem mijar a assoviar ao mesmo tempo.

Che­ga­ram a boi­co­tar a en­ce­na­ção de sua pe­ça te­a­tral Os Ba­nhos.

O bi­ó­gra­fo Mikhai­lov diz: “…as cir­cun­stân­cias de sua vi­da pes­so­al eram-lhe in­con­tor­ná­veis. Vi­via em pro­fun­do es­ta­do de de­pres­são e pas­sa­va por uma cri­se de cri­a­ção em fa­ce de con­fron­to com o po­der so­vi­é­ti­co, mes­mo sem ain­da ter a con­sci­ên­cia do que se­ria no fu­tu­ro, mas sen­tin­do uma enor­me pres­são que pri­va­va a li­te­ra­tu­ra do ar de li­ber­da­de”.

Ima­gi­ne, pa­ra um cri­a­dor do por­te de Mai­akóvski, ter de pro­du­zir uma po­e­sia de bai­xa qua­li­da­de, pa­ra ser com­pre­en­di­do pe­las mai­o­ri­as e acei­to pe­la bu­ro­cra­cia, que ele abo­mi­na­va. Es­sa bu­ro­cra­cia me­dí­o­cre não acei­ta­va a sua sá­ti­ra, seu espírito iconoclasta, mo­der­no e sem fronteiras.      

Pro­va­vel­men­te, ao sen­tir que a Re­vo­lu­ção não era o pa­ra­í­so li­ber­tá­rio que ima­gi­na­ra e pelo qual tanto lutara, e in­fe­liz no amor, roí­do pe­la de­pres­são, Mai­akóvski op­tou por ma­tar-se. Com uma doze, estourou os pulmões, ele que escreveu uma obra – prima da poesia mundial (À plenos Pulmões). Ti­nha con­sci­ên­cia do fu­tu­ro que o aguar­da­va… pa­ra en­ten­dê-lo.

Mas, de­pois de sua mor­te, quan­do não mais in­co­mo­da­va, Stá­lin – em mais um dos seus crimes – o trans­for­mou no po­e­ta da re­vo­lu­ção e, nu­ma car­ta a Ie­jov, es­cre­veu:

 “Pe­ço que dê aten­ção à car­ta de Lí­lia Brik. Mai­akóvski foi e con­ti­nua sen­do o me­lhor e mais ta­len­to­so po­e­ta da épo­ca so­vi­é­ti­ca. A in­di­fe­ren­ça com a sua obra é um crime”.    

Trágico cinismo, na mais caridosa das hipóteses: um genocida “indignado”com um crime. 

Porém, Maiakóvski sobreviveu. É um dos Poetas mais amados do Universo, seus versos circulam pela terra, e tecem alianças de Justiça e fraternidade; seus poemas desfazem coágulos e recriam o sentimento humano, com poesia escrita à base do seu sangue, batizado pela convicção do seu lirismo.  

E Josef Stálin… circula, ou melhor, se arrasta no mais puro dos infernos. “

 

ARSENIO MEIRA JÚNIOR

 

COLUNA para o Fusca Eterno. Toda Poesia de Ferreira Gullar. Por Arsênio Meira de Vasconcellos Júnior.

TODA POESIA DE FERREIRA GULLAR
 
Gullar é para poesia o que Nílton Santos representa para o futebol.
Para quem não conhece Nilton Santos, trata-se de um lendário lateral esquerdo, que jogou no Botafogo nos anos 50 e 60 e na seleção Brasileira Campeã do mundo em 1958 e 1962.
  
Nilton, hoje doente, sofrendo de graves transtornos mentais, atendia também pelo apelido de “a Enciclopédia”.
 
Gullar continua na aptidão das suas faculdades mentais, e hoje carrega nos ombros a responsabilidade de ser o maior poeta Brasileiro vivo, e um dos grandes de todos os tempos. Estas notas representam uma breve resenha sobre a nona edição de Toda Poesia, e claro sobre o poeta.
  
Toda Poesia é um volume que reúne a obra poética de Ferreira Gullar. Foi lançado em 1980 e, em janeiro de 2008, chegou à décima sexta edição.
Em dezembro de 2008, a Nova Aguilar lançou Poesia Completa, Teatro e Prosa.
 
 
Gullar tem vastíssima cultura poética, manja escultura e pintura, e tem uma formação política que não foi tirada somente dos livros, do lero-lero acadêmico ou mesmo de orelha de livro.
 
