” Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te , ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac
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EXCELÊNCIAS DA LÍNGUA PORTUGUESA
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E que esplêndida língua o Brasil nos deve! Todas as raças que passaram por este canto da terra, aqui deixaram a flor e o ideal da sua alma. Desde a povoação céltica e a colonicação grega, de que tantos vestígios restam ainda nas nossas províncias do norte, até a invasão dos árabes que envolveram toda a civilização da península numa etérea poeria de luz e oiro – as imigrações sucessivas e as conquistas supervenientes contribuíram, todas à formação desta língua admirável que, sob muitos aspectos , não tem superior no mundo.
Serve a tudo: à epopéia e ao idílio, à lamentosa elegia e ao cântico de guerra.
Passada pelas cordas duma lira, é suave e doce como a voz do amor; assoprada na tuba épica, é vibrante, sonora e grandiosa ou terrível segundo os têrmos que versa, as ações que canta ou os heróis que celebra.
O sol doura-a , ilumina-a, aquece-a; e a nossa paisagem, tão variada e linda, tão florida e perfumada, reflete nela como na superfície clara dos nossos rios, e nas ondas, de tanta côr, que o mar estende por essas praias. Transladada ao sul da América, não perdeu o caráter grave, nem a têmpera máscula, nem o tom de funda, indefinível melancolia que lhe imprimiu a esforçada e trágica aventura de nossos avós; e ainda adquiriu preciosos elementos de encantadora suavidade, de frouxa, dolente e maviosa ternura.
Antônio Cândido – Discursos.
Apud Antenor Nascentes, 1960.