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Terra, Caetano e Drummond.

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço prá ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Na sacada dos sobrados
Da velha são Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito…

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra!

 

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade

Sobre Domingos Sávio

Brasil, nordeste, casado, homem, 45 a 50 anos. Alvirrubro. Poeta. Sonhador. Bancário. Pai muito feliz. Marido feliz muito. Filho orfão. Pais no céu. Que estão na terra os amigos. Nos livre do mal dos cartolas. Dos políticos nos livra o demo. Os anjos vivem no mesmo condomínio dentro de mim com meus demônios.

5 respostas »

  1. Arsenio Meira Junior

    E tome Toitiço. Até umas horas. Terra. Obra-prima.
    E logo a seguir, o velho Carlos, sempre gauche na vida.
    Carlos, num dueto imaginário com Terra-Caetano, escreveu também que:

    “O HOMEM; AS VIAGENS

    O homem, bicho da terra tão pequeno
    Chateia-se na terra
    Lugar de muita miséria e pouca diversão,
    Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
    Toca para a lua
    Desce cauteloso na lua
    Pisa na lua
    Planta bandeirola na lua
    Experimenta a lua
    Coloniza a lua
    Civiliza a lua
    Humaniza a lua.

    Lua humanizada: tão igual à terra.
    O homem chateia-se na lua.
    Vamos para marte — ordena a suas máquinas.
    Elas obedecem, o homem desce em marte
    Pisa em marte
    Experimenta
    Coloniza
    Civiliza
    Humaniza marte com engenho e arte.

    Marte humanizado, que lugar quadrado.
    Vamos a outra parte?
    Claro — diz o engenho
    Sofisticado e dócil.
    Vamos a vênus.
    O homem põe o pé em vênus,
    Vê o visto — é isto?
    Idem
    Idem
    Idem.

    O homem funde a cuca se não for a júpiter
    Proclamar justiça junto com injustiça
    Repetir a fossa
    Repetir o inquieto
    Repetitório.

    Outros planetas restam para outras colônias.
    O espaço todo vira terra-a-terra.
    O homem chega ao sol ou dá uma volta
    Só para tever?
    Não-vê que ele inventa
    Roupa insiderável de viver no sol.
    Põe o pé e:
    Mas que chato é o sol, falso touro
    Espanhol domado.

    Restam outros sistemas fora
    Do solar a col-
    Onizar.
    Ao acabarem todos
    Só resta ao homem
    (estará equipado?)
    A dificílima dangerosíssima viagem
    De si a si mesmo:
    Pôr o pé no chão
    Do seu coração
    Experimentar
    Colonizar
    Civilizar
    Humanizar
    O homem

    Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
    A perene, insuspeitada alegria
    De CON-VIVER.

  2. Domingos Sávio

    Ao contrário do famoso cientista e escritor Júlio Verne em Viagem ao Centro da Terra, Drummond, neste poema faz uma das maiores viagens que nos fez nascer e escolher esta forma humana: viagem ao centro do homem. Fantástico este bate-bola. Algo me diz que nossos mestres Leminski, Cora, Vininha, Murillo, Augusto Schmidt, Quintana, Bandeira, Neruda, Pessoa, Nietzche, porra uma galáxia de gigantes está gostando do fusca. Qualquer dia desses aparece outro torpedo de Raul pelo celular de Leminski. Ou um telegrama de Clarice, ou um fax de Cecília . Ou uma carta de Drummond dizendo: amar se aprende amando, ou Chico aqui mesmo por email: Carlos que amava Dora que amava toda quadrilha… Segunda-feira com o seu auxílio luxuoso, de João Carlos, Julinho, enfim. Que fusca arretado. Não vendo não troco e bem, empresto. É de todo mundo.

  3. Arsenio Meira Junior

    Irmão, Leminski mandou nos avisar que:

    “Pelos caminhos que ando
    Um dia vai ser
    Só não sei quando”.

    É fusca sendo observado do Hubble.
    Abraços

  4. Domingos Sávio

    E os caminhos levam a Garanhuns. Tô me preparando para a intifada. Vai ser f… Abração.

  5. Arsenio Meira Junior

    Vamos à luta. Que o bom filho que vc foi ou bom pai que és não foge dela jamais.
    Vai ser uma tabela. Um bate-bola.
    Com Baiano e Roberto Coração de Leão no ataque.
    Abraços

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