Ele nunca mendigou cargo comissionado em rodinhas babacas de pseudos- revolucionários. Ele era um cara – efetivamente – de esquerda. No exílio e depois dele, viu a família literalmente desintegrar-se. Perdeu um filho. O outro sofre as seqüelas doridas de uma vida com transtornos psiquiátricos. Quanto renúncia e coragem. A esposa Tereza Aragão,  atriz, também ativa militante política, morreu jovem, em 1993 (infarto fulminante).
 
Então, ele não é dessas figuras falsas, decorativas, que só conseguem apregoar uma melhor distribuição de renda, com a  indefectível dose de Johnny Walker na mão. Que as pessoas hoje queiram patrulhá-lo como artista tão-somente por suas opinões é sintoma de desarranjo mental.
 
Foi o poeta que redimiu toda uma geração, a partir da publicação do seu primeiro livro A Luta Corporal, lançado em 1954. Um cara que pertenceu à avant-gard, e foi da arte útil ao ceticismo humanista sem perder o prumo. Raros os poetas que tem a vivência e o currículo cultural que ele ostenta.
 
Em seu início experimental, escreveu sobre “a inutilidade do canto”; definiu o galo como um “mero complemento de auroras” e o ser humano como “um ser grave, que não canta senão para morrer”.
 

 
Tem mais.
 
De se reconhecer – é minha opinião – que uma pequena parte de sua poesia-panfleto ou manifesto está datada. Digo que datou em parte, porque mesmo em seus momentos mais secundários, ele fez inúmeros golaços e, generoso, escreveu que “a crase não foi feita para humilhar ninguém”.
 
Em Dentro da noite Veloz, já angustiado e premido pelos milicos de 64, tratou logo de avisar que “do salário injusto/ da punição injusta/ da humilhação/da tortura e do terror/retiramos algo/ e com ele construímos um artefato/ um poema, uma bandeira”.
 
Após ter passado por privações – inerentes aos que devotam efetivamente a vida por uma causa – no fim dos anos 80 Gullar admitiu finalmente que o principal objetivo do artista é, em suma, produzir boa arte.
Ele, que experimentou as escaramuças do concretismo.  Rompeu com os irmãos Campos, e em seguida propôs o neoconcretismo.
 
Seu projeto consistia em “explodir” a linguagem, transformá-la em espelho do seu inconformismo, objeto de sua contemplação bélica, pois o mundo, conforme sua visão, é um mapa cheio de furos, e as pessoas, guiadas por homicidas, caminham  - sem reação – em sentido oposto à paz.
 
O livro Toda Poesia abrange: (A luta corporal, 1954; Poemas, 1958 ; João Boa-Morte, cabra marcado para morrer (cordel), 1962; Quem matou Aparecida? (cordel), 1962; A luta corporal e novos poemas, 1966; História de um valente, (cordel, na clandestinidade, como João Salgueiro), 1966; Por você por mim, 1968; Dentro da noite veloz, 1975; Poema sujo, 1976; Na vertigem do dia, 1980; Crime na flora ou Ordem e progresso, 1986; Barulhos, 1987; O formigueiro, 1991; Muitas vozes, 1999).
 
O Poeta não fugiu do convencional. Começou com os sonetos (por sinal, belos sonetos – vide os Sete Poemas portugueses); porém, logo alcançou ritmos distantes da poesia praticada pela geração de 45, entoando dicções variadas com um feixe de luz própria.
 
Para chegar nesse ponto, não precisou falsificar sua sensibilidade. Lemos em sua Obra Reunida, o verso livre, rimado, a poesia em prosa, cordel, poesia espacial, concreta, política, lírica, enfim, uma saraivada de petardos, que termina por assombrar o leitor.
 
E assim ele seguiu e segue, produzindo poemas que resistirão ao tempo, um dos pais da razão. Como este. Um poema simples, coloquial. Feito a partir de uma lingusgem sem estardalhaços. Sem metáforas. Ou aliterações. Escrito no final do anos 70, infelizmente esse poema não datou. Seria injusto desconhecer ou negar que o Brasil avançou nesses últimos anos.
 
Mas há, decerto, muito açucar a ser distribuído igualitariamente.
 
ARSENIO MEIRA DE VASCONCELLOS JÚNIOR
 
O AÇÚCAR
 
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema,
Não foi produzido por mim,
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
Como beijo de moça, água
na pele,  flor que se dissolve na boca.
 
Mas este açúcar
Não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira
dono da mercearia.
 
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da Usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
 
Em lugares distantes,
onde não há hospital  ,
nem escola,  homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos,
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
 
Em usinas escuras, homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café
esta manhã em Ipanema.
 
FERREIRA GULLAR 

Arsênio Meira Filho. Coluna especial. Drummond e Pessoa.

CARLOS DRUMMOND E FERNANDO PESSOA – Dois poemas Seminais e algumas considerações
Dedico este texto ao Poeta Tadeu Rocha.
 
Primeiro, uma análise de um poema de Carlos Drummond de Andrade, o conhecido POEMA DAS SETE FACES, considerado um dos míticos poemas de sua vasta e sensacional obra.
 
POEMA DAS SETE FACES
 
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

 
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

 
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

 
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

 
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

 
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

 
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 
De Alguma poesia (1930)”
 
Nele, Drummond busca autodefinir-se e termina por definir o homem moderno. Esse poema inaugura o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1930, ALGUMA POESIA ,em edição custeada pelo seu irmão mais velho. A primeira estrofe desse poema, de tão citada, declamada e louvada, já enraizou-se no imaginário popular, virou emblema, citação em canções, crônicas e romances.
 
A popularidade da primeira estrofe, talvez tenha nascido porque Drummond – através dela – alcançou um tal poder de comunicação, que o nome Carlos pode ser o nome de qualquer pessoa do mundo.
Enfim, o leitor reconhece em Carlos o seu próprio personagem.
 
O poema dramatiza o eu, porque Drummond fez da poesia lírica um objeto de suas sondagens sobre o homem comum e seu cotidiano eminentemente urbano. Nenhum Poeta Brasilerio do século XX alcançou essa excelência como o poeta mineiro, que consiste em depurar a poesia, dirigindo-a ao íntimo de todos e de cada um.
 
Daí, talvez, a receptividade incrível da obra drummondiana.
 
Sete faces, sete estrofes. Cada estrofe tem sua própria história, um dedilhar diverso. Parece escrito por colagem, pois – aparentamente- não há uma continuidade narrativa entre os temas abordados.
São instantes, momentos sobre o tempo. E o poema, reparem bem, é todo um desejo de confidência diretamente dirigido ao leitor, principalmente a estrofe final.

Triunfante. Como a obra de Carlos Drummnod de Andrade, o Poeta Maior. Para sempre.
 
Agora, um poema conhecidíssimo de Fernando Pessoa.
 
Poema em linha reta
 
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

 
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

 
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

 
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

 
Como sabemos, Fernando Pessoa é o maior Poeta Português depois de Camões, tanto pela altura de suas intuições, como pelo vigoroso mundo poético que desenvolveu. Os seus heterônimos podem explicar um pouco o vigor da sua genialidade, mas não explicam tudo.
 
Álvaro de Campos, um dos mais famosos heterônimos, representa-se em O POEMA EM LINHA RETA, na qual se estampam algumas de suas virtudes básicas: poeta moderno, irritadiço, agressivo. Simboliza a volúpia e um certo desencanto. Pretende uma libertação total num mundo impregnado de ideias feitas, não raro provenientes da denominada civilização da máquina.
 
Um niilismo tenso e ofensivo e irônico (“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo/Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,/Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…) amapara-lhe a visão das coisas, levando-a a irreverências perante tudo e a todos; um olhar poético que revela o drama humano e a mesquinharia da natureza humana, que revela inúmeras vertentes: vaidade, traição, hipocrisia e etc…
 
Em contrapartida, a sua indignação no poema abranda-se quando ele tenta compreender o outro e a si mesmo, colocando-se como ente dessa mesma natureza humana mesquinha e traiçoeira, reconhecendo-se (“tantas vezes irrespondivelmente parasita,/Indesculpavelmente sujo).
 
Através destas confissões, podemos divisar um gênio uno e variado a um só tempo.  Fernando Pessoa criou poesia de altíssima tensão épica, num volume de lirismo por vezes inacreditável, que muito nos toca de perto.
 
Uma poesia aquilatada em sua verdadeira grandeza porque sabemos que daqui a dois mil anos continuará atual e invencível aos temores do Abismo e do Silêncio.
 
Arsenio Meira Júnior
Recife, 04 de março de 2011.

Coluna do Arsênio Meira filho.

O DIA EM QUE OS (IMENSOS) POETAS REPENTISTAS FORAM DEFENDIDOS PELOS (GENIAIS) POETAS DE GRAVATA
  
para os meus amigos Edgar Mattos, Domingos Sávio Maia e Osvaldo Soares Neto
 
Certa feita, num  festejado congresso brasileiro de poetas, escritores e críticos litérários, com a ilustre presença de Neruda como convidado especial, a nata da literatura brasileira viu-se reunida num dos inúmeros recantos do velho Copacabana Palace. 
 
Estavam presentes Drummond, Murilo Mendes, Manuel Bandeira (o decano dos poetas que, a contragosto, foi o escolhido para intermediar os debates), Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Antonio Houaiss, Mário Quintana, Aurélio Buarque de Holanda, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Augusto Frederico Schmidt, Otto Lara Resende (Nelson Rodrigues estava doente e não pôde ir. João Cabral estava em Paris), Ascenso Ferreira, José Lins do Rego, enfim, muita gente, quase todos os bambas estavam presentes (compareceram também os coadjuvantes).
 
O clima era ameno, de total descontração, troca de experiências, bate-papo, histórias e etc. Vinicius tratou logo de abastecer o estoque de uísque, pois Neruda já estava meio bicado, Ascenso prometia ficar e, ele próprio Vinicius não via a hora de tomar a primeira dose.
 
Bandeira olhava pra Vinicius e pra Drummond, numa carinhosa provocação para com o poeta mineiro, que entendia o recado e ensaiva um sorriso como quem dizia : “esse aí (Vinicius) é que sabe viver…”
 
Pois bem.  Lá pelas tantas, quando o tema voltou-se para a poesia de cordel, um crítico literário do jornal “O Globo’, cujo nome hoje ninguém lembra, começou a desancar de forma irada os repentistas nordestinos. Com ares presunçosos, pensava o imbecil que iria ter o apoio de todos, pois confundiu-se todo ao imaginar que só a poesia dita oficial tinha valor para aqueles homens. 
 
Resultado: borrou-se na calças quando viu que a besteira que havia dito; pegara mal demais.  Porque uma coisa é a crítica, mas a ofensa gratuita é coisa para cafajeste (parece que essa foi de Quintana, que após soltar sua conclusão, placidamente voltou a fumar, ressaltando a todos que seria de bom tom ignorar para sempre aquele indíviduo).
 
Manuel Bandeira, Ascenso, Drummond, Vinicius partiram pra ataque. Pouco se importaram se ele era de o “GLOBO” ou não.  
 
Drummond, irritado, disse ao crítico e a todos que o mundo andava mesmo cheio de pobres – diabos, e que talvez por isso ele ficava cada dia mais amargo, mais cético e desgostoso com a natureza humana.
 
E disse em alto e bom som: “E agora, com a maior honra, apresento-lhes mais um idiota no mundo, o Srº critíco fulano de tal.” As gargalhadas começaram por aí.
 
Ascenso queria ir pra porrada, mas Ledo Ivo - cuja altura era praticamente a de um anão, conseguiu segurá-lo. (Ascenso era da Altura de papai, ou seja um gigante).
 
Vinicius – enérgico - pediu a palavra: dizem que na hora ele fez – de improviso - um irônico soneto de “louvor” à sabedoria do “Srº crítico tititca de galinha” (o beócio ficou sendo chamado de titica de galinha).
 
Mas a melhor defesa veio de  Manuel Bandeira, não só pelo fato de ser pernambucano do Recife, característica fundamental em sua poesia, pois todos sabemos o quanto ele amou o Recife de sua infância e as pessoas do seu imaginário de menino, mas principalmente pela devoção que ele sempre teve pelos seus pares repentistas.
 
Bandeira, já com 60 e poucos anos - com o seu jeito plácido e ao mesmo tempo incisivo, disse ao idiota mais ou menos o seguinte:
 
“Meu filho, aprenda uma coisa, só uma: esses poetas são melhores do que todos os que estão reunidos neste colóquio. E não é por piedade ou qualquer sentimento de conterraneidade que digo-lhe e afirmo-lho isso. Eles são melhores que nós pois – a despeito de uma vida castigada pela miséria, morte e ausência de educação formal , escreveram versos do mais profundo sabor liríco, como esses:
 
“Passa dia por mês e mês por ano
Passa ano por era, era por fase
Nessa base tão triste eu vejo a base
Do destino passar de plano em plano
Com a mão da saudade o desengano
Passa dando um adeus fazendo um S
Vem a mágoa o prazer desaparece
Quando chega a velhice, foge a graça,
Passa tudo na vida, tudo passa,
Mas nem tudo que passa a gente esquece.”

  
Jó Patriota, de São José do Egito
 
E prosseguiu Manuel Bandeira, diante da plateia muda e embevecida. O “crítico”, aquela altura procurava um buraco onde enfiar sua pobre cabeça: 
 
 “Eles possuem – quando muito - apenas nível primário de escolaridade. Muitos assistiram a morte lenta dos próprios pais, dos seus entes queridos, condenados à própria sorte, em terras distantes, sem hospital, água ou luz. Não poderias jamais vir aqui e ofender a dignidade destes homens. Muitos deles assistem à morte lenta da região em que vivem. E mesmo assim são os Reis do Improviso. Reis da simplicidade e da beleza, como nesta quadra:
 
Até nas flores se vê
A diferença da sorte
Umas enfeitam a vida
Outras enfeitam a morte”.

 
Zé Lopes, de Afogados da Ingazeira


E finalizou, recitando de pé, os versos de Lourival Batista Patriota,  o Louro do Pajeú:
 
“Do gosto para o desgosto
O quadro é bem diferente,
Ser moço é ser sol nascente,
Ser velho é ser um sol-posto,
Pelas rugas do meu rosto
O que eu fui, hoje não sou,
Ontem estive, hoje não estou,
Que o sol ao nascer fulgura,
Mas ao se por deixa escura
A parte que iluminou.”



Bandeira foi ovacionado por todos, o encontro prosseguiu, o “crítico” tomou doril e Vinicius de Moraes escreveu - algum tempo depois - que ao sair do congresso, com a alma lavada, já estava pensando no que iria dizer pro seus amigos Ari Barroso e Antonio Maria  no  velho Amarelinho (o bar então em voga), mas lembrou-se de ir ao centro da cidade, onde precisava resolver algumas coisas cotidianas. 
 
E uma vez no centro do Rio de Janeiro, de repente, ele viu Drummond sozinho, sentado num banco, folheando uns livretos de poesia de cordel, com os olhos cheios de lágrimas.
 
Tudo isso graças à sensibilidade do grande amigo e mestre de todos eles, que se chamava Manuel Bandeira.

Arsenio Meira Júnior
Recife/PE, 15 de dezembro de 2010.  

Coluna do Arsênio Meira.

“NELSON RODRIGUES, O ETERNO ANJO DA LITERATURA BRASILEIRA”

 

Depois que li em 1990 o best seller de Zuenir Ventura “1968: o ano que não terminou”, o jornalista Nelson Rodrigues começou a tomar vulto em minha imaginação.

Eu tinha 15 anos. Nelson foi um Jornalista nato e também um baita dramaturgo.  Por imposição de uma miscelânea de fatos, o livro de Zuenir o situou com exatidão como o protótipo do reacionário.

Aquela época era assim e Zuenir não foi injusto.

Mas o que me leva hoje de volta ao “Anjo Pornográfico” é a dimensão do seu teatro, o impacto que este produziu no cenário cultural brasileiro e os demais vulcões literários rodrigueanos.

O impacto a que me referi, aliás, redundou na catarse ou libertação da arte dramática no Brasil, pois até o surgimento da sua segunda peça Vestido de Noiva, nossos autores e atores viviam sob a custódia da mesmice ante uma platéia sonolenta e pueril.

Nelson magnetizou o público, e ao libertar suas vozes obscuras, traçou um significado contundente das paixões interiores, que costumeiramente revelam a hediondez dos inocentes e a pútrida mesquinhez dos moralistas. Despertou na plateia uma ira recalcada e adormecida, graças a uma profusão de personagens inesquecíveis e incômodos, posto que oriundos do mesmo habitat onde nós, expectadores, vicejamos.

O jornalista, o homem que latejava em si mesmo, cujo  “sangue cheirava a tinta” , nos dizeres do velho amigo Otto Lara Resende, também é o protagonista destas notas.  Pois parece claro que o ambiente jornalístico propiciou a munição, ou boa parte dela, para a construção do seu imenso mural literário.

Filho de um jornalista que fez história na Imprensa, entrou pela primeira vez na redação de um jornal ainda de calças curtas, e de lá só saiu para morrer. Seus pais nasceram em Pernambuco, e Nelson e seus irmãos mais velhos nasceram no Recife. No entanto, ele e seus irmãos chegaram ao Rio de Janeiro ainda de calças curtas, de onde que é justo dizer que todos assumiram a feição dos cariocas.

Nelson foi repórter de esporte e polícia, articulista de ponta e crítico literário; seus irmãos foram grandes jornalistas, ligados à arte, com destaque especial para Mário Filho, o inventor da crônica esportiva, hoje nome do maior (ainda será?) estádio de futebol do mundo, o Maracanã.    

Mas Nelson forjou seu aparato existencial em meio às atividades jornalísticas. No fim, já alquebrado por uma série interminável de doenças, motivadoras de seguidas internações, entrava em constante estado de delírio simulando a cena que marcou sua existência: os dedos dispostos, ávidos para o encontro com a palavra escrita na velha máquina de escrever, um encontro, nunca definitivo, com o registro de suas obsessões.

Foi, por muito tempo, o escritor mais popular do Rio de Janeiro, nos anos dourados de JK (décadas de 50 e 60).

O jornalismo e a escrita franqueavam admiração literária e pouco dinheiro no bolso, como sói acontecer num país iletrado e permanentemente entregue às moscas. Escreveu incessantemente os contos de a “A Vida Como Ela é ….” no Jornal “ÚLTIMA HORA” do então getulista Samuel Wainer.

De 1951 a 1961, sua pena retratou com cortante prioridade uma penca de mulheres adúlteras, homens pacíficos e… traídos; vizinhas gordas, patuscas, machadianas, cunhados canalhas, primas viçosas e “engraçadinhas”, enterros, velórios suburbanos, crimes, seres dostoievskianos (Nelson era vidrado demais no velho Fiódor), Anas kareninas, enfim, a realidade pungente que emanava de suas estórias (ou historias) fez com o jornal fosse o palco para onde convergia toda a graça, a ironia e as mazelas da realidade humana. 

Viveu sob os apupos das vaias, mas também sob os olhares rútilos dos admiradores. Cabotino, enchia literalmente o saco dos colegas, à cata de elogios para suas peças. Estes colegas eram Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Décio de Almeida Prado, Manuel Bandeira, Otto Lara Resende e etc.

Todos se freqüentavam, numa amostra de como aqueles anos foram férteis para a Cultura Brasileira.

Nelson, ao iniciar a série de suas famosas “Confissões”, no Correio da Manhã, legou aos leitores lirismo e polêmica em doses que só os gênios ousam destilar.

 Patético, obsessivo, real e imaginário, dono de uma biografia que lhe dava o direito a invocar tragédia e ironia, não poupava os desafetos, e fiel a si mesmo, produzia belas catilinárias contras coisas e pessoas envoltas em hipocrisia e poses.

 Era um ferrenho destruidor de reputações falsas e um autêntico voyeur de sanduíche de mortadela, como lembrou seu grande amigo Otto, em delicioso perfil do dramaturgo. Sem poder degustar de tal iguaria, em função da úlcera que lhe atormentava os sentidos, às vezes convocava um colega para que comesse um desses sanduíches para ele … ver.

Através de suas memórias, é possível distinguir um Brasil espirituoso de um outro país rançoso, sombrio e caquético. Não tinha papas na língua, e chegou a dizer, quando agonizava na cama de um hospital, a título de “última palavras” (não foram as últimas), que Karl Marx era um perfeito idiota! Imaginem tal afirmação nos idos da década de 60 ou 70, época em que a idolatria a Marx englobava coristas, protéticos, estagiários e toda a fina flor da intelectualidade.

O sofrimento a que foi submetido pelo destino, antes de desumanizá-lo e destruí-lo, convocou sua pena, que de prontidão, não se fez de rogada.

 E como jornalista literário, se assim podemos catalogar esta espécie de escritor que vagueia e ilumina as redações dos jornais, alcançou um patamar reservado para poucos; e esses poucos atendiam pelo nome de Rubem Braga e Otto Lara Resende.

Nelson, avis rara, foi um fiel reprodutor da melancólica realidade cotidiana, espécie de paideuma da classe média. Misturou realidade e ficção como um verdadeiro mestre, esgrimando idéias sem dar chances aos inimigos.

A sua crônica autobiográfica A Menina sem estrela pode ser examinada sob a ótica do paroxismo da realidade fictícia. Otto Lara sentenciou: “é uma das páginas mais comoventes da Literatura Brasileira”. Maior verdade não há.

Nelson misturou dantescamente as ambições humanas mais vulgares com os sonhos mais insólitos, num cadinho onde perpassam ingredientes que podem escapar a nós, simples mortais, mas que não soavam estranhos a uma inteligência refinada e constituída pelos mais tortuosos símbolos.

Graças ao estilo primoroso e fluente da sua narração e a capacidade de transformar o mais reles dos fatos num fenômeno literário, é que seu vulto merece as distinções de praxe.

Não importa a alcunha de “Reacionário’ com que o rotularam os militantes da época; se considerarmos a sua capacidade de reduzir a pó alguns tipos tão afeitos a mentiras e falsas convicções, esse adjetivo hoje soa como um prêmio, uma homenagem digna de nota.  

Não existem mais exemplares como Nelson Rodrigues.

Fernando Pessoa foi um meteoro que se abateu ruidosa e eternamente sobre as hostes do mundo; Carlos Drummond de Andrade morreu envolto na mais profunda angústia, diferentemente do que planejara em seu poema Os Últimos Dias; Manuel Bandeira castiço ou irreverente debruçou-se profundamente sobre os mortos do Recife; tudo depois de João Cabral “parece derramado e desnecessário” (mas não é, graças a Gullar e a Samarone Lima, poeta ainda inédito, mas que está pra chegar); Carlos Pena Filho “apenas pensa que morreu”; Quintana nunca foi um Poeta menor; Murilo Mendes sabia que “a poesia mais rica é um sinal de menos”, pois Drummond – caridosamente – ensinou esse postulado a todos; Cecília, Vinicius e Schmidt preservam a nossa integridade emocional e Chico Buarque de Hollanda, graças a Deus, ainda circula por aí.

A deferência com que tratam Nelson nada mais é do que a consumação ou, antes, o reconhecimento da genialidade.

E o tributo prestado a sua obra nos dá uma apaziguadora idéia de justiça; justiça a um homem que conheceu toda a sorte de tragédias; que ao longo da vida colecionou ruínas. Exemplo? Descobrir-se tuberculoso antes da penicilina, e sobreviver para ver depois de curado a morte do irmão caçula Jofre, a quem era mais ligado – vitimado pelo mesmo mal.

Sua vida “foi um lento deslizar de lancha entre as camélias”. Assistiu à própria consagração, mas viu a desintegração de toda uma família: em fevereiro de 1967, seu irmão Paulo Rodrigues, soterrado com esposa e filhos. Todos mortos num só instante, em função do desabamento do prédio em que todos moravam nas Laranjeiras, após catastrófica enchente que vitimou o Rio nos anos 60; no mesmo ano, o suicídio de sua cunhada, a viúva de seu irmão Mário Filho.
 
 
 

 

Botem na conta ainda o homicídio que ceifou a vida de seu irmão Roberto, o galã da família; a subseqüente morte do pai (morreu literalmente de culpa). 

Na juventude, a pobreza repentina devido ao empastelamento definitico do jornal que pertencia ao pai, a fome, o paletó furado, o aspecto doentio. Enfim, todos já devem ter lido a biografia de Nelson.

Portanto, mais uma loa que se entoa em seu favor é de boa medida. Nelson foi um dos poucos estandartes dos sentimentos amargos, revelou o recôndito, e soube compreender e desvendar a casta mais complexa da humanidade: os seres humanos.

 

 Arsenio Meira Júnior

 

*(publicado originariamente no Jornal do Comércio, edição do dia 21 de maio de 1995, seção Opinião).

 

Hoje revisado e enviado com orgulho para o Fusca.

 

O Julgamento e a Lição – Por Arsênio Meira de Vasconcellos Júnior.

Este humilde copidesqui (será assim) esqueceu de mencionar um aviso de extrema valia. Este artigo é dedicado a Lorenzo, filho recém-nascido do nosso grande amigo, poeta e mestre Osvaldo Soares Neto. Parabéns Lorenzo !!! Muita saúde e paz. Pé quente, já nasceu trazendo bons ventos ao Clube Náutico Capibaribe. Sinal de melhoras e novos tempos.

 

O JULGAMENTO E A LIÇÃO        

 

Certa vez, houve um julgamento em uma das turmas conjuntas do Tribunal de Justiça/PE. Nesse episódio, o Desembargador Presidente exprimiu, em decisivas e poucas palavras, a diferença ou diversidade existente entre as responsabilidades do defensor e do juiz.           

Esse Desembargador, hoje aposentado, homem raro e de alto valor intelectual e moral tinha – às vezes - uns modos um tanto quanto impacientes ou bruscos.       

Mas ele nunca comparecia às sessões sem ter estudado profundamente nos autos os recursos levados a julgamento (dizem por aí que muitos juízes não são assim… deve ser a famosa maledicência alheia…)

Porém, esse magistrado conhecia detidamente os detalhes de fato e de direito de qualquer causa.

Assim, quando percebia que um advogado divagava demais ou tentava desviar o tema para pontos não tão cruciais, o interrompia de imediato para chamá-lo de volta às questões essenciais do processo, crivando-o de perguntas e objeções          

Muitas vezes, o defensor via-se em dificuldades. Resultado: o velho sorriso amarelo, ou a vermelhidão na face a denunciar a pisada na bola. Necessário ou fundamental dizer que o Desembargador não distinguia A ou B: o advogado podia ser o amigo do Rei, recém egresso de Pasárgada ou então um simples iniciante. A conduta do velho Juiz era a mesma.

Os advogados mais experientes que o conheciam tinham se acostumado com esse modus operandi . E quando sabiam que a sessão seria presidida por ele, procuravam preparar-se a valer, com afinco, para o debate que se avizinhava.

Afinal, precisavam estar aptos para responder ou rebater qualquer questão levantada de súbito. (Sempre questões pertinentes e não meras cascas de bananas).

Mas aquele que, inexperiente, não conhecesse o Desembargador ou substimando-o, comparecesse à sessão com um discurso até bem construído, mas cheio de floreios verbais,  corria o sério risco de perder o fôlego sob a torrente de indagações. Foi o que aconteceu certa vez.

Um advogado inexperiente, jovem, vaidoso por vestir a beca em sua segunda sustenção oral, subiu à tribuna para sustentar um recurso de Apelação.

Iniciou a defesa solenemente e seu arrazoado até que não era um vazio digno de passar em brancas nuvens, levando-se em consideração sua inexperiência no mundo forense.

Mas pecava no essencial: havia floreios em demasia na peça, um certo refinamento inoportuno e inútil. Desta forma, eis que o refinamento – de uma hora pra outra – transformou-se em puro desperdício de tempo.

A defesa tinha lá suas qualidades: não era omissa, pois abrangia todas as questões.  O fato é que - no meio dela -havia realmente muito blá- blá- blá.

O Desembargador deteve-o logo na metade da sua explanação, convidando-o a concentrar suas forças no cerne da causa. O sujeito ficou bravo internamente, hesitou, pensou em responder, mas um certo pudor naquele instante o deteve de uma resposta (que seria  – nesse caso – malcriada e impertinente).

Então, o incipiente advogado voltou a falar… Nova interrupção.
Dessa vez um pouco mais alterada, de onde que o clima começou a pesar. 

Após um átimo de silêncio, o advogado voltou a concentrar-se, e inevitavelmente, como ele seguia as linhas cheias de retóricas do seu Apelo, não tardou a descobrir ser vítima de sua própria armadilha: a vaidade por ter escrito uma peça com o cardápio mais variado de sua pretensa cultura: havia citações de Voltaire, Nietzsche e Kant…

As citações eram até desnecessárias e temerárias naquele momento, diga-se, porque não há mal algum em justapor os ideais desses grandes pensadores em outras petições ou em outras ocasiões mais propícias. Tudo depende de quem ouve ou lê, no final das contas.

No fim, mais uma vez instado pelo Desembargador a centrar-se no essencial, o advogado não se conteve e bradou em alto e bom som, como se estivesse sendo vítima da mais grave injustiça: ” – V.Exª está impedido o cumprimento do meu dever! Protesto e renuncio à palavra, com a consequente alegação de cerceamento da defesa do meu cliente!”.

E foi, esbaforido, sentar-se. Minto. Retirou-se para fumar um cigarro e voltou à sala de julgamento. Pouco depois, vendo-o adentrar no recinto,  o Desembargador abrandou-se e lhe disse com tom sincero e cordial:

” – Jovem, entenda o meu proceder. O Doutor teria razão de ficar indignado se fosse um conferencista, que a plateia - às vezes – tem o dever de suportar em silêncio, ainda que não entenda absolutamente nada do que se diz. Mas o Doutor é algo melhor, bem melhor que um conferencista: é um advogado, isto é, alguém que fala para persuadir a nós, juízes, a julgar conforme o mérito posto em questão. Como alguém pode se convecer sem ter compreendido?

E arrematou:

” – Cumpra, pois, livremente seu dever, que é o de falar; mas sempre procure exercê-lo de maneira a nos ajudar a cumprir o nosso: que é o de compreender”.

O jovem advogado sorriu, reconhecendo a verdade e a lição dadas naquele instante, e mudou um bocado depois desse capítulo.

A fonte é segura sobre tais detalhes,  porque posso falar-lhes rapidamente sobre este advogado, outrora mais jovem, coadjuvante destas notas: é aquele que sempre foi e sempre será fissurado em Drummond, Chico Buarque, Beatles e Nelson Rodrigues.  

Ou seja, trata-se de alguém que nós conhecemos:  eu mesmo.

Arsenio Meira de Vasconcellos Júnior

 

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.